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Amor de infância...

Fandom: EngLot FayeLotte

Criado: 05/05/2026

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RomanceDramaFatias de VidaCiúmesLinguagem ExplícitaEstudo de PersonagemSombrioPsicológicoAçãoHistória DomésticaCrime
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Propriedade Exclusiva e Cicatrizes de Infância

O som rítmico do saco de pancadas sendo atingido ecoava pela garagem mal iluminada da casa de Engfa. Ela estava sem camisa, apenas com as bandagens enroladas nas mãos e os óculos levemente escorregando pelo nariz suado. Cada golpe era preciso, forte e carregado de uma energia que ela só conseguia dissipar lutando. O corte recente no canto de sua boca ardeu quando ela sorriu de lado, lembrando-se da briga de rua da noite anterior.

— Você vai acabar estourando o couro desse troço, P’Fa. E olha que o Sunny detesta barulho alto. — A voz carregada de sarcasmo veio da porta.

Faye Peraya estava encostada no batente, os cabelos tingidos de um vermelho vibrante brilhando sob a luz fraca. Ela segurava a coleira de Sunny, seu pequeno cachorro, que parecia muito mais interessado em encontrar Kiew, o vira-lata de Engfa, do que na intensidade do treino da dona da casa. Faye passou a mão pela bochecha, onde um pequeno curativo escondia um corte superficial, cortesia de uma confusão em que ela e Engfa se meteram em um rolê aleatório na semana passada.

Engfa parou o movimento, segurando o saco de pancadas com os braços fortes, e encarou a amiga.

— Onde ela está? — perguntou Engfa, ignorando a provocação. Sua voz era rouca, e a possessividade já transparecia no tom.

— No jardim, lendo aquele livro sobre coelhos pela décima vez — Faye respondeu, revirando os olhos com um sorriso afetuoso. — O Phalo está pulando em cima dela, e ela parece um anjo. Quase me faz esquecer que o resto do mundo é um lixo.

Engfa pegou uma toalha e limpou o suor do pescoço, caminhando em direção a Faye. As duas se encararam por um momento. A dinâmica entre elas era complexa: eram cúmplices no caos, rivais na atenção de Charlotte e amantes quando a tensão entre as duas explodia. Mas, acima de tudo, eram as guardiãs autoproclamadas de Charlotte Austin.

— Alguém tentou falar com ela hoje na faculdade? — Engfa perguntou, os olhos escuros brilhando com uma intensidade perigosa.

— Um idiota do terceiro ano de Direito tentou oferecer ajuda com uns xerox — Faye disse, soltando um riso seco e irônico. — Eu não precisei fazer muito. Só parei do lado dele e mostrei o canivete que ganhei do meu pai. Ele quase urinou nas calças. Mas você sabe como a Char é... ela sorriu para ele antes de eu chegar. Ela é amigável demais, Fa. Isso me irrita.

Engfa fechou o punho, as juntas dos dedos estalando.

— Ela não precisa ser amigável com ninguém além de nós.

As duas caminharam em direção ao jardim dos fundos. Lá estava ela. Charlotte, com seus dezenove anos e uma aura de pureza que parecia deslocada perto da agressividade de Engfa e do sarcasmo de Faye. Seus cabelos castanho-claros ondulavam sobre os ombros enquanto ela estava sentada na grama, cercada por Phalo, seu coelho, e agora por Kiew e Sunny, que corriam ao redor.

Ao ver as duas, o rosto de Charlotte se iluminou.

— P’Fa! P’Faye! — Ela se levantou, deixando o livro de lado.

Engfa foi a primeira a chegar. Sem dizer uma palavra, ela envolveu Charlotte por trás, abraçando-a possessivamente. Ela enterrou o rosto no pescoço da mais nova, inspirando o cheiro de baunilha que Charlotte sempre exalava. Era um gesto de marcação de território, e Charlotte, acostumada a ser o centro do mundo daquelas duas, apenas relaxou no abraço, cobrindo as mãos de Engfa com as suas.

— Você está suada, Fa — murmurou Charlotte, embora não fizesse menção de se soltar.

— Eu não me importo — respondeu Engfa, apertando-a mais. — Você é minha.

Faye se aproximou, um sorriso ladino no rosto. Ela se inclinou e depositou um beijo demorado na bochecha de Charlotte, ignorando o olhar de advertência que Engfa lhe deu.

— Nossa, Char. Nossa bonequinha — corrigiu Faye, provocando Engfa. — Como foi o dia sem suas babás por perto durante o almoço?

— Foi tranquilo — Charlotte disse, embora soubesse que "tranquilo" era um termo relativo quando se tinha duas sombras protetoras. — Mas senti falta de vocês. O Phalo também.

— Mentira — Faye riu, agachando-se para fazer carinho no coelho. — Esse bicho me odeia porque sabe que eu prefiro cachorros. Mas eu tolero ele por você.

Charlotte sorriu, mas logo seus olhos pousaram no corte no canto da boca de Engfa. Ela se soltou do abraço e segurou o rosto da mais velha com delicadeza.

— Outra briga, Engfa? Você prometeu que ia parar com as brigas de rua.

— Eles mereceram, coelhinha — Engfa deu de ombros, a ironia voltando à sua voz. — Estavam falando alto demais perto de onde eu estava tentando comer. E você sabe que eu odeio barulho desnecessário.

— Ela é impulsiva, Char — Faye interveio, levantando-se. — Mas você sabe que a gente faz tudo para manter o ambiente limpo para você.

Charlotte suspirou. Ela sabia que era mimada por elas. Sabia que as duas afastavam qualquer um que tentasse se aproximar com segundas intenções — ou até mesmo com intenções puras. A proteção delas beirava a obsessão, mas Charlotte, em sua natureza doce e um tanto passiva, encontrava conforto naquele casulo de possessividade. Elas eram seu porto seguro, mesmo que esse porto fosse cercado por arame farpado para o resto do mundo.

— Vocês se lembram do garoto do balanço? — perguntou Charlotte de repente, voltando a se sentar na grama.

Engfa e Faye trocaram um olhar cúmplice. Como poderiam esquecer? Elas tinham dez e onze anos, respectivamente, e Charlotte tinha apenas sete.

— Aquele moleque que tentou segurar sua mão para te levar até o escorregador? — Faye perguntou, o tom de voz subindo uma oitava em desgosto.

— O nome dele era Leo — Charlotte lembrou. — Vocês quebraram o braço dele.

— Foi um acidente — Engfa disse, a voz desprovida de qualquer remorso, enquanto se sentava ao lado de Charlotte e puxava a cabeça da garota para o seu ombro.

— Não foi um acidente, Fa — Charlotte riu baixinho. — Eu vi você empurrando ele do balanço e a Faye caindo "sem querer" por cima do braço dele.

— Ele tocou em você sem permissão — Faye justificou-se, sentando-se do outro lado de Charlotte. — Ninguém toca no que é nosso. Naquele dia, nós fizemos um pacto, lembra?

Charlotte assentiu. Ela se lembrava vagamente de Engfa e Faye, com os joelhos ralados e rostos sérios, prometendo que nunca deixariam ninguém machucá-la ou tirá-la delas. O que ela não entendeu na época era que o pacto também significava que ela pertenceria exclusivamente a elas.

— Às vezes eu acho que vocês são loucas — comentou Charlotte, fechando os olhos enquanto sentia as mãos de Faye acariciarem seu cabelo e o braço de Engfa envolver sua cintura.

— Por você? Totalmente — Faye sussurrou, aproximando o rosto do de Charlotte. — Você é a única coisa que presta nesse mundo, Charlotte Austin.

Engfa rosnou baixinho, uma manifestação de seu ciúme inerente, e puxou Charlotte para mais perto de si, fazendo Faye rir.

— Não comece, Fa. Tem espaço para as duas. — Faye olhou para Engfa com um desafio brilhando nos olhos. — Ou você quer resolver isso no muay-thai de novo?

— Eu te venceria em cinco minutos — Engfa retrucou, sarcástica. — Mas a Char não gosta de ver a gente brigando.

— Exatamente — Charlotte interveio, colocando uma mão no joelho de cada uma. — Sem brigas entre vocês. Já basta o que vocês fazem com os outros.

O silêncio caiu sobre o jardim, apenas quebrado pelo som dos animais brincando. Para quem olhasse de fora, pareciam três amigas desfrutando de uma tarde ensolarada. Mas a tensão subjacente era palpável. A forma como Engfa vigiava cada movimento de Charlotte, a maneira como Faye cercava qualquer espaço vazio, a possessividade que emanava de cada toque.

— Eu vi um grupo de caras olhando para você na saída da biblioteca hoje — Engfa disse de repente, sua voz ficando fria. — Eu estava no carro esperando a Faye chegar com o Sunny.

Charlotte suspirou.

— Eles estavam apenas sendo educados, Fa. Um deles perguntou se eu precisava de ajuda com os livros pesados.

— E o que você disse? — Faye perguntou, os olhos estreitados.

— Eu disse que minhas amigas estavam vindo me buscar e que elas não gostavam de estranhos — Charlotte respondeu com um sorriso travesso. — Viu? Eu aprendi.

Engfa relaxou visivelmente, um sorriso raro e genuíno aparecendo em seu rosto. Ela beijou o topo da cabeça de Charlotte.

— Boa garota.

— Minha garota obediente — Faye completou, inclinando-se para morder levemente o lóbulo da orelha de Charlotte, fazendo a mais nova estremecer.

— Eu não sou um dos seus cachorros, Faye! — Charlotte protestou, embora estivesse corando.

— Não, você é muito melhor. Cachorros a gente treina. Você... a gente venera — Faye disse, sua voz perdendo o tom de brincadeira e assumindo uma seriedade sombria que sempre arrepiava Charlotte.

Engfa limpou a garganta, o ciúme voltando a borbulhar.

— Já chega de mimos por agora. Faye, você trouxe a comida que eu pedi?

— Está na cozinha. E antes que você pergunte, eu comprei os morangos da Charlotte. Os orgânicos, porque ela é mimada e a gente sustenta os luxos dela — Faye levantou-se, oferecendo a mão para Charlotte.

Ao entrarem na casa, Engfa caminhou atrás delas, como um guarda-costas silencioso. Seus olhos vagaram pelas redondezas, verificando as trancas das janelas e a altura do muro. Ela sabia que sua obsessão era perigosa, e sabia que Faye compartilhava do mesmo distúrbio. Mas, enquanto Charlotte estivesse entre elas, segura, protegida e isolada da mediocridade do mundo exterior, tudo estava certo.

Na cozinha, Charlotte começou a lavar os morangos enquanto Faye e Engfa se encostavam no balcão, observando-a.

— Você vai sair hoje à noite, Fa? — Faye perguntou, pegando um morango da tigela antes que Charlotte pudesse protestar.

— Tenho um encontro marcado atrás do galpão de ferramentas às dez — Engfa respondeu, ajustando os óculos. — Uns caras do bairro vizinho acham que podem vender coisas no nosso território.

— Quer companhia? — Faye sorriu, o brilho de caos em seus olhos vermelhos.

— Não. Você fica aqui com a Charlotte. Não quero ela sozinha nem por um segundo.

Charlotte parou de lavar as frutas e olhou para as duas.

— Eu tenho dezenove anos, sabiam? Eu posso ficar sozinha por uma hora.

— Não, não pode — as duas responderam em uníssono.

Engfa aproximou-se de Charlotte, secando as mãos da garota com um pano de prato e depois segurando-as com firmeza.

— O mundo lá fora é cruel, Char. As pessoas são más. Elas veem algo bonito e puro como você e querem estragar. Nós não vamos deixar isso acontecer. Nunca.

— Como o garoto do balanço? — Charlotte perguntou em um sussurro.

— Exatamente como ele — Faye disse, aproximando-se por trás de Charlotte e abraçando-a, enquanto Engfa permanecia à frente. — Nós somos as únicas que você realmente precisa.

Charlotte olhou de uma para a outra. Ela via o amor, sim, mas via algo mais profundo e sombrio. Uma necessidade de controle que a sufocava e a protegia ao mesmo tempo. E, no fundo, ela sabia que nunca fugiria. Porque, para Charlotte, o amor tinha o gosto do sangue das brigas de Engfa e o cheiro do sarcasmo perigoso de Faye.

— Tudo bem — Charlotte cedeu, sorrindo para as suas captoras amadas. — Mas se você for brigar, P’Fa, tente não estragar mais o seu rosto. Eu gosto dele assim.

Engfa sorriu, um brilho possessivo nos olhos.

— Vou tentar. Mas não prometo nada se alguém falar o seu nome do jeito errado.

Faye riu, beijando o pescoço de Charlotte.

— É por isso que eu amo a nossa dinâmica. Agora, vamos comer esses morangos antes que eu decida que quero comer outra coisa.

A provocação de Faye fez Engfa arquear uma sobrancelha, e o clima na cozinha mudou instantaneamente de protetor para carregado de uma tensão diferente. Charlotte apenas sorriu, sabendo que, naquela noite, como em todas as outras, ela seria o centro das atenções, o prêmio disputado e a rainha de um castelo cujas paredes eram feitas da obsessão de suas duas melhores amigas.

Ninguém entraria. E ela nunca sairia. E, para Charlotte Austin, isso era o suficiente.
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