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O Agente Secreto
Fandom: O Agente Secreto
Criado: 05/05/2026
Tags
HistóricoCrimeNoirSuspenseDramaAngústiaEstudo de PersonagemRomanceSombrioAçãoTragédiaMorte do ProtagonistaViolência Gráfica
Sombras sob o Sol de Olinda
O calor do Recife em 1970 não era como o de São Paulo. Era uma mormaço que grudava na pele, um abraço úmido que parecia carregar o cheiro de salitre e de revolução silenciosa. Bobbi ajustou o colarinho da camisa, sentindo o suor escorrer pelas costas enquanto observava o movimento da Rua da Aurora. Ao seu lado, Augusto mantinha a postura rígida de quem nunca baixava a guarda, os cabelos grisalhos brilhando sob o sol impiedoso do meio-dia.
— Deixa de inquietação, garoto — rosnou Augusto, sem desviar os olhos do casarão do outro lado da rua. — Ghirotti não pagou uma fortuna pra gente ficar admirando a paisagem. O tal do Marcelo, ou Armando, ou seja lá que nome aquele rato esteja usando, foi visto entrando naquele prédio de refugiados no bairro de São José.
— Eu sei, Augusto. Só estou tentando não derreter — Bobbi respondeu, o mau humor habitual tingindo sua voz. — Recife é bonita, mas esse sol é um castigo.
— Castigo vai ser a nossa vida se a gente perder o rastro dele. Ghirotti quer a cabeça dele numa bandeja antes da próxima eleição. Aquele político tem pressa, e pressa significa dinheiro no bolso.
Bobbi deu de ombros. O dinheiro era a única coisa que o mantinha ligado a Augusto, além de um passado obscuro que ele preferia não remexer. Os boatos sobre a morte de sua mãe sempre pairavam como uma sombra entre os dois, mas no mundo dos negócios de sangue, perguntas eram perigosas.
Mais tarde, quando o sol começou a ceder espaço para um crepúsculo alaranjado, Bobbi decidiu se afastar um pouco da vigilância sufocante do padrasto. Ele precisava de ar, ou talvez apenas de um momento onde não fosse um alvo ou um caçador. Foi caminhando sem destino que ele a viu novamente, perto de uma pequena praça onde o som de um rádio ao longe tocava alguma canção proibida de protesto.
Sophia estava sentada em um banco de pedra, lendo um panfleto amassado. Os cabelos cacheados moldavam seu rosto bronzeado, e os olhos verdes pareciam captar a última luz do dia com uma intensidade que Bobbi achou desconcertante.
— Você de novo? — ela perguntou, sem tirar os olhos do papel, um sorriso sarcástico brincando nos lábios. — Está me seguindo ou o destino em Recife é realmente tão estreito quanto as calçadas de Olinda?
Bobbi parou a poucos metros, as mãos nos bolsos da calça.
— Acho que é o destino. Ou talvez eu só esteja perdido. Essa cidade é um labirinto.
Sophia finalmente levantou o olhar, dobrando o panfleto e guardando-o rapidamente na bolsa de pano.
— Para quem veio de São Paulo, você é bem devagar, paulista. Se perder aqui é pecado, com o mar servindo de bússola.
— Eu não sou muito chegado em bússolas — Bobbi aproximou-se, sentando-se na ponta oposta do banco. — Prefiro confiar nos meus instintos.
— Seus instintos te trouxeram para o lugar errado, então — ela disse, a voz baixando de tom, embora o carisma permanecesse intacto. — Este lado da cidade anda meio... vigiado. Muita gente de farda, muita gente de terno querendo saber o que não deve.
Bobbi sentiu um aperto no peito. Ele sabia exatamente do que ela estava falando, mas por motivos opostos aos dela.
— Eu não sou de farda. E, como você pode ver, meu terno ficou na mala.
— É, eu notei. Você tem cara de quem carrega o mundo nas costas, mas se esforça para parecer que não se importa com nada. — Sophia se inclinou para frente, estudando o rosto dele. — O que um sujeito como você veio fazer aqui de verdade? Não me venha com história de turismo.
Bobbi hesitou. A honestidade era uma mercadoria cara em sua profissão.
— Trabalho — ele resumiu. — Meu pai... meu padrasto e eu temos negócios com um tal de Henrique Ghirotti.
O nome pareceu causar uma reação imediata em Sophia. Seus olhos verdes faiscaram por um segundo, uma mistura de desprezo e cautela.
— Ghirotti? Aquele porco que fede a dinheiro e corrupção? — Ela soltou uma risada seca. — Você anda em más companhias, paulista. Aquele homem não quer nada que preste para este estado. Ele quer limpar o que ele chama de "sujeira", e a "sujeira" somos nós.
— Nós quem? — perguntou Bobbi, embora já soubesse a resposta.
— Os que não têm nome. Os que não têm terra. Os que moram no prédio da Dona Zezé porque o governo esqueceu que a gente existe. — Ela se levantou, ajeitando a bolsa no ombro. — Tome cuidado. Recife é linda, mas as sombras aqui têm dentes.
— Espera — Bobbi também se levantou, sentindo uma urgência que não costumava sentir. — Eu... eu gostaria de te ver de novo. Sem falar de política ou de Ghirotti.
Sophia o olhou de cima a baixo. Havia algo de genuíno no mal-humor de Bobbi que parecia desarmá-la, uma vulnerabilidade escondida sob a fachada de assassino.
— Amanhã, no Pátio de São Pedro, às oito. Se você não for preso ou não se perder de novo, a gente toma um café. Mas não espere que eu seja gentil com seus patrões.
Ela saiu caminhando com uma confiança que Bobbi invejou. Ele ficou ali parado, observando-a desaparecer na penumbra, até que uma voz rouca o trouxe de volta à realidade.
— Ela é bonita. Mas é perigosa, Bobbi.
Augusto surgiu das sombras de um poste, fumando um cigarro que brilhava como uma brasa sinistra.
— Estava me espionando, Augusto? — Bobbi rangeu os dentes.
— Estou cuidando do meu investimento. Aquela garota mora no prédio onde o Marcelo está escondido. O prédio dos refugiados.
Bobbi sentiu o sangue esfriar.
— Como você sabe?
— Eu fiz o meu dever de casa enquanto você brincava de galanteador. — Augusto jogou a bituca no chão e a esmagou com a bota. — O Marcelo, ou Armando, é o mentor dessa gente. Ele é quem organiza os panfletos, as reuniões. E a garota... ela é a protegida dele.
— Ela não sabe de nada, Augusto. Ela é só uma estudante, uma revolucionária de boteco.
— Não seja ingênuo! — Augusto agarrou o braço de Bobbi com força. — Ela é o nosso mapa. Se você quer continuar se encontrando com ela, ótimo. Use isso. Descubra em qual apartamento o Marcelo dorme. Descubra a rotina dele. Se você conseguir que ela nos leve até ele, o serviço termina mais cedo e a gente sai desse inferno de calor com o bolso cheio.
Bobbi puxou o braço, sentindo uma náusea crescente.
— Eu não vou usar a garota.
— Então você vai deixar que eu faça do meu jeito? — O olhar de Augusto era frio, desprovido de qualquer humanidade. — Você sabe como eu trabalho, Bobbi. Eu não tenho a sua paciência. Se eu tiver que entrar naquele prédio atirando para achar o Marcelo, eu vou. E se a sua amiguinha estiver no caminho... bom, aí o problema é dela.
Bobbi encarou o padrasto, o homem que o criara nas artes da morte. Ele sabia que Augusto não estava blefando. A ameaça era clara: ou Bobbi traía a confiança de Sophia, ou Augusto a destruiria junto com o alvo.
— Eu dou um jeito — Bobbi disse, a voz baixa e carregada de uma fúria contida.
— Acho bom. Temos pouco tempo. Ghirotti ligou hoje. Ele quer resultados, não desculpas.
Augusto virou-se e começou a caminhar de volta para a pensão onde estavam hospedados, deixando Bobbi sozinho na praça.
O silêncio da noite recifense agora parecia opressor. Bobbi olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que já haviam tirado vidas sem hesitação. Pela primeira vez em anos, ele sentiu o peso do que era. Um assassino. Um intruso em um mundo de ideais que ele mal compreendia, mas que Sophia defendia com unhas e dentes.
Ele pensou no sorriso sarcástico dela, no jeito como ela falava de liberdade como se fosse algo palpável, e não apenas uma palavra bonita em um papel amassado. Marcelo, o homem que eles deveriam matar, era o herói dela. O mentor. O homem que, segundo Ghirotti, era um perigo para a nação, mas que, para Sophia, era apenas alguém que lutava pelos esquecidos.
Bobbi caminhou até o cais, observando as águas escuras do Rio Capibaribe refletindo as luzes da cidade. Ele estava no meio de um tabuleiro de xadrez onde as peças eram feitas de carne e osso, e o xeque-mate parecia inevitável.
— No que você se meteu, Bobbi? — sussurrou para si mesmo.
A gíria da época, o "pra frente, Brasil" que ecoava nas rádios oficiais, parecia uma piada de mau gosto diante da realidade das ruas. Ali, no Recife de 1970, a vida valia pouco para quem estava no poder, e Bobbi era a ferramenta usada para manter esse valor baixo.
Mas, ao pensar no encontro de amanhã, ele sentiu algo que não sentia há muito tempo: medo. Não medo de morrer, mas medo de ver a luz nos olhos de Sophia se apagar quando ela descobrisse quem ele realmente era. Ou pior, medo de ser ele o responsável por apagar essa luz.
Ele precisava encontrar Marcelo antes que Augusto o fizesse. Mas o que faria quando o encontrasse? Cumpriria o contrato ou ouviria o que o homem tinha a dizer?
A noite avançava, e as sombras de Recife pareciam sussurrar segredos que Bobbi ainda não estava pronto para ouvir. Ele sabia que, a partir daquele momento, cada passo seria uma escolha entre a lealdade ao homem que o criou e a humanidade que aquela garota de olhos verdes havia despertado nele.
— Amanhã — ele murmurou, ajustando a jaqueta. — Amanhã o jogo começa de verdade.
Ele voltou para a pensão, evitando o olhar de Augusto, que já limpava sua pistola na mesa da cozinha, o som do metal contra o metal ecoando como um relógio de contagem regressiva para o desastre que estava por vir.
— Deixa de inquietação, garoto — rosnou Augusto, sem desviar os olhos do casarão do outro lado da rua. — Ghirotti não pagou uma fortuna pra gente ficar admirando a paisagem. O tal do Marcelo, ou Armando, ou seja lá que nome aquele rato esteja usando, foi visto entrando naquele prédio de refugiados no bairro de São José.
— Eu sei, Augusto. Só estou tentando não derreter — Bobbi respondeu, o mau humor habitual tingindo sua voz. — Recife é bonita, mas esse sol é um castigo.
— Castigo vai ser a nossa vida se a gente perder o rastro dele. Ghirotti quer a cabeça dele numa bandeja antes da próxima eleição. Aquele político tem pressa, e pressa significa dinheiro no bolso.
Bobbi deu de ombros. O dinheiro era a única coisa que o mantinha ligado a Augusto, além de um passado obscuro que ele preferia não remexer. Os boatos sobre a morte de sua mãe sempre pairavam como uma sombra entre os dois, mas no mundo dos negócios de sangue, perguntas eram perigosas.
Mais tarde, quando o sol começou a ceder espaço para um crepúsculo alaranjado, Bobbi decidiu se afastar um pouco da vigilância sufocante do padrasto. Ele precisava de ar, ou talvez apenas de um momento onde não fosse um alvo ou um caçador. Foi caminhando sem destino que ele a viu novamente, perto de uma pequena praça onde o som de um rádio ao longe tocava alguma canção proibida de protesto.
Sophia estava sentada em um banco de pedra, lendo um panfleto amassado. Os cabelos cacheados moldavam seu rosto bronzeado, e os olhos verdes pareciam captar a última luz do dia com uma intensidade que Bobbi achou desconcertante.
— Você de novo? — ela perguntou, sem tirar os olhos do papel, um sorriso sarcástico brincando nos lábios. — Está me seguindo ou o destino em Recife é realmente tão estreito quanto as calçadas de Olinda?
Bobbi parou a poucos metros, as mãos nos bolsos da calça.
— Acho que é o destino. Ou talvez eu só esteja perdido. Essa cidade é um labirinto.
Sophia finalmente levantou o olhar, dobrando o panfleto e guardando-o rapidamente na bolsa de pano.
— Para quem veio de São Paulo, você é bem devagar, paulista. Se perder aqui é pecado, com o mar servindo de bússola.
— Eu não sou muito chegado em bússolas — Bobbi aproximou-se, sentando-se na ponta oposta do banco. — Prefiro confiar nos meus instintos.
— Seus instintos te trouxeram para o lugar errado, então — ela disse, a voz baixando de tom, embora o carisma permanecesse intacto. — Este lado da cidade anda meio... vigiado. Muita gente de farda, muita gente de terno querendo saber o que não deve.
Bobbi sentiu um aperto no peito. Ele sabia exatamente do que ela estava falando, mas por motivos opostos aos dela.
— Eu não sou de farda. E, como você pode ver, meu terno ficou na mala.
— É, eu notei. Você tem cara de quem carrega o mundo nas costas, mas se esforça para parecer que não se importa com nada. — Sophia se inclinou para frente, estudando o rosto dele. — O que um sujeito como você veio fazer aqui de verdade? Não me venha com história de turismo.
Bobbi hesitou. A honestidade era uma mercadoria cara em sua profissão.
— Trabalho — ele resumiu. — Meu pai... meu padrasto e eu temos negócios com um tal de Henrique Ghirotti.
O nome pareceu causar uma reação imediata em Sophia. Seus olhos verdes faiscaram por um segundo, uma mistura de desprezo e cautela.
— Ghirotti? Aquele porco que fede a dinheiro e corrupção? — Ela soltou uma risada seca. — Você anda em más companhias, paulista. Aquele homem não quer nada que preste para este estado. Ele quer limpar o que ele chama de "sujeira", e a "sujeira" somos nós.
— Nós quem? — perguntou Bobbi, embora já soubesse a resposta.
— Os que não têm nome. Os que não têm terra. Os que moram no prédio da Dona Zezé porque o governo esqueceu que a gente existe. — Ela se levantou, ajeitando a bolsa no ombro. — Tome cuidado. Recife é linda, mas as sombras aqui têm dentes.
— Espera — Bobbi também se levantou, sentindo uma urgência que não costumava sentir. — Eu... eu gostaria de te ver de novo. Sem falar de política ou de Ghirotti.
Sophia o olhou de cima a baixo. Havia algo de genuíno no mal-humor de Bobbi que parecia desarmá-la, uma vulnerabilidade escondida sob a fachada de assassino.
— Amanhã, no Pátio de São Pedro, às oito. Se você não for preso ou não se perder de novo, a gente toma um café. Mas não espere que eu seja gentil com seus patrões.
Ela saiu caminhando com uma confiança que Bobbi invejou. Ele ficou ali parado, observando-a desaparecer na penumbra, até que uma voz rouca o trouxe de volta à realidade.
— Ela é bonita. Mas é perigosa, Bobbi.
Augusto surgiu das sombras de um poste, fumando um cigarro que brilhava como uma brasa sinistra.
— Estava me espionando, Augusto? — Bobbi rangeu os dentes.
— Estou cuidando do meu investimento. Aquela garota mora no prédio onde o Marcelo está escondido. O prédio dos refugiados.
Bobbi sentiu o sangue esfriar.
— Como você sabe?
— Eu fiz o meu dever de casa enquanto você brincava de galanteador. — Augusto jogou a bituca no chão e a esmagou com a bota. — O Marcelo, ou Armando, é o mentor dessa gente. Ele é quem organiza os panfletos, as reuniões. E a garota... ela é a protegida dele.
— Ela não sabe de nada, Augusto. Ela é só uma estudante, uma revolucionária de boteco.
— Não seja ingênuo! — Augusto agarrou o braço de Bobbi com força. — Ela é o nosso mapa. Se você quer continuar se encontrando com ela, ótimo. Use isso. Descubra em qual apartamento o Marcelo dorme. Descubra a rotina dele. Se você conseguir que ela nos leve até ele, o serviço termina mais cedo e a gente sai desse inferno de calor com o bolso cheio.
Bobbi puxou o braço, sentindo uma náusea crescente.
— Eu não vou usar a garota.
— Então você vai deixar que eu faça do meu jeito? — O olhar de Augusto era frio, desprovido de qualquer humanidade. — Você sabe como eu trabalho, Bobbi. Eu não tenho a sua paciência. Se eu tiver que entrar naquele prédio atirando para achar o Marcelo, eu vou. E se a sua amiguinha estiver no caminho... bom, aí o problema é dela.
Bobbi encarou o padrasto, o homem que o criara nas artes da morte. Ele sabia que Augusto não estava blefando. A ameaça era clara: ou Bobbi traía a confiança de Sophia, ou Augusto a destruiria junto com o alvo.
— Eu dou um jeito — Bobbi disse, a voz baixa e carregada de uma fúria contida.
— Acho bom. Temos pouco tempo. Ghirotti ligou hoje. Ele quer resultados, não desculpas.
Augusto virou-se e começou a caminhar de volta para a pensão onde estavam hospedados, deixando Bobbi sozinho na praça.
O silêncio da noite recifense agora parecia opressor. Bobbi olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que já haviam tirado vidas sem hesitação. Pela primeira vez em anos, ele sentiu o peso do que era. Um assassino. Um intruso em um mundo de ideais que ele mal compreendia, mas que Sophia defendia com unhas e dentes.
Ele pensou no sorriso sarcástico dela, no jeito como ela falava de liberdade como se fosse algo palpável, e não apenas uma palavra bonita em um papel amassado. Marcelo, o homem que eles deveriam matar, era o herói dela. O mentor. O homem que, segundo Ghirotti, era um perigo para a nação, mas que, para Sophia, era apenas alguém que lutava pelos esquecidos.
Bobbi caminhou até o cais, observando as águas escuras do Rio Capibaribe refletindo as luzes da cidade. Ele estava no meio de um tabuleiro de xadrez onde as peças eram feitas de carne e osso, e o xeque-mate parecia inevitável.
— No que você se meteu, Bobbi? — sussurrou para si mesmo.
A gíria da época, o "pra frente, Brasil" que ecoava nas rádios oficiais, parecia uma piada de mau gosto diante da realidade das ruas. Ali, no Recife de 1970, a vida valia pouco para quem estava no poder, e Bobbi era a ferramenta usada para manter esse valor baixo.
Mas, ao pensar no encontro de amanhã, ele sentiu algo que não sentia há muito tempo: medo. Não medo de morrer, mas medo de ver a luz nos olhos de Sophia se apagar quando ela descobrisse quem ele realmente era. Ou pior, medo de ser ele o responsável por apagar essa luz.
Ele precisava encontrar Marcelo antes que Augusto o fizesse. Mas o que faria quando o encontrasse? Cumpriria o contrato ou ouviria o que o homem tinha a dizer?
A noite avançava, e as sombras de Recife pareciam sussurrar segredos que Bobbi ainda não estava pronto para ouvir. Ele sabia que, a partir daquele momento, cada passo seria uma escolha entre a lealdade ao homem que o criou e a humanidade que aquela garota de olhos verdes havia despertado nele.
— Amanhã — ele murmurou, ajustando a jaqueta. — Amanhã o jogo começa de verdade.
Ele voltou para a pensão, evitando o olhar de Augusto, que já limpava sua pistola na mesa da cozinha, o som do metal contra o metal ecoando como um relógio de contagem regressiva para o desastre que estava por vir.
