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Fandom: Httyd

Criado: 07/05/2026

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DramaAngústiaDor/ConfortoMorte de PersonagemTragédiaRealismoEstudo de Personagem
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O Gelo Sobre o Coração de Berk

A sirene da viatura cortava o silêncio da manhã gélida como uma lâmina afiada. Stoico Vastos, sargento da polícia de Berk, apertava o volante com força, os nós dos dedos brancos contra o couro. O rádio estalava com a voz urgente da central: um jovem havia caído nas águas do Lago Negro, a parte mais profunda e perigosa da reserva florestal.

O inverno daquele ano estava sendo implacável. O gelo, que parecia sólido, era na verdade uma armadilha fina e traiçoeira. Stoico sentia um aperto estranho no peito, uma premonição que tentava afastar com o pragmatismo de seus vinte anos de serviço.

— Aqui Unidade 1, estou a dois minutos do local — informou ele, a voz rouca e firme. — Chamem o resgate médico e a equipe de mergulho, agora!

Ao chegar à margem do lago, Stoico não esperou reforços. O cenário era desolador. Um buraco irregular no centro da camada branca indicava onde o gelo havia cedido. Ele avistou um vulto sob a superfície cristalina, imóvel, a poucos metros da borda quebradiça.

Sem hesitar, Stoico vestiu o colete de flutuação e prendeu a corda de segurança em uma árvore robusta. Ele se arrastou pelo gelo, ignorando os estalos de aviso sob seu peso. O frio era uma punhalada em seus pulmões, mas a adrenalina falava mais alto. Quando alcançou a abertura, mergulhou os braços na água congelante.

O choque térmico quase o paralisou, mas ele sentiu o tecido de um casaco. Com um esforço sobre-humano, Stoico puxou o corpo para fora da água, arrastando-o para a parte mais firme do gelo e, finalmente, para a terra seca.

— Vamos, garoto, respire! — gritou Stoico, começando as manobras de ressuscitação.

Foi só então, quando limpou o rosto do jovem da neve e da água, que o mundo de Stoico desabou. Os cabelos brancos, agora grudados na testa, a pele pálida que ele conhecia tão bem, as roupas que Soluço havia ajudado a escolher no último Natal.

Era Jack.

— Não... — sussurrou Stoico, as mãos tremendo pela primeira vez em décadas. — Jack, não me faça isso. Acorde!

Ele continuou as compressões torácicas, o desespero subindo pela garganta. Jack Frost não era apenas o namorado de seu filho; ele era o garoto que corria pela sua casa desde os quinze anos. Era o jovem que trazia vida e risadas para a mesa de jantar, o único que conseguia fazer Soluço sorrir mesmo nos dias mais sombrios. Jack era o filho que a vida lhe dera de presente.

Mas o peito de Jack não subia. Seus olhos azuis, antes cheios de travessura, estavam semicerrados e sem brilho. O frio do lago havia sido mais rápido que o resgate.

Quando a ambulância chegou, os paramédicos tentaram intervir, mas Stoico já sabia. Ele se afastou, caindo de joelhos na neve, o uniforme encharcado e pesado. Ele viu os médicos balançarem a cabeça negativamente. O tempo de morte foi declarado ali mesmo, sob o céu cinzento de Berk.

O trajeto de volta para a cidade foi um borrão. Stoico não sentia o frio em suas roupas, apenas um vazio gélido que se instalava em seus ossos. Ele tinha que fazer a coisa mais difícil de sua vida. Ele tinha que destruir o mundo de seu filho.

Ao estacionar em frente à casa de Soluço, ele viu a luz da sala acesa. Soluço e Jack moravam juntos há quase um ano, um pequeno apartamento cheio de projetos mecânicos e desenhos. Stoico subiu as escadas, cada passo pesando uma tonelada.

Ele bateu à porta. Segundos depois, Soluço abriu, com uma caneca de café na mão e um sorriso no rosto que morreu instantaneamente ao ver o estado do pai.

— Pai? O que aconteceu? — Soluço olhou para o uniforme molhado, para os olhos avermelhados de Stoico. — Você sofreu um acidente? Onde está o Jack? Ele saiu para caminhar e já devia ter voltado...

Stoico não conseguiu falar de imediato. Ele apenas deu um passo à frente e fechou a porta atrás de si.

— Soluço... — A voz de Stoico quebrou.

— Onde ele está, pai? — O tom de Soluço subiu, o pânico começando a brilhar em seus olhos verdes. — Por que você está me olhando assim?

Stoico deu um passo à frente e segurou os ombros do filho. Suas mãos, ainda geladas, transmitiram a realidade antes mesmo das palavras.

— Houve um acidente no Lago Negro — disse Stoico, lutando contra o choro. — O gelo quebrou. Eu tentei, Soluço... eu juro que tentei.

Soluço estacou. A caneca caiu de sua mão, estilhaçando-se no chão e espalhando café pelo tapete.

— Não. Não, ele é cauteloso. Ele sabe lidar com o gelo... — Soluço começou a balançar a cabeça, recuando. — Você está enganado. Deve ser outra pessoa.

— Era ele, meu filho. Eu mesmo o tirei de lá — Stoico puxou Soluço para um abraço apertado, mas o jovem era como uma estátua de gelo.

— Ele morreu? — A pergunta de Soluço saiu em um sussurro quase inaudível, carregado de uma dor que Stoico sentia rasgar sua própria alma.

— Ele se foi, Soluço.

O grito que escapou de Soluço não parecia humano. Foi um som de puro sofrimento, um rasgo no tecido da realidade. Ele desabou nos braços do pai, as pernas cedendo. Stoico o segurou, sentando-se no chão com o filho no colo, como fazia quando ele era pequeno e chorava por um joelho ralado. Mas desta vez, não havia curativo que pudesse ajudar.

— Por que ele, pai? — Soluço soluçava contra o peito de Stoico, as mãos agarradas ao uniforme úmido. — Nós íamos nos casar... eu ia pedir a ele hoje à noite.

Stoico sentiu uma lágrima pesada descer por seu rosto. Ele apertou Soluço com mais força, sentindo a própria dor se misturar à do filho. Ele também amava Jack. Amava o jeito que o garoto desafiava sua autoridade com uma piada, amava como ele cuidava de Soluço, amava a luz que ele trazia para a vida de ambos desde os quinze anos.

— Eu sei, meu filho. Eu sei — sussurrou Stoico, sua voz falhando. — Ele era o melhor de nós.

As horas seguintes foram um pesadelo de burocracia e silêncio. Stoico não deixou o lado de Soluço por um segundo. Ele cuidou de tudo: as ligações, o necrotério, os preparativos que ninguém deveria ter que fazer para alguém tão jovem.

Três dias depois, o funeral foi realizado sob uma neve fina. Berk inteira parecia estar lá. Jack era querido por todos, mas ninguém sentia a perda como os dois homens que permaneciam diante do caixão.

Soluço parecia uma sombra de si mesmo. Ele não chorava mais; seus olhos estavam secos e fundos, fixos no rosto pálido de Jack antes de o caixão ser fechado.

Stoico se aproximou do filho e colocou a mão em seu ombro.

— Ele não gostaria de ver você assim, Soluço — disse Stoico baixinho. — Ele sempre dizia que você era a pessoa mais forte que ele conhecia.

Soluço olhou para o pai, e por um momento, Stoico viu o vislumbre da criança que ele criou sozinho.

— Como eu vou continuar, pai? — perguntou Soluço. — Metade de mim foi enterrada com ele.

— Você continua por ele — respondeu Stoico, com a sabedoria de quem já havia perdido muito na vida. — Você carrega a memória dele. O amor dele não morre enquanto você se lembrar do brilho nos olhos dele. E eu estarei aqui. Sempre.

Após o enterro, eles voltaram para a casa de Stoico. O apartamento de Soluço era silencioso demais, cheio de fantasmas de uma vida que não seria vivida.

Stoico preparou um chá e sentou-se na poltrona em frente ao sofá onde Soluço estava encolhido. O sargento olhou para a lareira, as chamas dançando e projetando sombras na sala.

— Sabe — começou Stoico —, na primeira vez que ele veio aqui, quando vocês tinham quinze anos, ele quebrou aquele vaso de cerâmica da sua mãe.

Soluço deu um sorriso triste, quase imperceptível.

— Eu lembro. Ele tentou colar os pedaços com chiclete antes de você chegar.

— Ele era um desastre — Stoico riu baixo, uma risada carregada de saudade. — Mas ele tinha o maior coração que eu já vi. Ele me disse, naquele dia, que faria qualquer coisa para te ver feliz. E ele cumpriu a promessa em cada dia desses últimos seis anos.

Soluço olhou para o pai, e finalmente, as lágrimas voltaram a cair, mas desta vez não eram de puro desespero. Eram lágrimas de cura.

— Ele amava você também, pai. Ele te via como o pai que ele nunca teve.

Stoico sentiu um nó na garganta. Ele se levantou e sentou-se ao lado de Soluço, passando o braço pelo pescoço do filho.

— Eu o amava como a um filho. E perder um filho é uma dor que não se explica. Mas nós vamos passar por isso juntos.

Eles ficaram ali, no silêncio da noite de Berk, dois homens unidos pela mesma perda e pelo mesmo amor. Do lado de fora, a neve continuava a cair, cobrindo o mundo de branco, mas dentro daquela casa, o calor da família — o que restava dela — começava, lentamente, a derreter o gelo nos corações feridos.

Stoico sabia que as cicatrizes permaneceriam para sempre. Ele ainda veria o rosto de Jack toda vez que olhasse para o Lago Negro. Ele ainda esperaria ouvir a risada dele entrando pela porta. Mas ele também sabia que, enquanto estivesse ao lado de Soluço, a memória de Jack Frost seria uma luz, e não apenas uma sombra.

— Descanse, Soluço — murmurou Stoico, enquanto o filho finalmente fechava os olhos, exausto. — Eu estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum.

O sargento da polícia de Berk, o homem que todos viam como uma rocha inabalável, permitiu-se chorar silenciosamente no escuro, honrando o genro que partira e protegendo o filho que ficara. A vida continuaria, mas Berk nunca mais seria a mesma sem o seu garoto do gelo.
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