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Coisa apaixonada

Fandom: It a coisa

Criado: 07/05/2026

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O Eco do Riso na Escuridão

A placa "Bem-vindo a Derry" parecia mais uma lápide do que um cumprimento. Clara apertou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos, contrastando com a pele macia de suas mãos. Aos quarenta e cinco anos, ela ainda carregava as curvas que outrora ele chamara de "sua perdição", mas o brilho extrovertido que definia a jovem de dezoito anos tinha sido substituído por uma cautela gélida, um silêncio que ela vestia como uma armadura.

Derry não mudara. As árvores pareciam ter as mesmas sombras retorcidas, e o ar tinha aquele cheiro metálico de chuva iminente e algo mais profundo, algo podre. Ela jurou que nunca voltaria. Fugir há vinte e sete anos tinha sido um ato de desespero puramente instintivo, a reação de uma presa que descobre que dormiu no ninho do predador.

— Você não deveria ter voltado, Clara — sussurrou para si mesma, sua voz rouca quebrando o silêncio do carro.

As memórias a atingiram como estilhaços de vidro. 1989. O verão em que o conheceu. Ele se chamava Bob na época. Tinha cabelos castanhos claros, um sorriso que parecia jovem e antigo ao mesmo tempo, e olhos que mudavam de cor dependendo da luz. Ela era a garota gordinha e alegre que trabalhava na biblioteca, sempre pronta com uma piada ou um sorriso. Ele a seguiu, a princípio, com a intenção clara de devorar seu medo, mas algo deu errado. Ou certo demais.

Eles viveram um romance febril sob as copas das árvores do Barrens. Ele a tocava com uma reverência quase faminta, e ela, em sua inocência juvenil, achava que era amor. Até o dia em que o viu. Não o homem, mas a coisa. O palhaço de olhos amarelos, com dentes que se multiplicavam em fileiras infinitas, rindo enquanto arrastava algo para o bueiro.

O choque a transformou. A Clara extrovertida morreu naquele dia, dando lugar a uma mulher que aprendeu a esconder o coração atrás de camadas de indiferença.

Ao estacionar em frente ao antigo casarão que herdara da tia, Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O rádio do carro, desligado há quilômetros, subitamente emitiu um chiado estático.

— Sentiu minha falta, Clarinha? — Uma voz infantil, distorcida e carregada de uma alegria maligna, ecoou pelos alto-falantes.

Ela arrancou a chave da ignição, o silêncio retornando de forma abrupta. Seu coração martelava contra as costelas. Ele sabia. Pennywise sabia que ela estava de volta.

— Clara? É você mesma? — Uma voz masculina a chamou da calçada.

Ela se virou, sobressaltada. Um homem de óculos, com o rosto marcado pelo tempo mas ainda reconhecível, a observava com incredulidade. Era Richie Tozier. Atrás dele, Bill Denbrough e o resto do grupo que ela vagamente lembrava de ter visto na infância estavam reunidos, parecendo tão exaustos quanto ela se sentia.

— Richie — ela respondeu, sua voz firme apesar do tremor interno.

— Pelos deuses, você voltou — Bill deu um passo à frente, os olhos fixos nela. — Nós... nós estávamos falando sobre você. Mike encontrou algo na história da cidade. Algo que não faz sentido.

Clara desceu do carro, ajeitando o casaco sobre os quadris. Ela sentia o peso do olhar de todos. Eles eram os "Otários", os sobreviventes. E ela era a mulher que tinha amado o monstro.

— O que Mike encontrou? — perguntou ela, cruzando os braços.

— Uma anomalia — disse Mike Hanlon, aproximando-se do grupo com um livro velho de registros em mãos. — Em todos os ciclos de vinte e sete anos, Derry sofre uma onda de violência sem precedentes. Mas há vinte e sete anos, o ciclo foi... diferente. Ele parou antes do tempo. Ele recuou.

— Ele não recuou por causa de nós — Bill admitiu, a voz carregada de culpa. — Nós o ferimos, sim. Mas ele desistiu da caçada. Ele estava distraído.

Richie olhou para Clara, o humor habitual desaparecendo de seu rosto.

— Ele estava com você, não estava? Naquela época. Nós vimos vocês dois no parque. Achamos que ele era apenas um cara de fora.

Clara sentiu o estômago revirar. O segredo que ela guardou como uma ferida aberta estava sendo exposto ali, na calçada úmida de Derry.

— Eu não sabia o que ele era — disse ela, as palavras saindo carregadas de um amargor antigo. — Para mim, ele era Bob. Ele era... gentil. Até que eu vi a maquiagem. Até que eu vi o sangue.

— Mike acha que você é a chave, Clara — Bill disse, aproximando-se. — Ele não apenas a amou, se é que aquela coisa pode amar. Ele se vinculou a você. Existe uma marca.

— Que marca? — perguntou ela, sentindo um calor repentino na base da nuca.

— Uma marca de propriedade — Mike abriu o livro, mostrando uma ilustração antiga de um ritual obscuro. — Pennywise é um ser de consumo. Ele consome medo. Mas com você, ele tentou algo diferente. Ele tentou criar uma âncora no mundo físico que não dependesse apenas de ciclos. Você é a única pessoa que ele deixou ir voluntariamente. Ele não a matou quando você fugiu, Clara. Ele deixou você viver para que você voltasse.

— Por que eu voltaria para aquele pesadelo? — Clara sentiu as lágrimas arderem em seus olhos.

— Porque você é a única que pode chegar perto o suficiente para feri-lo de verdade — disse Bill, segurando a mão dela. A mão de Bill estava fria e tremia levemente. — Nós temos o Ritual de Chüd, mas precisamos de uma distração. Algo que o faça baixar a guarda, que o faça sentir algo que não seja fome.

— Você quer que eu seja a isca — concluiu ela, uma risada seca e sem humor escapando de seus lábios. — A gordinha engraçada que ele amou... vocês querem que eu o seduza para a morte?

— Não é sedução, Clara — Mike corrigiu. — É conexão. Você tem uma parte dele dentro de você. As memórias, os sentimentos... eles são reais para ele também. Se ele for capaz de sentir dor emocional, você é a única arma que temos.

O vento soprou mais forte, trazendo consigo o som de um balão estourando em algum lugar próximo. O grupo se encolheu, olhando ao redor. Nas sombras de um beco entre duas casas, Clara viu um vislumbre de um terno prateado e pompons laranjas.

— Ele está aqui — sussurrou ela.

— Clara... — Richie começou, mas ela o interrompeu.

— Eu vou fazer isso. Mas não por vocês. E não pela cidade. Vou fazer isso porque eu quero ver os olhos dele quando ele perceber que eu não tenho mais medo.

Eles se dirigiram para a casa na Rua Neibolt. O lugar exalava uma aura de decomposição que fazia os pulmões de Clara arderem. Enquanto os outros preparavam os itens para o ritual no porão, Clara permaneceu no hall de entrada, onde o papel de parede descascava como pele morta.

— Você demorou muito — a voz não veio de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo.

Clara se virou lentamente. No topo da escada em caracol, não estava o palhaço. Estava Bob. Ele usava a mesma camisa de flanela de 1989, o rosto jovem e perfeito, o sorriso que uma vez a fizera acreditar em contos de fadas.

— Você não mudou nada — disse ela, a voz firme, embora seu coração parecesse querer saltar do peito.

— E você mudou muito — Bob desceu os degraus com uma graça inumana. — Ficou mais silenciosa. Mais amarga. Eu gostava quando você ria, Clara. Seu riso tinha um gosto de mel e sol.

— Meu riso morreu no bueiro junto com aquelas crianças — respondeu ela, enquanto ele se aproximava, parando a apenas alguns centímetros de distância.

Bob estendeu a mão, tocando o rosto de Clara. Os dedos dele eram gélidos, como gelo seco.

— Eu poderia ter ido atrás de você — ele sussurrou, e por um momento, Clara viu algo nos olhos dele que não era fome. Era uma solidão vasta e cósmica. — Eu deixei você partir porque queria ver se o fio entre nós arrebentaria. Mas ele não arrebentou, não é? Você ainda sente o meu chamado.

— Eu sinto nojo — mentiu ela, embora sua pele estivesse formigando sob o toque dele.

— Mentirosa — ele sorriu, e por um segundo, seus dentes pareceram longos demais para sua boca. — Você voltou porque sente falta da intensidade. Ninguém nunca a olhou como eu, não é? Ninguém nunca quis devorar cada pedaço da sua alma.

— Eles estão lá embaixo — disse ela, mudando de tática. — Eles têm o ritual. Eles vão acabar com você.

Bob soltou uma gargalhada que começou como a de um homem e terminou como o guincho de uma hiena.

— Aqueles vermes? Eles tentam e falham. Eles acham que você é a arma deles, Clarinha. Mas eles não entendem. Você não é a arma. Você é o banquete final.

Ele a puxou para perto, prendendo-a em um abraço que era ao mesmo tempo possessivo e violento. Clara sentiu o cheiro de pipoca doce e carne podre. Ela fechou os olhos, lembrando-se do que Mike dissera. A conexão.

— Se eu sou o banquete — sussurrou ela no ouvido dele —, então você vai ter que me aceitar por inteiro.

Ela o beijou. Foi um ato de guerra disfarçado de rendição. No momento em que seus lábios tocaram os dele, Clara abriu as comportas de sua mente. Ela não lhe deu medo. Ela lhe deu a dor da traição. Ela lhe deu a solidão dos vinte e sete anos em que viveu como uma casca vazia. Ela despejou nele todo o peso de sua humanidade ferida.

Bob vacilou. A forma humana começou a oscilar, flashes de maquiagem branca e cabelos vermelhos surgindo e desaparecendo. Ele soltou um rugido de agonia, não física, mas de algo que ele nunca soube processar: a rejeição de uma presa que não tinha mais medo de ser consumida.

— O que... o que você fez? — ele engasgou, empurrando-a para longe. Suas mãos agora eram garras.

— Eu te perdoei — disse Clara, as lágrimas finalmente caindo. — E o perdão é algo que um monstro como você não consegue digerir.

Lá embaixo, o som do ritual começou a ressoar pelas tábuas do chão, uma vibração rítmica que parecia desmantelar a própria estrutura da realidade. Pennywise, agora totalmente em sua forma de palhaço, recuou para as sombras, seus olhos amarelos brilhando com uma fúria e uma confusão inéditas.

— Isso não acabou, Clara! — ele gritou, sua voz quebrando em mil frequências.

— Acabou sim — disse ela, limpando o rosto. — Porque agora eu sei que você não é um deus. Você é apenas um parasita que se apaixonou pela própria comida.

Ela se virou e caminhou em direção às escadas do porão para se juntar aos seus amigos. Pela primeira vez em quase três décadas, os ombros de Clara estavam leves. Derry ainda estava escura, e o monstro ainda estava lá, mas a garota extrovertida que ele tentara roubar tinha acabado de entregar o golpe final: a indiferença.

Ao descer o último degrau, ela encontrou Bill e os outros. Eles a olharam com temor e esperança.

— Ele está vulnerável — disse Clara, sua voz ecoando no porão úmido. — Vamos terminar isso.

O palhaço podia ter as luzes mortas, mas Clara tinha descoberto que, no centro de sua própria alma, ela possuía um sol que nenhuma escuridão de Derry jamais conseguiria apagar.
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