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Minha Evangeline

Fandom: OC (original)

Criado: 09/05/2026

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RomanceHistóricoHistória DomésticaFofuraEstudo de PersonagemFatias de Vida
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O Labirinto de Veludo e Tinta

A luz pálida do final de tarde em Londres filtrava-se pelas janelas altas da biblioteca dos Ashcombe, criando padrões de ouro sobre as lombadas de couro dos livros. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico de uma pena riscando o papel e o ocasional estalar da lenha na lareira.

Evangeline estava jogada de qualquer jeito em uma poltrona de veludo verde, uma perna balançando sobre o braço do móvel — uma postura que faria sua governanta russa ter um colapso nervoso, mas que Theodor parecia considerar a oitava maravilha do mundo moderno. Ela observava o marido, concentrado em sua escrivaninha.

Quase um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias desde que ela caminhara até o altar acreditando que estava se entregando a uma vida de tédio aristocrático e monólogos sobre a reforma agrária. Como ela estava errada.

— Theodor — chamou ela, sua voz arrastada, cortando o silêncio com aquela vivacidade que ele tanto cobiçava.

Ele parou de escrever instantaneamente. Não terminou a frase, não pediu um minuto. Ele simplesmente pousou a pena e virou o tronco em direção a ela, dedicando-lhe toda a sua atenção, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir no momento em que ela pronunciou seu nome.

— Sim, Eva? — A voz dele era baixa, rica, com aquele sotaque inglês polido que ainda fazia os pelos do braço dela se arrepiarem.

— Você está lendo sobre os direitos de sucessão de novo? — Ela se levantou, caminhando até ele com a graça felina e o caos contido que a definiam. — É o terceiro jornal que você devora hoje. Seus olhos vão acabar se transformando em letras de fôrma.

Theodor sorriu, um gesto raro que ele reservava quase exclusivamente para ela. O bigode fino acentuava a linha aristocrática de seu rosto, mas eram os olhos — escuros e devotos — que a prendiam.

— Estou revisando um manifesto sobre a educação compulsória para mulheres nas áreas rurais — explicou ele, estendendo a mão para ela. — É um assunto que você mencionou durante o jantar com os Lordes na semana passada. Lembra-se? Quando você disse que a ignorância é o maior grilhão da coroa?

Evangeline parou ao lado dele, deixando que ele envolvesse sua cintura com um braço e a puxasse para perto.

— Eu estava apenas tentando irritar o Conde de Wessex — admitiu ela, passando os dedos pelos cabelos negros dele, desmanchando o penteado impecável. — Ele é um homem tão... quadrado.

— Pois saiba que suas "irritações" são brilhantes — Theodor murmurou, enterrando o rosto na curva do pescoço dela, inspirando o perfume de baunilha e algo mais rústico que ela sempre carregava. — O modo como você o deixou sem argumentos foi a visão mais bonita que tive em meses. Exceto por você agora, é claro.

— Você é um caso perdido, Ashcombe — ela riu, sentindo o calor da pele dele. — Um intelectual sério, um homem de estado, agindo como um poeta romântico desesperado. O que a mídia diria se soubesse?

Theodor ergueu a cabeça, os olhos brilhando com uma intensidade que sempre a desarmava.

— A mídia já diz o suficiente, querida. Dizem que sou um homem transformado. E eles estão certos. Antes de você, minha vida era uma sucessão de fatos e lógica. Depois de você... bem, agora eu entendo por que os homens começam guerras.

Evangeline sentiu o coração acelerar. Era isso. Aquela intensidade absurda. No início, ela achava que era uma máscara, mas agora sabia que era a mais pura verdade. Theodor Ashcombe não apenas a amava; ele a venerava. Ele a via como uma força da natureza, uma igual, uma chama que ele se recusava a apagar.

— Meu irmão gêmeo me mandou uma carta hoje — disse ela, tentando mudar de assunto antes que ficasse vermelha demais sob o olhar dele. — Disse que sente falta de ter alguém para brigar e perguntou se você já me devolveu para a Rússia.

Theodor soltou uma risada curta e seca, puxando-a para o seu colo de uma vez, sem se importar com o decoro ou com o fato de que qualquer criado poderia entrar na biblioteca a qualquer momento.

— Diga ao seu irmão que ele terá que declarar guerra à Inglaterra se quiser você de volta — declarou ele, as mãos grandes e firmes em seus quadris. — E mesmo assim, eu esconderia você no ponto mais alto das Highlands antes de permitir que atravessasse o Canal da Mancha sem mim.

— Você é possessivo demais para um progressista, sabia? — provocou ela, roçando o nariz no dele.

— Sou um homem de contradições, Eva. Defendo a liberdade de todos, exceto a sua de se afastar de mim.

A conexão entre eles era quase palpável, uma eletricidade que se fortalecera ao longo dos meses. O que começara como um contrato frio entre duas famílias poderosas — os Kostova e sua energia barulhenta, os Ashcombe e sua elegância silenciosa — tornara-se o assunto favorito das fofocas londrinas. Eles eram vistos em bailes, mas nunca dançando com outros. Eram vistos em óperas, mas Theodor passava mais tempo observando as reações no rosto de Evangeline do que o palco.

— Sabe o que eu mais gosto em você? — perguntou ela, traçando o contorno dos lábios dele com o polegar.

— Minha biblioteca? Meu intelecto superior? — brincou ele, embora seu olhar permanecesse sério.

— O modo como você me ouve — respondeu ela, subitamente séria. — Na minha casa, todos falam ao mesmo tempo. É maravilhoso, mas às vezes eu sentia que minhas palavras se perdiam no barulho. Mas você... quando eu falo, você me olha como se eu estivesse revelando os segredos do universo. Mesmo quando estou apenas reclamando do tempo ou da textura do bolo.

Theodor segurou a mão dela e beijou a palma, um gesto de devoção que a fez estremecer.

— Porque você é o segredo do meu universo, Evangeline. Cada pensamento seu é mais interessante para mim do que qualquer tratado de Kant ou Locke.

Ele a trouxe para mais perto, o espaço entre eles desaparecendo. O cheiro de papel antigo e tabaco caro que emanava dele era o seu novo lar.

— Theodore... — ela sussurrou, a língua russa começando a se misturar ao seu inglês quando a emoção subia. — Você me mima demais. Vou acabar me tornando uma tirana.

— Seja minha tirana, então — respondeu ele, a voz reduzida a um sussurro vibrante. — Eu não desejaria outra soberana.

O beijo que se seguiu foi lento, profundo e carregado de uma fome que um ano de casamento não conseguira saciar. Pelo contrário, parecia que quanto mais se conheciam, mais desesperados ficavam um pelo outro. Para Theodor, tocar Evangeline era como tocar a própria vida; para Evangeline, ser beijada por ele era sentir-se, pela primeira vez, completamente vista.

Quando se afastaram, ambos estavam levemente ofegantes. Evangeline ajeitou a franja lateral, seus olhos azuis brilhando com uma malícia carinhosa.

— Temos aquele jantar na casa dos seus pais hoje — lembrou ela, soltando um suspiro dramático. — Sua mãe vai olhar para o meu vestido e se perguntar por que eu não estou usando espartilhos mais rígidos.

— Minha mãe vive no século passado — desdenhou Theodor, levantando-se com ela ainda em seus braços por um momento antes de colocá-la no chão. — Se ela disser uma única palavra sobre suas roupas, ou sobre o modo como você se expressa, nós sairemos antes mesmo do primeiro prato.

— Não precisa ser tão protetor, querido. Eu sei lidar com ela. Sou uma Kostova, lembra? Nós comemos aristocratas rígidos no café da manhã.

Theodor sorriu, orgulhoso.

— Eu sei que sabe. Mas eu gosto do privilégio de ser seu escudo. Mesmo sabendo que você prefere carregar a própria espada.

— Falando em espadas... — Eva caminhou até a porta, parando e olhando por cima do ombro. — Se chegarmos cedo e nos arrumarmos rápido, talvez tenhamos tempo para uma "discussão intelectual" mais privada antes da carruagem chegar.

Theodor sentiu o sangue latejar nas têmporas. Ele fechou o livro sobre a mesa com um baque definitivo e caminhou em direção a ela, a postura impecável escondendo a urgência que só ela conseguia despertar.

— Acredito que a prática é sempre superior à teoria, minha querida — disse ele, oferecendo-lhe o braço.

Enquanto caminhavam pelo corredor da mansão, Evangeline pensou na garota que, meses atrás, achava que aquele homem era "estranho e sério demais". Ela riu baixinho. Ele ainda era sério, ainda era intenso, e certamente era o homem mais inteligente que ela já conhecera. Mas sob aquela capa de intelectualismo inglês, havia um fogo que ela tivera a sorte de acender.

E o melhor de tudo era saber que, não importava o quanto o mundo lá fora mudasse ou o quanto a mídia falasse deles, dentro daquelas paredes, ela era a sua musa, sua igual e sua maior obsessão. E ela, a atrevida e viva Evangeline, nunca estivera tão feliz em ser exatamente quem era.

Ao chegarem ao topo da escada, ela parou e o puxou pela lapela.

— Theodor?

— Sim?

— Eu te amo. Absurdamente.

Ele parou, a expressão suavizando-se em algo tão terno que quase doía olhar.

— Eu sei — respondeu ele, com uma confiança que não era arrogância, mas sim a certeza de quem dedicava cada segundo de sua existência a garantir que aquele amor fosse recíproco. — E eu pretendo passar o resto da minha vida provando que o meu amor por você é ainda mais absurdo.

Eles seguiram para o quarto, o som de seus passos ecoando harmoniosamente, um contraste perfeito entre o silêncio britânico e o coração pulsante da Rússia, unidos em um casamento que começara por conveniência e se tornara a maior rebeldia de suas vidas.
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