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As Horas Entre Nós
Fandom: Flowers (TV serie) e Original Character
Criado: 10/05/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaHistória DomésticaEstudo de PersonagemRealismoLinguagem ExplícitaCiúmesAbuso de ÁlcoolFofuraLirismoSongfic
A Ferrugem sob o Veludo
O restaurante era pequeno, com luzes amareladas que Gabriele considerava excessivamente íntimas e um cardápio que tentava ser sofisticado demais para aquela região industrial. Sentada à cabeceira da mesa retangular, cercada por três colegas da biblioteca e dois casais de amigos de longa data, Gabriele sentia cada músculo de suas costas retesado. Ela usava uma blusa de seda azul-marinho, o cabelo impecavelmente preso em um coque baixo, e segurava a taça de vinho com uma precisão cirúrgica.
Ao seu lado, ocupando um espaço que parecia o dobro do necessário, estava Hylda.
Hylda não usava seda. Ela vestia uma jaqueta de couro gasta sobre uma camiseta preta que deixava à mostra as tatuagens desbotadas nos antebraços — uma mistura de símbolos alquímicos e nomes que ela nunca explicava. O cheiro dela, uma combinação inebriante de tabaco, o óleo que parecia impregnado em seus poros e um perfume de baunilha barata, flutuava sobre a mesa, atropelando o aroma do risoto de cogumelos.
— Eu já disse para o pessoal lá da fundição — Hylda dizia, a voz rouca e alta, gesticulando com um garfo na mão —, que se eles não aprenderem a ler a porra do manual, eu vou começar a descontar o conserto das máquinas do bônus de Natal. Eles acham que operar uma prensa é que nem fritar ovo.
— Hylda, por favor, o vocabulário — Gabriele murmurou, sem olhar diretamente para ela, fingindo interesse em seu prato.
Hylda soltou uma risada curta e, sem o menor aviso, deslizou a mão pela nuca de Gabriele, deixando os dedos calejados e quentes descansarem ali por um segundo antes de descerem para o ombro dela.
— Relaxa, madame da biblioteca. Meus amigos aqui não se importam com um pouco de realidade, não é? — Ela piscou para o marido de uma das bibliotecárias, que sorriu sem jeito. — A Gabriele é assim, gente. Vive cercada de silêncio e poeira de livro, aí quando encontra uma mulher de verdade, fica toda arrepiada.
Um silêncio desconfortável caiu sobre a mesa. Gabriele sentiu o rosto esquentar.
— Somos grandes amigas, como eu já mencionei — Gabriele disse, a voz saindo mais fina do que pretendia. — Hylda tem um senso de humor... peculiar.
— Amigas, é? — Hylda arqueou uma sobrancelha, um sorriso provocador brincando nos lábios pintados de um vermelho escuro quase marrom. Ela se inclinou, aproximando o rosto do de Gabriele até que suas respirações se cruzassem. — Engraçado. Eu não lembro de você me chamar de "amiga" quando estava agarrada no meu pescoço ontem à noite, meu amor.
O som de um talher batendo no prato ecoou. Gabriele sentiu o mundo girar. Ela olhou para os convidados, que agora alternavam olhares de choque e curiosidade mal disfarçada.
— Hylda, chega — Gabriele sibilou, levantando-se abruptamente. — Peço desculpas a todos, mas tive um dia longo e a minha... amiga exagerou no vinho.
— Eu não bebi nem meia taça, Gabi! — Hylda exclamou, rindo abertamente enquanto também se levantava, pegando sua jaqueta. — Mas tudo bem, a madame quer ir embora, a gente vai. Boa noite para vocês, pessoal! Tentem não ser tão chatos quanto ela.
O trajeto até a casa de Gabriele foi um exercício de silêncio punitivo. Gabriele dirigia com as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Ao seu lado, Hylda mantinha a janela aberta, acendendo um cigarro apesar de saber que Gabriele detestava o cheiro dentro do carro.
Assim que entraram no apartamento de Gabriele — um lugar onde cada livro estava em ordem alfabética e o chão de madeira brilhava de tão limpo —, a explosão aconteceu.
— Você perdeu completamente o juízo? — Gabriele explodiu, jogando a bolsa sobre o sofá de linho. — O que foi aquilo, Hylda? Aquelas insinuações, aquele toque... na frente de todos!
Hylda fechou a porta com o pé e cruzou os braços, encarando-a com um olhar que misturava cansaço e desafio.
— Insinuações? Eu não insinuei nada, Gabriele. Eu falei a verdade. Ou você vai me dizer que a gente não dorme no mesmo colchão há quatro meses?
— Isso não é da conta deles! — Gabriele gritou, a voz falhando. — Eu tenho uma reputação, uma vida... eu não sou como você, que sai por aí gritando para o mundo o que faz ou deixa de fazer.
— Como eu? — Hylda deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Gabriele. — Você quer dizer uma ex-viciada que trabalha com graxa e não tem vergonha de quem é? É isso? Você tem vergonha de mim, Gabriele. Admite logo. É por isso que você me apresenta como a "grande amiga". É por isso que você fica toda dura quando eu tento te dar um beijo em público.
— Não é vergonha de você — Gabriele desviou o olhar, sentindo as lágrimas arderem. — É medo. Você não entende, você nunca entendeu. Eu passei a vida inteira tentando ser perfeita para que ninguém pudesse me apontar o dedo. E aí você chega, com esse barulho todo, derrubando todas as minhas prateleiras...
— Eu não estou derrubando nada, eu estou te libertando dessa biblioteca mofada que você chama de vida! — Hylda segurou o rosto de Gabriele com as duas mãos. Suas palmas eram ásperas, mas o toque era surpreendentemente gentil. — Aquelas pessoas no jantar não dão a mínima para você. Eles gostam da "Gabriele organizada". Eu amo a Gabriele que perde o fôlego quando eu mordo o ombro dela. Eu amo a Gabriele que fala palavrão baixinho quando está brava.
Gabriele tentou se soltar, mas Hylda a manteve ali, forçando o contato visual.
— Você me trata como um segredo sujo — continuou Hylda, a voz agora num tom mais baixo, quase uma ferida aberta. — E eu já tive segredos demais na vida, Gabi. Eu já me escondi em becos para usar droga, já me escondi de polícia. Eu não vou me esconder de amor. Se você não consegue dizer para aquelas pessoas que eu sou a sua mulher, então talvez você não me mereça.
— "Minha mulher"? — Gabriele repetiu, num sussurro horrorizado. — Você disse isso para o garçom quando eu fui ao banheiro!
— Disse e diria de novo — Hylda sorriu, mas não era o sorriso provocador de antes. Era algo mais triste. — Porque é isso que eu sinto. Mas você... você prefere a solidão elegante. Ela combina com a decoração, não é?
Hylda soltou o rosto dela e caminhou em direção à porta. O pânico subiu pela garganta de Gabriele como um ácido. A ideia de ver Hylda saindo por aquela porta, levando consigo o cheiro de óleo, a risada escandalosa e a vida que ela tinha trazido para aquele apartamento estéril, era insuportável.
— Hylda, espere! — Gabriele correu e segurou o braço da jaqueta de couro.
Hylda parou, mas não se virou.
— Eu sou uma covarde — confessou Gabriele, as lágrimas finalmente caindo. — Eu sou uma covarde e eu tenho traumas que você nem imagina. Toda vez que eu tento ser feliz, eu sinto que o teto vai desabar. Eu chamo você de amiga porque... porque se eu admitir o que você é para mim, eu perco o controle. E o controle é tudo o que eu tenho.
Hylda virou-se devagar. Ela viu a mulher impecável diante dela desmoronando, a máscara de seda rasgada.
— Você não tem só o controle, meu amor — Hylda disse, aproximando-se novamente. — Você tem a mim. Mas eu não sou um livro que você pode catalogar e guardar na estante quando termina de ler.
— Eu sei — Gabriele soluçou, escondendo o rosto no peito de Hylda. — Eu sei.
Hylda envolveu-a em um abraço apertado, o tipo de abraço que não pedia permissão e que ocupava todo o espaço do corredor. Ela beijou o topo da cabeça de Gabriele, sentindo o cheiro de xampu caro misturar-se ao seu próprio cheiro de cigarro.
— Você vai ter que aprender, madame — Hylda murmurou contra o cabelo dela. — Vai ter que aprender que a ferrugem também faz parte da peça. Se a gente não se sujar um pouco, a máquina não funciona.
Gabriele respirou fundo, preenchendo os pulmões com o aroma de Hylda. Era um cheiro que ela costumava detestar, mas que agora significava "casa" mais do que qualquer ordem alfabética jamais significaria.
— Eu vou tentar — prometeu Gabriele, a voz abafada.
— Vai tentar o quê? — Hylda afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, um brilho travesso voltando ao olhar.
— Vou tentar não morrer de vergonha na próxima vez que você disser que eu sou sua mulher.
Hylda soltou uma gargalhada alta, que ecoou pelas paredes limpas do apartamento.
— "Tentar" não é bom o suficiente. Na próxima vez, eu vou querer que você confirme. E com um beijo. Na frente daquela sua amiga magrela da biblioteca, a que olha para mim como se eu fosse um vazamento de esgoto.
Gabriele deu um sorriso fraco, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
— A Margareth? Ela morreria de um ataque cardíaco.
— Pois que morra — Hylda deu de ombros, puxando Gabriele pela cintura para mais perto. — Pelo menos ela morreria vendo algo interessante pela primeira vez na vida.
Hylda inclinou-se e beijou Gabriele. Não foi um beijo de "grandes amigas". Foi um beijo carregado de história, de redenção e de uma possessividade que Gabriele, pela primeira vez, não sentiu vontade de organizar ou esconder.
— Agora — Hylda disse, interrompendo o beijo com um sorriso malicioso —, você vai me fazer um favor.
— Qual? — perguntou Gabriele, ainda um pouco tonta.
— Vai jogar esse vinho chique fora e me dar uma cerveja. E depois, madame... — Hylda baixou a voz, a boca roçando a orelha de Gabriele. — ...você vai me mostrar se aquela sua saia de grife é tão difícil de tirar quanto parece.
Gabriele sentiu o rosto queimar novamente, mas desta vez, ela não desviou o olhar. Ela apenas segurou a mão tatuada de Hylda e a conduziu para dentro, deixando para trás o silêncio e a perfeição, em direção ao caos que, finalmente, a fazia se sentir viva.
Ao seu lado, ocupando um espaço que parecia o dobro do necessário, estava Hylda.
Hylda não usava seda. Ela vestia uma jaqueta de couro gasta sobre uma camiseta preta que deixava à mostra as tatuagens desbotadas nos antebraços — uma mistura de símbolos alquímicos e nomes que ela nunca explicava. O cheiro dela, uma combinação inebriante de tabaco, o óleo que parecia impregnado em seus poros e um perfume de baunilha barata, flutuava sobre a mesa, atropelando o aroma do risoto de cogumelos.
— Eu já disse para o pessoal lá da fundição — Hylda dizia, a voz rouca e alta, gesticulando com um garfo na mão —, que se eles não aprenderem a ler a porra do manual, eu vou começar a descontar o conserto das máquinas do bônus de Natal. Eles acham que operar uma prensa é que nem fritar ovo.
— Hylda, por favor, o vocabulário — Gabriele murmurou, sem olhar diretamente para ela, fingindo interesse em seu prato.
Hylda soltou uma risada curta e, sem o menor aviso, deslizou a mão pela nuca de Gabriele, deixando os dedos calejados e quentes descansarem ali por um segundo antes de descerem para o ombro dela.
— Relaxa, madame da biblioteca. Meus amigos aqui não se importam com um pouco de realidade, não é? — Ela piscou para o marido de uma das bibliotecárias, que sorriu sem jeito. — A Gabriele é assim, gente. Vive cercada de silêncio e poeira de livro, aí quando encontra uma mulher de verdade, fica toda arrepiada.
Um silêncio desconfortável caiu sobre a mesa. Gabriele sentiu o rosto esquentar.
— Somos grandes amigas, como eu já mencionei — Gabriele disse, a voz saindo mais fina do que pretendia. — Hylda tem um senso de humor... peculiar.
— Amigas, é? — Hylda arqueou uma sobrancelha, um sorriso provocador brincando nos lábios pintados de um vermelho escuro quase marrom. Ela se inclinou, aproximando o rosto do de Gabriele até que suas respirações se cruzassem. — Engraçado. Eu não lembro de você me chamar de "amiga" quando estava agarrada no meu pescoço ontem à noite, meu amor.
O som de um talher batendo no prato ecoou. Gabriele sentiu o mundo girar. Ela olhou para os convidados, que agora alternavam olhares de choque e curiosidade mal disfarçada.
— Hylda, chega — Gabriele sibilou, levantando-se abruptamente. — Peço desculpas a todos, mas tive um dia longo e a minha... amiga exagerou no vinho.
— Eu não bebi nem meia taça, Gabi! — Hylda exclamou, rindo abertamente enquanto também se levantava, pegando sua jaqueta. — Mas tudo bem, a madame quer ir embora, a gente vai. Boa noite para vocês, pessoal! Tentem não ser tão chatos quanto ela.
O trajeto até a casa de Gabriele foi um exercício de silêncio punitivo. Gabriele dirigia com as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Ao seu lado, Hylda mantinha a janela aberta, acendendo um cigarro apesar de saber que Gabriele detestava o cheiro dentro do carro.
Assim que entraram no apartamento de Gabriele — um lugar onde cada livro estava em ordem alfabética e o chão de madeira brilhava de tão limpo —, a explosão aconteceu.
— Você perdeu completamente o juízo? — Gabriele explodiu, jogando a bolsa sobre o sofá de linho. — O que foi aquilo, Hylda? Aquelas insinuações, aquele toque... na frente de todos!
Hylda fechou a porta com o pé e cruzou os braços, encarando-a com um olhar que misturava cansaço e desafio.
— Insinuações? Eu não insinuei nada, Gabriele. Eu falei a verdade. Ou você vai me dizer que a gente não dorme no mesmo colchão há quatro meses?
— Isso não é da conta deles! — Gabriele gritou, a voz falhando. — Eu tenho uma reputação, uma vida... eu não sou como você, que sai por aí gritando para o mundo o que faz ou deixa de fazer.
— Como eu? — Hylda deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Gabriele. — Você quer dizer uma ex-viciada que trabalha com graxa e não tem vergonha de quem é? É isso? Você tem vergonha de mim, Gabriele. Admite logo. É por isso que você me apresenta como a "grande amiga". É por isso que você fica toda dura quando eu tento te dar um beijo em público.
— Não é vergonha de você — Gabriele desviou o olhar, sentindo as lágrimas arderem. — É medo. Você não entende, você nunca entendeu. Eu passei a vida inteira tentando ser perfeita para que ninguém pudesse me apontar o dedo. E aí você chega, com esse barulho todo, derrubando todas as minhas prateleiras...
— Eu não estou derrubando nada, eu estou te libertando dessa biblioteca mofada que você chama de vida! — Hylda segurou o rosto de Gabriele com as duas mãos. Suas palmas eram ásperas, mas o toque era surpreendentemente gentil. — Aquelas pessoas no jantar não dão a mínima para você. Eles gostam da "Gabriele organizada". Eu amo a Gabriele que perde o fôlego quando eu mordo o ombro dela. Eu amo a Gabriele que fala palavrão baixinho quando está brava.
Gabriele tentou se soltar, mas Hylda a manteve ali, forçando o contato visual.
— Você me trata como um segredo sujo — continuou Hylda, a voz agora num tom mais baixo, quase uma ferida aberta. — E eu já tive segredos demais na vida, Gabi. Eu já me escondi em becos para usar droga, já me escondi de polícia. Eu não vou me esconder de amor. Se você não consegue dizer para aquelas pessoas que eu sou a sua mulher, então talvez você não me mereça.
— "Minha mulher"? — Gabriele repetiu, num sussurro horrorizado. — Você disse isso para o garçom quando eu fui ao banheiro!
— Disse e diria de novo — Hylda sorriu, mas não era o sorriso provocador de antes. Era algo mais triste. — Porque é isso que eu sinto. Mas você... você prefere a solidão elegante. Ela combina com a decoração, não é?
Hylda soltou o rosto dela e caminhou em direção à porta. O pânico subiu pela garganta de Gabriele como um ácido. A ideia de ver Hylda saindo por aquela porta, levando consigo o cheiro de óleo, a risada escandalosa e a vida que ela tinha trazido para aquele apartamento estéril, era insuportável.
— Hylda, espere! — Gabriele correu e segurou o braço da jaqueta de couro.
Hylda parou, mas não se virou.
— Eu sou uma covarde — confessou Gabriele, as lágrimas finalmente caindo. — Eu sou uma covarde e eu tenho traumas que você nem imagina. Toda vez que eu tento ser feliz, eu sinto que o teto vai desabar. Eu chamo você de amiga porque... porque se eu admitir o que você é para mim, eu perco o controle. E o controle é tudo o que eu tenho.
Hylda virou-se devagar. Ela viu a mulher impecável diante dela desmoronando, a máscara de seda rasgada.
— Você não tem só o controle, meu amor — Hylda disse, aproximando-se novamente. — Você tem a mim. Mas eu não sou um livro que você pode catalogar e guardar na estante quando termina de ler.
— Eu sei — Gabriele soluçou, escondendo o rosto no peito de Hylda. — Eu sei.
Hylda envolveu-a em um abraço apertado, o tipo de abraço que não pedia permissão e que ocupava todo o espaço do corredor. Ela beijou o topo da cabeça de Gabriele, sentindo o cheiro de xampu caro misturar-se ao seu próprio cheiro de cigarro.
— Você vai ter que aprender, madame — Hylda murmurou contra o cabelo dela. — Vai ter que aprender que a ferrugem também faz parte da peça. Se a gente não se sujar um pouco, a máquina não funciona.
Gabriele respirou fundo, preenchendo os pulmões com o aroma de Hylda. Era um cheiro que ela costumava detestar, mas que agora significava "casa" mais do que qualquer ordem alfabética jamais significaria.
— Eu vou tentar — prometeu Gabriele, a voz abafada.
— Vai tentar o quê? — Hylda afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela, um brilho travesso voltando ao olhar.
— Vou tentar não morrer de vergonha na próxima vez que você disser que eu sou sua mulher.
Hylda soltou uma gargalhada alta, que ecoou pelas paredes limpas do apartamento.
— "Tentar" não é bom o suficiente. Na próxima vez, eu vou querer que você confirme. E com um beijo. Na frente daquela sua amiga magrela da biblioteca, a que olha para mim como se eu fosse um vazamento de esgoto.
Gabriele deu um sorriso fraco, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
— A Margareth? Ela morreria de um ataque cardíaco.
— Pois que morra — Hylda deu de ombros, puxando Gabriele pela cintura para mais perto. — Pelo menos ela morreria vendo algo interessante pela primeira vez na vida.
Hylda inclinou-se e beijou Gabriele. Não foi um beijo de "grandes amigas". Foi um beijo carregado de história, de redenção e de uma possessividade que Gabriele, pela primeira vez, não sentiu vontade de organizar ou esconder.
— Agora — Hylda disse, interrompendo o beijo com um sorriso malicioso —, você vai me fazer um favor.
— Qual? — perguntou Gabriele, ainda um pouco tonta.
— Vai jogar esse vinho chique fora e me dar uma cerveja. E depois, madame... — Hylda baixou a voz, a boca roçando a orelha de Gabriele. — ...você vai me mostrar se aquela sua saia de grife é tão difícil de tirar quanto parece.
Gabriele sentiu o rosto queimar novamente, mas desta vez, ela não desviou o olhar. Ela apenas segurou a mão tatuada de Hylda e a conduziu para dentro, deixando para trás o silêncio e a perfeição, em direção ao caos que, finalmente, a fazia se sentir viva.
