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O reencontro

Fandom: Telenovelas

Criado: 15/05/2026

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Lodo, Sangue e Destino

As rodas do avião haviam tocado o solo mexicano com um impacto que Jimena Salmerón sentiu reverberar em cada vértebra de sua coluna. Para ela, aquele não era apenas o fim de uma jornada transatlântica de dez horas, mas o batismo de uma nova existência. Enquanto caminhava pelo saguão do aeroporto e, posteriormente, enfrentava as duas horas de ônibus até San Miguel de Allende, a jovem de vinte e cinco anos sentia o peso da liberdade — uma sensação inebriante que contrastava com a rigidez branca e asséptica dos hospitais onde exercera a enfermagem na Espanha. Jimena era uma visão de contrastes: a pele morena clara, herdada de uma linhagem que parecia misturar o calor latino com o mistério das areias do Oriente Médio, brilhava sob a luz artificial, enquanto seus olhos castanhos, profundos e alertas, escaneavam cada rosto no desembarque da rodoviária.

O relógio em seu pulso marcava dez da manhã. O ar de San Miguel era diferente do ar de Madri; era mais denso, carregado de uma umidade que prometia chuva e do cheiro de terra que ela mal recordava da infância. Jimena ajeitou a alça de sua única mala, uma peça de couro que continha não apenas roupas, mas o segredo de sua nova vida. Ela não viera para ser a enfermeira dedicada que o pai idealizara; viera para ser a chama que iluminaria as noites de um cabaré exclusivo, um mundo de apostas e sedução onde sua dança seria a moeda de troca.

¿Dónde estás, Juliana? — murmurou para si mesma, os lábios carnudos comprimidos em uma linha de leve frustração.

Ela se sentou em um dos bancos de madeira gasta da rodoviária. Ao seu redor, o espetáculo da vida acontecia em câmera lenta. Viu um senhor abraçar o neto com uma força que parecia querer fundir os dois corpos; viu um casal trocar beijos apaixonados após uma ausência que, pelo fervor, deve ter durado eras. Jimena sentiu uma pontada de ternura, um calor no peito que a fazia sorrir minimamente. Ela sempre fora a observadora, a mulher que guardava o mistério sob uma fachada extrovertida. No entanto, a ternura logo deu lugar à inquietação. Quinze minutos se passaram. Trinta. Uma hora.

O céu, que antes ostentava um azul pálido, fechou-se em um cinza plúmbeo. A chuva de primavera começou a cair, primeiro como um sussurro nas telhas metálicas, depois como um rugido constante que isolava a rodoviária do resto do mundo. Jimena buscou o celular na bolsa, mas a tela permanecia negra, sem vida. A bateria a traíra no momento em que ela mais precisava. O cansaço da viagem começou a pesar em seus ombros esbeltos, e a fome, uma garra persistente em seu estômago, tornava seu humor volátil. Ela não era mulher de esperar pelo destino; ela o laçava e o domava.

No me quedaré aquí sentada como uma idiota — sibilou, levantando-se com uma determinação que fazia seus 1,63m de altura parecerem muito mais imponentes.

Com a mala a tiracolo, ela saiu para a calçada molhada. O vento frio da chuva chicoteou seus cabelos escuros, mas Jimena mal sentiu. Ela avistou o ponto de táxi do outro lado da rua, uma pequena guarita onde alguns carros brancos aguardavam. Ajustando a postura, ela se preparou para atravessar, o corpo esguio de 56kg movendo-se com a agilidade de quem passara anos praticando dança em segredo nos quartos da Espanha.

Foi então que o caos se manifestou sob a forma de metal e velocidade.

Um utilitário de luxo, negro e imponente, surgiu como uma fera mecânica, rasgando a cortina de chuva em uma velocidade incompatível com a via urbana. Jimena não teve tempo de recuar. O pneu do veículo atingiu uma poça profunda acumulada junto à guia, e uma onda de água barrenta e fria foi projetada contra ela. O impacto do líquido ensopou sua calça, subiu pelo torso e atingiu parte de seu rosto, deixando o sabor amargo da terra em seus lábios.

O carro parou alguns metros à frente, os freios guinchando sob a chuva. Jimena ficou paralisada. A água escorria por suas bochechas, manchando a blusa clara que ela escolhera com tanto cuidado para impressionar a irmã. O choque inicial foi substituído por uma labareda de raiva que subiu por sua garganta como lava.

¡Hijo de la madre! — o grito escapou de seus pulmões com uma força visceral, ecoando por cima do som da chuva.

Ela limpou o rosto com as costas da mão, os olhos castanhos agora transformados em brasas vivas. Do carro, um homem desembarcou. Ele era alto, quase 1,85m, com uma presença que exalava autoridade e um tipo de masculinidade rústica, porém refinada. Trajava uma jaqueta de couro que parecia brilhar sob a água, calças jeans e botas que denunciavam alguém que conhecia tanto o asfalto quanto o barro das fazendas. Ele se aproximou apressadamente, as mãos estendidas em um gesto de desculpas, a expressão carregada de uma preocupação que Jimena, em seu estado colérico, não estava disposta a aceitar.

Jimena virou o rosto lentamente para ele. Seus traços latinos, geralmente suaves, estavam endurecidos pela indignação. Ela o encarou com um desprezo quase palpável, os cabelos grudados na testa, a respiração ofegante que fazia seu peito subir e descer rapidamente.

¿Si estoy bien? ¿Crees que estou bien? — a voz dela saiu em um tom cortante, cada palavra uma adaga. — ¡Mira cómo me dejaste, idiota!

Ela apontou para as próprias roupas, o tecido agora pesado e escuro pela umidade. A humilhação de estar ali, no meio da rua, parecendo uma refugiada da própria sorte, era demais para seu orgulho.

Solo... solo quería un taxi y descansar — continuou ela, agora com um tom de lassidão que traía à tona todo o esgotamento das últimas doze horas. — Mi vida no es un maldito espectáculo para que me bañes en lodo.

O homem continuava a falar, as palavras de desculpas saindo de sua boca enquanto ele tentava, de alguma forma, remediar o irremediável. Jimena, no entanto, não o ouvia mais com atenção. Ela o avaliava. Havia algo no olhar escuro daquele estranho, algo que cheirava a poder e, talvez, a uma culpa que ela poderia usar a seu favor. Jimena Salmerón sempre fora articulosa. Se a vida lhe dava lama, ela a transformava em degrau.

Uma ideia reluziu em sua mente, tão rápida quanto um raio. Juliana não viera. O celular estava morto. Ela estava ensopada. E aquele homem, o causador de sua miséria momentânea, tinha um carro confortável e seco.

Escúchame bien — disse ela, interrompendo o fluxo de desculpas dele com um gesto imperioso da mão. — Llevarme a la hacienda de mi hermana sería una excelente disculpa. Es lo mínimo que puedes hacer después de este desastre.

Jimena não esperou por uma resposta. Ela não era uma mulher que pedia permissão; ela tomava o que considerava seu por direito. Com um movimento brusco e decidido, ela caminhou até o veículo. Abriu a porta traseira com um solavanco e jogou sua mala sobre o estofado de couro fino, sem se importar se a umidade estragaria o interior luxuoso. Em seguida, contornou o carro e abriu a porta do passageiro dianteiro, acomodando-se antes que o desconhecido pudesse processar o que estava acontecendo.

O interior do carro cheirava a couro novo e a um perfume masculino amadeirado, um refúgio de calor contra a tempestade lá fora. Jimena recostou-se no banco, fechando os olhos por um segundo enquanto sentia o conforto do assento. Quando o homem finalmente entrou no carro, parecendo atordoado pela audácia daquela mulher que acabara de sequestrar sua hospitalidade, ela nem sequer abriu os olhos para encará-lo de imediato.

Llévame a la hacienda El Primor — ordenou ela, a voz agora recuperando a autoridade de quem nasceu para ser servida. — Mi hermana y su familia me esperan. Y por favor, pon la calefacción, que estoy temblando.

Ela sentiu o peso do olhar dele sobre si. Podia sentir a curiosidade e o espanto emanando do motorista, mas manteve sua fachada de indiferença. Jimena Salmerón havia chegado ao México. E, embora não soubesse que aquele homem era Norberto Palacios, o patriarca da família que a acolheria e o marido de sua irmã, ela sabia de uma coisa: sua vida na Hacienda El Primor começaria exatamente como ela planejava viver seus segredos na noite mexicana.

Com fogo, audácia e o poder de dobrar os homens à sua vontade.

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