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Amor não correspondido
Fandom: Michael Jackson
Criado: 16/05/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoAbuso de ÁlcoolUso de DrogasCiúmesEstudo de Personagem
Sombras sob o Brilho de Encino
A fumaça do cigarro barato se misturava ao perfume caro que eu ainda insistia em usar, criando uma névoa densa dentro do carro de Tyler. Pela janela embaçada, as luzes de Los Angeles pareciam borrões de tinta neon sobre um fundo preto. Eu sentia meu corpo leve, uma dormência deliciosa que começava na ponta dos dedos e subia até o topo da minha cabeça, fazendo com que o peso da realidade finalmente desse uma trégua.
Eu sabia que, em algum lugar daquela cidade, na mansão dos Jackson, as famílias estavam reunidas. Meus pais provavelmente estavam rindo com Katherine, compartilhando histórias antigas enquanto tomavam vinho. E Jaafar... Jaafar estaria lá. Com aquele sorriso que parecia iluminar até os cantos mais escuros de uma sala. E ela estaria ao lado dele.
Apertei o copo plástico de bebida, sentindo o líquido amargo descer queimando pela garganta.
— Ei, Rebeca, você tá em Marte de novo? — Tyler riu, passando o braço pelos meus ombros. Ele cheirava a suor e a algo metálico que eu preferia não identificar.
— Estou exatamente onde quero estar — respondi, minha voz saindo um pouco mais arrastada do que o planejado.
Olhei-me pelo retrovisor. Meus cabelos ruivos estavam bagunçados, caindo sobre os ombros de forma desordenada. As sardas que Jaafar costumava dizer que pareciam "constelações na minha pele" agora pareciam manchas sob a luz fraca do painel. Eu odiava o quanto eu parecia vulnerável, mesmo tentando ser o oposto. Eu era a garota gordinha e doce que todos amavam proteger, mas aquela garota tinha morrido no dia em que Jaafar anunciou o namoro.
O telefone no meu bolso vibrou pela décima vez. Eu não precisei olhar para saber quem era. Minha mãe estaria histérica. Ou talvez fosse ele. Jaafar tinha essa mania irritante de se importar, de querer ser o "irmão mais velho" protetor, mesmo que não fôssemos sangue do mesmo sangue.
— Vamos sair daqui — eu disse, empurrando a porta do carro. — Essa festa está ficando chata. Quero algo mais forte.
— Essa é a minha garota — Tyler exclamou, descendo logo atrás de mim.
A madrugada estava fria, mas eu não sentia nada. Minha rebeldia era meu cobertor. Fugir de casa às duas da manhã tinha se tornado um vício, uma forma de gritar sem emitir som. Se eu não podia ter o amor de Jaafar, eu teria a atenção dele através da preocupação. Era doentio, eu sabia. Mas a dor de vê-lo tocar outra pessoa, de vê-lo olhar para aquela modelo com os mesmos olhos que eu desejava que fossem para mim, era insuportável.
Duas horas depois, eu estava em um clube de subsolo, onde a música era tão alta que fazia meu peito vibrar. Eu estava na minha terceira dose de algo azul e brilhante quando senti uma mão firme segurar meu pulso.
O toque era quente, familiar. Meu coração deu um solavanco antes mesmo de eu me virar.
— Rebeca, chega. Vamos para casa.
Eu me virei lentamente, deparando-me com aqueles olhos escuros e profundos. Jaafar estava ali, destoando completamente do ambiente sujo e decadente. Ele vestia uma jaqueta escura, o rosto tenso, a mandíbula cerrada. Ele era alto, imponente, e a beleza dele doía de se ver.
— O que você está fazendo aqui, Jaafar? — Eu tentei puxar meu braço, mas ele não soltou. — Vá voltar para a sua namorada perfeita.
— Sua mãe está passando mal de preocupação — ele disse, ignorando minha provocação. A voz dele era baixa, mas cortante. — Eu disse a ela que te encontraria. Não acredito que você se meteu nesse buraco de novo.
— Eu sou adulta, Jaafar! — gritei por cima da música, sentindo as lágrimas de frustração queimarem meus olhos. — Eu faço o que eu quiser!
— Beber até cair e andar com gente que só quer te usar não é ser adulta — ele rebateu, dando um passo para mais perto. O cheiro dele, uma mistura de sândalo e pele limpa, invadiu meus sentidos, desarmando minha defesa por um segundo. — É autodestruição. E eu não vou deixar você se destruir.
— Por que você se importa? — Minha voz falhou. — Por que você simplesmente não me deixa em paz para eu sumir de vez?
— Porque eu te amo, Rebeca — ele soltou, a expressão suavizando por um breve momento antes de endurecer novamente. — Você é parte da minha vida. Eu não consigo respirar sabendo que você está por aí correndo risco.
— Você ama a sua namorada — eu cuspi as palavras, sentindo o veneno do ciúme. — Você me ama como uma irmã, como um bichinho de estimação que precisa de cuidados. Eu não quero esse tipo de amor, Jaafar!
Houve um silêncio pesado entre nós, apesar do barulho ensurdecedor ao redor. Jaafar me olhou de uma forma diferente, um olhar que vasculhava minha alma, entendendo finalmente o que estava por trás daquelas fugas e daquele comportamento errático.
— Vamos embora — ele disse, desta vez mais suavemente, mas sem soltar minha mão. — Por favor. Só por hoje, faça o que eu peço.
Eu não tinha mais forças para lutar. O efeito das substâncias estava começando a se transformar em uma náusea terrível e uma tristeza profunda. Deixei que ele me guiasse para fora do clube, através da multidão, até o ar fresco da noite.
O carro dele estava estacionado na esquina. Ele abriu a porta para mim com a gentileza de sempre, aquela gentileza que me matava aos poucos. O trajeto até Encino foi silencioso. Eu encostei a cabeça no vidro frio, observando as luzes passarem.
— Você está usando coisas que não deveria, não está? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
— O que te faz pensar isso? — respondi, tentando manter a pose, mas minha voz estava trêmula.
— Eu te conheço desde que você usava laços no cabelo e chorava quando perdia suas bonecas — ele disse, com um meio sorriso triste. — Eu conheço o brilho dos seus olhos. E esse brilho que eu vi lá dentro... não era seu. Era artificial.
— Tudo na minha vida parece artificial agora — confessei, fechando os olhos. — Eu me sinto pesada, Jaafar. Não é só o meu corpo. É a minha alma. Sinto que estou afundando e ninguém percebe.
— Eu percebo — ele sussurrou. — Eu sempre percebo.
Ele estacionou o carro, mas não em frente à minha casa. Estávamos em um mirante de onde era possível ver todo o vale. Ele desligou o motor e se virou para mim.
— Por que você está fazendo isso consigo mesma, Beca? — O apelido de infância me atingiu como um soco. — Você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Você é inteligente, é linda, tem um coração que não cabe no peito. Por que jogar tudo fora?
— Porque dói ver você com ela! — A verdade saiu antes que eu pudesse contê-la. O choro rompeu, pesado e soluçante. — Dói saber que eu nunca vou ser o tipo de garota que você apresenta para o mundo. Eu sou a "amiga de infância", a garota gordinha e engraçada que mora na casa ao lado. Eu nunca vou ser... ela.
Jaafar ficou em silêncio por um longo tempo. O único som era o meu choro descontrolado. Eu escondi o rosto nas mãos, sentindo-me patética. Eu tinha estragado tudo. Tinha confessado meus sentimentos da pior forma possível, no pior estado possível.
Senti as mãos dele nas minhas, afastando-as do meu rosto com delicadeza.
— Rebeca, olha para mim — ele pediu.
Eu levantei os olhos, a visão embaçada pelas lágrimas. Jaafar estava perto, tão perto que eu conseguia ver as pequenas sardas que ele também tinha no nariz, um detalhe que pouca gente notava.
— Você acha mesmo que eu ligo para padrões? — Ele tocou meu rosto, o polegar acariciando minha bochecha. — Você acha que a beleza dela chega aos pés da luz que você emana quando está sendo você mesma?
— Você está namorando com ela — lembrei, com a voz embargada.
— As coisas nem sempre são o que parecem — ele suspirou, encostando a testa na minha. — Às vezes, a gente faz escolhas porque acha que é o que esperam de nós. Às vezes, a gente tem medo de estragar algo precioso demais tentando transformá-lo em outra coisa.
— Do que você está falando? — perguntei, o coração batendo tão forte que eu achei que ele pudesse ouvir.
— Eu tive medo, Rebeca — ele confessou. — Medo de que, se eu tentasse algo com você e não desse certo, eu perderia minha melhor amiga. Perderia a família que construímos juntos. Então eu tentei seguir em frente. Tentei encontrar em outras pessoas o que só encontro em você.
— Jaafar...
— Mas ver você assim... — Ele balançou a cabeça, os olhos cheios de mágoa. — Ver você se destruindo por causa de um vazio que eu ajudei a criar... eu não posso suportar isso. Eu prefiro arriscar tudo do que ver você desaparecer.
Ele se aproximou mais, e eu prendi a respiração. O beijo foi lento, com gosto de arrependimento e de promessa. Foi o encontro de dois mundos que passaram tempo demais orbitando um ao outro sem nunca se tocarem de verdade. Naquele momento, a dormência das drogas e do álcool desapareceu, substituída por uma eletricidade real, vívida.
Quando nos separamos, ele ainda segurava meu rosto como se eu fosse feita de cristal.
— Mas isso não muda o fato de que você precisa de ajuda — ele disse, com seriedade. — O que você está fazendo com essas festas e essas substâncias... isso tem que parar, Rebeca. Eu não vou ser o seu salvador se você não quiser ser salva.
— Eu quero — eu disse, e pela primeira vez em meses, eu estava sendo sincera. — Eu só queria parar de sentir dor.
— Eu sei — ele me puxou para um abraço, acomodando minha cabeça em seu peito. — Mas agora eu estou aqui. E eu não vou a lugar nenhum.
— E a sua namorada? — perguntei baixinho contra a jaqueta dele.
— Eu vou resolver isso — ele garantiu. — Amanhã. Mas hoje, eu vou te levar para casa, vou te dar um banho, um chá e garantir que você durma em segurança. E a partir de amanhã, vamos consertar as coisas. Juntos.
Enquanto ele ligava o carro e começava a dirigir de volta para a nossa rua, eu olhei para as minhas mãos. Elas ainda tremiam um pouco, mas o vazio no meu peito não parecia mais um buraco negro. Pela primeira vez, o brilho de Encino não parecia opressor. Era apenas o começo de uma longa caminhada, mas eu não estaria mais correndo no escuro.
Jaafar segurou minha mão durante todo o caminho, e aquele aperto era mais forte do que qualquer rebeldia que eu pudesse inventar. Eu era a ruiva de sardas, a garota que ele amava, e finalmente, eu estava voltando para casa.
Eu sabia que, em algum lugar daquela cidade, na mansão dos Jackson, as famílias estavam reunidas. Meus pais provavelmente estavam rindo com Katherine, compartilhando histórias antigas enquanto tomavam vinho. E Jaafar... Jaafar estaria lá. Com aquele sorriso que parecia iluminar até os cantos mais escuros de uma sala. E ela estaria ao lado dele.
Apertei o copo plástico de bebida, sentindo o líquido amargo descer queimando pela garganta.
— Ei, Rebeca, você tá em Marte de novo? — Tyler riu, passando o braço pelos meus ombros. Ele cheirava a suor e a algo metálico que eu preferia não identificar.
— Estou exatamente onde quero estar — respondi, minha voz saindo um pouco mais arrastada do que o planejado.
Olhei-me pelo retrovisor. Meus cabelos ruivos estavam bagunçados, caindo sobre os ombros de forma desordenada. As sardas que Jaafar costumava dizer que pareciam "constelações na minha pele" agora pareciam manchas sob a luz fraca do painel. Eu odiava o quanto eu parecia vulnerável, mesmo tentando ser o oposto. Eu era a garota gordinha e doce que todos amavam proteger, mas aquela garota tinha morrido no dia em que Jaafar anunciou o namoro.
O telefone no meu bolso vibrou pela décima vez. Eu não precisei olhar para saber quem era. Minha mãe estaria histérica. Ou talvez fosse ele. Jaafar tinha essa mania irritante de se importar, de querer ser o "irmão mais velho" protetor, mesmo que não fôssemos sangue do mesmo sangue.
— Vamos sair daqui — eu disse, empurrando a porta do carro. — Essa festa está ficando chata. Quero algo mais forte.
— Essa é a minha garota — Tyler exclamou, descendo logo atrás de mim.
A madrugada estava fria, mas eu não sentia nada. Minha rebeldia era meu cobertor. Fugir de casa às duas da manhã tinha se tornado um vício, uma forma de gritar sem emitir som. Se eu não podia ter o amor de Jaafar, eu teria a atenção dele através da preocupação. Era doentio, eu sabia. Mas a dor de vê-lo tocar outra pessoa, de vê-lo olhar para aquela modelo com os mesmos olhos que eu desejava que fossem para mim, era insuportável.
Duas horas depois, eu estava em um clube de subsolo, onde a música era tão alta que fazia meu peito vibrar. Eu estava na minha terceira dose de algo azul e brilhante quando senti uma mão firme segurar meu pulso.
O toque era quente, familiar. Meu coração deu um solavanco antes mesmo de eu me virar.
— Rebeca, chega. Vamos para casa.
Eu me virei lentamente, deparando-me com aqueles olhos escuros e profundos. Jaafar estava ali, destoando completamente do ambiente sujo e decadente. Ele vestia uma jaqueta escura, o rosto tenso, a mandíbula cerrada. Ele era alto, imponente, e a beleza dele doía de se ver.
— O que você está fazendo aqui, Jaafar? — Eu tentei puxar meu braço, mas ele não soltou. — Vá voltar para a sua namorada perfeita.
— Sua mãe está passando mal de preocupação — ele disse, ignorando minha provocação. A voz dele era baixa, mas cortante. — Eu disse a ela que te encontraria. Não acredito que você se meteu nesse buraco de novo.
— Eu sou adulta, Jaafar! — gritei por cima da música, sentindo as lágrimas de frustração queimarem meus olhos. — Eu faço o que eu quiser!
— Beber até cair e andar com gente que só quer te usar não é ser adulta — ele rebateu, dando um passo para mais perto. O cheiro dele, uma mistura de sândalo e pele limpa, invadiu meus sentidos, desarmando minha defesa por um segundo. — É autodestruição. E eu não vou deixar você se destruir.
— Por que você se importa? — Minha voz falhou. — Por que você simplesmente não me deixa em paz para eu sumir de vez?
— Porque eu te amo, Rebeca — ele soltou, a expressão suavizando por um breve momento antes de endurecer novamente. — Você é parte da minha vida. Eu não consigo respirar sabendo que você está por aí correndo risco.
— Você ama a sua namorada — eu cuspi as palavras, sentindo o veneno do ciúme. — Você me ama como uma irmã, como um bichinho de estimação que precisa de cuidados. Eu não quero esse tipo de amor, Jaafar!
Houve um silêncio pesado entre nós, apesar do barulho ensurdecedor ao redor. Jaafar me olhou de uma forma diferente, um olhar que vasculhava minha alma, entendendo finalmente o que estava por trás daquelas fugas e daquele comportamento errático.
— Vamos embora — ele disse, desta vez mais suavemente, mas sem soltar minha mão. — Por favor. Só por hoje, faça o que eu peço.
Eu não tinha mais forças para lutar. O efeito das substâncias estava começando a se transformar em uma náusea terrível e uma tristeza profunda. Deixei que ele me guiasse para fora do clube, através da multidão, até o ar fresco da noite.
O carro dele estava estacionado na esquina. Ele abriu a porta para mim com a gentileza de sempre, aquela gentileza que me matava aos poucos. O trajeto até Encino foi silencioso. Eu encostei a cabeça no vidro frio, observando as luzes passarem.
— Você está usando coisas que não deveria, não está? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
— O que te faz pensar isso? — respondi, tentando manter a pose, mas minha voz estava trêmula.
— Eu te conheço desde que você usava laços no cabelo e chorava quando perdia suas bonecas — ele disse, com um meio sorriso triste. — Eu conheço o brilho dos seus olhos. E esse brilho que eu vi lá dentro... não era seu. Era artificial.
— Tudo na minha vida parece artificial agora — confessei, fechando os olhos. — Eu me sinto pesada, Jaafar. Não é só o meu corpo. É a minha alma. Sinto que estou afundando e ninguém percebe.
— Eu percebo — ele sussurrou. — Eu sempre percebo.
Ele estacionou o carro, mas não em frente à minha casa. Estávamos em um mirante de onde era possível ver todo o vale. Ele desligou o motor e se virou para mim.
— Por que você está fazendo isso consigo mesma, Beca? — O apelido de infância me atingiu como um soco. — Você é a pessoa mais incrível que eu conheço. Você é inteligente, é linda, tem um coração que não cabe no peito. Por que jogar tudo fora?
— Porque dói ver você com ela! — A verdade saiu antes que eu pudesse contê-la. O choro rompeu, pesado e soluçante. — Dói saber que eu nunca vou ser o tipo de garota que você apresenta para o mundo. Eu sou a "amiga de infância", a garota gordinha e engraçada que mora na casa ao lado. Eu nunca vou ser... ela.
Jaafar ficou em silêncio por um longo tempo. O único som era o meu choro descontrolado. Eu escondi o rosto nas mãos, sentindo-me patética. Eu tinha estragado tudo. Tinha confessado meus sentimentos da pior forma possível, no pior estado possível.
Senti as mãos dele nas minhas, afastando-as do meu rosto com delicadeza.
— Rebeca, olha para mim — ele pediu.
Eu levantei os olhos, a visão embaçada pelas lágrimas. Jaafar estava perto, tão perto que eu conseguia ver as pequenas sardas que ele também tinha no nariz, um detalhe que pouca gente notava.
— Você acha mesmo que eu ligo para padrões? — Ele tocou meu rosto, o polegar acariciando minha bochecha. — Você acha que a beleza dela chega aos pés da luz que você emana quando está sendo você mesma?
— Você está namorando com ela — lembrei, com a voz embargada.
— As coisas nem sempre são o que parecem — ele suspirou, encostando a testa na minha. — Às vezes, a gente faz escolhas porque acha que é o que esperam de nós. Às vezes, a gente tem medo de estragar algo precioso demais tentando transformá-lo em outra coisa.
— Do que você está falando? — perguntei, o coração batendo tão forte que eu achei que ele pudesse ouvir.
— Eu tive medo, Rebeca — ele confessou. — Medo de que, se eu tentasse algo com você e não desse certo, eu perderia minha melhor amiga. Perderia a família que construímos juntos. Então eu tentei seguir em frente. Tentei encontrar em outras pessoas o que só encontro em você.
— Jaafar...
— Mas ver você assim... — Ele balançou a cabeça, os olhos cheios de mágoa. — Ver você se destruindo por causa de um vazio que eu ajudei a criar... eu não posso suportar isso. Eu prefiro arriscar tudo do que ver você desaparecer.
Ele se aproximou mais, e eu prendi a respiração. O beijo foi lento, com gosto de arrependimento e de promessa. Foi o encontro de dois mundos que passaram tempo demais orbitando um ao outro sem nunca se tocarem de verdade. Naquele momento, a dormência das drogas e do álcool desapareceu, substituída por uma eletricidade real, vívida.
Quando nos separamos, ele ainda segurava meu rosto como se eu fosse feita de cristal.
— Mas isso não muda o fato de que você precisa de ajuda — ele disse, com seriedade. — O que você está fazendo com essas festas e essas substâncias... isso tem que parar, Rebeca. Eu não vou ser o seu salvador se você não quiser ser salva.
— Eu quero — eu disse, e pela primeira vez em meses, eu estava sendo sincera. — Eu só queria parar de sentir dor.
— Eu sei — ele me puxou para um abraço, acomodando minha cabeça em seu peito. — Mas agora eu estou aqui. E eu não vou a lugar nenhum.
— E a sua namorada? — perguntei baixinho contra a jaqueta dele.
— Eu vou resolver isso — ele garantiu. — Amanhã. Mas hoje, eu vou te levar para casa, vou te dar um banho, um chá e garantir que você durma em segurança. E a partir de amanhã, vamos consertar as coisas. Juntos.
Enquanto ele ligava o carro e começava a dirigir de volta para a nossa rua, eu olhei para as minhas mãos. Elas ainda tremiam um pouco, mas o vazio no meu peito não parecia mais um buraco negro. Pela primeira vez, o brilho de Encino não parecia opressor. Era apenas o começo de uma longa caminhada, mas eu não estaria mais correndo no escuro.
Jaafar segurou minha mão durante todo o caminho, e aquele aperto era mais forte do que qualquer rebeldia que eu pudesse inventar. Eu era a ruiva de sardas, a garota que ele amava, e finalmente, eu estava voltando para casa.
