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Será isso mesmo?

Fandom: Stranger things

Criado: 16/05/2026

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O Tabuleiro do Abandono

Will Byers sentia-se como um fantasma que assombra a própria casa. Ele estava lá, fisicamente presente no porão dos Wheeler, mas sua voz parecia viajar por frequências que ninguém mais sintonizava. O mapa de Dungeons & Dragons estava estendido sobre a mesa, mas os olhos de Mike não estavam nos dados ou nas miniaturas. Estavam na escada, esperando o momento em que Eleven desceria, ou no relógio, contando os minutos para o próximo encontro deles.

— Mike, é a sua vez. O clérigo está cercado — disse Will, a voz falhando levemente.

Mike nem sequer desviou o olhar da porta.

— Tanto faz, Will. Escolha qualquer coisa por mim. El deve estar chegando para irmos ao cinema.

— Mas a campanha... levamos semanas planejando isso — insistiu Will, sentindo aquele nó familiar na garganta.

— Cara, é só um jogo — Mike respondeu, finalmente olhando para ele, mas com uma expressão de tédio que doía mais do que um sinto-muito. — A gente cresceu. Você devia tentar fazer o mesmo.

Dustin e Lucas trocaram olhares desconfortáveis. Eles sentiam a tensão, mas o entusiasmo pelo Hellfire Club e a pressão social do ensino médio os mantinham em uma órbita diferente. Eles queriam que Will se divertisse, mas também não queriam confrontar Mike e estragar o clima do grupo.

Will sentiu o peso do "menino que desapareceu" retornar. Ele não era mais o centro das atenções por estar em perigo; agora, era apenas um estorvo que insistia em manter viva uma infância que os outros já tinham enterrado. Ele guardou seu conjunto de dados lentamente. O silêncio que se seguiu não foi preenchido por protestos de Mike, mas pelo som de seus passos subindo as escadas para encontrar Eleven.

Naquela noite, no escuro do seu quarto, Will tomou uma decisão. Ele não seria mais o espectador da vida de Mike Wheeler. O orgulho, que antes ele sacrificava em nome da amizade, agora se tornava sua única armadura.

— Chega — sussurrou para o vazio. — Eu não vou mais implorar por um lugar à mesa.

Nas duas semanas seguintes, Will Byers tornou-se um mestre na arte da ausência. Ele parou de ligar pelo rádio, parou de esperar no armário de Mike entre as aulas e começou a almoçar na biblioteca.

Mike notou, é claro. No início, foi um alívio. "Menos drama", ele pensou, convencido de que Will estava apenas fazendo uma de suas cenas sentimentais e que logo voltaria rastejando, pedindo para jogar. Mas, conforme os dias viraram semanas, o silêncio de Will começou a ecoar nas paredes da escola.

— Onde está o Will? — perguntou Dustin, enquanto eles caminhavam pelo corredor. — Ele não apareceu na reunião do Hellfire ontem. O Eddie ficou perguntando dele.

— Ele deve estar desenhando em algum canto — Mike deu de ombros, embora seus olhos vasculhassem o corredor inconscientemente. — Ele está sendo infantil. Sabe como ele é.

— Ele não parece infantil, Mike — rebateu Lucas, sério. — Ele parece... longe.

A confirmação veio na tarde de quarta-feira. Mike estava saindo da sala de biologia quando viu Will. Ele não estava sozinho. Estava rindo — uma risada real, que Mike não ouvia há meses — com um garoto que Mike nunca tinha visto antes. O desconhecido tinha cabelos bagunçados, usava uma camiseta de uma banda de rock progressivo e carregava uma pasta cheia de fichas de personagem.

O nome dele era Julian. Ele era novo em Hawkins, um talentoso artista e, como Will logo descobriu, um mestre de RPG excepcional. Julian não via Will como um trauma ambulante ou como o "terceiro elemento" de um casal; ele via Will como um igual.

— Você devia ver o que o Will desenhou para a nossa nova campanha — disse Julian, passando o braço pelos ombros de Will de forma casual enquanto passavam por Mike. — É o melhor design de dragão que já vi.

Will viu Mike. Seus olhos se cruzaram por um segundo. Mike esperava ver mágoa, esperava ver o pedido silencioso de desculpas. Em vez disso, encontrou um olhar calmo e uma indiferença que o atingiu como um soco no estômago. Will não desviou o olhar por vergonha; ele simplesmente continuou a conversa com Julian como se Mike fosse apenas mais um figurante no corredor.

— Quem é aquele cara? — Mike perguntou a Dustin, a voz carregada de uma irritação que ele não conseguia esconder.

— Aquele é o Julian — respondeu Dustin, com uma ponta de inveja. — Ele montou um novo grupo de RPG, o "Círculo de Prata". Ouvi dizer que eles têm miniaturas pintadas à mão e que o Will é o estrategista principal. Eles são... bem organizados, Mike.

O ciúme de Mike floresceu como uma erva daninha. Ele se convenceu de que Will estava fazendo aquilo apenas para provocá-lo.

— Ele vai voltar — resmungou Mike para si mesmo. — Ele não aguenta ficar longe de nós.

Mas o destino, ou talvez o Mestre do Jogo, tinha outros planos. O conselho estudantil anunciou o Primeiro Torneio Interescolar de RPG de Hawkins. Era uma oportunidade para os clubes ganharem verba para materiais e, claro, prestígio.

O Hellfire Club se inscreveu imediatamente. O Círculo de Prata também.

No dia do torneio, o ginásio da escola estava transformado. Mesas longas, escudos de mestre e o cheiro de salgadinhos e ansiedade preenchiam o ar. Mike liderava o Hellfire com uma arrogância defensiva, enquanto Dustin e Lucas pareciam nervosos. Quando o Círculo de Prata entrou, o silêncio caiu sobre o grupo de Mike.

Will estava diferente. Ele usava uma capa azul escura, parte do "uniforme" do grupo, e parecia mais alto, mais seguro de si. Julian caminhava ao seu lado, conversando animadamente.

As chaves do torneio foram sorteadas. O confronto final, após horas de rodadas intensas, era inevitável: Hellfire Club contra Círculo de Prata.

— Olhem só — disse Mike, aproximando-se da mesa central onde Will já estava sentado. — Decidiu vir brincar com os profissionais, Will?

Will levantou os olhos. Não havia raiva neles, apenas uma frieza analítica.

— Eu decidi jogar com quem realmente quer jogar comigo, Mike — respondeu Will, a voz firme. — Vamos começar?

O jogo era uma simulação de cerco. Cada grupo controlava um exército e um herói principal. Mike, agindo com seu orgulho habitual, tentou uma carga frontal agressiva, esperando intimidar o oponente.

— Eu movo meu guerreiro para o centro! — exclamou Mike, batendo a miniatura na mesa. — Ataque total.

— Você está deixando seu flanco exposto — comentou Dustin, em um sussurro preocupado.

— Eu sei o que estou fazendo! — rebateu Mike.

Julian olhou para Will e assentiu. Will pegou o dado de vinte faces. O silêncio no ginásio era absoluto.

— Eu uso o feitiço de névoa para ocultar meus arqueiros — disse Will calmamente. — E enquanto você foca no centro, eu movo minha cavalaria pelas sombras. Exatamente como você fez no verão de 84, Mike. O problema é que você parou de prestar atenção em como eu jogo.

O movimento foi letal. Will antecipou cada passo de Mike, não porque era um vidente, mas porque conhecia Mike melhor do que qualquer um. E ele usou esse conhecimento não para ferir, mas para vencer o jogo que Mike sempre achou que dominava.

— Xeque-mate, ou melhor... morte súbita — anunciou Julian, sorrindo para Will.

Mike olhou para o tabuleiro, atônito. Suas peças estavam cercadas, seu herói isolado. Ele olhou para Will, esperando ver um sorriso de triunfo, uma provocação. Mas Will estava apenas guardando seus dados, o rosto sereno.

— Bom jogo, Mike — disse Will, levantando-se.

— Will, espera! — Mike deu um passo à frente, o orgulho finalmente rachando sob o peso da perda. — A gente... a gente pode conversar? Depois daqui? Eu, você, o Dustin e o Lucas... como nos velhos tempos?

Will parou e olhou para os três amigos à sua frente. Ele viu o arrependimento nos olhos de Dustin e Lucas, e viu o desespero crescente de Mike. Por um momento, a nostalgia tentou puxá-lo de volta para o porão escuro e seguro.

— Os velhos tempos acabaram, Mike — disse Will, sem crueldade, mas com uma clareza cortante. — Você passou tanto tempo me dizendo para crescer que eu finalmente entendi o que isso significa. Significa saber quando uma fase terminou.

— Mas nós somos amigos! — Mike insistiu, a voz embargada.

— Amigos prestam atenção uns nos outros — rebateu Will. — Amigos não fazem o outro se sentir um estorvo por gostar das coisas que sempre compartilhamos. Você não sentia minha falta, Mike. Você sentia falta de ter alguém que sempre estivesse lá para você, não importa o quanto você me ignorasse.

Julian aproximou-se e tocou o ombro de Will.

— Vamos, Will? O pessoal está indo comemorar na lanchonete.

Will acenou positivamente. Ele deu um último olhar para Mike, um olhar que carregava um adeus definitivo para a dependência emocional que o escravizara por anos.

— Talvez a gente se veja nos corredores — concluiu Will.

Ele se virou e caminhou em direção à saída, acompanhado por seu novo grupo, rindo de alguma piada interna de Julian.

Mike permaneceu parado diante do tabuleiro derrotado. Dustin e Lucas se aproximaram, mas não disseram nada. Não havia nada a ser dito. Eles tinham ganhado o Hellfire Club, mas tinham perdido o coração do grupo. Mike olhou para a miniatura do mago de Will, que ele tinha esquecido de levar. Ele a pegou, sentindo o peso do plástico frio.

Pela primeira vez em sua vida, Mike Wheeler entendeu que algumas feridas não podem ser curadas com um simples "desculpe", e que Will Byers não era mais o garoto que precisava ser salvo. Will tinha se salvado sozinho, e o preço dessa liberdade era o vazio que agora habitava o lado de Mike na mesa de jogo.
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