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Olhos de oceano

Fandom: Parmiga,

Criado: 18/05/2026

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RomanceDramaDor/ConfortoDetetiveCrimeSuspenseAçãoNoirViolência GráficaAngústiaEstudo de Personagem
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O Peso das Profundezas

O silêncio que se seguiu ao disparo não foi apenas a ausência de som; foi um vácuo sufocante que engoliu a música, os risos e o resto da dignidade que eu tentava manter. A fumaça da pólvora ainda flutuava, um rastro amargo que se misturava ao cheiro metálico de sangue que agora encharcava minha camisa.

Eu sentia o pulso latejar no meu ombro, uma dor aguda que irradiava pelo braço a cada batida do meu coração acelerado. Mas a dor física era secundária. O que realmente queimava era a imagem daquele homem morto sob meus pés e o eco da ameaça que ele lançara contra a única coisa pura que restava na minha vida.

Minha filha.

Olhei ao redor, a visão ainda levemente turva pela adrenalina. Os policiais da minha nova equipe estavam estáticos, alguns com as mãos nas armas, outros apenas processando a rapidez com que o novo delegado havia se transformado em um carrasco. Eu era um estranho para eles, um homem que acabara de executar um suspeito no meio de um bar lotado.

Mas não foi o julgamento deles que me atingiu.

Meus olhos buscaram Vera.

Ela estava parada a poucos metros, o rosto antes suave agora pálido como mármore. Seus olhos, que eu comparara ao oceano, não eram mais hipnóticos; estavam arregalados, transbordando um terror cru. Ela não via o homem que a protegeu de Miller ou o homem que lhe deu um lírio. Ela via o monstro que eu sempre soube que vivia dentro de mim.

Aquele olhar me cortou mais do que a faca do agressor.

— Jack — minha voz saiu como um rosnado seco, forçando a autoridade a voltar para os meus pulmões. — Limpem essa bagunça. Chamem o IML. E eu quero a ficha completa desse desgraçado na minha mesa o mais rápido possível.

Tentei dar um passo à frente, mas o mundo deu uma guinada violenta para a esquerda. O chão pareceu se inclinar.

— Patrick... — A voz dela foi um sussurro, quase inaudível sob o burburinho que começava a retornar ao bar.

Vera se aproximou devagar. Cada passo dela parecia cauteloso, como se estivesse se aproximando de um animal ferido e imprevisível. Quando ela chegou perto o suficiente, estendeu a mão. Seus dedos tocaram levemente o meu peito, logo acima do coração, como se estivesse verificando se eu ainda era humano, se ainda havia algo batendo ali dentro além de fúria.

— Você está sangrando muito — disse ela, a voz trêmula, mas recuperando a cadência profissional de quem lida com a morte diariamente. — Precisamos levar você para o hospital. Agora.

— Eu estou bem — respondi, embora o suor frio estivesse começando a brotar na minha testa. — Eu preciso saber quem era ele. Preciso saber como eles me acharam tão rápido.

— Você não vai saber nada se desmaiar por choque hipovolêmico no meio deste bar imundo — retrucou ela, e por um segundo, a autoridade da Dra. Farmiga brilhou através do medo.

Tentei argumentar, mas uma onda de náusea me atingiu. Meus joelhos cederam. Vera foi rápida, segurando meu braço bom enquanto Jack aparecia do outro lado para me amparar.

— Cuidado! — Vera exclamou, direcionando Jack. — Ali, no sofá. Sentem ele devagar.

Eles me guiaram até um sofá de couro desgastado em um canto mais reservado do Joe’s Bar. Assim que me sentei, a gravidade pareceu triplicar. O couro frio contra minhas costas era um contraste bizarro com o calor do sangue que escorria pelo meu flanco.

Vera se ajoelhou à minha frente, ignorando a sujeira do chão. Suas mãos, agora firmes, começaram a abrir os botões da minha camisa.

— Onde dói mais? Além do ombro? — perguntou ela, os olhos fixos no ferimento.

— Em nenhum lugar — menti, cerrando os dentes. — Vera, você não devia estar fazendo isso. Saia daqui. Chame a perícia.

— Cala a boca, Patrick — disse ela, sem olhar para cima. — Jack, vá para o hospital agora. Chame uma ambulância e avise que estamos levando um ferimento por arma branca com perda considerável de sangue.

Taissa, que estava logo atrás do irmão, assentiu prontamente.

— Eu vou com ele — disse Taissa, o olhar fixo em mim por um segundo antes de se voltar para a amiga. — Vou organizar a sala de cirurgia e garantir que a equipe de plantão esteja pronta. Vera, fique com ele.

Eles saíram às pressas, deixando um rastro de urgência para trás. O bar estava sendo esvaziado pelos outros policiais, transformando o local em uma cena de crime oficial sob luzes de giroflex que já começavam a refletir nas janelas.

Ficamos apenas nós dois naquele canto escuro. Vera usava um guardanapo de pano limpo que alguém trouxera do balcão para pressionar o corte no meu ombro. A pressão doía como o inferno, mas eu preferia focar na proximidade dela do que na lâmina que me atravessara.

— Você é muito teimoso — murmurou ela, a testa franzida em concentração. — Por que você foi para cima dele daquele jeito? Você podia ter morrido.

Tentei rir, mas o som saiu como um engasgo. Minha mão tateou o bolso da calça, buscando o celular. Eu precisava ligar para Alex. A ameaça contra Liz era um incêndio que eu precisava apagar antes que consumisse tudo.

— Fica quieto! — Vera ordenou, segurando meu pulso com força. — Se você continuar se movendo, o sangramento não vai parar.

Olhei para ela, a visão começando a escurecer nas bordas. Mesmo pálida e com os dedos manchados do meu sangue, ela era a coisa mais bonita que eu já vira. Havia uma força nela que não vinha de distintivos ou armas, mas de uma compaixão que eu não entendia.

— Você fica linda quando é mandona, doutora — sussurrei, um sorriso fraco curvando meus lábios.

Vera parou por um segundo, os olhos azuis encontrando os meus. Houve um lampejo de algo — irritação, talvez, ou uma tristeza profunda — antes de ela desviar o olhar.

— E você fica péssimo como paciente, delegado.

Ignorei o aviso dela e, com um esforço hercúleo, consegui puxar o celular. Meus dedos tremiam enquanto eu discava o número de Alex. Vera suspirou, desistindo de lutar contra minha teimosia enquanto mantinha a pressão no meu ombro.

No terceiro toque, Alex atendeu.

— Wilson? — A voz dele estava tensa.

— Alex... — Minha voz falhou por um segundo. — A Liz. Me diz que ela está bem. Agora.

— Patrick? O que aconteceu? Eu ouvi sobre o tiroteio no rádio da polícia, as notícias estão começando a correr...

— Esquece as notícias, caralho! — gritei, sentindo uma pontada de dor lancinante no ombro. — A Liz! Ela está segura?

Houve uma pausa do outro lado da linha, o som de passos rápidos.

— Ela está bem, Patrick. Juro por tudo. Está aqui na sala com a Eleanor, terminando a lição de casa de matemática. Ela nem sabe que o telefone tocou. O que está acontecendo?

Soltei um suspiro longo, sentindo o ar finalmente entrar nos meus pulmões. Fechei os olhos por um momento, a cabeça encostada no encosto de couro do sofá.

— Eles me acharam, Alex — murmurei, a voz carregada de uma exaustão que ia além do ferimento. — Um deles estava aqui. Ele sabia o nome dela. Ele falou da Liz.

— O quê? — O tom de Alex mudou instantaneamente para o modo de combate. — Como?

— Eu não sei. Mas eu o matei. Ele está morto no chão de um bar em Columbia. Alex, você precisa dar um jeito. Tira ela daí. Me tira daqui. Eu não posso ficar nesta cidade se eles sabem onde eu durmo. Eu preciso desaparecer com ela.

Vera me observava, a mão ainda pressionando meu ombro, mas seu olhar era de pura incompreensão e choque. Ela estava ouvindo o desespero de um pai misturado à frieza de um assassino.

— Patrick, escute — disse Alex, a voz firme e paternal. — Você não pode simplesmente desaparecer. Você assumiu essa delegacia há uma semana. Se você fugir agora, vai parecer culpado de algo que não fez, ou pior, vai atrair eles para o seu rastro como sangue na água.

— Você não está entendendo a gravidade da situação! — rebati, sentindo a tontura voltar com força. — Eu acabei de executar um homem em público! Meu ombro está fodido, eu estou sangrando no sofá de um bar e o nome da minha filha está na boca de criminosos!

— Eu vou cuidar da segurança da Liz, Patrick. Vou dobrar a guarda e Eleanor não vai sair do lado dela. Mas você... você precisa se acalmar. Vá para o hospital. Deixe os médicos cuidarem de você. Eu vou ver o que posso fazer com a corregedoria e com a imprensa, mas você precisa estar vivo para proteger essa menina. Entendeu?

— Alex...

— Vá para o hospital, Patrick. Agora. É uma ordem do seu velho.

A ligação caiu. Deixei o celular escorregar da minha mão, caindo pesadamente no sofá.

Vera continuava ali, uma presença constante em meio ao caos da minha mente. Ela não disse nada por um longo tempo, apenas continuou seu trabalho de estancar a vida que insistia em sair de mim.

— Quem é Liz? — perguntou ela, a voz suave, quase um acalento.

— Minha filha — respondi, sentindo uma lágrima solitária queimar o canto do meu olho, mas eu a reprimi com a força que me restava. — Ela é tudo o que eu tenho.

Vera suavizou a expressão. Ela estendeu a mão livre e tocou meu rosto, limpando uma mancha de sangue da minha bochecha com o polegar. O toque era tão gentil que me fez querer desmoronar.

— Nós vamos cuidar de você, Patrick — disse ela, com uma promessa que parecia selar um pacto silencioso entre nós. — E você vai voltar para ela.

Longe, o som das sirenes da ambulância começou a se aproximar, rasgando a noite de Columbia. Eu sabia que, a partir daquele momento, nada seria igual. O oceano que eu vira nos olhos de Vera agora estava agitado, e eu já estava submerso demais para tentar nadar de volta para a superfície.

Tudo o que eu podia fazer era confiar que, nas profundezas, ela seria a única coisa capaz de me manter inteiro.
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