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Duas namoradas
Fandom: Nenhum
Criado: 21/05/2026
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DramaAngústiaPsicológicoEstudo de PersonagemRealismoCiúmesRomanceLinguagem ExplícitaDor/ConfortoRomanceHistória DomésticaSombrioFatias de Vida
Entre o Silêncio e o Grito
O ar dentro do apartamento estava denso, carregado com o cheiro do perfume importado e excessivamente doce de Sara, misturado à tensão elétrica que precedia uma tempestade. Emanuel fechou os olhos por um segundo, a mão apertando a maçaneta da porta da sala. Ele mal havia chegado do escritório e o som das vozes já o atingia como estilhaços.
— Você é patética, Eduarda. Sério. — A voz de Sara era cortante, carregada de um sarcasmo que ela usava como arma. — Esse teatrinho de "ai, sou tão sensível" não cola comigo. Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Usa essa carinha de santa para manipular o Emanuel o tempo todo.
Eduarda estava encolhida no canto do sofá de linho claro, parecendo ainda menor do que era em seu vestido de seda bege. Os dedos longos e finos apertavam uma almofada contra o peito, e os ombros tremiam levemente. Ela não gritava. Ela nunca gritava.
— Eu não estou fazendo nada, Sara... — a voz de Eduarda saiu num sussurro embargado, quase inaudível. — Eu só queria que a gente tivesse uma noite tranquila.
— Ah, claro! A paz mundial! — Sara soltou uma risada seca, ajeitando o busto realçado pelo decote profundo do vestido justo e vermelho. — Você quer é que ele sinta pena de você. Quer que ele te carregue no colo porque você é "frágil" demais para a vida real. Olha para você, chorando por nada!
Emanuel finalmente deu um passo à frente, jogando as chaves sobre o aparador com um barulho metálico que fez Eduarda dar um pequeno sobressalto.
— Chega — disse ele, a voz baixa e rígida, carregada pelo cansaço de dez horas de trabalho e meses de mediação de conflitos.
Imediatamente, Eduarda levantou o olhar. Seus olhos grandes e expressivos estavam inundados, as lágrimas brilhando sob a luz do lustre. Ela se levantou e caminhou até ele com passos leves, quase flutuando, e se aninhou sob o braço dele, escondendo o rosto em seu ombro.
— Emanuel... ela começou a gritar do nada... eu não disse nada de mal — murmurou Eduarda, a voz abafada pelo terno dele.
Emanuel sentiu o peso dela, a dependência quase infantil que o obrigava a ser o seu escudo. Ele passou o braço pela cintura dela de forma automática, um gesto de proteção que era quase um reflexo.
— Do nada? — Sara cruzou os braços, os olhos pintados com um delineado agressivo faiscando de irritação. — Emanuel, não seja burro. Ela estava ali sentada, com aquela cara de vítima, esperando você chegar para dar o show. Ela é uma manipuladora de marca maior.
— Eu disse para parar, Sara — Emanuel repetiu, agora olhando diretamente para a loira. — Nós temos a festa da empresa hoje. Eu não vou chegar lá com vocês duas se matando. Ou vocês se acalmam, ou eu vou sozinho.
Sara revirou os olhos, mas o tom de Emanuel — aquele tom de quem estava prestes a perder o controle — a fez recuar um milímetro. Ela sabia até onde podia esticar a corda com ele antes que o pragmatismo dele se transformasse em fúria.
— Eu já estou pronta — disse Sara, passando a mão pelo cabelo loiro perfeitamente escovado, ignorando a presença de Eduarda como se ela fosse um móvel incômodo. — Só estava esperando o "bebezinho" parar de soluçar.
Emanuel suspirou, sentindo a têmpora pulsar. Ele se afastou levemente de Eduarda, segurando-a pelos ombros para olhá-la nos olhos.
— Duda, vai terminar de se arrumar. Por favor. Faça isso por mim.
Eduarda fungou, limpando uma lágrima com as costas da mão, um gesto deliberadamente delicado.
— Você não vai deixar ela falar assim comigo lá, vai? — perguntou ela, manhosa, buscando uma promessa de exclusividade emocional que ele raramente conseguia dar.
— Eu vou cuidar de tudo — respondeu Emanuel, embora a incerteza em sua própria voz o incomodasse. — Agora vá.
O salão de festas do hotel de luxo estava lotado. O som ambiente de um quarteto de jazz e o tilintar de taças de cristal criavam uma atmosfera de sofisticação que Emanuel esperava que servisse de freio para as duas mulheres ao seu lado.
De um lado, Sara atraía olhares como um imã. O vestido vermelho era curto demais para os padrões da empresa, as curvas acentuadas pelo silicone e pela postura confiante faziam dela o centro das atenções masculinas. Ela sorria, bebia champanhe e falava alto o suficiente para ser notada, exalando uma vulgaridade magnética que Emanuel, em seus momentos de fraqueza, achava excitante, mas que ali o deixava tenso.
Do outro lado, Eduarda mantinha-se colada ao seu braço esquerdo. Ela usava um vestido de renda azul-claro, discreto e romântico. Ela falava pouco, respondendo aos cumprimentos com sorrisos tímidos e desviando o olhar sempre que a conversa ficava mais técnica. Ela era a imagem da doçura, a "esposa troféu" de um tempo antigo, buscando constante validação no aperto da mão dele.
— Emanuel, querido! — Um dos diretores se aproximou. — Que prazer ver você. E acompanhado em dobro, como sempre.
Emanuel forçou um sorriso cordial, sentindo o suor frio na nuca.
— Boa noite, Dr. Arnaldo. Estas são Sara e Eduarda.
— Muito prazer — disse Sara, estendendo a mão com um sorriso predatório que fez o diretor hesitar por um segundo antes de apertar. — O Emanuel fala muito do senhor. Especialmente sobre como o setor de compras precisa de uma "mão firme".
Eduarda apenas inclinou a cabeça, um gesto suave.
— É um prazer conhecê-lo. A festa está linda, o senhor tem muito bom gosto.
Enquanto Emanuel se perdia em uma conversa sobre projeções fiscais, a guerra fria ao seu lado atingia o ponto de ebulição.
— "O senhor tem muito bom gosto" — debochou Sara em voz baixa, aproximando-se do ouvido de Eduarda enquanto Emanuel se virava levemente. — Você é tão sem sal que chega a dar sono, Duda. Por que não vai ali na mesa de doces e fica por lá? Combina mais com a sua personalidade de açúcar.
Eduarda sentiu o rosto esquentar. A provocação de Sara, constante e ácida, estava começando a romper sua barreira de silêncio.
— Pelo menos eu não estou vestida como se estivesse esperando clientes na esquina, Sara — sussurrou Eduarda, a voz trêmula de raiva contida.
Sara parou o movimento da taça de champanhe no meio do caminho. Seus olhos se estreitaram.
— O que você disse, sua mosca morta?
— Você ouviu — Eduarda deu um passo para trás, buscando o contato com as costas de Emanuel, mas sem recuar no olhar. — Você acha que ser notada é o mesmo que ser respeitada. O Emanuel tem vergonha do jeito que você se comporta.
Sara soltou uma risada ruidosa, atraindo a atenção de duas secretárias que passavam por perto.
— Vergonha? Meu amor, ele adora o que eu tenho a oferecer. Coisa que você, com esse corpo de menina de doze anos e esse jeito de quem precisa de fraldas, nunca vai entender. Você é um peso morto na vida dele. Um bichinho de estimação que ele tem pena de abandonar.
Lágrimas de humilhação inundaram os olhos de Eduarda. Ela soltou o braço de Emanuel de forma brusca.
— Emanuel! — chamou ela, a voz subindo de tom, interrompendo a conversa dele com o diretor.
Emanuel se virou, o rosto rígido. O Dr. Arnaldo percebeu o clima e, com um aceno desajeitado, retirou-se.
— O que foi agora? — Emanuel perguntou entre dentes, os olhos fixos em Eduarda.
— Ela me chamou de peso morto! — Eduarda soluçou, cobrindo a boca com a mão. — Ela disse que você só fica comigo por pena!
— E não é verdade? — Sara interveio, cruzando os braços, o que fez seu decote subir perigosamente. — Olha o escândalo que ela está fazendo no meio da sua festa de empresa, Emanuel. Quem está passando vergonha agora?
Emanuel olhou ao redor. Vários colegas de trabalho fingiam não olhar, mas os sussurros já começavam. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo por entre seus dedos como areia fina.
— Sara, cala a boca — disse ele, a voz fria como gelo. — E Eduarda, para de chorar. Agora.
— Você está defendendo ela? — Eduarda recuou, a expressão de traição estampada no rosto sensível. — Depois de tudo o que ela me disse? Você sempre faz isso! Você deixa ela me pisar porque gosta dessa... dessa vulgaridade dela!
— Vulgaridade? — Sara deu um passo à frente, o dedo apontado para o peito de Eduarda. — Vulgar é ser uma parasita emocional como você! Você suga a energia dele, você não deixa ele respirar!
— Pelo menos eu o amo de verdade! — gritou Eduarda, perdendo a compostura que tanto tentava manter. — Você só quer o dinheiro dele e alguém para testar seu poder!
— CHEGA! — O grito de Emanuel não foi alto, mas teve a força de uma explosão.
O silêncio caiu sobre o pequeno círculo ao redor deles. Emanuel estava com a respiração pesada, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. A veia em sua têmpora saltava, e o olhar que ele lançava para as duas não tinha mais proteção ou desejo; era puro, absoluto esgotamento.
— Eu não sou um prêmio — disse ele, a voz vibrando de uma raiva contida e perigosa. — Eu não sou um osso para vocês duas ficarem rosnando uma para a outra. Eu trabalho quinze horas por dia para sustentar aquela casa e a vida que vocês levam, e a única coisa que eu peço em troca é um pouco de paz. E o que eu recebo? Isso.
Ele olhou para Eduarda, que tremia visivelmente.
— Eduarda, sua insegurança é exaustiva. Eu não posso passar cada minuto do meu dia reafirmando que você é importante.
Depois, virou-se para Sara, que mantinha o queixo erguido, embora o brilho de desafio em seus olhos tivesse vacilado.
— E você, Sara... sua necessidade de humilhar os outros para se sentir superior é doentia. Você não respeita o meu ambiente, você não me respeita.
Emanuel respirou fundo, ajeitando o paletó. Ele se sentia observado por centenas de olhos, sua reputação de homem equilibrado e lógico sendo destruída pela dinâmica tóxica que ele mesmo permitira que florescesse.
— Eu vou para o bar — disse ele, a voz agora mortalmente calma. — Vocês duas têm duas opções: ou sentam em mesas opostas e não dirigem a palavra uma à outra pelo resto da noite, ou pegam um táxi agora e desaparecem da minha frente. Eu não me importo com qual vocês escolham, desde que eu não ouça a voz de nenhuma de vocês pelos próximos sessenta minutos.
Sem esperar resposta, Emanuel deu as costas e caminhou em direção ao bar do hotel. Ele precisava de algo forte, algo que queimasse a irritação que subia por sua garganta.
Eduarda e Sara ficaram sozinhas no meio do salão.
Sara soltou um suspiro pesado, a pose de mulher fatal desmoronando levemente sob o peso da rejeição pública de Emanuel. Ela pegou outra taça de champanhe de uma bandeja que passava, bebendo-a de um só gole.
— Satisfeita, Duda? — murmurou Sara, sem olhar para a outra. — Você conseguiu o que queria. Arruinou a noite dele.
Eduarda limpou o rosto com as mãos, os olhos vermelhos e inchados destruindo a imagem de delicadeza que ela tanto cultivara. Ela olhou para as costas de Emanuel, distante no balcão do bar, e sentiu um vazio gelado no peito.
— Eu não queria isso — disse Eduarda, a voz sem a manha habitual, apenas triste. — Eu só queria que ele me escolhesse de verdade.
— Ele não vai escolher — Sara disse, sua voz perdendo a ironia e assumindo um tom amargo de realismo. — Ele gosta do que você dá a ele e gosta do que eu dou a ele. Mas ele odeia o que nós fazemos com ele. E se a gente continuar assim, ele vai acabar escolhendo ficar sozinho.
Eduarda olhou para a mulher loira e exuberante ao seu lado, percebendo, talvez pela primeira vez, que a confiança de Sara era uma armadura tão frágil quanto a sua própria timidez.
— O que a gente faz? — perguntou a jovem de traços finos, a voz quase um sussurro.
Sara deu de ombros, ajeitando a alça do vestido vermelho.
— O que ele disse. Eu vou para o terraço fumar. Você vai para o toalete consertar essa cara de enterro. E a gente não se olha. Pelo menos por hoje.
Eduarda assentiu lentamente. Elas se separaram, seguindo direções opostas no salão luxuoso, deixando para trás o rastro de um conflito que estava longe de ser resolvido, mas que, por um breve momento de exaustão mútua, encontrou um armistício forçado.
No bar, Emanuel observava o reflexo das luzes no líquido âmbar de seu copo. Ele sabia que, quando voltasse para casa, o ciclo recomeçaria. As lágrimas de Eduarda pediriam perdão, e as provocações de Sara pediriam atenção. E ele, preso entre a necessidade de proteger e o desejo de possuir, continuaria a tentar equilibrar o impossível, até que a próxima explosão fosse inevitável.
— Você é patética, Eduarda. Sério. — A voz de Sara era cortante, carregada de um sarcasmo que ela usava como arma. — Esse teatrinho de "ai, sou tão sensível" não cola comigo. Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Usa essa carinha de santa para manipular o Emanuel o tempo todo.
Eduarda estava encolhida no canto do sofá de linho claro, parecendo ainda menor do que era em seu vestido de seda bege. Os dedos longos e finos apertavam uma almofada contra o peito, e os ombros tremiam levemente. Ela não gritava. Ela nunca gritava.
— Eu não estou fazendo nada, Sara... — a voz de Eduarda saiu num sussurro embargado, quase inaudível. — Eu só queria que a gente tivesse uma noite tranquila.
— Ah, claro! A paz mundial! — Sara soltou uma risada seca, ajeitando o busto realçado pelo decote profundo do vestido justo e vermelho. — Você quer é que ele sinta pena de você. Quer que ele te carregue no colo porque você é "frágil" demais para a vida real. Olha para você, chorando por nada!
Emanuel finalmente deu um passo à frente, jogando as chaves sobre o aparador com um barulho metálico que fez Eduarda dar um pequeno sobressalto.
— Chega — disse ele, a voz baixa e rígida, carregada pelo cansaço de dez horas de trabalho e meses de mediação de conflitos.
Imediatamente, Eduarda levantou o olhar. Seus olhos grandes e expressivos estavam inundados, as lágrimas brilhando sob a luz do lustre. Ela se levantou e caminhou até ele com passos leves, quase flutuando, e se aninhou sob o braço dele, escondendo o rosto em seu ombro.
— Emanuel... ela começou a gritar do nada... eu não disse nada de mal — murmurou Eduarda, a voz abafada pelo terno dele.
Emanuel sentiu o peso dela, a dependência quase infantil que o obrigava a ser o seu escudo. Ele passou o braço pela cintura dela de forma automática, um gesto de proteção que era quase um reflexo.
— Do nada? — Sara cruzou os braços, os olhos pintados com um delineado agressivo faiscando de irritação. — Emanuel, não seja burro. Ela estava ali sentada, com aquela cara de vítima, esperando você chegar para dar o show. Ela é uma manipuladora de marca maior.
— Eu disse para parar, Sara — Emanuel repetiu, agora olhando diretamente para a loira. — Nós temos a festa da empresa hoje. Eu não vou chegar lá com vocês duas se matando. Ou vocês se acalmam, ou eu vou sozinho.
Sara revirou os olhos, mas o tom de Emanuel — aquele tom de quem estava prestes a perder o controle — a fez recuar um milímetro. Ela sabia até onde podia esticar a corda com ele antes que o pragmatismo dele se transformasse em fúria.
— Eu já estou pronta — disse Sara, passando a mão pelo cabelo loiro perfeitamente escovado, ignorando a presença de Eduarda como se ela fosse um móvel incômodo. — Só estava esperando o "bebezinho" parar de soluçar.
Emanuel suspirou, sentindo a têmpora pulsar. Ele se afastou levemente de Eduarda, segurando-a pelos ombros para olhá-la nos olhos.
— Duda, vai terminar de se arrumar. Por favor. Faça isso por mim.
Eduarda fungou, limpando uma lágrima com as costas da mão, um gesto deliberadamente delicado.
— Você não vai deixar ela falar assim comigo lá, vai? — perguntou ela, manhosa, buscando uma promessa de exclusividade emocional que ele raramente conseguia dar.
— Eu vou cuidar de tudo — respondeu Emanuel, embora a incerteza em sua própria voz o incomodasse. — Agora vá.
O salão de festas do hotel de luxo estava lotado. O som ambiente de um quarteto de jazz e o tilintar de taças de cristal criavam uma atmosfera de sofisticação que Emanuel esperava que servisse de freio para as duas mulheres ao seu lado.
De um lado, Sara atraía olhares como um imã. O vestido vermelho era curto demais para os padrões da empresa, as curvas acentuadas pelo silicone e pela postura confiante faziam dela o centro das atenções masculinas. Ela sorria, bebia champanhe e falava alto o suficiente para ser notada, exalando uma vulgaridade magnética que Emanuel, em seus momentos de fraqueza, achava excitante, mas que ali o deixava tenso.
Do outro lado, Eduarda mantinha-se colada ao seu braço esquerdo. Ela usava um vestido de renda azul-claro, discreto e romântico. Ela falava pouco, respondendo aos cumprimentos com sorrisos tímidos e desviando o olhar sempre que a conversa ficava mais técnica. Ela era a imagem da doçura, a "esposa troféu" de um tempo antigo, buscando constante validação no aperto da mão dele.
— Emanuel, querido! — Um dos diretores se aproximou. — Que prazer ver você. E acompanhado em dobro, como sempre.
Emanuel forçou um sorriso cordial, sentindo o suor frio na nuca.
— Boa noite, Dr. Arnaldo. Estas são Sara e Eduarda.
— Muito prazer — disse Sara, estendendo a mão com um sorriso predatório que fez o diretor hesitar por um segundo antes de apertar. — O Emanuel fala muito do senhor. Especialmente sobre como o setor de compras precisa de uma "mão firme".
Eduarda apenas inclinou a cabeça, um gesto suave.
— É um prazer conhecê-lo. A festa está linda, o senhor tem muito bom gosto.
Enquanto Emanuel se perdia em uma conversa sobre projeções fiscais, a guerra fria ao seu lado atingia o ponto de ebulição.
— "O senhor tem muito bom gosto" — debochou Sara em voz baixa, aproximando-se do ouvido de Eduarda enquanto Emanuel se virava levemente. — Você é tão sem sal que chega a dar sono, Duda. Por que não vai ali na mesa de doces e fica por lá? Combina mais com a sua personalidade de açúcar.
Eduarda sentiu o rosto esquentar. A provocação de Sara, constante e ácida, estava começando a romper sua barreira de silêncio.
— Pelo menos eu não estou vestida como se estivesse esperando clientes na esquina, Sara — sussurrou Eduarda, a voz trêmula de raiva contida.
Sara parou o movimento da taça de champanhe no meio do caminho. Seus olhos se estreitaram.
— O que você disse, sua mosca morta?
— Você ouviu — Eduarda deu um passo para trás, buscando o contato com as costas de Emanuel, mas sem recuar no olhar. — Você acha que ser notada é o mesmo que ser respeitada. O Emanuel tem vergonha do jeito que você se comporta.
Sara soltou uma risada ruidosa, atraindo a atenção de duas secretárias que passavam por perto.
— Vergonha? Meu amor, ele adora o que eu tenho a oferecer. Coisa que você, com esse corpo de menina de doze anos e esse jeito de quem precisa de fraldas, nunca vai entender. Você é um peso morto na vida dele. Um bichinho de estimação que ele tem pena de abandonar.
Lágrimas de humilhação inundaram os olhos de Eduarda. Ela soltou o braço de Emanuel de forma brusca.
— Emanuel! — chamou ela, a voz subindo de tom, interrompendo a conversa dele com o diretor.
Emanuel se virou, o rosto rígido. O Dr. Arnaldo percebeu o clima e, com um aceno desajeitado, retirou-se.
— O que foi agora? — Emanuel perguntou entre dentes, os olhos fixos em Eduarda.
— Ela me chamou de peso morto! — Eduarda soluçou, cobrindo a boca com a mão. — Ela disse que você só fica comigo por pena!
— E não é verdade? — Sara interveio, cruzando os braços, o que fez seu decote subir perigosamente. — Olha o escândalo que ela está fazendo no meio da sua festa de empresa, Emanuel. Quem está passando vergonha agora?
Emanuel olhou ao redor. Vários colegas de trabalho fingiam não olhar, mas os sussurros já começavam. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo por entre seus dedos como areia fina.
— Sara, cala a boca — disse ele, a voz fria como gelo. — E Eduarda, para de chorar. Agora.
— Você está defendendo ela? — Eduarda recuou, a expressão de traição estampada no rosto sensível. — Depois de tudo o que ela me disse? Você sempre faz isso! Você deixa ela me pisar porque gosta dessa... dessa vulgaridade dela!
— Vulgaridade? — Sara deu um passo à frente, o dedo apontado para o peito de Eduarda. — Vulgar é ser uma parasita emocional como você! Você suga a energia dele, você não deixa ele respirar!
— Pelo menos eu o amo de verdade! — gritou Eduarda, perdendo a compostura que tanto tentava manter. — Você só quer o dinheiro dele e alguém para testar seu poder!
— CHEGA! — O grito de Emanuel não foi alto, mas teve a força de uma explosão.
O silêncio caiu sobre o pequeno círculo ao redor deles. Emanuel estava com a respiração pesada, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. A veia em sua têmpora saltava, e o olhar que ele lançava para as duas não tinha mais proteção ou desejo; era puro, absoluto esgotamento.
— Eu não sou um prêmio — disse ele, a voz vibrando de uma raiva contida e perigosa. — Eu não sou um osso para vocês duas ficarem rosnando uma para a outra. Eu trabalho quinze horas por dia para sustentar aquela casa e a vida que vocês levam, e a única coisa que eu peço em troca é um pouco de paz. E o que eu recebo? Isso.
Ele olhou para Eduarda, que tremia visivelmente.
— Eduarda, sua insegurança é exaustiva. Eu não posso passar cada minuto do meu dia reafirmando que você é importante.
Depois, virou-se para Sara, que mantinha o queixo erguido, embora o brilho de desafio em seus olhos tivesse vacilado.
— E você, Sara... sua necessidade de humilhar os outros para se sentir superior é doentia. Você não respeita o meu ambiente, você não me respeita.
Emanuel respirou fundo, ajeitando o paletó. Ele se sentia observado por centenas de olhos, sua reputação de homem equilibrado e lógico sendo destruída pela dinâmica tóxica que ele mesmo permitira que florescesse.
— Eu vou para o bar — disse ele, a voz agora mortalmente calma. — Vocês duas têm duas opções: ou sentam em mesas opostas e não dirigem a palavra uma à outra pelo resto da noite, ou pegam um táxi agora e desaparecem da minha frente. Eu não me importo com qual vocês escolham, desde que eu não ouça a voz de nenhuma de vocês pelos próximos sessenta minutos.
Sem esperar resposta, Emanuel deu as costas e caminhou em direção ao bar do hotel. Ele precisava de algo forte, algo que queimasse a irritação que subia por sua garganta.
Eduarda e Sara ficaram sozinhas no meio do salão.
Sara soltou um suspiro pesado, a pose de mulher fatal desmoronando levemente sob o peso da rejeição pública de Emanuel. Ela pegou outra taça de champanhe de uma bandeja que passava, bebendo-a de um só gole.
— Satisfeita, Duda? — murmurou Sara, sem olhar para a outra. — Você conseguiu o que queria. Arruinou a noite dele.
Eduarda limpou o rosto com as mãos, os olhos vermelhos e inchados destruindo a imagem de delicadeza que ela tanto cultivara. Ela olhou para as costas de Emanuel, distante no balcão do bar, e sentiu um vazio gelado no peito.
— Eu não queria isso — disse Eduarda, a voz sem a manha habitual, apenas triste. — Eu só queria que ele me escolhesse de verdade.
— Ele não vai escolher — Sara disse, sua voz perdendo a ironia e assumindo um tom amargo de realismo. — Ele gosta do que você dá a ele e gosta do que eu dou a ele. Mas ele odeia o que nós fazemos com ele. E se a gente continuar assim, ele vai acabar escolhendo ficar sozinho.
Eduarda olhou para a mulher loira e exuberante ao seu lado, percebendo, talvez pela primeira vez, que a confiança de Sara era uma armadura tão frágil quanto a sua própria timidez.
— O que a gente faz? — perguntou a jovem de traços finos, a voz quase um sussurro.
Sara deu de ombros, ajeitando a alça do vestido vermelho.
— O que ele disse. Eu vou para o terraço fumar. Você vai para o toalete consertar essa cara de enterro. E a gente não se olha. Pelo menos por hoje.
Eduarda assentiu lentamente. Elas se separaram, seguindo direções opostas no salão luxuoso, deixando para trás o rastro de um conflito que estava longe de ser resolvido, mas que, por um breve momento de exaustão mútua, encontrou um armistício forçado.
No bar, Emanuel observava o reflexo das luzes no líquido âmbar de seu copo. Ele sabia que, quando voltasse para casa, o ciclo recomeçaria. As lágrimas de Eduarda pediriam perdão, e as provocações de Sara pediriam atenção. E ele, preso entre a necessidade de proteger e o desejo de possuir, continuaria a tentar equilibrar o impossível, até que a próxima explosão fosse inevitável.
