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Duas
Fandom: Nenhum
Criado: 22/05/2026
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DramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoHistória DomésticaCiúmesEstudo de PersonagemLinguagem ExplícitaFatias de VidaConsertoRealismoHumorSátiraRomanceDismorfia Corporal
O Peso do Couro e o Brilho do Verniz
A luz do entardecer atravessava as janelas de vidro do amplo apartamento de Emanuel, mas o clima lá dentro estava longe de ser calmo. O silêncio da cobertura, geralmente preenchido por música ambiente ou pelo som do trabalho de Emanuel em seus designs de tatuagem, havia sido substituído pelo som cortante da voz de Sara.
— Você não cansa, não é, Eduarda? — Sara caminhava de um lado para o outro na sala, o salto agulha estalando contra o piso de porcelanato. Ela usava um vestido de couro sintético vermelho que abraçava cada curva de seu corpo esculpido, os cabelos loiros platinados perfeitamente ondulados caindo sobre os ombros. — Esse olhar de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança... é patético. Todo mundo vê o que você está fazendo.
Eduarda estava encolhida no canto do sofá de linho cru, as pernas puxadas contra o peito. Ela vestia um cardigã de tricô bege e uma saia leve de flores miúdas. Seus olhos, grandes e expressivos, estavam marejados, e a ponta de seu nariz já estava avermelhada. Ela não disse uma palavra, apenas apertava uma almofada contra o corpo, buscando uma proteção invisível.
— Eu não fiz nada, Sara... — a voz de Eduarda saiu tão baixa que mal atravessou o espaço entre elas.
— "Eu não fiz nada" — debochou Sara, afinando a voz em uma imitação cruel. — Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Usa essa fachada de santa, de menina sensível da faculdade de artes, só para o Emanuel sentir que precisa te carregar no colo. Você manipula ele através da pena, e isso me enoja.
Nesse momento, o som da fechadura eletrônica ecoou pelo ambiente. Emanuel entrou no apartamento, os ombros tensos sob a jaqueta de couro preta. Ele exalava a autoridade de quem comandava um império de estúdios de tatuagem, mas, ao cruzar o umbral de casa, essa autoridade sempre parecia vacilar diante das duas mulheres que dividiam sua vida.
Ele mal teve tempo de pousar as chaves na mesa de entrada antes de sentir o peso do conflito.
— De novo? — Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. — Sara, eu consigo ouvir seus gritos do elevador.
— Ah, ótimo! Chegou o salvador da pátria — Sara cruzou os braços, fazendo com que o decote ficasse ainda mais evidente. — Chegou a tempo de ver o show de atuação da sua protegida. Olha para ela, Emanuel. Ela está literalmente esperando você entrar para deixar a primeira lágrima cair. É cirúrgico!
Emanuel olhou para o sofá. Eduarda finalmente permitiu que uma lágrima solitária corresse pelo rosto fino. Ela não soluçava, não gritava; apenas olhava para ele com uma vulnerabilidade que desarmava qualquer lógica racional que ele tentasse aplicar.
— Emanuel... eu só queria ler meu livro — Eduarda murmurou, estendendo a mão timidamente em direção a ele.
Emanuel caminhou até ela, ignorando o olhar furioso de Sara. Ele se sentou na borda do sofá e passou o braço pelos ombros de Eduarda, sentindo-a se aninhar imediatamente em seu peito, buscando o calor e a segurança que só ele provia.
— Chega disso — Emanuel disse, sua voz assumindo aquele tom firme e baixo que usava para controlar subordinados em seus estúdios. — Sara, você está passando dos limites. Eduarda não te atacou.
— Ela não precisa atacar com palavras quando ataca com essa passividade agressiva! — Sara explodiu, gesticulando freneticamente. — Você é cego? Ela te prende nessa redoma de vidro e você cai como um patinho. Eu sou a única que fala a verdade nessa p*rra de relacionamento!
Emanuel sentiu a têmpora latejar. Ele amava a energia vibrante de Sara, a confiança que ela exalava e o sexo incendiário que vinha com sua personalidade dominante. Mas ele também precisava da paz de Eduarda, da doçura que o acalmava após um dia lidando com burocracias e agulhas. O problema era que as duas eram como matéria e antimatéria.
— Para o bem da minha sanidade — Emanuel começou, levantando-se e puxando Eduarda suavemente pela mão —, nós vamos sair. Agora.
— Sair para onde? — Sara perguntou, estreitando os olhos.
— Para o shopping. Para a rua. Para qualquer lugar onde o teto seja alto o suficiente para os egos de vocês não colidirem — Emanuel respondeu, já pegando sua carteira. — Sara, vá trocar de sapato ou o que quer que você faça. Eduarda, pegue sua bolsa.
...
Uma hora depois, Emanuel questionava seriamente suas habilidades de tomada de decisão.
Eles estavam em uma das áreas mais exclusivas da cidade, cercados por vitrines que brilhavam com o luxo que o dinheiro dele podia comprar. O que deveria ser um passeio para "esfriar a cabeça" transformou-se rapidamente em um campo de batalha de consumo e ostentação.
— Aquela bolsa ficaria horrível em você, Eduarda. É muito... grande. Você ia parecer uma criança carregando a mochila da escola — Sara comentou, apontando para uma vitrine de grife francesa enquanto caminhavam.
Eduarda parou diante de uma loja de tons pastéis, com vitrines decoradas com flores de seda.
— Eu gostei daquele vestido de seda azul, Emanuel — ela disse, puxando levemente a manga da jaqueta dele. — Ele parece... calmo.
— Calmo? Vestido não tem personalidade, querida, quem tem é a pessoa — Sara interrompeu, entrando na loja à frente deles. — Emanuel, olha aquele conjunto de alfaiataria ali no fundo. É a minha cara. E eu quero aquele scarpin dourado que vi na entrada.
Emanuel sentiu o peso do cartão de crédito no bolso. Ele entrou na loja, tentando manter a postura de controle.
— Podem escolher o que quiserem. Só, por favor, parem de trocar farpas.
O que se seguiu foi uma maratona de tortura psicológica disfarçada de compras. Sara circulava pela loja como uma predadora, exigindo a atenção de três vendedoras ao mesmo tempo. Ela escolhia as peças mais caras, mais justas e mais brilhantes, fazendo questão de desfilar para Emanuel a cada troca.
— O que acha, Manu? — ela perguntou, saindo do provador com um vestido preto com fendas que desafiavam a gravidade. — Valoriza meu investimento, não acha? — Ela deu um tapinha sugestivo no próprio seio, referindo-se ao silicone que ele mesmo havia incentivado e pago.
— Está incrível, Sara — Emanuel respondeu, mas sua atenção foi desviada para o canto oposto da loja.
Eduarda estava parada diante de um espelho, segurando um vestido de linho branco contra o corpo. Ela parecia uma pintura renascentista perdida em um mundo de neon. Quando viu Emanuel olhando, ela deu um sorriso tímido, quase triste.
— Você acha que fica bom? Ou é muito simples? — ela perguntou, a insegurança vibrando em sua voz.
Emanuel caminhou até ela e a abraçou por trás, olhando para o reflexo dos dois.
— Fica perfeito. Você não precisa de muito para brilhar, Duda.
— Ah, poupe-me! — A voz de Sara cortou o momento como uma navalha. — "Você não precisa de muito". É o código para "você é sem graça". Vendedora! Vou levar esse, o verde, o conjunto de couro e aquela bota de cano alto. Ah, e coloque na conta dele.
Emanuel suspirou, sentindo a primeira pontada de uma enxaqueca.
— Pode levar o que quiser, Eduarda. Não escute ela.
— Eu quero o azul... e talvez aquele chapéu — Eduarda disse, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Mas a Sara está brava, talvez seja melhor a gente ir embora.
— Não, nós vamos terminar isso — Emanuel decretou, a paciência se esvaindo.
Três lojas depois, a situação havia escalado. Sara agora carregava uma sacola de joias e duas de sapatos de luxo. Eduarda, sentindo-se sobrecarregada pelo barulho e pelas provocações constantes, havia se tornado ainda mais dependente, recusando-se a soltar o braço de Emanuel por um segundo sequer.
— Você está sufocando ele, garota! — Sara disparou enquanto entravam em uma loja de departamentos de alto padrão. — Deixa o homem respirar. Ele não é seu pai, é seu namorado. Se bem que, com esse seu jeito de sonsa, você deve confundir as coisas.
— Sara, chega! — Emanuel rugiu, atraindo olhares de outros clientes. — Mais uma palavra e eu juro que deixo você aqui e cancelo todos os seus cartões adicionais.
Sara parou, os olhos faiscando de fúria, mas o tom de Emanuel indicava que ele não estava blefando. Ela bufou, jogando o cabelo para trás.
— Tudo bem. Mas eu quero aquela bolsa de edição limitada. A de verniz.
— Compre a maldita bolsa — Emanuel disse, massageando as têmporas.
Ao final da tarde, a imagem de Emanuel era o retrato do caos. Ele estava parado no centro do corredor do shopping, carregando exatamente quinze sacolas de diferentes tamanhos e marcas. Seus braços doíam, o suor frio escorria por suas costas e ele sentia que seu cérebro havia sido passado por um moedor de carne.
De um lado, Sara caminhava triunfante, parando a cada dois minutos para conferir seu reflexo nas vitrines, agindo como se tivesse acabado de vencer uma guerra. Do outro, Eduarda caminhava encolhida, segurando o braço dele com força, os olhos baixos, exausta pelo desgaste emocional da tarde.
— Emanuel, podemos parar para tomar um café? — Eduarda pediu com a voz manhosa. — Meus pés estão doendo.
— Café? Eu quero um martini! — Sara exclamou. — E tem uma loja de lingeries ali na frente que eu ainda não entrei.
Emanuel parou abruptamente. As quinze sacolas balançaram perigosamente em suas mãos. Ele olhou para Sara, com sua beleza agressiva e sua língua afiada, e depois para Eduarda, com sua fragilidade quase etérea e sua necessidade constante de afirmação.
Ele era um homem que controlava estúdios em Londres, Nova York e Tóquio. Ele lidava com artistas temperamentais e clientes bilionários. Mas ali, entre o verniz das bolsas de Sara e o linho dos vestidos de Eduarda, ele se sentia o homem mais impotente do mundo.
— Nós vamos para o carro — Emanuel disse, sua voz agora num tom perigosamente calmo.
— Mas Manu... — Sara começou.
— Agora — ele cortou, os olhos escuros brilhando com uma irritação que finalmente transbordou.
A caminhada até o estacionamento foi feita em um silêncio tenso. Ao chegar no SUV de luxo, Emanuel praticamente jogou as sacolas no porta-malas. O som das embalagens de grife batendo umas nas outras foi o único ruído no local.
Ele fechou o porta-malas com força excessiva e encostou a testa no vidro traseiro por um momento, respirando fundo.
— Emanuel? Você está bem? — Eduarda se aproximou, tocando seu ombro com cautela.
— Ele só está cansado de carregar suas tralhas, Eduarda — Sara disse, encostada na porta do passageiro, retocando o batom vermelho vibrante.
Emanuel se virou, olhando para as duas.
— Eu não estou bem. Eu estou com quinze sacolas de roupas que vocês provavelmente vão usar para brigar de novo amanhã, uma dor de cabeça que parece uma britadeira e a nítida sensação de que eu perdi cinco anos de vida em três horas.
Ele entrou no carro e bateu a porta.
Eduarda e Sara se entreolharam por um breve segundo. Nos olhos de Sara, havia um brilho de diversão por ter levado Emanuel ao limite. Nos de Eduarda, uma tristeza genuína por ter causado desconforto ao seu protetor.
— Viu o que você fez? — Sara sussurrou antes de dar a volta para entrar no banco da frente.
— Eu não fiz nada... — Eduarda repetiu, entrando no banco de trás e começando a chorar silenciosamente de novo.
Emanuel ligou o motor. O ronco do carro era o único som que prometia alguma ordem. Ele olhou pelo retrovisor e viu Eduarda limpando as lágrimas, e depois olhou para o lado, vendo Sara sorrir para o próprio reflexo no espelho do quebra-sol.
Ele acelerou, saindo do shopping. Ele tinha o dinheiro, ele tinha as mulheres mais bonitas da cidade, ele tinha as posses. Mas, enquanto dirigia de volta para a cobertura que era sua arena particular, Emanuel só conseguia pensar que, na próxima vez, talvez fosse mais barato e menos traumático apenas fazer uma tatuagem no próprio rosto sem anestesia.
— Você não cansa, não é, Eduarda? — Sara caminhava de um lado para o outro na sala, o salto agulha estalando contra o piso de porcelanato. Ela usava um vestido de couro sintético vermelho que abraçava cada curva de seu corpo esculpido, os cabelos loiros platinados perfeitamente ondulados caindo sobre os ombros. — Esse olhar de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança... é patético. Todo mundo vê o que você está fazendo.
Eduarda estava encolhida no canto do sofá de linho cru, as pernas puxadas contra o peito. Ela vestia um cardigã de tricô bege e uma saia leve de flores miúdas. Seus olhos, grandes e expressivos, estavam marejados, e a ponta de seu nariz já estava avermelhada. Ela não disse uma palavra, apenas apertava uma almofada contra o corpo, buscando uma proteção invisível.
— Eu não fiz nada, Sara... — a voz de Eduarda saiu tão baixa que mal atravessou o espaço entre elas.
— "Eu não fiz nada" — debochou Sara, afinando a voz em uma imitação cruel. — Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Usa essa fachada de santa, de menina sensível da faculdade de artes, só para o Emanuel sentir que precisa te carregar no colo. Você manipula ele através da pena, e isso me enoja.
Nesse momento, o som da fechadura eletrônica ecoou pelo ambiente. Emanuel entrou no apartamento, os ombros tensos sob a jaqueta de couro preta. Ele exalava a autoridade de quem comandava um império de estúdios de tatuagem, mas, ao cruzar o umbral de casa, essa autoridade sempre parecia vacilar diante das duas mulheres que dividiam sua vida.
Ele mal teve tempo de pousar as chaves na mesa de entrada antes de sentir o peso do conflito.
— De novo? — Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. — Sara, eu consigo ouvir seus gritos do elevador.
— Ah, ótimo! Chegou o salvador da pátria — Sara cruzou os braços, fazendo com que o decote ficasse ainda mais evidente. — Chegou a tempo de ver o show de atuação da sua protegida. Olha para ela, Emanuel. Ela está literalmente esperando você entrar para deixar a primeira lágrima cair. É cirúrgico!
Emanuel olhou para o sofá. Eduarda finalmente permitiu que uma lágrima solitária corresse pelo rosto fino. Ela não soluçava, não gritava; apenas olhava para ele com uma vulnerabilidade que desarmava qualquer lógica racional que ele tentasse aplicar.
— Emanuel... eu só queria ler meu livro — Eduarda murmurou, estendendo a mão timidamente em direção a ele.
Emanuel caminhou até ela, ignorando o olhar furioso de Sara. Ele se sentou na borda do sofá e passou o braço pelos ombros de Eduarda, sentindo-a se aninhar imediatamente em seu peito, buscando o calor e a segurança que só ele provia.
— Chega disso — Emanuel disse, sua voz assumindo aquele tom firme e baixo que usava para controlar subordinados em seus estúdios. — Sara, você está passando dos limites. Eduarda não te atacou.
— Ela não precisa atacar com palavras quando ataca com essa passividade agressiva! — Sara explodiu, gesticulando freneticamente. — Você é cego? Ela te prende nessa redoma de vidro e você cai como um patinho. Eu sou a única que fala a verdade nessa p*rra de relacionamento!
Emanuel sentiu a têmpora latejar. Ele amava a energia vibrante de Sara, a confiança que ela exalava e o sexo incendiário que vinha com sua personalidade dominante. Mas ele também precisava da paz de Eduarda, da doçura que o acalmava após um dia lidando com burocracias e agulhas. O problema era que as duas eram como matéria e antimatéria.
— Para o bem da minha sanidade — Emanuel começou, levantando-se e puxando Eduarda suavemente pela mão —, nós vamos sair. Agora.
— Sair para onde? — Sara perguntou, estreitando os olhos.
— Para o shopping. Para a rua. Para qualquer lugar onde o teto seja alto o suficiente para os egos de vocês não colidirem — Emanuel respondeu, já pegando sua carteira. — Sara, vá trocar de sapato ou o que quer que você faça. Eduarda, pegue sua bolsa.
...
Uma hora depois, Emanuel questionava seriamente suas habilidades de tomada de decisão.
Eles estavam em uma das áreas mais exclusivas da cidade, cercados por vitrines que brilhavam com o luxo que o dinheiro dele podia comprar. O que deveria ser um passeio para "esfriar a cabeça" transformou-se rapidamente em um campo de batalha de consumo e ostentação.
— Aquela bolsa ficaria horrível em você, Eduarda. É muito... grande. Você ia parecer uma criança carregando a mochila da escola — Sara comentou, apontando para uma vitrine de grife francesa enquanto caminhavam.
Eduarda parou diante de uma loja de tons pastéis, com vitrines decoradas com flores de seda.
— Eu gostei daquele vestido de seda azul, Emanuel — ela disse, puxando levemente a manga da jaqueta dele. — Ele parece... calmo.
— Calmo? Vestido não tem personalidade, querida, quem tem é a pessoa — Sara interrompeu, entrando na loja à frente deles. — Emanuel, olha aquele conjunto de alfaiataria ali no fundo. É a minha cara. E eu quero aquele scarpin dourado que vi na entrada.
Emanuel sentiu o peso do cartão de crédito no bolso. Ele entrou na loja, tentando manter a postura de controle.
— Podem escolher o que quiserem. Só, por favor, parem de trocar farpas.
O que se seguiu foi uma maratona de tortura psicológica disfarçada de compras. Sara circulava pela loja como uma predadora, exigindo a atenção de três vendedoras ao mesmo tempo. Ela escolhia as peças mais caras, mais justas e mais brilhantes, fazendo questão de desfilar para Emanuel a cada troca.
— O que acha, Manu? — ela perguntou, saindo do provador com um vestido preto com fendas que desafiavam a gravidade. — Valoriza meu investimento, não acha? — Ela deu um tapinha sugestivo no próprio seio, referindo-se ao silicone que ele mesmo havia incentivado e pago.
— Está incrível, Sara — Emanuel respondeu, mas sua atenção foi desviada para o canto oposto da loja.
Eduarda estava parada diante de um espelho, segurando um vestido de linho branco contra o corpo. Ela parecia uma pintura renascentista perdida em um mundo de neon. Quando viu Emanuel olhando, ela deu um sorriso tímido, quase triste.
— Você acha que fica bom? Ou é muito simples? — ela perguntou, a insegurança vibrando em sua voz.
Emanuel caminhou até ela e a abraçou por trás, olhando para o reflexo dos dois.
— Fica perfeito. Você não precisa de muito para brilhar, Duda.
— Ah, poupe-me! — A voz de Sara cortou o momento como uma navalha. — "Você não precisa de muito". É o código para "você é sem graça". Vendedora! Vou levar esse, o verde, o conjunto de couro e aquela bota de cano alto. Ah, e coloque na conta dele.
Emanuel suspirou, sentindo a primeira pontada de uma enxaqueca.
— Pode levar o que quiser, Eduarda. Não escute ela.
— Eu quero o azul... e talvez aquele chapéu — Eduarda disse, encostando a cabeça no ombro de Emanuel. — Mas a Sara está brava, talvez seja melhor a gente ir embora.
— Não, nós vamos terminar isso — Emanuel decretou, a paciência se esvaindo.
Três lojas depois, a situação havia escalado. Sara agora carregava uma sacola de joias e duas de sapatos de luxo. Eduarda, sentindo-se sobrecarregada pelo barulho e pelas provocações constantes, havia se tornado ainda mais dependente, recusando-se a soltar o braço de Emanuel por um segundo sequer.
— Você está sufocando ele, garota! — Sara disparou enquanto entravam em uma loja de departamentos de alto padrão. — Deixa o homem respirar. Ele não é seu pai, é seu namorado. Se bem que, com esse seu jeito de sonsa, você deve confundir as coisas.
— Sara, chega! — Emanuel rugiu, atraindo olhares de outros clientes. — Mais uma palavra e eu juro que deixo você aqui e cancelo todos os seus cartões adicionais.
Sara parou, os olhos faiscando de fúria, mas o tom de Emanuel indicava que ele não estava blefando. Ela bufou, jogando o cabelo para trás.
— Tudo bem. Mas eu quero aquela bolsa de edição limitada. A de verniz.
— Compre a maldita bolsa — Emanuel disse, massageando as têmporas.
Ao final da tarde, a imagem de Emanuel era o retrato do caos. Ele estava parado no centro do corredor do shopping, carregando exatamente quinze sacolas de diferentes tamanhos e marcas. Seus braços doíam, o suor frio escorria por suas costas e ele sentia que seu cérebro havia sido passado por um moedor de carne.
De um lado, Sara caminhava triunfante, parando a cada dois minutos para conferir seu reflexo nas vitrines, agindo como se tivesse acabado de vencer uma guerra. Do outro, Eduarda caminhava encolhida, segurando o braço dele com força, os olhos baixos, exausta pelo desgaste emocional da tarde.
— Emanuel, podemos parar para tomar um café? — Eduarda pediu com a voz manhosa. — Meus pés estão doendo.
— Café? Eu quero um martini! — Sara exclamou. — E tem uma loja de lingeries ali na frente que eu ainda não entrei.
Emanuel parou abruptamente. As quinze sacolas balançaram perigosamente em suas mãos. Ele olhou para Sara, com sua beleza agressiva e sua língua afiada, e depois para Eduarda, com sua fragilidade quase etérea e sua necessidade constante de afirmação.
Ele era um homem que controlava estúdios em Londres, Nova York e Tóquio. Ele lidava com artistas temperamentais e clientes bilionários. Mas ali, entre o verniz das bolsas de Sara e o linho dos vestidos de Eduarda, ele se sentia o homem mais impotente do mundo.
— Nós vamos para o carro — Emanuel disse, sua voz agora num tom perigosamente calmo.
— Mas Manu... — Sara começou.
— Agora — ele cortou, os olhos escuros brilhando com uma irritação que finalmente transbordou.
A caminhada até o estacionamento foi feita em um silêncio tenso. Ao chegar no SUV de luxo, Emanuel praticamente jogou as sacolas no porta-malas. O som das embalagens de grife batendo umas nas outras foi o único ruído no local.
Ele fechou o porta-malas com força excessiva e encostou a testa no vidro traseiro por um momento, respirando fundo.
— Emanuel? Você está bem? — Eduarda se aproximou, tocando seu ombro com cautela.
— Ele só está cansado de carregar suas tralhas, Eduarda — Sara disse, encostada na porta do passageiro, retocando o batom vermelho vibrante.
Emanuel se virou, olhando para as duas.
— Eu não estou bem. Eu estou com quinze sacolas de roupas que vocês provavelmente vão usar para brigar de novo amanhã, uma dor de cabeça que parece uma britadeira e a nítida sensação de que eu perdi cinco anos de vida em três horas.
Ele entrou no carro e bateu a porta.
Eduarda e Sara se entreolharam por um breve segundo. Nos olhos de Sara, havia um brilho de diversão por ter levado Emanuel ao limite. Nos de Eduarda, uma tristeza genuína por ter causado desconforto ao seu protetor.
— Viu o que você fez? — Sara sussurrou antes de dar a volta para entrar no banco da frente.
— Eu não fiz nada... — Eduarda repetiu, entrando no banco de trás e começando a chorar silenciosamente de novo.
Emanuel ligou o motor. O ronco do carro era o único som que prometia alguma ordem. Ele olhou pelo retrovisor e viu Eduarda limpando as lágrimas, e depois olhou para o lado, vendo Sara sorrir para o próprio reflexo no espelho do quebra-sol.
Ele acelerou, saindo do shopping. Ele tinha o dinheiro, ele tinha as mulheres mais bonitas da cidade, ele tinha as posses. Mas, enquanto dirigia de volta para a cobertura que era sua arena particular, Emanuel só conseguia pensar que, na próxima vez, talvez fosse mais barato e menos traumático apenas fazer uma tatuagem no próprio rosto sem anestesia.
