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Duas
Fandom: Nenhum
Criado: 22/05/2026
Tags
RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoCiúmesEstudo de PersonagemAbuso de Álcool
Entre o Caos e o Verniz: O Jantar das Máscaras
O ar dentro do apartamento de cobertura de Emanuel era tão denso que poderia ser cortado com uma das agulhas de seu estúdio. O silêncio que se seguiu ao último grito de Sara era carregado de estática, o tipo de tensão que precede uma tempestade devastadora. Emanuel, parado no centro da sala com as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria escura, fechou os olhos por um segundo, sentindo a pulsação latejar em suas têmporas. Ele era um homem que construiu um império baseado na precisão do traço e no controle absoluto da dor alheia sob a agulha, mas ali, entre as duas mulheres que amava de formas tão opostas, ele se sentia um amador.
— Eu já cansei desse teatrinho de vítima, Eduarda! — a voz de Sara rasgou o ambiente novamente. Ela estava de pé junto ao sofá de couro italiano, os braços cruzados sobre o busto generoso, realçado por um vestido de seda vermelha excessivamente justo. — Você fica aí, com essa carinha de quem não quebra um prato, chorando baixinho só para ele correr e te carregar no colo. É patético. Você é a pessoa mais manipuladora que eu já conheci.
Eduarda, sentada na beira da poltrona, encolheu-se ainda mais. Ela vestia um conjunto de tricô leve em tom creme que parecia abraçar sua estrutura esguia e delicada. Seus olhos, grandes e úmidos, encontraram os de Emanuel por apenas um segundo antes de se desviarem para o chão. Uma única lágrima escorreu por sua bochecha pálida, e ela limpou-a com as costas da mão, um gesto lento e manhoso que parecia gritar por proteção.
— Eu... eu não fiz nada, Sara — sussurrou Eduarda, a voz falhando de forma quase imperceptível. — Eu só queria que a gente pudesse ter uma noite tranquila antes de ver a mãe do Manu. Por que você sempre precisa transformar tudo em um campo de batalha?
Sara soltou uma risada seca e escandalosa, balançando os cabelos loiros perfeitamente escovados.
— Tranquila? Você quer dizer uma noite onde você brilha sendo a "menina perfeita" enquanto eu sou a vilã? — Sara deu um passo à frente, o salto agulha estalando no piso de madeira. — Emanuel, você não vê? Essa passividade dela é uma arma. Ela te prende pela culpa, enquanto eu sou a única que tem coragem de dizer a verdade nessa casa.
Emanuel finalmente abriu os olhos. Sua expressão era uma máscara de rigidez, os traços do rosto fechados pela exaustão de um dia longo gerenciando seus estúdios e a tensão doméstica que nunca cessava. Ele caminhou até Eduarda e colocou uma mão firme, mas gentil, em seu ombro. Sentiu-a relaxar instantaneamente sob seu toque, buscando sua proximidade como uma planta busca o sol.
— Chega, Sara — disse ele, a voz baixa e carregada de uma autoridade que raramente falhava. — Nós temos um compromisso. Minha mãe está esperando, e eu não vou permitir que vocês levem essa energia para a casa dela. Eduarda, vá retocar o rosto. Sara, pegue sua bolsa. Agora.
Sara bufou, revirando os olhos com uma dramaticidade que beirava o vulgar, mas não retrucou. Ela sabia exatamente até onde podia esticar a corda com Emanuel antes que ele se fechasse completamente. Com um rebolado deliberado, ela caminhou até o aparador, pegando sua bolsa de grife.
Eduarda levantou-se devagar, segurando a mão de Emanuel por um momento extra.
— Desculpe, Manu — murmurou ela, encostando a cabeça no peito dele por um breve segundo. — Eu não queria estressar você.
— Eu sei, querida. Vá se preparar — ele respondeu, dando um beijo casto no topo da cabeça dela, embora seus olhos estivessem fixos no vazio, calculando quanto tempo levaria para o próximo conflito estourar.
O trajeto até a casa de Dona Heloísa foi um exercício de tortura psicológica. No banco da frente, ao lado de Emanuel, Sara não parava de retocar o batom vibrante no espelho do quebra-sol, fazendo questão de comentar sobre como a administração da casa dele seria muito mais eficiente se ele a deixasse assumir as rédeas, em vez de focar tanto em "arte". No banco de trás, Eduarda permanecia em um silêncio melancólico, observando as luzes da cidade passarem pela janela, ocasionalmente soltando um suspiro baixo que fazia os dedos de Emanuel apertarem o volante com mais força.
Quando chegaram à imponente casa de estilo clássico onde Emanuel crescera, ele respirou fundo.
— Por favor — pediu ele, antes de saírem do carro —, tentem ser civilizadas. Pelo menos por três horas.
— Eu sou sempre uma dama, meu amor — provocou Sara, piscando um olho para ele enquanto exibia o decote generoso ao sair do veículo. — Algumas de nós só não precisam de fantasia de anjo para provar isso.
— Eu vou tentar, Manu — disse Eduarda, aproximando-se dele assim que ele saiu do carro, entrelaçando seu braço ao dele com uma possessividade sutil. — Só não deixe ela me machucar de novo.
Emanuel apenas assentiu, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros.
Dona Heloísa os recebeu com a elegância contida de quem já estava acostumada com as excentricidades do filho, embora fosse nítido que ela ainda não havia processado completamente a dinâmica daquele trio. O jantar foi servido em uma sala de jantar iluminada por um lustre de cristal, onde cada tilintar de talher soava como um tiro no silêncio tenso.
— E como vão os estudos, Eduarda? — perguntou Heloísa, servindo-se de uma porção mínima de risoto. — História da Arte é um campo fascinante.
Eduarda sorriu, um brilho genuíno surgindo em seus olhos expressivos.
— Estão indo bem, Dona Heloísa. Estamos estudando o Renascimento agora. É incrível como a sensibilidade daquela época conseguia capturar a alma humana em traços tão delicados...
— É uma pena que a "alma humana" não pague as contas, não é? — interrompeu Sara, girando a taça de vinho tinto entre os dedos longos e bem feitos. — Eu sempre digo ao Emanuel que o que importa é a gestão. A arte é o brilho, mas a administração é o que mantém o palco de pé. Pena que algumas pessoas preferem viver nas nuvens enquanto os outros trabalham.
Eduarda baixou o olhar para o prato, os lábios tremendo levemente.
— Eu valorizo o trabalho do Emanuel tanto quanto você, Sara. Só acho que nem tudo se resume a números.
— Claro que não — retrucou Sara com um sorriso cínico. — Para você, resume-se a ser cuidada e protegida como se fosse uma boneca de porcelana. Deve ser exaustivo para ele ter que carregar tanto peso morto.
— Sara! — a voz de Emanuel ressoou na sala, fazendo os cristais vibrarem. — Já chega. Você está na casa da minha mãe. Tenha o mínimo de decência.
— Ah, agora a culpa é minha? — Sara largou a taça na mesa com um baque seco. — Eu sou a única aqui que não finge! Eu sou real, Emanuel. Eu mostro quem eu sou, com meus erros e meus acertos. Já ela... ela usa essa timidez como um escudo para nunca ser cobrada por nada. Ela é formada em "ser coitadinha".
Eduarda levantou-se da mesa subitamente, as mãos pequenas agarrando o guardanapo de linho.
— Com licença... eu... eu preciso de um pouco de ar — disse ela, a voz embargada. Ela não esperou resposta e saiu apressada em direção ao jardim de inverno da casa.
Emanuel fechou os olhos, sentindo a raiva borbulhar. Ele olhou para a mãe, que observava a cena com uma sobrancelha erguida, e depois para Sara, que exibia uma expressão de triunfo mal disfarçada.
— Você não consegue se segurar por uma noite, não é? — perguntou ele, a voz perigosamente calma.
— Eu não suporto falsidade, Emanuel. Se você prefere a mentira doce dela à minha verdade nua e crua, o problema é seu — Sara cruzou os braços, o busto siliconado subindo e descendo com a respiração acelerada.
Sem dizer mais nada, Emanuel levantou-se e seguiu o caminho que Eduarda fizera. Ele a encontrou perto de uma fonte de pedra, cercada por orquídeas. Ela estava de costas, os ombros subindo e descendo em soluços silenciosos. A luz da lua filtrava-se pelo teto de vidro, dando a ela uma aparência quase etérea, mas profundamente frágil.
— Duda... — chamou ele suavemente.
Ela se virou, o rosto banhado em lágrimas, e imediatamente se lançou nos braços dele. Emanuel a envolveu, sentindo o corpo leve e esguio dela tremer contra o seu. O cheiro suave de baunilha que ela exalava sempre agia como um calmante para seus nervos, uma antítese ao perfume forte e caro de Sara que costumava dominar seus sentidos.
— Ela me odeia, Manu — soluçou Eduarda, escondendo o rosto no pescoço dele. — Eu tento ser legal, eu juro que tento... mas ela me ataca o tempo todo. Eu me sinto tão pequena perto dela.
— Você não é pequena — disse ele, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Você é a paz que eu preciso quando saio do estúdio. Não deixe as palavras dela entrarem na sua cabeça. A Sara é... intensa. Ela não sabe lidar com quem é diferente dela.
— Mas por que ela tem que ser assim? — Eduarda olhou para ele com aqueles olhos suplicantes que sempre o desarmavam. — Por que você não pode simplesmente dizer a ela para parar? Você é o único que ela escuta.
Emanuel suspirou, sentindo o conflito interno rasgá-lo. Ele amava a energia de Sara, a confiança avassaladora e a forma como ela o desafiava, mantendo-o alerta. Mas ele precisava da doçura de Eduarda para não se perder na própria rigidez. O problema era que as duas eram como fogo e água, e ele era o recipiente que estava prestes a rachar.
— Eu vou falar com ela, eu prometo — disse ele, embora soubesse que aquelas palavras eram apenas um paliativo. — Vamos voltar? Minha mãe vai ficar preocupada.
— Só se você segurar minha mão o tempo todo — pediu ela, fazendo um biquinho manhoso que Emanuel não conseguiu resistir em beijar.
Quando voltaram para a sala, Sara estava sentada no sofá, uma perna cruzada sobre a outra, balançando um sapato de forma impaciente. Ao ver os dois entrando de mãos dadas, seus olhos faiscaram.
— Que cena linda — ironizou ela, levantando-se. — O cavaleiro e sua donzela em perigo. Podemos ir embora agora? Já tive minha dose de melodrama por um mês.
O resto da noite foi um borrão de silêncios hostis e trocas de olhares venenosos. No caminho de volta, o carro parecia pequeno demais para abrigar tantas emoções conflitantes. Emanuel dirigia focado na estrada, a tensão acumulada em seus ombros fazendo seus músculos doerem. Ele era um homem de sucesso, rico, respeitado no mundo todo por sua arte na pele, mas ali, naquele habitáculo de metal, ele se sentia apenas um mediador de uma guerra sem fim.
Ao chegarem no apartamento, Sara entrou primeiro, jogando a bolsa no sofá e indo direto para o bar.
— Vou precisar de um drink duplo para esquecer esse jantar desastroso — declarou ela, servindo-se de whisky.
Eduarda caminhou lentamente até Emanuel, que estava parado na porta, fechando-a. Ela o abraçou por trás, passando os braços pela cintura dele e pressionando o rosto em suas costas largas.
— Manu... você vem dormir comigo hoje? — perguntou ela, a voz carregada de uma carência que beirava a manipulação. — Eu ainda estou muito nervosa com o que aconteceu. Preciso de você perto de mim.
Sara virou-se bruscamente, o copo na mão.
— Ah, nem comece! Hoje é a minha noite com ele, Eduarda. Está no cronograma que você mesma concordou em tentar seguir.
— Mas eu estou mal, Sara! — Eduarda virou o rosto para olhar a outra, sem soltar Emanuel. — Você me humilhou na frente da mãe dele. O mínimo que você poderia ter é um pouco de empatia.
— Empatia? — Sara riu, aproximando-se com passos predatórios. — O que você tem é uma conveniência emocional absurda. Emanuel, você não vai cair nessa de novo, vai?
Emanuel sentiu a pressão aumentar. De um lado, o calor suave e o pedido silencioso de proteção de Eduarda. Do outro, o desafio vibrante e a exigência de justiça de Sara. Ele se soltou gentilmente do abraço de Eduarda e caminhou até o centro da sala, ficando entre as duas.
— Ninguém vai dormir com ninguém por enquanto — sentenciou ele, a voz fria como gelo. — Eu vou para o meu escritório. Tenho desenhos para terminar para o estúdio de Londres. Vocês duas... — ele apontou para cada uma — ...vão para seus respectivos quartos. E se eu ouvir um único grito, uma única acusação, eu juro que passo o resto da semana em um hotel.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara estreitou os olhos, mas deu um gole em seu whisky e subiu as escadas sem dizer uma palavra, embora o bater da porta do seu quarto tenha ecoado por todo o andar.
Eduarda permaneceu parada, olhando para Emanuel com uma expressão de abandono.
— Você está bravo comigo também? — perguntou ela, um fio de voz.
Emanuel olhou para ela, vendo a fragilidade que tanto o encantava, mas também sentindo, pela primeira vez, o peso do cansaço que aquela dinâmica impunha.
— Eu estou exausto, Duda. Só isso. Vá descansar.
Ele a viu subir as escadas lentamente, o passo pesado e triste. Quando ficou sozinho na sala, Emanuel serviu-se de uma dose de whisky, a mesma marca que Sara bebia. Ele caminhou até a grande janela que dava para a cidade, observando as luzes distantes.
Ele sabia que o equilíbrio era precário. Amava a delicadeza de Eduarda, a forma como ela o via como um herói, como ela trazia cor para sua vida com seu conhecimento de arte e sua doçura. Mas também desejava a força de Sara, a vulgaridade honesta que o tirava da zona de conforto, a inteligência afiada que o ajudava a gerir seu império de tatuagens.
O problema era que, no processo de tentar ter tudo, ele estava perdendo a própria paz. Ele era o mestre das agulhas, o homem que transformava dor em beleza permanente na pele dos outros, mas ali, em sua própria vida, ele não conseguia encontrar o traço certo para unir aquelas duas realidades sem que elas se destruíssem.
Emanuel virou o copo de uma vez, sentindo o líquido queimar sua garganta. A noite estava longe de acabar, e ele sabia que, em algum momento, as portas dos quartos se abririam novamente, e ele teria que escolher qual incêndio apagar primeiro. No mundo das tatuagens, um erro era permanente. Naquela cobertura, cada escolha parecia uma cicatriz que nunca chegava a fechar.
— Eu já cansei desse teatrinho de vítima, Eduarda! — a voz de Sara rasgou o ambiente novamente. Ela estava de pé junto ao sofá de couro italiano, os braços cruzados sobre o busto generoso, realçado por um vestido de seda vermelha excessivamente justo. — Você fica aí, com essa carinha de quem não quebra um prato, chorando baixinho só para ele correr e te carregar no colo. É patético. Você é a pessoa mais manipuladora que eu já conheci.
Eduarda, sentada na beira da poltrona, encolheu-se ainda mais. Ela vestia um conjunto de tricô leve em tom creme que parecia abraçar sua estrutura esguia e delicada. Seus olhos, grandes e úmidos, encontraram os de Emanuel por apenas um segundo antes de se desviarem para o chão. Uma única lágrima escorreu por sua bochecha pálida, e ela limpou-a com as costas da mão, um gesto lento e manhoso que parecia gritar por proteção.
— Eu... eu não fiz nada, Sara — sussurrou Eduarda, a voz falhando de forma quase imperceptível. — Eu só queria que a gente pudesse ter uma noite tranquila antes de ver a mãe do Manu. Por que você sempre precisa transformar tudo em um campo de batalha?
Sara soltou uma risada seca e escandalosa, balançando os cabelos loiros perfeitamente escovados.
— Tranquila? Você quer dizer uma noite onde você brilha sendo a "menina perfeita" enquanto eu sou a vilã? — Sara deu um passo à frente, o salto agulha estalando no piso de madeira. — Emanuel, você não vê? Essa passividade dela é uma arma. Ela te prende pela culpa, enquanto eu sou a única que tem coragem de dizer a verdade nessa casa.
Emanuel finalmente abriu os olhos. Sua expressão era uma máscara de rigidez, os traços do rosto fechados pela exaustão de um dia longo gerenciando seus estúdios e a tensão doméstica que nunca cessava. Ele caminhou até Eduarda e colocou uma mão firme, mas gentil, em seu ombro. Sentiu-a relaxar instantaneamente sob seu toque, buscando sua proximidade como uma planta busca o sol.
— Chega, Sara — disse ele, a voz baixa e carregada de uma autoridade que raramente falhava. — Nós temos um compromisso. Minha mãe está esperando, e eu não vou permitir que vocês levem essa energia para a casa dela. Eduarda, vá retocar o rosto. Sara, pegue sua bolsa. Agora.
Sara bufou, revirando os olhos com uma dramaticidade que beirava o vulgar, mas não retrucou. Ela sabia exatamente até onde podia esticar a corda com Emanuel antes que ele se fechasse completamente. Com um rebolado deliberado, ela caminhou até o aparador, pegando sua bolsa de grife.
Eduarda levantou-se devagar, segurando a mão de Emanuel por um momento extra.
— Desculpe, Manu — murmurou ela, encostando a cabeça no peito dele por um breve segundo. — Eu não queria estressar você.
— Eu sei, querida. Vá se preparar — ele respondeu, dando um beijo casto no topo da cabeça dela, embora seus olhos estivessem fixos no vazio, calculando quanto tempo levaria para o próximo conflito estourar.
O trajeto até a casa de Dona Heloísa foi um exercício de tortura psicológica. No banco da frente, ao lado de Emanuel, Sara não parava de retocar o batom vibrante no espelho do quebra-sol, fazendo questão de comentar sobre como a administração da casa dele seria muito mais eficiente se ele a deixasse assumir as rédeas, em vez de focar tanto em "arte". No banco de trás, Eduarda permanecia em um silêncio melancólico, observando as luzes da cidade passarem pela janela, ocasionalmente soltando um suspiro baixo que fazia os dedos de Emanuel apertarem o volante com mais força.
Quando chegaram à imponente casa de estilo clássico onde Emanuel crescera, ele respirou fundo.
— Por favor — pediu ele, antes de saírem do carro —, tentem ser civilizadas. Pelo menos por três horas.
— Eu sou sempre uma dama, meu amor — provocou Sara, piscando um olho para ele enquanto exibia o decote generoso ao sair do veículo. — Algumas de nós só não precisam de fantasia de anjo para provar isso.
— Eu vou tentar, Manu — disse Eduarda, aproximando-se dele assim que ele saiu do carro, entrelaçando seu braço ao dele com uma possessividade sutil. — Só não deixe ela me machucar de novo.
Emanuel apenas assentiu, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros.
Dona Heloísa os recebeu com a elegância contida de quem já estava acostumada com as excentricidades do filho, embora fosse nítido que ela ainda não havia processado completamente a dinâmica daquele trio. O jantar foi servido em uma sala de jantar iluminada por um lustre de cristal, onde cada tilintar de talher soava como um tiro no silêncio tenso.
— E como vão os estudos, Eduarda? — perguntou Heloísa, servindo-se de uma porção mínima de risoto. — História da Arte é um campo fascinante.
Eduarda sorriu, um brilho genuíno surgindo em seus olhos expressivos.
— Estão indo bem, Dona Heloísa. Estamos estudando o Renascimento agora. É incrível como a sensibilidade daquela época conseguia capturar a alma humana em traços tão delicados...
— É uma pena que a "alma humana" não pague as contas, não é? — interrompeu Sara, girando a taça de vinho tinto entre os dedos longos e bem feitos. — Eu sempre digo ao Emanuel que o que importa é a gestão. A arte é o brilho, mas a administração é o que mantém o palco de pé. Pena que algumas pessoas preferem viver nas nuvens enquanto os outros trabalham.
Eduarda baixou o olhar para o prato, os lábios tremendo levemente.
— Eu valorizo o trabalho do Emanuel tanto quanto você, Sara. Só acho que nem tudo se resume a números.
— Claro que não — retrucou Sara com um sorriso cínico. — Para você, resume-se a ser cuidada e protegida como se fosse uma boneca de porcelana. Deve ser exaustivo para ele ter que carregar tanto peso morto.
— Sara! — a voz de Emanuel ressoou na sala, fazendo os cristais vibrarem. — Já chega. Você está na casa da minha mãe. Tenha o mínimo de decência.
— Ah, agora a culpa é minha? — Sara largou a taça na mesa com um baque seco. — Eu sou a única aqui que não finge! Eu sou real, Emanuel. Eu mostro quem eu sou, com meus erros e meus acertos. Já ela... ela usa essa timidez como um escudo para nunca ser cobrada por nada. Ela é formada em "ser coitadinha".
Eduarda levantou-se da mesa subitamente, as mãos pequenas agarrando o guardanapo de linho.
— Com licença... eu... eu preciso de um pouco de ar — disse ela, a voz embargada. Ela não esperou resposta e saiu apressada em direção ao jardim de inverno da casa.
Emanuel fechou os olhos, sentindo a raiva borbulhar. Ele olhou para a mãe, que observava a cena com uma sobrancelha erguida, e depois para Sara, que exibia uma expressão de triunfo mal disfarçada.
— Você não consegue se segurar por uma noite, não é? — perguntou ele, a voz perigosamente calma.
— Eu não suporto falsidade, Emanuel. Se você prefere a mentira doce dela à minha verdade nua e crua, o problema é seu — Sara cruzou os braços, o busto siliconado subindo e descendo com a respiração acelerada.
Sem dizer mais nada, Emanuel levantou-se e seguiu o caminho que Eduarda fizera. Ele a encontrou perto de uma fonte de pedra, cercada por orquídeas. Ela estava de costas, os ombros subindo e descendo em soluços silenciosos. A luz da lua filtrava-se pelo teto de vidro, dando a ela uma aparência quase etérea, mas profundamente frágil.
— Duda... — chamou ele suavemente.
Ela se virou, o rosto banhado em lágrimas, e imediatamente se lançou nos braços dele. Emanuel a envolveu, sentindo o corpo leve e esguio dela tremer contra o seu. O cheiro suave de baunilha que ela exalava sempre agia como um calmante para seus nervos, uma antítese ao perfume forte e caro de Sara que costumava dominar seus sentidos.
— Ela me odeia, Manu — soluçou Eduarda, escondendo o rosto no pescoço dele. — Eu tento ser legal, eu juro que tento... mas ela me ataca o tempo todo. Eu me sinto tão pequena perto dela.
— Você não é pequena — disse ele, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Você é a paz que eu preciso quando saio do estúdio. Não deixe as palavras dela entrarem na sua cabeça. A Sara é... intensa. Ela não sabe lidar com quem é diferente dela.
— Mas por que ela tem que ser assim? — Eduarda olhou para ele com aqueles olhos suplicantes que sempre o desarmavam. — Por que você não pode simplesmente dizer a ela para parar? Você é o único que ela escuta.
Emanuel suspirou, sentindo o conflito interno rasgá-lo. Ele amava a energia de Sara, a confiança avassaladora e a forma como ela o desafiava, mantendo-o alerta. Mas ele precisava da doçura de Eduarda para não se perder na própria rigidez. O problema era que as duas eram como fogo e água, e ele era o recipiente que estava prestes a rachar.
— Eu vou falar com ela, eu prometo — disse ele, embora soubesse que aquelas palavras eram apenas um paliativo. — Vamos voltar? Minha mãe vai ficar preocupada.
— Só se você segurar minha mão o tempo todo — pediu ela, fazendo um biquinho manhoso que Emanuel não conseguiu resistir em beijar.
Quando voltaram para a sala, Sara estava sentada no sofá, uma perna cruzada sobre a outra, balançando um sapato de forma impaciente. Ao ver os dois entrando de mãos dadas, seus olhos faiscaram.
— Que cena linda — ironizou ela, levantando-se. — O cavaleiro e sua donzela em perigo. Podemos ir embora agora? Já tive minha dose de melodrama por um mês.
O resto da noite foi um borrão de silêncios hostis e trocas de olhares venenosos. No caminho de volta, o carro parecia pequeno demais para abrigar tantas emoções conflitantes. Emanuel dirigia focado na estrada, a tensão acumulada em seus ombros fazendo seus músculos doerem. Ele era um homem de sucesso, rico, respeitado no mundo todo por sua arte na pele, mas ali, naquele habitáculo de metal, ele se sentia apenas um mediador de uma guerra sem fim.
Ao chegarem no apartamento, Sara entrou primeiro, jogando a bolsa no sofá e indo direto para o bar.
— Vou precisar de um drink duplo para esquecer esse jantar desastroso — declarou ela, servindo-se de whisky.
Eduarda caminhou lentamente até Emanuel, que estava parado na porta, fechando-a. Ela o abraçou por trás, passando os braços pela cintura dele e pressionando o rosto em suas costas largas.
— Manu... você vem dormir comigo hoje? — perguntou ela, a voz carregada de uma carência que beirava a manipulação. — Eu ainda estou muito nervosa com o que aconteceu. Preciso de você perto de mim.
Sara virou-se bruscamente, o copo na mão.
— Ah, nem comece! Hoje é a minha noite com ele, Eduarda. Está no cronograma que você mesma concordou em tentar seguir.
— Mas eu estou mal, Sara! — Eduarda virou o rosto para olhar a outra, sem soltar Emanuel. — Você me humilhou na frente da mãe dele. O mínimo que você poderia ter é um pouco de empatia.
— Empatia? — Sara riu, aproximando-se com passos predatórios. — O que você tem é uma conveniência emocional absurda. Emanuel, você não vai cair nessa de novo, vai?
Emanuel sentiu a pressão aumentar. De um lado, o calor suave e o pedido silencioso de proteção de Eduarda. Do outro, o desafio vibrante e a exigência de justiça de Sara. Ele se soltou gentilmente do abraço de Eduarda e caminhou até o centro da sala, ficando entre as duas.
— Ninguém vai dormir com ninguém por enquanto — sentenciou ele, a voz fria como gelo. — Eu vou para o meu escritório. Tenho desenhos para terminar para o estúdio de Londres. Vocês duas... — ele apontou para cada uma — ...vão para seus respectivos quartos. E se eu ouvir um único grito, uma única acusação, eu juro que passo o resto da semana em um hotel.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara estreitou os olhos, mas deu um gole em seu whisky e subiu as escadas sem dizer uma palavra, embora o bater da porta do seu quarto tenha ecoado por todo o andar.
Eduarda permaneceu parada, olhando para Emanuel com uma expressão de abandono.
— Você está bravo comigo também? — perguntou ela, um fio de voz.
Emanuel olhou para ela, vendo a fragilidade que tanto o encantava, mas também sentindo, pela primeira vez, o peso do cansaço que aquela dinâmica impunha.
— Eu estou exausto, Duda. Só isso. Vá descansar.
Ele a viu subir as escadas lentamente, o passo pesado e triste. Quando ficou sozinho na sala, Emanuel serviu-se de uma dose de whisky, a mesma marca que Sara bebia. Ele caminhou até a grande janela que dava para a cidade, observando as luzes distantes.
Ele sabia que o equilíbrio era precário. Amava a delicadeza de Eduarda, a forma como ela o via como um herói, como ela trazia cor para sua vida com seu conhecimento de arte e sua doçura. Mas também desejava a força de Sara, a vulgaridade honesta que o tirava da zona de conforto, a inteligência afiada que o ajudava a gerir seu império de tatuagens.
O problema era que, no processo de tentar ter tudo, ele estava perdendo a própria paz. Ele era o mestre das agulhas, o homem que transformava dor em beleza permanente na pele dos outros, mas ali, em sua própria vida, ele não conseguia encontrar o traço certo para unir aquelas duas realidades sem que elas se destruíssem.
Emanuel virou o copo de uma vez, sentindo o líquido queimar sua garganta. A noite estava longe de acabar, e ele sabia que, em algum momento, as portas dos quartos se abririam novamente, e ele teria que escolher qual incêndio apagar primeiro. No mundo das tatuagens, um erro era permanente. Naquela cobertura, cada escolha parecia uma cicatriz que nunca chegava a fechar.
