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Fandom: Nemhum

Criado: 22/05/2026

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Entre o Silêncio e o Salto Alto

O ar no apartamento de Emanuel estava pesado, saturado pelo perfume doce e forte de Sara e pelo cheiro suave de amaciante que sempre parecia emanar de Eduarda. O silêncio que precedia a tempestade foi quebrado pelo som metálico de uma pulseira batendo contra a mesa de vidro.

— Eu não vou passar a minha sexta-feira à noite sentada em uma poltrona de veludo mofada, ouvindo gente declamar Shakespeare como se estivesse morrendo — sentenciou Sara, cruzando as pernas torneadas. Ela usava um vestido vermelho curtíssimo, que realçava cada curva acentuada por seus procedimentos estéticos, e seus cabelos loiros, impecavelmente escovados, brilhavam sob a luz da sala. — A "Boate Pulse" inaugurou o camarote novo, Emanuel. É lá que a gente vai.

Eduarda, sentada no canto do sofá de linho, encolheu-se um pouco mais. Ela vestia um cardigã bege por cima de um vestido floral leve, as mãos pequenas entrelaçadas sobre os joelhos. Seus olhos, grandes e expressivos, já estavam marejados, refletindo a luz da TV desligada.

— Mas... a peça é só este final de semana — sussurrou Eduarda, a voz falhando levemente. — Eu achei que seria bom termos um momento mais calmo. Está tudo tão barulhento ultimamente.

Sara soltou uma risada anasalada, carregada de sarcasmo.

— Calmo? O que você quer dizer com "calmo", Eduarda, é que você quer o Emanuel só para você, num lugar escuro onde ninguém possa ver como você é sem sal. Esse seu jeitinho de "ai, sou tão sensível" não me engana. Você é a pessoa mais manipuladora que eu já conheci.

— Eu não estou manipulando ninguém — respondeu Eduarda, uma única lágrima escorrendo por seu rosto pálido. Ela não olhou para Sara; em vez disso, buscou o olhar de Emanuel, que estava parado no centro da sala, com as mãos massageando as têmporas.

Emanuel sentia a habitual pressão no peito. Ele amava a energia vibrante de Sara, a forma como ela o desafiava e como sua presença comandava qualquer ambiente, mas também era profundamente atraído pela doçura de Eduarda, pela paz que ela trazia e pela forma como ela parecia precisar dele para se sentir segura. O problema era que, naquele apartamento, a paz e a energia eram como óleo e água.

— Sara, menos — disse Emanuel, sua voz saindo mais rígida do que pretendia. — Não precisa atacar a Duda só porque você quer sair.

— Ah, pronto! — Sara levantou-se num salto, o salto agulha estalando contra o piso laminado. — Começou a proteção. Ela faz esse biquinho, derrama duas lágrimas de crocodilo e você vira o cavaleiro de armadura brilhante. Emanuel, acorda! Ela usa essa timidez como arma. É vulgar o jeito que ela se encosta em você toda vez que eu abro a boca.

Eduarda soltou um soluço baixo e se levantou, caminhando timidamente até Emanuel. Ela segurou a manga da camisa dele, os dedos pequenos apertando o tecido de algodão.

— Desculpa, Emanuel... eu não queria causar briga. Se a Sara quer tanto ir dançar, tudo bem. Eu fico em casa. Eu só... eu só queria passar um tempo com você sem ter que gritar para ser ouvida.

Ela encostou a cabeça no ombro dele, o corpo esguio e leve parecendo quase desaparecer contra o porte mais robusto de Emanuel. O gesto foi automático: ele passou o braço pela cintura dela, trazendo-a para perto em um movimento de puro instinto protetor.

Sara revirou os olhos de forma teatral, bufando.

— Viu só? É disso que eu estou falando! O Oscar de melhor atriz vai para a mosca-morta do sofá. Olha só para ela, se fazendo de coitadinha. Me poupa, Eduarda. Se você quer ser tratada como adulta, aja como uma, em vez de se pendurar nele como uma criança carente.

— Chega, Sara! — Emanuel elevou o tom de voz, os olhos escuros brilhando com a irritação acumulada de uma semana exaustiva de trabalho. — Eu não aguento mais esse bate-boca. Toda sexta-feira é a mesma coisa. Eu pareço um juiz de ringue em vez de namorado.

— Você é um juiz que sempre favorece o lado mais fraco — retrucou Sara, aproximando-se dele. Ela parou a poucos centímetros, o perfume invasivo tomando conta do espaço de Emanuel. Ela colocou a mão no peito dele, as unhas longas e bem feitas roçando o colarinho. — Eu só quero que a gente se divirta. Você está estressado, precisa de uma bebida, de música, de movimento. Não de um velório cultural.

Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, Eduarda, o porto seguro, a sensibilidade que o compreendia sem palavras, mas que exigia dele uma vigilância constante contra o mundo. Do outro, Sara, a explosão de vida, a mulher que não tinha medo de nada, mas que passava por cima dos sentimentos alheios como um trator.

— Nós vamos fazer o seguinte — começou Emanuel, tentando usar a lógica para desarmar a bomba relógio. — O teatro começa às oito e dura apenas uma hora e meia. É uma peça curta. Nós vamos, acompanhamos a Duda, e depois, por volta das dez e meia, nós passamos na boate.

— O quê? — As duas falaram em uníssono, embora com tons diferentes.

— Eu não vou para a boate de vestido floral e sapatilha, Emanuel! — Eduarda protestou baixinho, escondendo o rosto no peito dele. — As pessoas lá são... agressivas.

— E eu não vou ao teatro vestida assim para ser julgada por intelectuais de esquerda! — Sara apontou para o próprio decote generoso. — É ridículo. A gente vai perder o melhor da festa fazendo sala para ator iniciante.

Emanuel respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ele sentia o calor do corpo de Eduarda e a eletricidade que emanava de Sara.

— Sara, você está linda. Se alguém no teatro olhar torto, o problema é deles, não seu. E Duda, você não precisa dançar se não quiser. Ficamos no camarote, eu pego um drink para você e ficamos sentados. Mas eu não vou escolher uma e deixar a outra infeliz. Ou vamos aos dois, ou eu vou dormir e as duas ficam aqui brigando sozinhas.

O ultimato pairou no ar. Sara cruzou os braços, fazendo os seios siliconados se destacarem ainda mais sob o tecido fino do vestido. Ela analisou Emanuel, medindo a determinação no rosto dele. Sabia que, quando ele chegava naquele ponto de rigidez, não adiantava insistir.

— Tá — resmungou Sara. — Mas eu quero uma garrafa de vodka premium só para mim naquele camarote. E você vai dançar comigo pelo menos três músicas. Nada de ficar segurando a mão da "santinha" a noite toda.

Emanuel olhou para Eduarda, que ainda parecia hesitante. Ele acariciou o cabelo dela com carinho.

— Tudo bem para você, pequena? Eu prometo que não saio do seu lado na boate. Se ficar muito chato, a gente vai embora mais cedo.

Eduarda olhou para Sara, que exibia um sorriso vitorioso e provocador, e depois voltou para Emanuel. Ela não gostava de conflitos, e ver Emanuel tão tenso a deixava triste. Ela queria agradá-lo, queria ser a namorada que não causava problemas.

— Tudo bem — cedeu Eduarda, com a voz doce e submissa. — Eu vou me trocar. Vou colocar algo... mais escuro.

— Ótimo — disse Sara, pegando sua bolsa de grife sobre o balcão. — Vou retocar o batom. E Emanuel? Vê se troca essa cara de cansaço. A noite vai ser longa.

Enquanto as duas se retiravam para os respectivos quartos — ou melhor, Eduarda para o quarto principal e Sara para o de hóspedes que ela já havia praticamente tomado como seu —, Emanuel desabou na poltrona.

Ele amava aquela dinâmica caótica, por mais que tentasse negar. Havia algo na fragilidade de Eduarda que alimentava sua necessidade de ser o protetor, o pilar de sustentação. E havia algo na vulgaridade confiante e no fogo de Sara que o mantinha alerta, que o fazia se sentir vivo e desejado.

Minutos depois, Eduarda voltou. Ela tinha trocado o cardigã por um vestido de seda preto, simples e elegante, que caía suavemente sobre seu corpo esguio. Ela parecia uma boneca de porcelana.

— Estou bem assim? — perguntou ela, aproximando-se de Emanuel e sentando-se em seu colo, sem a menor hesitação.

— Está perfeita — ele murmurou, envolvendo-a com os braços e descansando o rosto em seu pescoço, respirando o aroma de lavanda.

— Eu só queria que ela fosse mais legal comigo — Eduarda sussurrou, fazendo um carinho na nuca de Emanuel. — Às vezes parece que ela me odeia.

— Ela só tem um jeito difícil, Duda. Ela é insegura do jeito dela, sabia? Ela vê sua doçura como uma ameaça.

— Uma ameaça? Eu não faria mal a uma mosca.

Antes que Emanuel pudesse responder, Sara surgiu no corredor. Ela tinha retocado o batom vermelho sangue e soltado os cabelos, que agora caíam em ondas perfeitas sobre os ombros.

— Ah, que cena comovente — ironizou Sara, batendo palmas falsas. — Já terminaram a sessão de terapia? O Uber Black chega em dois minutos. Vamos logo, antes que eu mude de ideia e resolva rasgar esse vestido de freira da Eduarda.

Eduarda se encolheu, mas Emanuel a segurou firme, dando-lhe um beijo na testa antes de se levantar.

— Vamos. E Sara, por favor... tenta não começar uma guerra na fila do teatro.

— Eu não começo guerras, querido — Sara piscou para ele, caminhando em direção à porta com um rebolado deliberado. — Eu apenas as venço.

Emanuel suspirou, pegando as chaves e seguindo as duas. Ele sabia que a noite seria um exercício de equilíbrio em corda bamba. De um lado, teria que segurar a mão de Eduarda para que ela não se sentisse perdida; do outro, teria que conter os impulsos de Sara para que ela não incendiasse o ambiente.

Ao entrarem no elevador, o espaço pequeno forçou a proximidade. Sara se posicionou de um lado de Emanuel, colando seu corpo ao dele e deixando uma mão descansar possessivamente em seu braço. Eduarda, do outro lado, segurou sua mão com força, os dedos entrelaçados, buscando a âncora que ele representava.

Emanuel olhou para o próprio reflexo no espelho do elevador. Ele parecia exausto, mas, ao sentir o aperto de Eduarda e o calor provocador de Sara, um pequeno e quase imperceptível sorriso surgiu em seus lábios. Era um caos, era um desastre iminente, mas era o seu desastre.

— O que foi? — perguntou Sara, notando o sorriso.

— Nada — respondeu ele, enquanto as portas se abriam. — Só estava pensando que, entre o teatro e a boate, eu provavelmente vou precisar de férias amanhã.

— Amanhã a gente decide o que faz — disse Eduarda, manhosa, encostando a cabeça em seu ombro enquanto caminhavam para a saída.

— Amanhã a gente dorme até tarde e eu faço café para você na cama — Sara interrompeu, lançando um olhar de desafio para Eduarda. — Se você aguentar o ritmo da noite, claro.

Eduarda não respondeu. Apenas apertou mais a mão de Emanuel, sabendo que, no final das contas, ele sempre voltaria para o seu abraço calmo quando o barulho da música e das provocações de Sara finalmente cessasse. E Sara, por sua vez, ajeitou o decote, confiante de que sua intensidade era o que realmente mantinha Emanuel fascinado.

A noite estava apenas começando, e o apartamento, finalmente, ficaria em silêncio — pelo menos por algumas horas.
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