
← Voltar à lista de fanfics
0 curtida
Duas
Fandom: Nenhum
Criado: 22/05/2026
Tags
RomanceDramaFatias de VidaHumorHistória DomésticaCiúmesRealismoEstudo de PersonagemSombrioPsicológicoPWP (Enredo? Que enredo?)Linguagem ExplícitaOmegaversoAngústiaDor/ConfortoGravidez Não Planejada/Indesejada
Entre o Caos e o Verniz
O silêncio do loft luxuoso de Emanuel foi estilhaçado pelo som metálico de uma pulseira de ouro batendo contra a bancada de mármore da cozinha. Sara, com seus cabelos loiros platinados impecavelmente escovados e um vestido vermelho tão justo que parecia desafiar as leis da física e da biologia, apontava um dedo perfeitamente manicure para a figura encolhida no sofá.
— Eu não aguento mais essa sonsa, Emanuel! — Sara gritou, sua voz ecoando pelas paredes decoradas com quadros caros. — Olha para ela! Esse olhar de cadela caída, esse biquinho de quem não quebra um prato... É tudo fachada! Ela é a pessoa mais manipuladora que eu já conheci na vida.
Eduarda, vestindo um cardigã de tricô cru e meias de lã, encolheu-se ainda mais entre as almofadas. Seus olhos grandes e úmidos, típicos de uma estudante de História da Arte que parecia ter saído de uma pintura do Renascimento, transbordavam lágrimas silenciosas. Ela não gritava. Ela apenas... emanava tristeza.
— Eu não fiz nada, Sara... — a voz de Eduarda saiu num fio, falha e doce. — Eu só disse que o barulho da TV estava me dando dor de cabeça.
— "Dor de cabeça", meu rabo! — Sara retrucou, aproximando-se do sofá com passos pesados que faziam seus saltos ressoarem. — Você queria era que o Emanuel desligasse o que eu estava assistindo para ele prestar atenção em você e nesse seu livro de gravuras velhas. Você é falsa, Eduarda! É uma sonsa que usa essa timidez para prender ele numa coleira de pena!
Emanuel, sentado na poltrona de couro preto, massageava as têmporas. O dono de um império de estúdios de tatuagem, um homem que lidava com agulhas, sangue e clientes difíceis o dia todo, sentia que preferia tatuar um globo ocular a ter que mediar aquela discussão. Ele exalava uma aura de cansaço autoritário, mas seus olhos sempre acabavam pousando na fragilidade de Eduarda com um instinto protetor quase automático.
— Sara, chega — disse Emanuel, a voz grave e contida. — Você está gritando por nada.
— Por nada? — Sara virou-se para ele, os seios siliconados estufados pelo movimento brusco de indignação. — Você sempre defende essa songa-monga! Só porque ela chora? Eu sou real, Emanuel! Eu falo na cara! Ela te cozinha em banho-maria com esse jeito de "ai, sou tão delicada".
Eduarda soltou um soluço baixinho e se levantou, caminhando em direção a Emanuel com passos leves. Ela se ajoelhou ao lado da poltrona dele e apoiou o queixo em seu joelho, olhando-o de baixo para cima com uma expressão de desamparo absoluto.
— Manu... eu não quero brigar — ela murmurou, a mão pequena e fria buscando a dele. — Eu só queria que a noite fosse tranquila. Eu tinha planejado irmos ao concerto da Osesp... a Nona Sinfonia... seria tão lindo, tão calmo para você descansar do trabalho no estúdio...
Sara soltou uma gargalhada escandalosa e forçada, jogando a cabeça para trás.
— Concerto? Sinfonia? — Ela cruzou os braços, rindo com escárnio. — Emanuel, acorda! Você quer dormir sentado ouvindo violino ou quer viver? Hoje é noite de baile, meu amor! O morro vai tremer, a gente tem camarote garantido. Eu não comprei esse conjunto de renda de quinhentos paus para ficar ouvindo música de gente morta.
Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, Eduarda, o seu porto seguro, o cheiro de lavanda, o silêncio e o carinho submisso que acalmava sua mente caótica. Do outro, Sara, o fogo, a adrenalina, a mulher que exigia sua energia e o fazia se sentir o dono do mundo, mesmo que ela fosse vulgar e barulhenta demais para os padrões da "alta sociedade" que ele agora frequentava.
— Eu estou exausto, Sara — Emanuel disse, tentando manter a lógica. — Um concerto parece muito mais adequado para o meu estado mental do que um baile funk.
— Viu? — Sara apontou para Eduarda. — Viu o sorriso de vitória dela? Ela é uma bruxa! Ela usa esse jeito manhoso para te transformar num velho de oitenta anos! Emanuel, você é o cara mais foda da tatuagem mundial, não um professor de museu!
Eduarda escondeu o rosto na perna de Emanuel, os ombros tremendo.
— Eu só me preocupo com a sua saúde, Manu... — ela disse, a voz abafada. — O som alto do baile... as pessoas... você sabe como fica estressado com multidões. No concerto, podemos ficar de mãos dadas, no escuro, apenas sentindo a música.
— No escuro ela vai dormir e você vai ficar lá, de terno, querendo se matar! — Sara interveio, caminhando até o outro lado de Emanuel e sentando-se no braço da poltrona, jogando uma perna por cima da outra de forma provocante. — No baile, a gente bebe, a gente dança, eu faço aquela massagem que você gosta quando chegarmos em casa... se é que você me entende.
— Sara, por favor, tenha um pouco de classe — Eduarda disse, levantando o rosto, as bochechas coradas de indignação. — O Emanuel não é um objeto que você compra com promessas vulgares.
— Classe? — Sara se inclinou para frente, ficando a centímetros do rosto de Eduarda. — Classe não segura homem na cama, querida. E "vulgar" é o caralho! Eu sou autêntica. Você é uma boneca de porcelana que, se apertar muito, quebra porque é oca por dentro.
— Parem! As duas! — Emanuel se levantou bruscamente, fazendo com que Eduarda se desequilibrasse levemente para trás e Sara quase caísse do braço da poltrona.
Ele começou a andar de um lado para o outro na sala, a camisa preta levemente aberta revelando as tatuagens no pescoço.
— Eu não sou um troféu de guerra — ele disse, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Eduarda, eu adoro a sua paz, mas às vezes eu sinto que estou num convento. Sara, eu adoro a sua energia, mas você fala como se estivesse num mercado de peixe o tempo todo!
Houve um silêncio tenso. Sara bufou, ajeitando o decote. Eduarda limpou uma lágrima com as costas da mão, parecendo uma criança castigada.
— Eu só queria — começou Eduarda, com a voz mais manhosa do mundo — que você fosse feliz hoje. Se você prefere o baile... eu entendo. Eu fico aqui... lendo meus livros... sozinha... talvez eu peça uma sopa.
— Ah, não! — Sara gritou, jogando as mãos para o alto. — Olha o golpe! O golpe da "pobre coitada abandonada"! Emanuel, se você cair nessa, eu juro que furo os pneus da sua Porsche!
Emanuel parou no meio da sala e olhou para o relógio de parede. Eram oito da noite.
— Nós vamos fazer o seguinte — ele decretou, com o tom de quem decide o fechamento de um contrato milionário. — Nós vamos ao concerto.
Sara abriu a boca para protestar, mas Emanuel levantou a mão, silenciando-a.
— ...E depois, vamos ao baile.
Eduarda arregalou os olhos, horrorizada.
— Manu... eu não tenho roupa para um... um "baile". E o barulho...
— E eu não tenho paciência para violoncelo! — Sara cruzou os braços. — Eu vou ficar com cara de cu a apresentação inteira, Emanuel. Vou mascar chiclete tão alto que o maestro vai errar o tempo!
— Você vai se comportar, Sara — Emanuel disse, virando-se para ela com um olhar que não aceitava réplicas. — E você, Eduarda, vai colocar um pouco de cor nesse rosto e vai aguentar duas horas de batidão. Eu sustento os luxos das duas, eu aguento as brigas das duas, então hoje, as duas vão fazer as minhas vontades.
Sara deu um sorriso de lado, uma ideia perigosa brilhando em seus olhos.
— Tudo bem. Mas eu vou escolher a roupa da Eduarda para o baile.
Eduarda empalideceu instantaneamente.
— Nem morta! Emanuel, ela vai me vestir como uma... uma...
— Uma mulher gostosa? — Sara completou, piscando. — Relaxa, "Duda". Vou te emprestar um shortinho jeans que vai fazer sua circulação parar, mas vai fazer o Emanuel babar.
— Eu não vou usar shortinho jeans! — Eduarda se levantou, a timidez dando lugar a um desespero cômico. — Manu, diga a ela que não!
Emanuel, vendo que a briga estava mudando de foco e tornando-se algo bizarramente colaborativo na cabeça de Sara, soltou um suspiro de riso.
— Sara, não force a barra. Eduarda, você vai. Ponto final. Agora, as duas, subam e se arrumem. Temos trinta minutos.
Enquanto as duas subiam as escadas — Sara rebolando de forma exagerada para provocar e Eduarda subindo os degraus como se estivesse indo para a guilhotina — Emanuel se serviu de um uísque.
Dez minutos depois, o caos recomeçou no andar de cima.
— Tira essa mão de cima do meu rímel, sua baranguinha culta! — a voz de Sara ecoou.
— Eu só estava tentando ver a marca! — Eduarda respondeu, parecendo mais firme. — E não me chame de baranga, você está cheirando a perfume barato daqui!
— Perfume barato? É importado, custou mais que a sua faculdade de ver desenho velho!
Emanuel sorriu para o copo. No fundo, ele sabia que aquela dinâmica maluca era o que o mantinha equilibrado. A doçura de Eduarda o salvava do cinismo do mundo, e a vulgaridade vibrante de Sara o impedia de se tornar um homem frio e monótono.
Quando elas finalmente desceram, o contraste era uma piada visual. Eduarda usava um vestido de seda azul-claro, discreto e elegante, com o cabelo preso num coque frouxo que deixava seu pescoço delicado à mostra. Sara usava o vestido vermelho, mas tinha adicionado brincos de argola gigantescos e uma maquiagem que poderia ser vista do espaço.
No concerto, o desastre foi anunciado. Sara passou os primeiros quarenta minutos bufando audivelmente a cada troca de movimento da sinfonia.
— Emanuel, aquele cara ali com o triângulo... ele ganha para isso? — Sara sussurrou alto demais, recebendo olhares de reprovação de toda a fileira.
— Shhh! — Eduarda sibilou, os olhos brilhando de emoção com a música. — É arte, Sara! Tenha respeito!
— Arte é o que eu faço com o meu corpo na frente do espelho, querida. Isso aqui é trilha sonora de elevador de luxo.
Eduarda ignorou, encostando a cabeça no ombro de Emanuel e fechando os olhos, suspirando de prazer estético. Emanuel sentiu a paz por alguns instantes, até que Sara começou a digitar no celular com o brilho da tela no máximo, irritando todos ao redor.
— Sara, apaga isso — Emanuel ordenou num sussurro áspero.
— Estou avisando o pessoal que estamos chegando! O DJ já mandou um salve! — ela respondeu, animada.
Quando a apresentação terminou, Eduarda estava em êxtase, e Sara parecia uma mola comprimida prestes a saltar.
— Agora — Sara anunciou, arrastando os dois para a saída — é a minha vez. Duda, pro carro. Operação transformação.
No estacionamento, dentro da SUV de Emanuel, a cena era digna de uma comédia. Sara tinha levado uma sacola de roupas.
— Eu não vou vestir isso, Sara! Isso é... isso é apenas um cinto largo! — Eduarda gritava enquanto Sara tentava enfiar um top de paetês nela.
— É um top cropped, sua pré-histórica! — Sara retrucava. — Emanuel, olha aqui! Ela tem corpo, mas esconde embaixo desses panos de mesa!
Emanuel, do lado de fora do carro fumando um cigarro, apenas ouvia os gritos e os risos abafados. Sim, risos. Porque, apesar de tudo, no meio daquela confusão de roupas e xingamentos, ele ouviu Eduarda dar uma risadinha tímida quando Sara fez alguma piada sobre "liberar as meninas".
Vinte minutos depois, a porta do carro abriu. Sara saiu primeiro, triunfante. Depois, saiu Eduarda. Ela estava usando um short jeans curto — embora não tão curto quanto os de Sara — e o top de paetês. O cabelo estava solto e bagunçado, e Sara tinha passado um batom vermelho vibrante nela.
Eduarda estava vermelha como um pimentão, tentando puxar a barra do short para baixo.
— Eu me sinto... nua — Eduarda murmurou, escondendo-se atrás de Emanuel.
— Você está maravilhosa — Emanuel disse, e era verdade. A beleza suave de Eduarda com um toque de agressividade estética de Sara era uma combinação perigosa.
— Viu só? Eu sou uma fada madrinha, só que com mais peito — Sara disse, agarrando o braço de Emanuel. — Vamos, que o grave vai bater!
O baile era o oposto do concerto. O som era físico, batendo no peito de Emanuel como um martelo. Sara sumiu na multidão em cinco segundos, subindo no camarote e começando a dançar de um jeito que atraía todos os olhares, exatamente como ela gostava.
Eduarda, por outro lado, parecia um cervo diante dos faróis de um carro. Ela se grudou em Emanuel, as mãos apertando a cintura dele.
— Manu, está muito alto... — ela gritou contra o ouvido dele.
— Relaxa, pequena! — Emanuel gritou de volta, passando o braço pelo pescoço dela e a trazendo para perto. — Tenta se mexer um pouco!
Sara voltou, trazendo três doses de tequila.
— Bebe isso! — Sara ordenou para Eduarda.
— Eu não bebo destilados! — Eduarda protestou.
— Bebe, ou eu te jogo no meio da pista! — Sara ameaçou com um sorriso diabólico.
Eduarda olhou para Emanuel, que assentiu, divertido. Ela virou a dose de uma vez, tossindo e fazendo uma careta terrível.
Quinze minutos depois, a timidez de Eduarda começou a derreter sob o efeito do álcool e do calor humano. Emanuel observava, incrédulo, enquanto Sara ensinava Eduarda a "descer até o chão".
— Assim, Duda! Joga a bunda, não a coluna! Você quer dançar ou quer rezar? — Sara gritava, rindo.
Eduarda, com o rosto brilhando de suor e os olhos vidrados, tentou imitar o movimento. Ela era desajeitada, mas havia algo de hipnotizante em ver a "estudante de arte" tentando rebolar ao som de um funk proibidão.
Emanuel se aproximou por trás de Eduarda, segurando seus quadris. Ela se encostou nele, rindo — uma risada real, não manhosa. Sara se juntou a eles, abraçando os dois.
— Viu só, Emanuel? — Sara gritou, por cima da batida. — Ela precisava de um pouco de "vulgaridade" na vida dela!
— E você — Eduarda gritou de volta para Sara, surpreendendo a todos — precisava de um pouco de Beethoven para ver se para de gritar tanto!
As duas se encararam por um segundo. Emanuel prendeu a respiração, esperando uma explosão. Em vez disso, Sara soltou uma gargalhada e deu um beijo estalado na bochecha de Eduarda.
— Você é chata pra cacete, mas até que tem garra!
A noite terminou com as duas desmaiadas no banco de trás do carro. Eduarda dormia com a cabeça no colo de Sara, e Sara tinha o braço jogado por cima de Eduarda, o batom borrado e um salto quebrado.
Emanuel dirigia em silêncio, olhando pelo retrovisor. O conflito não havia acabado — ele sabia que amanhã de manhã elas voltariam a brigar por causa do café da manhã ou de quem passou mais tempo no banheiro. Mas, por aquela noite, o caos estava em harmonia.
Ele era um homem rico, poderoso e influente, mas nada no mundo lhe dava tanto trabalho — ou tanto prazer — quanto aquelas duas mulheres que eram o seu inferno e o seu paraíso particular.
Ao chegar na garagem do prédio, ele teve que carregar Eduarda no colo, enquanto Sara subia tropeçando e reclamando que o elevador estava "indo devagar demais".
— Manu... — Eduarda murmurou entre sonhos, enquanto ele a deitava na cama enorme. — A música... era muito alta... mas eu gostei do brilho do top...
— Dorme, pequena — ele beijou a testa dela.
Sara se jogou ao lado dela, sem tirar nem a maquiagem nem o vestido.
— Amanhã... — Sara balbuciou, já quase dormindo — amanhã a gente vai no shopping. Ela precisa de um biquíni de fita.
— Nem pensar — Emanuel disse para o quarto vazio, fechando a porta com um sorriso cansado. — Nem pensar.
— Eu não aguento mais essa sonsa, Emanuel! — Sara gritou, sua voz ecoando pelas paredes decoradas com quadros caros. — Olha para ela! Esse olhar de cadela caída, esse biquinho de quem não quebra um prato... É tudo fachada! Ela é a pessoa mais manipuladora que eu já conheci na vida.
Eduarda, vestindo um cardigã de tricô cru e meias de lã, encolheu-se ainda mais entre as almofadas. Seus olhos grandes e úmidos, típicos de uma estudante de História da Arte que parecia ter saído de uma pintura do Renascimento, transbordavam lágrimas silenciosas. Ela não gritava. Ela apenas... emanava tristeza.
— Eu não fiz nada, Sara... — a voz de Eduarda saiu num fio, falha e doce. — Eu só disse que o barulho da TV estava me dando dor de cabeça.
— "Dor de cabeça", meu rabo! — Sara retrucou, aproximando-se do sofá com passos pesados que faziam seus saltos ressoarem. — Você queria era que o Emanuel desligasse o que eu estava assistindo para ele prestar atenção em você e nesse seu livro de gravuras velhas. Você é falsa, Eduarda! É uma sonsa que usa essa timidez para prender ele numa coleira de pena!
Emanuel, sentado na poltrona de couro preto, massageava as têmporas. O dono de um império de estúdios de tatuagem, um homem que lidava com agulhas, sangue e clientes difíceis o dia todo, sentia que preferia tatuar um globo ocular a ter que mediar aquela discussão. Ele exalava uma aura de cansaço autoritário, mas seus olhos sempre acabavam pousando na fragilidade de Eduarda com um instinto protetor quase automático.
— Sara, chega — disse Emanuel, a voz grave e contida. — Você está gritando por nada.
— Por nada? — Sara virou-se para ele, os seios siliconados estufados pelo movimento brusco de indignação. — Você sempre defende essa songa-monga! Só porque ela chora? Eu sou real, Emanuel! Eu falo na cara! Ela te cozinha em banho-maria com esse jeito de "ai, sou tão delicada".
Eduarda soltou um soluço baixinho e se levantou, caminhando em direção a Emanuel com passos leves. Ela se ajoelhou ao lado da poltrona dele e apoiou o queixo em seu joelho, olhando-o de baixo para cima com uma expressão de desamparo absoluto.
— Manu... eu não quero brigar — ela murmurou, a mão pequena e fria buscando a dele. — Eu só queria que a noite fosse tranquila. Eu tinha planejado irmos ao concerto da Osesp... a Nona Sinfonia... seria tão lindo, tão calmo para você descansar do trabalho no estúdio...
Sara soltou uma gargalhada escandalosa e forçada, jogando a cabeça para trás.
— Concerto? Sinfonia? — Ela cruzou os braços, rindo com escárnio. — Emanuel, acorda! Você quer dormir sentado ouvindo violino ou quer viver? Hoje é noite de baile, meu amor! O morro vai tremer, a gente tem camarote garantido. Eu não comprei esse conjunto de renda de quinhentos paus para ficar ouvindo música de gente morta.
Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, Eduarda, o seu porto seguro, o cheiro de lavanda, o silêncio e o carinho submisso que acalmava sua mente caótica. Do outro, Sara, o fogo, a adrenalina, a mulher que exigia sua energia e o fazia se sentir o dono do mundo, mesmo que ela fosse vulgar e barulhenta demais para os padrões da "alta sociedade" que ele agora frequentava.
— Eu estou exausto, Sara — Emanuel disse, tentando manter a lógica. — Um concerto parece muito mais adequado para o meu estado mental do que um baile funk.
— Viu? — Sara apontou para Eduarda. — Viu o sorriso de vitória dela? Ela é uma bruxa! Ela usa esse jeito manhoso para te transformar num velho de oitenta anos! Emanuel, você é o cara mais foda da tatuagem mundial, não um professor de museu!
Eduarda escondeu o rosto na perna de Emanuel, os ombros tremendo.
— Eu só me preocupo com a sua saúde, Manu... — ela disse, a voz abafada. — O som alto do baile... as pessoas... você sabe como fica estressado com multidões. No concerto, podemos ficar de mãos dadas, no escuro, apenas sentindo a música.
— No escuro ela vai dormir e você vai ficar lá, de terno, querendo se matar! — Sara interveio, caminhando até o outro lado de Emanuel e sentando-se no braço da poltrona, jogando uma perna por cima da outra de forma provocante. — No baile, a gente bebe, a gente dança, eu faço aquela massagem que você gosta quando chegarmos em casa... se é que você me entende.
— Sara, por favor, tenha um pouco de classe — Eduarda disse, levantando o rosto, as bochechas coradas de indignação. — O Emanuel não é um objeto que você compra com promessas vulgares.
— Classe? — Sara se inclinou para frente, ficando a centímetros do rosto de Eduarda. — Classe não segura homem na cama, querida. E "vulgar" é o caralho! Eu sou autêntica. Você é uma boneca de porcelana que, se apertar muito, quebra porque é oca por dentro.
— Parem! As duas! — Emanuel se levantou bruscamente, fazendo com que Eduarda se desequilibrasse levemente para trás e Sara quase caísse do braço da poltrona.
Ele começou a andar de um lado para o outro na sala, a camisa preta levemente aberta revelando as tatuagens no pescoço.
— Eu não sou um troféu de guerra — ele disse, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Eduarda, eu adoro a sua paz, mas às vezes eu sinto que estou num convento. Sara, eu adoro a sua energia, mas você fala como se estivesse num mercado de peixe o tempo todo!
Houve um silêncio tenso. Sara bufou, ajeitando o decote. Eduarda limpou uma lágrima com as costas da mão, parecendo uma criança castigada.
— Eu só queria — começou Eduarda, com a voz mais manhosa do mundo — que você fosse feliz hoje. Se você prefere o baile... eu entendo. Eu fico aqui... lendo meus livros... sozinha... talvez eu peça uma sopa.
— Ah, não! — Sara gritou, jogando as mãos para o alto. — Olha o golpe! O golpe da "pobre coitada abandonada"! Emanuel, se você cair nessa, eu juro que furo os pneus da sua Porsche!
Emanuel parou no meio da sala e olhou para o relógio de parede. Eram oito da noite.
— Nós vamos fazer o seguinte — ele decretou, com o tom de quem decide o fechamento de um contrato milionário. — Nós vamos ao concerto.
Sara abriu a boca para protestar, mas Emanuel levantou a mão, silenciando-a.
— ...E depois, vamos ao baile.
Eduarda arregalou os olhos, horrorizada.
— Manu... eu não tenho roupa para um... um "baile". E o barulho...
— E eu não tenho paciência para violoncelo! — Sara cruzou os braços. — Eu vou ficar com cara de cu a apresentação inteira, Emanuel. Vou mascar chiclete tão alto que o maestro vai errar o tempo!
— Você vai se comportar, Sara — Emanuel disse, virando-se para ela com um olhar que não aceitava réplicas. — E você, Eduarda, vai colocar um pouco de cor nesse rosto e vai aguentar duas horas de batidão. Eu sustento os luxos das duas, eu aguento as brigas das duas, então hoje, as duas vão fazer as minhas vontades.
Sara deu um sorriso de lado, uma ideia perigosa brilhando em seus olhos.
— Tudo bem. Mas eu vou escolher a roupa da Eduarda para o baile.
Eduarda empalideceu instantaneamente.
— Nem morta! Emanuel, ela vai me vestir como uma... uma...
— Uma mulher gostosa? — Sara completou, piscando. — Relaxa, "Duda". Vou te emprestar um shortinho jeans que vai fazer sua circulação parar, mas vai fazer o Emanuel babar.
— Eu não vou usar shortinho jeans! — Eduarda se levantou, a timidez dando lugar a um desespero cômico. — Manu, diga a ela que não!
Emanuel, vendo que a briga estava mudando de foco e tornando-se algo bizarramente colaborativo na cabeça de Sara, soltou um suspiro de riso.
— Sara, não force a barra. Eduarda, você vai. Ponto final. Agora, as duas, subam e se arrumem. Temos trinta minutos.
Enquanto as duas subiam as escadas — Sara rebolando de forma exagerada para provocar e Eduarda subindo os degraus como se estivesse indo para a guilhotina — Emanuel se serviu de um uísque.
Dez minutos depois, o caos recomeçou no andar de cima.
— Tira essa mão de cima do meu rímel, sua baranguinha culta! — a voz de Sara ecoou.
— Eu só estava tentando ver a marca! — Eduarda respondeu, parecendo mais firme. — E não me chame de baranga, você está cheirando a perfume barato daqui!
— Perfume barato? É importado, custou mais que a sua faculdade de ver desenho velho!
Emanuel sorriu para o copo. No fundo, ele sabia que aquela dinâmica maluca era o que o mantinha equilibrado. A doçura de Eduarda o salvava do cinismo do mundo, e a vulgaridade vibrante de Sara o impedia de se tornar um homem frio e monótono.
Quando elas finalmente desceram, o contraste era uma piada visual. Eduarda usava um vestido de seda azul-claro, discreto e elegante, com o cabelo preso num coque frouxo que deixava seu pescoço delicado à mostra. Sara usava o vestido vermelho, mas tinha adicionado brincos de argola gigantescos e uma maquiagem que poderia ser vista do espaço.
No concerto, o desastre foi anunciado. Sara passou os primeiros quarenta minutos bufando audivelmente a cada troca de movimento da sinfonia.
— Emanuel, aquele cara ali com o triângulo... ele ganha para isso? — Sara sussurrou alto demais, recebendo olhares de reprovação de toda a fileira.
— Shhh! — Eduarda sibilou, os olhos brilhando de emoção com a música. — É arte, Sara! Tenha respeito!
— Arte é o que eu faço com o meu corpo na frente do espelho, querida. Isso aqui é trilha sonora de elevador de luxo.
Eduarda ignorou, encostando a cabeça no ombro de Emanuel e fechando os olhos, suspirando de prazer estético. Emanuel sentiu a paz por alguns instantes, até que Sara começou a digitar no celular com o brilho da tela no máximo, irritando todos ao redor.
— Sara, apaga isso — Emanuel ordenou num sussurro áspero.
— Estou avisando o pessoal que estamos chegando! O DJ já mandou um salve! — ela respondeu, animada.
Quando a apresentação terminou, Eduarda estava em êxtase, e Sara parecia uma mola comprimida prestes a saltar.
— Agora — Sara anunciou, arrastando os dois para a saída — é a minha vez. Duda, pro carro. Operação transformação.
No estacionamento, dentro da SUV de Emanuel, a cena era digna de uma comédia. Sara tinha levado uma sacola de roupas.
— Eu não vou vestir isso, Sara! Isso é... isso é apenas um cinto largo! — Eduarda gritava enquanto Sara tentava enfiar um top de paetês nela.
— É um top cropped, sua pré-histórica! — Sara retrucava. — Emanuel, olha aqui! Ela tem corpo, mas esconde embaixo desses panos de mesa!
Emanuel, do lado de fora do carro fumando um cigarro, apenas ouvia os gritos e os risos abafados. Sim, risos. Porque, apesar de tudo, no meio daquela confusão de roupas e xingamentos, ele ouviu Eduarda dar uma risadinha tímida quando Sara fez alguma piada sobre "liberar as meninas".
Vinte minutos depois, a porta do carro abriu. Sara saiu primeiro, triunfante. Depois, saiu Eduarda. Ela estava usando um short jeans curto — embora não tão curto quanto os de Sara — e o top de paetês. O cabelo estava solto e bagunçado, e Sara tinha passado um batom vermelho vibrante nela.
Eduarda estava vermelha como um pimentão, tentando puxar a barra do short para baixo.
— Eu me sinto... nua — Eduarda murmurou, escondendo-se atrás de Emanuel.
— Você está maravilhosa — Emanuel disse, e era verdade. A beleza suave de Eduarda com um toque de agressividade estética de Sara era uma combinação perigosa.
— Viu só? Eu sou uma fada madrinha, só que com mais peito — Sara disse, agarrando o braço de Emanuel. — Vamos, que o grave vai bater!
O baile era o oposto do concerto. O som era físico, batendo no peito de Emanuel como um martelo. Sara sumiu na multidão em cinco segundos, subindo no camarote e começando a dançar de um jeito que atraía todos os olhares, exatamente como ela gostava.
Eduarda, por outro lado, parecia um cervo diante dos faróis de um carro. Ela se grudou em Emanuel, as mãos apertando a cintura dele.
— Manu, está muito alto... — ela gritou contra o ouvido dele.
— Relaxa, pequena! — Emanuel gritou de volta, passando o braço pelo pescoço dela e a trazendo para perto. — Tenta se mexer um pouco!
Sara voltou, trazendo três doses de tequila.
— Bebe isso! — Sara ordenou para Eduarda.
— Eu não bebo destilados! — Eduarda protestou.
— Bebe, ou eu te jogo no meio da pista! — Sara ameaçou com um sorriso diabólico.
Eduarda olhou para Emanuel, que assentiu, divertido. Ela virou a dose de uma vez, tossindo e fazendo uma careta terrível.
Quinze minutos depois, a timidez de Eduarda começou a derreter sob o efeito do álcool e do calor humano. Emanuel observava, incrédulo, enquanto Sara ensinava Eduarda a "descer até o chão".
— Assim, Duda! Joga a bunda, não a coluna! Você quer dançar ou quer rezar? — Sara gritava, rindo.
Eduarda, com o rosto brilhando de suor e os olhos vidrados, tentou imitar o movimento. Ela era desajeitada, mas havia algo de hipnotizante em ver a "estudante de arte" tentando rebolar ao som de um funk proibidão.
Emanuel se aproximou por trás de Eduarda, segurando seus quadris. Ela se encostou nele, rindo — uma risada real, não manhosa. Sara se juntou a eles, abraçando os dois.
— Viu só, Emanuel? — Sara gritou, por cima da batida. — Ela precisava de um pouco de "vulgaridade" na vida dela!
— E você — Eduarda gritou de volta para Sara, surpreendendo a todos — precisava de um pouco de Beethoven para ver se para de gritar tanto!
As duas se encararam por um segundo. Emanuel prendeu a respiração, esperando uma explosão. Em vez disso, Sara soltou uma gargalhada e deu um beijo estalado na bochecha de Eduarda.
— Você é chata pra cacete, mas até que tem garra!
A noite terminou com as duas desmaiadas no banco de trás do carro. Eduarda dormia com a cabeça no colo de Sara, e Sara tinha o braço jogado por cima de Eduarda, o batom borrado e um salto quebrado.
Emanuel dirigia em silêncio, olhando pelo retrovisor. O conflito não havia acabado — ele sabia que amanhã de manhã elas voltariam a brigar por causa do café da manhã ou de quem passou mais tempo no banheiro. Mas, por aquela noite, o caos estava em harmonia.
Ele era um homem rico, poderoso e influente, mas nada no mundo lhe dava tanto trabalho — ou tanto prazer — quanto aquelas duas mulheres que eram o seu inferno e o seu paraíso particular.
Ao chegar na garagem do prédio, ele teve que carregar Eduarda no colo, enquanto Sara subia tropeçando e reclamando que o elevador estava "indo devagar demais".
— Manu... — Eduarda murmurou entre sonhos, enquanto ele a deitava na cama enorme. — A música... era muito alta... mas eu gostei do brilho do top...
— Dorme, pequena — ele beijou a testa dela.
Sara se jogou ao lado dela, sem tirar nem a maquiagem nem o vestido.
— Amanhã... — Sara balbuciou, já quase dormindo — amanhã a gente vai no shopping. Ela precisa de um biquíni de fita.
— Nem pensar — Emanuel disse para o quarto vazio, fechando a porta com um sorriso cansado. — Nem pensar.
