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Vida
Fandom: Nenhum
Criado: 23/05/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoCiúmesGravidez Não Planejada/IndesejadaRealismoFatias de VidaHumorHistória DomésticaEstudo de PersonagemFofura
Entre o Silêncio e o Grito
O ar no luxuoso triplex de Emanuel estava pesado, saturado pelo cheiro de perfume caro e pela tensão que parecia vibrar nas paredes de vidro. O pôr do sol de São Paulo pintava a sala em tons de laranja e púrpura, mas ninguém ali estava interessado na vista.
Sara caminhava de um lado para o outro, os saltos agulha estalando contra o mármore italiano. Ela usava um vestido justo demais, curto demais, de um vermelho que parecia gritar tanto quanto sua voz. Seus cabelos loiros, impecavelmente escovados, balançavam a cada movimento brusco.
— Eu cansei, Emanuel! Cansei desse teatrinho de coitada que essa garota faz! — Sara parou, apontando o dedo com unhas longas e decoradas para o sofá.
Ali, encolhida em um canto, Eduarda parecia ainda menor do que era. Vestia um cardigã de tricô bege e uma saia leve, as mãos pequenas agarradas a uma almofada de veludo. Seus olhos, grandes e expressivos, estavam inundados de lágrimas que ela insistia em não deixar cair totalmente, o que só realçava sua expressão de desamparo.
— Eu não fiz nada, Sara… — a voz de Eduarda saiu num sussurro trêmulo, quase inaudível.
— Não fez nada? Você passa o dia inteiro com essa cara de quem foi abandonada na chuva, só esperando ele chegar para começar a chorar! — Sara soltou uma risada ríspida, carregada de sarcasmo. — Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Usa essa timidez de fachada para manipular todo mundo. É uma parasita emocional!
Emanuel, sentado na poltrona de couro preto, massageava as têmporas. Ele ainda vestia a camisa preta de botões com as mangas dobradas, revelando as tatuagens que subiam pelos seus braços — marcas de uma vida dedicada à arte na pele que lhe rendeu fortuna e renome. Ele era o porto seguro daquela tríade disfuncional, mas, naquele momento, sentia-se como um dique prestes a romper.
— Sara, chega. O volume — Emanuel disse, a voz grave e contida, mas com aquele tom de autoridade que costumava encerrar discussões.
— Não venha com "chega", Emanuel! — Sara se virou para ele, os seios siliconados estufados pela respiração ofegante. — Você defende ela porque é um fraco por esse tipo de dengo. Ela sabe exatamente o que está fazendo. Olha para ela! Parece uma boneca de porcelana quebrada. É tudo calculado!
Eduarda soltou um soluço baixo e se inclinou para frente, escondendo o rosto nas mãos. O movimento fez com que seu corpo esguio tremesse visivelmente.
— Emanuel… eu só queria que a gente pudesse jantar em paz — murmurou Eduarda, a voz embargada. — Eu preparei o chá que você gosta… mas ela começou a me insultar assim que você entrou no banho.
— Mentira! — gritou Sara. — Eu só perguntei quando você ia parar de viver às custas dele e terminar essa faculdade de História da Arte que não serve para nada!
Emanuel levantou-se. Sua presença física era imponente, uma mistura de força bruta e uma calma glacial que ele cultivara ao longo de anos gerenciando estúdios ao redor do mundo. Ele caminhou até Eduarda e colocou a mão sobre o ombro dela. O toque foi imediato: ela se inclinou para ele, buscando o calor e a proteção, como uma planta buscando o sol.
— Ela está tremendo, Sara. Olha o estado em que você a deixou — Emanuel disse, olhando para a loira com um brilho de irritação nos olhos.
— Ah, claro! Proteja a "santinha" — Sara cruzou os braços, bufando. — Você cai em todos os truques dela. Enquanto eu sou real, eu falo o que sinto, ela fica aí, sendo essa coisa… mansa. Me dá nojo.
— Sinto muito por ser assim… — Eduarda levantou o rosto, as bochechas coradas e os olhos úmidos fixos em Emanuel. — Eu não queria causar problemas. Se eu sou um fardo, eu posso ir para o meu quarto…
— Você não vai a lugar nenhum — Emanuel suspirou, sentindo a pressão aumentar. — Eu só quero silêncio. Eu trabalho doze horas por dia, gerencio empresas, lido com artistas e clientes difíceis. Eu não quero chegar em casa e encontrar um campo de batalha.
— Então escolha, Emanuel! — Sara deu um passo à frente, invadindo o espaço deles. — Porque eu não vou aguentar essa mosca morta me olhando com superioridade moral por muito mais tempo.
— Ninguém vai escolher nada hoje — ele cortou, a voz subindo um tom, o que fez Eduarda se encolher ainda mais contra ele. — Eu estou exausto.
Houve um silêncio súbito, interrompido apenas pelo som da respiração de Sara e pelo fungar discreto de Eduarda. Emanuel olhou de uma para a outra. Eram opostos absolutos. Sara era o fogo, a paixão desenfreada, o desafio que o mantinha alerta. Eduarda era a água, a paz, o carinho silencioso que ele precisava para não enlouquecer. Ele amava as duas, de formas que nem ele mesmo conseguia explicar logicamente, mas a convivência estava se tornando insustentável.
— Eu tenho algo para dizer — Eduarda falou de repente, sua voz um pouco mais firme, embora ainda delicada.
Sara revirou os olhos.
— O quê? Vai dizer que quebrou uma unha e precisa de um abraço?
Eduarda ignorou a provocação, algo raro para sua natureza passiva. Ela olhou diretamente para Emanuel, ignorando a presença de Sara por um breve segundo.
— Eu fui ao médico hoje. Eu não estava me sentindo bem ultimamente… muita tontura, o cheiro das tintas na faculdade estava me enjoando.
Emanuel franziu o cenho, o instinto protetor agindo instantaneamente.
— E o que ele disse? Você está doente?
Eduarda balançou a cabeça negativamente, um pequeno e tímido sorriso começando a surgir entre as lágrimas.
— Eu estou grávida, Emanuel.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Emanuel sentiu o chão oscilar sob seus pés. Um filho. Ele sempre fora um homem de controle, de planos, mas aquilo… aquilo era algo que ele não havia processado.
— Grávida? — Sara soltou uma risada histérica, que soou mais como um grito de guerra. — Que golpe baixo, Eduarda! Grávida? Você planejou isso, não foi? Para prender ele de vez!
— Não diga isso! — Eduarda se levantou, a indignação dando-lhe uma coragem momentânea. — Eu amo o Emanuel. E ele vai ser o pai do Arthur. Eu já escolhi o nome… se for o menino que eu sinto que é. Arthur.
Emanuel ainda tentava encontrar palavras, seu cérebro racional processando a notícia, quando percebeu que Sara havia empalidecido. A confiança agressiva da loira desapareceu por um instante, sendo substituída por uma expressão de choque puro. Ela cambaleou até a mesa de centro, apoiando-se nela.
— Isso… isso só pode ser uma piada de mau gosto do destino — Sara murmurou, a voz perdendo o sarcasmo e ganhando um tom de pânico.
— O que foi, Sara? — Emanuel perguntou, agora olhando para ela com preocupação. — Você está passando mal?
Sara olhou para Eduarda, depois para Emanuel, e finalmente abriu a bolsa de grife que estava jogada sobre a mesa. Ela tateou lá dentro e tirou um envelope de papel pardo, jogando-o sobre o móvel com as mãos trêmulas.
— Eu ia contar durante o jantar. Ia ser a minha vitória — Sara disse, e pela primeira vez, Emanuel viu uma rachadura em sua armadura de arrogância. — Eu também estou grávida, Emanuel.
Emanuel sentiu como se o ar tivesse sido sugado da sala. Ele olhou para o envelope, depois para Eduarda, que agora parecia em estado de choque, e novamente para Sara.
— Você… você também? — ele balbuciou.
— Três meses — confirmou Sara, cruzando os braços, tentando recuperar a postura, embora seus olhos brilhassem com uma vulnerabilidade rara. — E vai ser uma menina. Eu sinto. Valentina. Ela vai ter tudo o que há de melhor, e não vai ser uma coitadinha como certas pessoas.
Eduarda voltou a se sentar, as pernas parecendo não sustentar mais seu corpo leve.
— Dois bebês? — Eduarda sussurrou, a mão indo instintivamente para o ventre ainda plano. — Ao mesmo tempo?
— Exatamente — Sara disparou, voltando ao ataque agora que o choque inicial passara. — E pode ter certeza, Emanuel, que a minha filha não vai dividir o espaço com o filho dessa aí. É melhor você começar a pensar em como vai resolver essa bagunça, porque eu não vou criar a Valentina num ambiente de creche pública com a "falsinha" do lado.
— Pare de chamar meu filho assim! — Eduarda chorou, a voz subindo de tom pela primeira vez. — O Arthur tem tanto direito quanto a sua filha!
— Arthur? Que nome cafona! — Sara retrucou. — Valentina é nome de herdeira, de quem vai mandar no mundo.
— Chega! As duas! — Emanuel rugiu.
O grito ecoou pelo apartamento, fazendo ambas se calarem imediatamente. Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando as luzes da cidade. Sua mente trabalhava a mil por hora. Ele era rico, era influente, tinha recursos para sustentar dez filhos se quisesse, mas o conflito emocional ali era algo que nenhum dinheiro poderia resolver.
— Eu não vou admitir que vocês transformem a vida dessas crianças no inferno que é o relacionamento de vocês — Emanuel disse, virando-se para elas. Sua expressão era rígida, o olhar cansado, mas decidido. — Eduarda, você é doce, mas precisa parar de se esconder atrás das lágrimas toda vez que algo fica difícil. Você vai ser mãe, precisa de força.
Eduarda baixou a cabeça, limpando o rosto com as costas das mãos.
— E você, Sara — ele continuou, a voz severa —, baixe a guarda. Essa agressividade, esse veneno… isso acaba agora. Eu não vou permitir que você ataque a Eduarda ou o bebê dela. Se você quer estar na minha vida e quer que eu seja o pai da sua filha, vai ter que aprender o que é respeito.
Sara abriu a boca para retrucar, mas o olhar de Emanuel a silenciou. Ela apenas desviou o rosto, bufando, mas permaneceu onde estava.
Emanuel caminhou até o centro da sala, ficando entre as duas.
— Arthur e Valentina. Dois herdeiros. — Ele suspirou, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros. — Nós vamos ter que encontrar uma maneira de fazer isso funcionar. Não por nós, mas por eles.
Eduarda levantou-se e caminhou timidamente até ele, segurando sua mão.
— Eu só quero que ele seja feliz, Emanuel — ela murmurou, encostando a cabeça no peito dele.
Sara, não querendo ficar atrás, aproximou-se pelo outro lado, segurando o braço dele com possessividade.
— Ela vai ser a sua favorita, eu sei disso — Sara disse, a voz num tom mais baixo, quase uma súplica disfarçada de afirmação.
Emanuel fechou os olhos por um momento, sentindo as duas mulheres que amava — e que o levavam à loucura — agarradas a ele. O futuro parecia um campo minado de fraldas, ciúmes e disputas de poder, mas havia também algo novo: uma centelha de esperança.
— Vai ser um longo caminho — Emanuel concluiu, o tom de voz mais suave. — Mas nós vamos passar por isso. Juntos. De um jeito ou de outro.
A noite caiu sobre o apartamento, e por um breve instante, o silêncio não era de guerra, mas de uma trégua frágil e incerta. O tatuador, acostumado a desenhar o destino na pele dos outros, agora se via diante de uma tela em branco que ele teria que preencher com cuidado, tinta por tinta, para que a história de Arthur e Valentina não fosse escrita com as cicatrizes de suas mães.
Sara caminhava de um lado para o outro, os saltos agulha estalando contra o mármore italiano. Ela usava um vestido justo demais, curto demais, de um vermelho que parecia gritar tanto quanto sua voz. Seus cabelos loiros, impecavelmente escovados, balançavam a cada movimento brusco.
— Eu cansei, Emanuel! Cansei desse teatrinho de coitada que essa garota faz! — Sara parou, apontando o dedo com unhas longas e decoradas para o sofá.
Ali, encolhida em um canto, Eduarda parecia ainda menor do que era. Vestia um cardigã de tricô bege e uma saia leve, as mãos pequenas agarradas a uma almofada de veludo. Seus olhos, grandes e expressivos, estavam inundados de lágrimas que ela insistia em não deixar cair totalmente, o que só realçava sua expressão de desamparo.
— Eu não fiz nada, Sara… — a voz de Eduarda saiu num sussurro trêmulo, quase inaudível.
— Não fez nada? Você passa o dia inteiro com essa cara de quem foi abandonada na chuva, só esperando ele chegar para começar a chorar! — Sara soltou uma risada ríspida, carregada de sarcasmo. — Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Usa essa timidez de fachada para manipular todo mundo. É uma parasita emocional!
Emanuel, sentado na poltrona de couro preto, massageava as têmporas. Ele ainda vestia a camisa preta de botões com as mangas dobradas, revelando as tatuagens que subiam pelos seus braços — marcas de uma vida dedicada à arte na pele que lhe rendeu fortuna e renome. Ele era o porto seguro daquela tríade disfuncional, mas, naquele momento, sentia-se como um dique prestes a romper.
— Sara, chega. O volume — Emanuel disse, a voz grave e contida, mas com aquele tom de autoridade que costumava encerrar discussões.
— Não venha com "chega", Emanuel! — Sara se virou para ele, os seios siliconados estufados pela respiração ofegante. — Você defende ela porque é um fraco por esse tipo de dengo. Ela sabe exatamente o que está fazendo. Olha para ela! Parece uma boneca de porcelana quebrada. É tudo calculado!
Eduarda soltou um soluço baixo e se inclinou para frente, escondendo o rosto nas mãos. O movimento fez com que seu corpo esguio tremesse visivelmente.
— Emanuel… eu só queria que a gente pudesse jantar em paz — murmurou Eduarda, a voz embargada. — Eu preparei o chá que você gosta… mas ela começou a me insultar assim que você entrou no banho.
— Mentira! — gritou Sara. — Eu só perguntei quando você ia parar de viver às custas dele e terminar essa faculdade de História da Arte que não serve para nada!
Emanuel levantou-se. Sua presença física era imponente, uma mistura de força bruta e uma calma glacial que ele cultivara ao longo de anos gerenciando estúdios ao redor do mundo. Ele caminhou até Eduarda e colocou a mão sobre o ombro dela. O toque foi imediato: ela se inclinou para ele, buscando o calor e a proteção, como uma planta buscando o sol.
— Ela está tremendo, Sara. Olha o estado em que você a deixou — Emanuel disse, olhando para a loira com um brilho de irritação nos olhos.
— Ah, claro! Proteja a "santinha" — Sara cruzou os braços, bufando. — Você cai em todos os truques dela. Enquanto eu sou real, eu falo o que sinto, ela fica aí, sendo essa coisa… mansa. Me dá nojo.
— Sinto muito por ser assim… — Eduarda levantou o rosto, as bochechas coradas e os olhos úmidos fixos em Emanuel. — Eu não queria causar problemas. Se eu sou um fardo, eu posso ir para o meu quarto…
— Você não vai a lugar nenhum — Emanuel suspirou, sentindo a pressão aumentar. — Eu só quero silêncio. Eu trabalho doze horas por dia, gerencio empresas, lido com artistas e clientes difíceis. Eu não quero chegar em casa e encontrar um campo de batalha.
— Então escolha, Emanuel! — Sara deu um passo à frente, invadindo o espaço deles. — Porque eu não vou aguentar essa mosca morta me olhando com superioridade moral por muito mais tempo.
— Ninguém vai escolher nada hoje — ele cortou, a voz subindo um tom, o que fez Eduarda se encolher ainda mais contra ele. — Eu estou exausto.
Houve um silêncio súbito, interrompido apenas pelo som da respiração de Sara e pelo fungar discreto de Eduarda. Emanuel olhou de uma para a outra. Eram opostos absolutos. Sara era o fogo, a paixão desenfreada, o desafio que o mantinha alerta. Eduarda era a água, a paz, o carinho silencioso que ele precisava para não enlouquecer. Ele amava as duas, de formas que nem ele mesmo conseguia explicar logicamente, mas a convivência estava se tornando insustentável.
— Eu tenho algo para dizer — Eduarda falou de repente, sua voz um pouco mais firme, embora ainda delicada.
Sara revirou os olhos.
— O quê? Vai dizer que quebrou uma unha e precisa de um abraço?
Eduarda ignorou a provocação, algo raro para sua natureza passiva. Ela olhou diretamente para Emanuel, ignorando a presença de Sara por um breve segundo.
— Eu fui ao médico hoje. Eu não estava me sentindo bem ultimamente… muita tontura, o cheiro das tintas na faculdade estava me enjoando.
Emanuel franziu o cenho, o instinto protetor agindo instantaneamente.
— E o que ele disse? Você está doente?
Eduarda balançou a cabeça negativamente, um pequeno e tímido sorriso começando a surgir entre as lágrimas.
— Eu estou grávida, Emanuel.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Emanuel sentiu o chão oscilar sob seus pés. Um filho. Ele sempre fora um homem de controle, de planos, mas aquilo… aquilo era algo que ele não havia processado.
— Grávida? — Sara soltou uma risada histérica, que soou mais como um grito de guerra. — Que golpe baixo, Eduarda! Grávida? Você planejou isso, não foi? Para prender ele de vez!
— Não diga isso! — Eduarda se levantou, a indignação dando-lhe uma coragem momentânea. — Eu amo o Emanuel. E ele vai ser o pai do Arthur. Eu já escolhi o nome… se for o menino que eu sinto que é. Arthur.
Emanuel ainda tentava encontrar palavras, seu cérebro racional processando a notícia, quando percebeu que Sara havia empalidecido. A confiança agressiva da loira desapareceu por um instante, sendo substituída por uma expressão de choque puro. Ela cambaleou até a mesa de centro, apoiando-se nela.
— Isso… isso só pode ser uma piada de mau gosto do destino — Sara murmurou, a voz perdendo o sarcasmo e ganhando um tom de pânico.
— O que foi, Sara? — Emanuel perguntou, agora olhando para ela com preocupação. — Você está passando mal?
Sara olhou para Eduarda, depois para Emanuel, e finalmente abriu a bolsa de grife que estava jogada sobre a mesa. Ela tateou lá dentro e tirou um envelope de papel pardo, jogando-o sobre o móvel com as mãos trêmulas.
— Eu ia contar durante o jantar. Ia ser a minha vitória — Sara disse, e pela primeira vez, Emanuel viu uma rachadura em sua armadura de arrogância. — Eu também estou grávida, Emanuel.
Emanuel sentiu como se o ar tivesse sido sugado da sala. Ele olhou para o envelope, depois para Eduarda, que agora parecia em estado de choque, e novamente para Sara.
— Você… você também? — ele balbuciou.
— Três meses — confirmou Sara, cruzando os braços, tentando recuperar a postura, embora seus olhos brilhassem com uma vulnerabilidade rara. — E vai ser uma menina. Eu sinto. Valentina. Ela vai ter tudo o que há de melhor, e não vai ser uma coitadinha como certas pessoas.
Eduarda voltou a se sentar, as pernas parecendo não sustentar mais seu corpo leve.
— Dois bebês? — Eduarda sussurrou, a mão indo instintivamente para o ventre ainda plano. — Ao mesmo tempo?
— Exatamente — Sara disparou, voltando ao ataque agora que o choque inicial passara. — E pode ter certeza, Emanuel, que a minha filha não vai dividir o espaço com o filho dessa aí. É melhor você começar a pensar em como vai resolver essa bagunça, porque eu não vou criar a Valentina num ambiente de creche pública com a "falsinha" do lado.
— Pare de chamar meu filho assim! — Eduarda chorou, a voz subindo de tom pela primeira vez. — O Arthur tem tanto direito quanto a sua filha!
— Arthur? Que nome cafona! — Sara retrucou. — Valentina é nome de herdeira, de quem vai mandar no mundo.
— Chega! As duas! — Emanuel rugiu.
O grito ecoou pelo apartamento, fazendo ambas se calarem imediatamente. Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando as luzes da cidade. Sua mente trabalhava a mil por hora. Ele era rico, era influente, tinha recursos para sustentar dez filhos se quisesse, mas o conflito emocional ali era algo que nenhum dinheiro poderia resolver.
— Eu não vou admitir que vocês transformem a vida dessas crianças no inferno que é o relacionamento de vocês — Emanuel disse, virando-se para elas. Sua expressão era rígida, o olhar cansado, mas decidido. — Eduarda, você é doce, mas precisa parar de se esconder atrás das lágrimas toda vez que algo fica difícil. Você vai ser mãe, precisa de força.
Eduarda baixou a cabeça, limpando o rosto com as costas das mãos.
— E você, Sara — ele continuou, a voz severa —, baixe a guarda. Essa agressividade, esse veneno… isso acaba agora. Eu não vou permitir que você ataque a Eduarda ou o bebê dela. Se você quer estar na minha vida e quer que eu seja o pai da sua filha, vai ter que aprender o que é respeito.
Sara abriu a boca para retrucar, mas o olhar de Emanuel a silenciou. Ela apenas desviou o rosto, bufando, mas permaneceu onde estava.
Emanuel caminhou até o centro da sala, ficando entre as duas.
— Arthur e Valentina. Dois herdeiros. — Ele suspirou, sentindo o peso da responsabilidade esmagar seus ombros. — Nós vamos ter que encontrar uma maneira de fazer isso funcionar. Não por nós, mas por eles.
Eduarda levantou-se e caminhou timidamente até ele, segurando sua mão.
— Eu só quero que ele seja feliz, Emanuel — ela murmurou, encostando a cabeça no peito dele.
Sara, não querendo ficar atrás, aproximou-se pelo outro lado, segurando o braço dele com possessividade.
— Ela vai ser a sua favorita, eu sei disso — Sara disse, a voz num tom mais baixo, quase uma súplica disfarçada de afirmação.
Emanuel fechou os olhos por um momento, sentindo as duas mulheres que amava — e que o levavam à loucura — agarradas a ele. O futuro parecia um campo minado de fraldas, ciúmes e disputas de poder, mas havia também algo novo: uma centelha de esperança.
— Vai ser um longo caminho — Emanuel concluiu, o tom de voz mais suave. — Mas nós vamos passar por isso. Juntos. De um jeito ou de outro.
A noite caiu sobre o apartamento, e por um breve instante, o silêncio não era de guerra, mas de uma trégua frágil e incerta. O tatuador, acostumado a desenhar o destino na pele dos outros, agora se via diante de uma tela em branco que ele teria que preencher com cuidado, tinta por tinta, para que a história de Arthur e Valentina não fosse escrita com as cicatrizes de suas mães.
