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Vida

Fandom: Nenhum

Criado: 23/05/2026

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Tinta, Lágrimas e Brinquedos pelo Chão

O loft de luxo de Emanuel, que deveria ser um refúgio de design industrial e minimalismo, parecia mais um campo de batalha decorado com blocos de montar e marcas de mãos pequenas nas paredes de vidro. O cheiro de café caro misturava-se ao perfume importado e doce de Sara e ao aroma suave de baunilha que sempre acompanhava Eduarda.

Emanuel massageou as têmporas, fechando os olhos por um segundo enquanto o som de um carrinho de metal batendo contra o rodapé ecoava pelo ambiente.

— Arthur! Cuidado com o móvel, campeão — murmurou Emanuel, embora soubesse que o aviso era inútil.

Arthur, um furacão de dois anos com os mesmos olhos intensos do pai e a expressão doce da mãe, não parou. Ele soltou um grito de alegria pura, correndo em direção à mesa de centro onde Sara tentava, sem sucesso, retocar o esmalte das unhas.

— Tira esse monstrinho de perto de mim! — disparou Sara, afastando as pernas longas e cobertas por um vestido de seda justo. — Ele quase derrubou o vidro no meu tapete novo, Emanuel! Eduarda, você não serve nem para controlar sua cria?

Eduarda, que estava sentada no canto do sofá dobrando algumas roupinhas de algodão, encolheu os ombros. Seus olhos grandes e úmidos rapidamente se voltaram para o chão.

— Ele só está brincando, Sara... ele é uma criança. — A voz de Eduarda saiu pequena, quase um sussurro, carregada daquela mansidão que Emanuel tanto protegia e que Sara tanto detestava.

— Brincando? Ele é um vândalo! — Sara soltou uma risada seca, ajeitando o cabelo loiro platinado impecável. — Enquanto a minha Valentina está ali, sendo uma lady, o seu filho está tentando destruir o patrimônio do pai. Olha a diferença.

No canto oposto, Valentina, também de dois anos, estava sentada em um puff minúsculo. Ela usava um conjunto de grife em miniatura e tentava passar um batom de brinquedo nos lábios, imitando cada gesto da mãe com uma precisão assustadora. Era uma mini diva, silenciosa e observadora, que olhava para o primo com um desdém infantil que só poderia ter herdado de Sara.

— Ela é uma boneca, Sara. Mas o Arthur tem energia, é saudável — interveio Emanuel, sentindo a tensão subir. — E Duda, tenta pegar ele um pouco, ele vai acabar se machucando.

Eduarda levantou-se com seu jeito leve, as roupas claras e fluidas balançando.

— Vem cá, meu amor... — Ela tentou pegar o menino, mas Arthur deu um drible digno de craque, passando por baixo das pernas da mãe e correndo direto para as pernas de Emanuel, agarrando-se à calça do pai.

— Papai! Tatu! — gritou o menino, apontando para os braços de Emanuel, cobertos por obras de arte em tinta preta.

Emanuel amoleceu instantaneamente. Ele pegou o filho no colo, sentindo o peso sólido do menino contra o peito. Arthur era sua cópia fiel, mas com aquela sensibilidade que emanava de Eduarda. O garoto era fascinado pelo estúdio, pelas máquinas e pelo desenho. Era o único que conseguia desarmar o tatuador mais rígido do mercado.

— Você quer ir para o estúdio de novo, é? — Emanuel sorriu, beijando o topo da cabeça do filho.

— Vê se pode... — Sara bufou, cruzando os braços, o que fez seus seios siliconados se destacarem sob o decote generoso. — O menino é obcecado por agulhas e tinta. Isso não é normal. Mas vindo da "santinha" da faculdade de Artes, eu não espero nada menos que esquisitice.

Eduarda sentiu a ferroada. Ela se aproximou de Emanuel, buscando o contato físico, encostando a cabeça no ombro dele enquanto ele ainda segurava o filho.

— Eu não sou esquisita, Sara. Eu só... eu valorizo o que o Emanuel faz. Eu entendo a arte dele.

— Ah, poupe-me do discurso sensível, Eduarda! — Sara levantou-se, os saltos estalando no piso de madeira. — Você usa essa cara de choro e esse jeito de coitadinha para ele carregar você no colo. É manipuladora, isso sim. Fica aí, toda sonsa, fingindo que não sabe o que está fazendo, enquanto tenta me excluir de tudo.

— Eu não tento excluir ninguém... — Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto fino de Eduarda. — Você que é agressiva comigo o tempo todo. Eu só quero paz para criar o Arthur.

— Paz? Você quer é o caminho livre! — Sara avançou um passo, apontando o dedo perfeitamente manicureado. — Você morre de inveja porque eu não preciso de esforço para ser notada, enquanto você tem que se esconder atrás desse curso de História da Arte e dessas roupas de camponesa.

— Chega, Sara! — A voz de Emanuel ecoou pelo loft, firme e autoritária.

O silêncio caiu por um instante, quebrado apenas pelo som de Valentina derrubando seu espelhinho de plástico.

— Eu estou cansado disso. O dia inteiro trocando farpas. Eu trabalho dez horas por dia gerenciando estúdios em três fusos horários diferentes e, quando chego em casa, encontro um ringue.

— Ela começou! — disseram as duas, quase em uníssono.

Emanuel suspirou, sentindo a pressão subir. Ele olhou para Eduarda, que agora soluçava baixinho, agarrada ao seu braço livre, e depois para Sara, que mantinha o queixo erguido e uma expressão de desafio puro.

— Arthur, vai com a mamãe — disse Emanuel, colocando o menino no chão.

Mas Arthur, sentindo a tensão no ar, decidiu que era o momento perfeito para um show. Ele correu até a mesinha de Sara, pegou o vidro de esmalte aberto e, antes que qualquer um pudesse reagir, virou o conteúdo rosa-choque sobre o tapete persa e, por acidente, sobre o sapato de grife de Sara.

— MEU DEUS! — gritou Sara, perdendo a compostura. — SEU PESTE! OLHA O QUE VOCÊ FEZ!

Arthur, assustado com o grito, começou a berrar a plenos pulmões. Valentina, vendo o caos, decidiu que também queria atenção e começou a chorar de forma dramática, imitando o tom da mãe.

— Arthur, vem cá! — Eduarda correu atrás do filho, que agora corria em círculos, sujando o chão com as mãozinhas sujas de esmalte.

— Emanuel, faz alguma coisa! Ele destruiu meu sapato! — Sara estava à beira de um ataque de nervos, tentando limpar o scarpin com um lenço de papel, o que só piorava a situação.

— É só um sapato, Sara! — Emanuel tentou conter o riso, apesar do estresse. A cena era absurda.

— Só um sapato? Custou mais do que a mensalidade da faculdade dessa aí! — Ela apontou para Eduarda, que agora tinha conseguido capturar Arthur e tentava acalmá-lo, sentada no chão, sem se importar em sujar seu vestido claro.

— Cala a boca, Sara — Emanuel disse, agora com um tom mais frio. — Você não vai falar do estudo dela.

Eduarda, sentindo a proteção de Emanuel, enterrou o rosto no pescoço do filho, chorando silenciosamente.

— Você sempre defende ela! — Sara exclamou, jogando o lenço sujo no chão. — Porque ela é a "frágil", a "doce Eduarda". E eu sou o quê? A vilã porque exijo o mínimo de ordem?

— Você é impossível porque não sabe conviver! — rebateu Emanuel. — A Eduarda tenta, mas você não perde uma oportunidade de humilhá-la.

— Eu falo a verdade! Ela é uma sonsa que usa o filho para te prender.

— O Arthur é meu filho tanto quanto a Valentina! — Emanuel deu um passo à frente, a estatura imponente fazendo Sara recuar um milímetro, embora ela não baixasse o olhar. — E eu amo os dois. Mas se você não conseguir respeitar a mãe do meu filho embaixo do meu teto, a gente vai ter um problema sério.

Sara bufou, bufando de raiva, e caminhou até Valentina, pegando a menina no colo com brusquidão.

— Vamos, Valentina. Vamos sair desse ambiente de "paz e amor" falso. Vou para o shopping. Pelo menos lá as pessoas apreciam quem tem estilo.

Ela pegou a bolsa, deu um olhar mortal para Eduarda — que ainda estava no chão, abraçada ao pequeno Arthur — e saiu batendo a porta com tanta força que os quadros na parede tremeram.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Emanuel soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Ele caminhou até Eduarda e sentou-se no chão ao lado dela. Arthur, exausto pelo surto de energia e pelo choro, já estava começando a se acalmar, buscando o seio da mãe.

Eduarda, com os olhos vermelhos e o rosto inchado, abriu os botões da blusa leve, permitindo que o menino mamasse. O silêncio da sucção rítmica de Arthur era o único som no loft agora.

— Desculpa, Manu... — sussurrou ela, inclinando a cabeça para o lado. — Eu não queria que o Arthur fizesse aquela bagunça.

Emanuel passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto. O contraste era nítido: a pele dela, clara e macia, contra as tatuagens escuras e a pele mais áspera dele.

— Não foi culpa sua, Duda. Ele é uma criança. E a Sara... bem, você sabe como ela é.

— Ela me odeia tanto — Eduarda fungou, limpando uma lágrima com o dorso da mão. — Às vezes eu acho que não sou forte o suficiente para estar aqui. Para lidar com tudo isso.

Emanuel beijou a têmpora dela, sentindo o cheiro de baunilha que o acalmava instantaneamente.

— Você é forte do seu jeito. Você aguenta as grosserias dela com uma paciência que eu não teria. E você cuida dele tão bem... — Ele olhou para Arthur, que agora fechava os olhos, relaxando completamente enquanto mamava. — Ele é igualzinho a mim, mas tem o seu coração.

Eduarda sorriu fraco, encostando-se mais no peito de Emanuel.

— Ele só se acalma assim. Ou quando você leva ele para ver você desenhar.

— Ele vai ser um artista — Emanuel previu, observando as mãos pequenas do filho descansando no seio da mãe. — Mas espero que tenha uma vida mais tranquila que a minha, entre duas mulheres que querem se matar.

— Eu não quero matar ela — Eduarda disse, manhosa, escondendo o rosto no pescoço de Emanuel. — Eu só queria que ela não fosse tão... brilhante. Ela é tão cheia de si, tão grande. Eu me sinto pequena perto dela.

— Para mim, você é do tamanho exato, Duda.

Emanuel fechou os olhos por um momento, aproveitando a paz momentânea. Ele sabia que em algumas horas Sara voltaria, carregada de sacolas, reclamando do limite do cartão e exigindo atenção para Valentina. Ele sabia que teria que mediar outra briga, que teria que lidar com o sarcasmo de uma e a fragilidade da outra.

Era sua vida. Um equilíbrio precário entre o caos explosivo e colorido de Sara e a serenidade melancólica e suave de Eduarda.

Arthur soltou o peito da mãe, dormindo profundamente, um anjo que minutos antes era um demônio de esmalte rosa.

— Vamos levar ele para a cama — murmurou Emanuel.

Ele pegou o filho com cuidado, enquanto Eduarda se levantava com sua elegância natural e um pouco desajeitada. Eles caminharam juntos pelo corredor, deixando para trás a mancha rosa no tapete e o eco dos gritos de Sara.

Por enquanto, o furacão tinha passado. Mas Emanuel sabia que, naquele loft, o céu nunca ficava limpo por muito tempo. E, de alguma forma, no meio de todo aquele estresse e disputa, ele não conseguia imaginar sua vida de outra maneira. Ele precisava do fogo de Sara para se sentir vivo e da doçura de Eduarda para se sentir em casa.

— Manu? — Eduarda chamou baixinho, antes de entrarem no quarto do bebê.

— Oi?

— Você limpa o tapete depois? Eu tenho medo de a Sara gritar de novo quando chegar.

Emanuel soltou uma risada curta e cansada.

— Eu limpo, Duda. Eu limpo tudo.

E, enquanto acomodava o filho no berço, ele já estava pensando em qual seria o próximo conflito, e em como, mais uma vez, ele seria o único porto seguro entre duas tempestades completamente diferentes.
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