
← Voltar à lista de fanfics
0 curtida
Duas
Fandom: Nenhum
Criado: 23/05/2026
Tags
DramaRomanceFatias de VidaHistória DomésticaCiúmesDor/ConfortoEstudo de Personagem
Tinta, Lágrimas e Brinquedos Espalhados
O loft de luxo de Emanuel, que costumava ser um santuário de design minimalista e silêncio artístico, estava mais para um campo de batalha naquela tarde de terça-feira. O cheiro de café caro misturava-se ao aroma de talco e, vagamente, ao cheiro de tinta de tatuagem que emanava da jaqueta que Emanuel acabara de jogar sobre o sofá de couro.
— Eu já disse, Emanuel! — a voz de Sara subiu uma oitava, cortante e carregada de desdém. — Não vou levar a Valentina para uma cabana úmida nas montanhas para ela ser picada por mosquitos enquanto a "santinha" ali faz piquenique. Nós vamos para Saint-Tropez. A reserva já está quase garantida pelo meu contato.
Sara estava parada no meio da sala, impecável em um conjunto de seda justo que acentuava cada curva de seu corpo esculpido. O cabelo loiro, perfeitamente escovado, balançava conforme ela gesticulava. Ao lado dela, a pequena Valentina, de apenas dois anos, estava sentada em uma poltrona de veludo, segurando um mini iPad com as unhas pintadas de rosa claro, uma cópia fiel e silenciosa da mãe em sua versão "mini diva".
Do outro lado da sala, Eduarda estava sentada no tapete, com os olhos vermelhos e o rosto pálido. Ela usava um cardigã de tricô bege e calças leves, parecendo ainda menor do que já era. Em seu colo, Arthur, também de dois anos, era o oposto da tranquilidade da irmã. O menino, uma cópia fiel de Emanuel — desde o formato dos olhos até a expressão intensa —, tentava desesperadamente escalar o ombro da mãe enquanto puxava os fios castanhos de seu cabelo.
— Eu não quero luxo, Sara... — Eduarda murmurou, a voz trêmula, enquanto tentava impedir que Arthur derrubasse um vaso de cristal próximo. — O Arthur precisa de espaço, de natureza. Ele é muito agitado, você sabe disso. O ar puro faria bem para ele... e para o Emanuel descansar.
— Ah, por favor! — Sara soltou uma risada anasalada, revirando os olhos. — "Faria bem para o Emanuel". Você é tão sonsa, Eduarda. Usa essa cara de choro e esse discurso de mãe sacrificada para conseguir o que quer. Você só quer me irritar porque sabe que eu odeio mato.
Emanuel massageou as têmporas. Ele sentia a pressão subir. Ser um dos tatuadores mais renomados do mundo e gerenciar estúdios em três continentes era mais fácil do que mediar a guerra fria — que frequentemente esquentava — entre as duas mulheres de sua vida. Ele amava a energia vibrante e a confiança de Sara, mas a doçura e a dependência de Eduarda despertavam nele um instinto protetor que ele não conseguia ignorar.
— Dá para as duas pararem por um segundo? — a voz de Emanuel saiu rouca, carregada de uma autoridade cansada.
— Não, não dá! — Sara retrucou, cruzando os braços, o que fez seus seios siliconados se destacarem sob o tecido fino. — Eu não vou passar minhas férias em um lugar onde o entretenimento é ver grama crescer só porque a Eduarda tem medo de gente e de sol.
Nesse momento, Arthur deu um grito de guerra infantil e escapou do colo de Eduarda. O menino correu em direção à mesa de centro, pegando um dos catálogos de arte de Emanuel e jogando-o no chão com um estrondo.
— Arthur! — Eduarda exclamou, levantando-se apressada, mas o menino já estava contornando o sofá, rindo alto.
— Olha isso! — Sara apontou para o garoto. — Ele é um furacão. Ele vai destruir qualquer hotel cinco estrelas, por isso ela quer ir para o meio do nada. Ele é mal educado, Emanuel. Você mima demais esse menino.
Eduarda parou no meio do caminho, as lágrimas finalmente transbordando e escorrendo por suas bochechas delicadas. Ela caminhou até Emanuel, ignorando a provocação de Sara, e segurou a mão dele com os dedos finos e frios.
— Ele não é mal educado, ele só tem energia... — ela soluçou baixinho, encostando a cabeça no peito de Emanuel, buscando o abrigo que só ele proporcionava. — Emanuel, por favor... você viu como ele ficou estressado na última vez que fomos para um lugar barulhento. Ele precisa de paz. Eu só quero o melhor para o nosso bebê.
Emanuel sentiu o corpo de Eduarda tremer contra o seu. O cheiro suave de baunilha dela sempre o acalmava, e aquela fragilidade o desarmava completamente. Ele olhou para Arthur, que agora tentava escalar as pernas de seu pai, gritando "Papai, tatoo! Papai, estúdio!". O menino era fascinado pelo trabalho do pai, e Emanuel via em Arthur uma faísca de rebeldia e criatividade que ele mesmo possuía.
— Você vai escolher o lugar que eu escolhi, não vai? — Eduarda levantou o rosto, os olhos grandes e úmidos fixos nos dele. — Pela saúde do Arthur?
— Isso é jogo sujo! — Sara gritou, aproximando-se. — Emanuel, não ouse ceder a esse teatrinho de vítima. Valentina já escolheu os vestidos para a viagem! Ela quer ir à praia!
Valentina, ouvindo o nome, levantou os olhos do tablet e fez um biquinho perfeito.
— Praia, papai. Sol — disse a menina, com uma dicção impressionante para a idade, voltando logo em seguida para o seu jogo de moda.
Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, a imponência de Sara, que exigia e confrontava. Do outro, a vulnerabilidade de Eduarda, que pedia e se apoiava. E no meio, Arthur, que agora tinha conseguido pegar uma caneta e estava prestes a rabiscar a própria perna, imitando as tatuagens do pai.
— Chega — Emanuel disse, pegando Arthur no colo com um braço e mantendo Eduarda próxima com o outro. — Sara, Saint-Tropez fica para a próxima. O Arthur está numa fase difícil, ele precisa de espaço para correr sem que a gente seja expulso de um resort. Vamos para a montanha.
Sara abriu a boca, chocada, as narinas dilatando de raiva.
— Você está brincando? Você vai mesmo dar ouvidos a essa... essa sonsa?
— Eu estou decidindo o que é melhor para o grupo agora, Sara — Emanuel disse, sua voz ficando mais rígida, o tom de quem não aceitava mais discussões. — Eu estou exausto. Meus estúdios estão me drenando e eu não quero flashes, não quero festas e não quero a Valentina cercada de futilidade por duas semanas. Vamos para a propriedade em Aspen. Tem espaço, tem isolamento e tem segurança.
Eduarda permitiu que um pequeno sorriso vitorioso, quase imperceptível, surgisse em seus lábios enquanto escondia o rosto no pescoço de Emanuel. Arthur, sentindo que a tensão havia mudado, começou a bater palminhas no ombro do pai.
— Ganhou, né, sua sonsa? — Sara sibilou, pegando sua bolsa de grife e caminhando até Valentina. — Vamos, Valentina. Vamos sair daqui antes que eu perca a paciência e estrague minha manicure na cara de alguém.
— Sara, não comece — Emanuel alertou, mas a loira já estava saindo da sala, batendo os saltos altos com força contra o piso de madeira.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da respiração pesada de Emanuel e pelos resmungos felizes de Arthur. Eduarda se afastou um pouco, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
— Obrigada, Manu... — ela sussurrou, a voz doce e manhosa novamente. — Você sabe que eu não faço por mal. Eu só me sinto tão sufocada quando ela começa a gritar... e o Arthur sente isso também.
Emanuel suspirou, colocando o filho no chão. O menino imediatamente correu para o canto da sala onde ficavam seus brinquedos, mas em vez de pegar um carrinho, pegou um livro de gravuras de tatuagens tradicionais que Emanuel havia deixado em uma prateleira baixa.
— Eu sei, Duda. Eu sei — Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da responsabilidade. — Mas vocês duas precisam encontrar um equilíbrio. Eu não vou aguentar essa guerra para sempre.
Eduarda aproximou-se dele novamente, passando os braços pela sua cintura e olhando-o com aquela adoração que sempre o fazia se sentir o centro do universo dela.
— Eu tento, de verdade. Mas ela me odeia. Ela me chama de nomes horríveis...
— Eu vou conversar com ela — ele prometeu, embora soubesse que conversar com Sara sobre Eduarda era como jogar gasolina no fogo. — Agora, por favor, só... me ajude com o Arthur. Ele parece que tomou cinco latas de energético.
Como se fosse um sinal, Arthur soltou um grito de alegria ao conseguir abrir o livro e começou a "explicar" as imagens para um urso de pelúcia, apontando para os desenhos de dragões e carpas.
— Ele é tão parecido com você — Eduarda comentou, observando o filho com um brilho de orgulho nos olhos. — Às vezes eu olho para ele e vejo você quando era jovem, cheio de energia e querendo conquistar o mundo.
Emanuel sorriu pela primeira vez no dia. Ele caminhou até o filho e sentou-se no chão ao lado dele. Arthur imediatamente subiu em seu colo, entregando-lhe o livro.
— Papai, desenha? — o menino pediu, apontando para o próprio braço gordinho.
— Agora não, campeão. Depois — Emanuel beijou o topo da cabeça do filho, sentindo o cheiro de infância.
A ligação dele com Arthur era visceral. Talvez fosse porque o menino carregava sua aparência física tão perfeitamente, ou talvez porque, por trás de toda aquela agitação, Arthur tinha momentos de uma sensibilidade extrema que vinha diretamente de Eduarda. Era uma mistura explosiva e fascinante.
Eduarda sentou-se ao lado deles, encostando o ombro no de Emanuel. Por alguns minutos, o caos da briga com Sara pareceu flutuar para longe.
— Você acha que a Valentina vai ficar bem na viagem? — Eduarda perguntou, tentando parecer genuinamente preocupada, embora no fundo estivesse radiante por ter vencido a disputa.
— A Valentina fica bem em qualquer lugar que tenha um espelho e um carregador de iPad — Emanuel respondeu, com um toque de ironia. — Ela é prática como a mãe. O problema é a Sara aceitar que não vai ser o centro das atenções em algum clube de praia badalado.
— Eu só queria que fôssemos uma família normal — Eduarda murmurou, fazendo um biquinho manhoso.
Emanuel olhou para ela, depois para o filho, e pensou na outra filha e na outra mulher no quarto ao lado. Ele era um homem de sucesso, tinha dinheiro, fama e duas mulheres lindas que o amavam, mas a palavra "normal" definitivamente não se aplicava à sua vida.
— O normal é superestimado, Duda — ele disse, puxando-a para um beijo rápido na testa.
Arthur, vendo a cena, decidiu que era o momento perfeito para pular em cima dos dois, transformando o momento de carinho em um emaranhado de risadas e pequenos gritos.
— Arthur! Cuidado com a mamãe! — Eduarda ria, tentando se proteger dos ataques de cócegas do filho.
Emanuel observava a cena, sentindo a tensão em seus ombros diminuir um pouco. Ele sabia que a viagem seria um desafio logístico e emocional. Sabia que Sara passaria os primeiros três dias reclamando do frio e da falta de serviços de luxo. Sabia que teria que se desdobrar para dar atenção à Valentina, que se sentia deixada de lado pela energia avassaladora do irmão.
Mas, enquanto via Arthur finalmente bocejar, sinalizando que a bateria estava acabando, e sentia a mão de Eduarda procurar a sua no meio da brincadeira, Emanuel sentiu que, apesar do caos, aquele era o seu mundo. Um mundo pintado com tintas fortes, contrastes impossíveis e uma dose constante de drama, mas, no fim das contas, era o mundo que ele havia construído.
— Ele está ficando com sono — Eduarda sussurrou, observando Arthur deitar a cabeça no peito de Emanuel, os olhos pesando. — O único momento de paz.
— Vamos aproveitar — Emanuel disse em voz baixa, acomodando o filho em seus braços. — Porque quando ele acordar, Aspen vai ter que estar pronta para o furacão.
Eduarda sorriu, sentindo-se vitoriosa e protegida. Sara podia ter o brilho, o silicone e a audácia, mas ali, naquele tapete, cercada pelo silêncio que ela mesma havia cultivado, Eduarda sabia que tinha o coração de Emanuel exatamente onde queria: nas palmas de suas mãos pequenas e delicadas.
— Eu já disse, Emanuel! — a voz de Sara subiu uma oitava, cortante e carregada de desdém. — Não vou levar a Valentina para uma cabana úmida nas montanhas para ela ser picada por mosquitos enquanto a "santinha" ali faz piquenique. Nós vamos para Saint-Tropez. A reserva já está quase garantida pelo meu contato.
Sara estava parada no meio da sala, impecável em um conjunto de seda justo que acentuava cada curva de seu corpo esculpido. O cabelo loiro, perfeitamente escovado, balançava conforme ela gesticulava. Ao lado dela, a pequena Valentina, de apenas dois anos, estava sentada em uma poltrona de veludo, segurando um mini iPad com as unhas pintadas de rosa claro, uma cópia fiel e silenciosa da mãe em sua versão "mini diva".
Do outro lado da sala, Eduarda estava sentada no tapete, com os olhos vermelhos e o rosto pálido. Ela usava um cardigã de tricô bege e calças leves, parecendo ainda menor do que já era. Em seu colo, Arthur, também de dois anos, era o oposto da tranquilidade da irmã. O menino, uma cópia fiel de Emanuel — desde o formato dos olhos até a expressão intensa —, tentava desesperadamente escalar o ombro da mãe enquanto puxava os fios castanhos de seu cabelo.
— Eu não quero luxo, Sara... — Eduarda murmurou, a voz trêmula, enquanto tentava impedir que Arthur derrubasse um vaso de cristal próximo. — O Arthur precisa de espaço, de natureza. Ele é muito agitado, você sabe disso. O ar puro faria bem para ele... e para o Emanuel descansar.
— Ah, por favor! — Sara soltou uma risada anasalada, revirando os olhos. — "Faria bem para o Emanuel". Você é tão sonsa, Eduarda. Usa essa cara de choro e esse discurso de mãe sacrificada para conseguir o que quer. Você só quer me irritar porque sabe que eu odeio mato.
Emanuel massageou as têmporas. Ele sentia a pressão subir. Ser um dos tatuadores mais renomados do mundo e gerenciar estúdios em três continentes era mais fácil do que mediar a guerra fria — que frequentemente esquentava — entre as duas mulheres de sua vida. Ele amava a energia vibrante e a confiança de Sara, mas a doçura e a dependência de Eduarda despertavam nele um instinto protetor que ele não conseguia ignorar.
— Dá para as duas pararem por um segundo? — a voz de Emanuel saiu rouca, carregada de uma autoridade cansada.
— Não, não dá! — Sara retrucou, cruzando os braços, o que fez seus seios siliconados se destacarem sob o tecido fino. — Eu não vou passar minhas férias em um lugar onde o entretenimento é ver grama crescer só porque a Eduarda tem medo de gente e de sol.
Nesse momento, Arthur deu um grito de guerra infantil e escapou do colo de Eduarda. O menino correu em direção à mesa de centro, pegando um dos catálogos de arte de Emanuel e jogando-o no chão com um estrondo.
— Arthur! — Eduarda exclamou, levantando-se apressada, mas o menino já estava contornando o sofá, rindo alto.
— Olha isso! — Sara apontou para o garoto. — Ele é um furacão. Ele vai destruir qualquer hotel cinco estrelas, por isso ela quer ir para o meio do nada. Ele é mal educado, Emanuel. Você mima demais esse menino.
Eduarda parou no meio do caminho, as lágrimas finalmente transbordando e escorrendo por suas bochechas delicadas. Ela caminhou até Emanuel, ignorando a provocação de Sara, e segurou a mão dele com os dedos finos e frios.
— Ele não é mal educado, ele só tem energia... — ela soluçou baixinho, encostando a cabeça no peito de Emanuel, buscando o abrigo que só ele proporcionava. — Emanuel, por favor... você viu como ele ficou estressado na última vez que fomos para um lugar barulhento. Ele precisa de paz. Eu só quero o melhor para o nosso bebê.
Emanuel sentiu o corpo de Eduarda tremer contra o seu. O cheiro suave de baunilha dela sempre o acalmava, e aquela fragilidade o desarmava completamente. Ele olhou para Arthur, que agora tentava escalar as pernas de seu pai, gritando "Papai, tatoo! Papai, estúdio!". O menino era fascinado pelo trabalho do pai, e Emanuel via em Arthur uma faísca de rebeldia e criatividade que ele mesmo possuía.
— Você vai escolher o lugar que eu escolhi, não vai? — Eduarda levantou o rosto, os olhos grandes e úmidos fixos nos dele. — Pela saúde do Arthur?
— Isso é jogo sujo! — Sara gritou, aproximando-se. — Emanuel, não ouse ceder a esse teatrinho de vítima. Valentina já escolheu os vestidos para a viagem! Ela quer ir à praia!
Valentina, ouvindo o nome, levantou os olhos do tablet e fez um biquinho perfeito.
— Praia, papai. Sol — disse a menina, com uma dicção impressionante para a idade, voltando logo em seguida para o seu jogo de moda.
Emanuel olhou de uma para a outra. De um lado, a imponência de Sara, que exigia e confrontava. Do outro, a vulnerabilidade de Eduarda, que pedia e se apoiava. E no meio, Arthur, que agora tinha conseguido pegar uma caneta e estava prestes a rabiscar a própria perna, imitando as tatuagens do pai.
— Chega — Emanuel disse, pegando Arthur no colo com um braço e mantendo Eduarda próxima com o outro. — Sara, Saint-Tropez fica para a próxima. O Arthur está numa fase difícil, ele precisa de espaço para correr sem que a gente seja expulso de um resort. Vamos para a montanha.
Sara abriu a boca, chocada, as narinas dilatando de raiva.
— Você está brincando? Você vai mesmo dar ouvidos a essa... essa sonsa?
— Eu estou decidindo o que é melhor para o grupo agora, Sara — Emanuel disse, sua voz ficando mais rígida, o tom de quem não aceitava mais discussões. — Eu estou exausto. Meus estúdios estão me drenando e eu não quero flashes, não quero festas e não quero a Valentina cercada de futilidade por duas semanas. Vamos para a propriedade em Aspen. Tem espaço, tem isolamento e tem segurança.
Eduarda permitiu que um pequeno sorriso vitorioso, quase imperceptível, surgisse em seus lábios enquanto escondia o rosto no pescoço de Emanuel. Arthur, sentindo que a tensão havia mudado, começou a bater palminhas no ombro do pai.
— Ganhou, né, sua sonsa? — Sara sibilou, pegando sua bolsa de grife e caminhando até Valentina. — Vamos, Valentina. Vamos sair daqui antes que eu perca a paciência e estrague minha manicure na cara de alguém.
— Sara, não comece — Emanuel alertou, mas a loira já estava saindo da sala, batendo os saltos altos com força contra o piso de madeira.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da respiração pesada de Emanuel e pelos resmungos felizes de Arthur. Eduarda se afastou um pouco, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
— Obrigada, Manu... — ela sussurrou, a voz doce e manhosa novamente. — Você sabe que eu não faço por mal. Eu só me sinto tão sufocada quando ela começa a gritar... e o Arthur sente isso também.
Emanuel suspirou, colocando o filho no chão. O menino imediatamente correu para o canto da sala onde ficavam seus brinquedos, mas em vez de pegar um carrinho, pegou um livro de gravuras de tatuagens tradicionais que Emanuel havia deixado em uma prateleira baixa.
— Eu sei, Duda. Eu sei — Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da responsabilidade. — Mas vocês duas precisam encontrar um equilíbrio. Eu não vou aguentar essa guerra para sempre.
Eduarda aproximou-se dele novamente, passando os braços pela sua cintura e olhando-o com aquela adoração que sempre o fazia se sentir o centro do universo dela.
— Eu tento, de verdade. Mas ela me odeia. Ela me chama de nomes horríveis...
— Eu vou conversar com ela — ele prometeu, embora soubesse que conversar com Sara sobre Eduarda era como jogar gasolina no fogo. — Agora, por favor, só... me ajude com o Arthur. Ele parece que tomou cinco latas de energético.
Como se fosse um sinal, Arthur soltou um grito de alegria ao conseguir abrir o livro e começou a "explicar" as imagens para um urso de pelúcia, apontando para os desenhos de dragões e carpas.
— Ele é tão parecido com você — Eduarda comentou, observando o filho com um brilho de orgulho nos olhos. — Às vezes eu olho para ele e vejo você quando era jovem, cheio de energia e querendo conquistar o mundo.
Emanuel sorriu pela primeira vez no dia. Ele caminhou até o filho e sentou-se no chão ao lado dele. Arthur imediatamente subiu em seu colo, entregando-lhe o livro.
— Papai, desenha? — o menino pediu, apontando para o próprio braço gordinho.
— Agora não, campeão. Depois — Emanuel beijou o topo da cabeça do filho, sentindo o cheiro de infância.
A ligação dele com Arthur era visceral. Talvez fosse porque o menino carregava sua aparência física tão perfeitamente, ou talvez porque, por trás de toda aquela agitação, Arthur tinha momentos de uma sensibilidade extrema que vinha diretamente de Eduarda. Era uma mistura explosiva e fascinante.
Eduarda sentou-se ao lado deles, encostando o ombro no de Emanuel. Por alguns minutos, o caos da briga com Sara pareceu flutuar para longe.
— Você acha que a Valentina vai ficar bem na viagem? — Eduarda perguntou, tentando parecer genuinamente preocupada, embora no fundo estivesse radiante por ter vencido a disputa.
— A Valentina fica bem em qualquer lugar que tenha um espelho e um carregador de iPad — Emanuel respondeu, com um toque de ironia. — Ela é prática como a mãe. O problema é a Sara aceitar que não vai ser o centro das atenções em algum clube de praia badalado.
— Eu só queria que fôssemos uma família normal — Eduarda murmurou, fazendo um biquinho manhoso.
Emanuel olhou para ela, depois para o filho, e pensou na outra filha e na outra mulher no quarto ao lado. Ele era um homem de sucesso, tinha dinheiro, fama e duas mulheres lindas que o amavam, mas a palavra "normal" definitivamente não se aplicava à sua vida.
— O normal é superestimado, Duda — ele disse, puxando-a para um beijo rápido na testa.
Arthur, vendo a cena, decidiu que era o momento perfeito para pular em cima dos dois, transformando o momento de carinho em um emaranhado de risadas e pequenos gritos.
— Arthur! Cuidado com a mamãe! — Eduarda ria, tentando se proteger dos ataques de cócegas do filho.
Emanuel observava a cena, sentindo a tensão em seus ombros diminuir um pouco. Ele sabia que a viagem seria um desafio logístico e emocional. Sabia que Sara passaria os primeiros três dias reclamando do frio e da falta de serviços de luxo. Sabia que teria que se desdobrar para dar atenção à Valentina, que se sentia deixada de lado pela energia avassaladora do irmão.
Mas, enquanto via Arthur finalmente bocejar, sinalizando que a bateria estava acabando, e sentia a mão de Eduarda procurar a sua no meio da brincadeira, Emanuel sentiu que, apesar do caos, aquele era o seu mundo. Um mundo pintado com tintas fortes, contrastes impossíveis e uma dose constante de drama, mas, no fim das contas, era o mundo que ele havia construído.
— Ele está ficando com sono — Eduarda sussurrou, observando Arthur deitar a cabeça no peito de Emanuel, os olhos pesando. — O único momento de paz.
— Vamos aproveitar — Emanuel disse em voz baixa, acomodando o filho em seus braços. — Porque quando ele acordar, Aspen vai ter que estar pronta para o furacão.
Eduarda sorriu, sentindo-se vitoriosa e protegida. Sara podia ter o brilho, o silicone e a audácia, mas ali, naquele tapete, cercada pelo silêncio que ela mesma havia cultivado, Eduarda sabia que tinha o coração de Emanuel exatamente onde queria: nas palmas de suas mãos pequenas e delicadas.
