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Tarzan

Fandom: A lenda do tarzan

Criado: 24/05/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistóricoAventuraEstudo de PersonagemRecontar
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O Sussurro do Vento na Savana

A chuva batia contra as vidraças da mansão Greystoke com uma insistência melancólica, um som que, para Karen, parecia o tamborilar de dedos impacientes sobre o vidro. O ar de Londres era pesado, carregado de fuligem e de uma formalidade que a sufocava. Ela apertou o xale em volta dos ombros, sentindo um calafrio que não vinha do clima, mas do vazio que carregava no ventre e na alma.

John — ou Tarzan, como seu coração ainda o chamava nas noites de silêncio — estava parado junto à lareira, as costas largas bloqueando a luz do fogo. Ele segurava uma carta, os nós dos dedos brancos de tensão. Karen sabia o que aquela carta significava: o chamado da África, a necessidade de retornar para proteger a tribo que os acolhera, os Kuba.

— Eu vou com você, John — disse ela, sua voz quebrando o silêncio da biblioteca.

Ele não se virou imediatamente. Seus ombros subiram e desceram em um suspiro profundo. Quando finalmente olhou para ela, seus olhos azuis, normalmente tão selvagens e livres, estavam nublados por uma preocupação severa.

— Não, Karen. Você vai ficar aqui. É seguro. O médico foi claro sobre o seu estado.

Karen sentiu uma pontada de dor no peito. O "estado" a que ele se referia era a nova vida que crescia dentro dela. Após a tragédia da primeira gestação, que terminou em silêncio e lágrimas meses atrás, cada movimento dela era vigiado como se ela fosse feita de cristal fino.

— Eu não sou uma prisioneira, John! — Ela se aproximou, a voz subindo de tom. — O que me adoece é este ar cinzento. O que me mata é a distância da nossa casa, da nossa gente. Eu sinto falta do cheiro da terra depois da chuva, do som das crianças na aldeia. Eu preciso da África tanto quanto você.

— A África é perigosa agora — rebateu ele, a voz crescendo como um trovão baixo. — Há homens armados, há doenças, há o calor que pode exaurir você. Eu já perdi um filho, Karen. Eu não vou arriscar perder você e este bebê também.

— Você acha que me protege trancando-me nesta gaiola de ouro? — As lágrimas começaram a queimar seus olhos, quentes e teimosas. — Eu perdi aquele bebê tanto quanto você, e chorei por ele em um quarto frio onde ninguém entende o que a tribo entende. Eu preciso estar lá. Se você me deixar aqui, eu vou definhar.

— Você está sendo irracional — disse John, virando as costas novamente, um gesto de encerramento que ele raramente usava com ela.

— Irracional? — Karen caminhou até ele, forçando-o a encará-la. As lágrimas agora corriam livremente por seu rosto. — Eu estou lutando pela minha sanidade! Eu sonho com a tribo todas as noites. Eu sinto que eles estão nos chamando. Por favor, John... não me deixe para trás de novo.

— A resposta é não — disse ele, rígido. — Eu partirei ao amanhecer. Você ficará com os criados e o Dr. Miller. É para o seu bem.

Karen recuou como se tivesse levado um tapa. O choro, que antes era contido, tornou-se um soluço convulsivo. Ela não discutiu mais. Virou-se e correu para o quarto, trancando a porta atrás de si.

Durante a noite, John permaneceu diante da lareira. Ele ouvia o choro dela através das paredes, um som que rasgava seus instintos mais profundos. Ele queria subir, abraçá-la e prometer que tudo ficaria bem, mas o medo era um predador que ele não conseguia abater. O medo de enterrar outra parte de sua alma no solo africano o paralisava.

No entanto, conforme as horas passavam e o silêncio de Karen se tornava mais pesado que seu choro, ele se lembrou de quem ela era. Ela não era uma dama londrina; ela era a mulher que enfrentara leões e mercenários ao seu lado. Privá-la da África era como tirar a água de uma planta do deserto.

Ao amanhecer, quando a carruagem estava pronta, John não subiu para se despedir. Em vez disso, ele subiu para buscá-la.

Encontrou-a sentada na beira da cama, os olhos inchados, vestida com suas roupas de viagem mais resistentes, a mala feita ao seu lado. Ela não tinha desistido.

— Se eu a levar — disse ele, parado na soleira da porta —, você me promete que não sairá do meu lado? Que descansará quando eu ordenar?

Karen levantou o olhar, uma centelha de esperança iluminando seu rosto pálido.

— Eu prometo, John. Eu farei qualquer coisa.

Ele caminhou até ela, ajoelhando-se e colocando a mão grande e calejada sobre o ventre ainda plano dela.

— Eu não suportaria perder vocês — sussurrou ele, a voz embargada.

— Você não vai — respondeu ela, cobrindo a mão dele com a sua. — A África vai nos curar.

A viagem foi longa e exaustiva. Cruzar o oceano e depois subir o rio Congo exigiu cada grama de força que Karen possuía. John era um guarda-costas implacável, garantindo que ela estivesse sempre hidratada, protegida do sol e alimentada. Houve momentos em que a náusea e o cansaço a faziam questionar sua decisão, mas bastava um vislumbre das copas das árvores verdes e o grito das araras para que seu espírito se renovasse.

Quando finalmente chegaram às terras da tribo Kuba, o sol estava se pondo, pintando o céu de tons de laranja e violeta que nenhuma tinta em Londres conseguiria replicar.

O som das flautas e dos tambores começou a ecoar antes mesmo de eles cruzarem o perímetro da aldeia. A notícia da chegada de "Tarzan e sua fêmea" havia se espalhado pela floresta como o vento.

— Eles estão aqui! — gritou um jovem guerreiro, correndo para encontrá-los.

Karen sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo. Assim que desceu do barco, apoiada firmemente por John, ela viu as mulheres da tribo se aproximando. Eram rostos familiares, marcados por sorrisos largos e olhos que brilhavam com um reconhecimento ancestral.

— Karen! — gritou a anciã da tribo, aproximando-se com os braços abertos.

— Mama Wema! — Karen entregou-se ao abraço, sentindo o cheiro de ervas e terra que tanto sentira falta.

As mulheres cercaram Karen imediatamente. Elas notaram a palidez em seu rosto e a maneira protetora como ela segurava a barriga. Não precisaram de palavras para entender a dor que ela passara ou a nova esperança que carregava.

— Você voltou para casa, filha da floresta — disse Mama Wema, segurando o rosto de Karen entre as mãos ásperas. — O espírito da terra sentiu sua falta. O pequeno que você carrega precisa do nosso sol, não daquela neblina fria de onde você veio.

John observava de longe, seus braços cruzados, a postura finalmente relaxando. Ele viu a cor retornar às bochechas de Karen quase instantaneamente. O brilho nos olhos dela, que havia se apagado em Londres, estava de volta, mais forte do que nunca.

— Veja, John — disse ela, virando-se para ele enquanto as mulheres a conduziam para a aldeia. — Eu estou respirando de novo.

Naquela noite, uma grande fogueira foi acesa no centro da aldeia. O banquete foi simples, mas cheio de significado. Karen sentou-se em uma esteira tecida, cercada pelas mulheres que cantavam canções de fertilidade e proteção. Elas trouxeram óleos essenciais e frutas frescas, cuidando dela não como uma paciente doente, mas como uma futura mãe que estava sendo preparada para a força.

John sentou-se com os chefes, discutindo as ameaças externas, mas seus olhos nunca deixavam Karen por muito tempo. Ele viu quando ela finalmente soltou um riso genuíno, uma melodia que ele não ouvia há meses.

— Ela precisava disso — disse o chefe da tribo, observando a direção do olhar de John. — A alma de uma mulher é como o rio, Lorde Greystoke. Se você tenta represá-la, ela morre. Se você a deixa correr para onde a terra a chama, ela traz vida a tudo ao redor.

— Eu tive medo — admitiu John, sua voz baixa, quase um rosnado de confissão.

— O medo é um bom conselheiro para a caça, mas um péssimo mestre para o amor — respondeu o velho chefe. — Aqui, ela tem a proteção de toda a tribo. E o bebê sentirá a força dos nossos tambores.

Mais tarde, quando a festa diminuiu e o fogo se tornou apenas brasas alaranjadas, John e Karen foram levados para a cabana que fora preparada para eles. O som da selva à noite — o coaxar das rãs, os gritos distantes dos primatas e o sussurro constante das folhas — era a canção de ninar que ambos ansiavam.

Karen estava deitada em uma cama de esteiras cobertas com peles macias. Ela parecia exausta, mas havia uma paz em sua expressão que John não via desde antes da perda do primeiro filho.

— Você está bem? — perguntou ele, sentando-se ao lado dela e tirando as botas.

— Nunca estive melhor — respondeu ela, estendendo a mão para ele. — Sinta, John.

Ele hesitou, depois colocou a mão sobre o ventre dela. Por um momento, houve apenas o silêncio. Então, um movimento quase imperceptível, um leve toque contra sua palma.

— Ele se mexeu? — perguntou John, os olhos arregalados, a voz falhando.

— Ele sabe que está em casa — disse Karen, sorrindo entre as lágrimas que agora eram de pura alegria.

John inclinou-se e beijou a testa dela, depois a barriga, um gesto de reverência e promessa.

— Eu sinto muito por ter tentado impedir você — sussurrou ele. — Eu estava tentando salvar você, mas quase a destruí.

— Nós estamos aqui agora — disse ela, puxando-o para perto. — E desta vez, nada vai nos separar desta terra.

Lá fora, a África rugia e sussurrava, um mundo selvagem e indomável que, para eles, era o único lugar no mundo onde o amor podia verdadeiramente florescer e a vida podia, finalmente, encontrar seu caminho de volta. Karen fechou os olhos, o som do coração de John batendo em sincronia com os tambores distantes, e pela primeira vez em muito tempo, ela dormiu sem medo, sabendo que a tribo, a floresta e o homem que ela amava a manteriam segura.
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