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Duas
Fandom: Nenhum
Criado: 24/05/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoPsicológicoHistória DomésticaCiúmesEstudo de PersonagemSombrioSuspenseRealismoLinguagem ExplícitaAbuso de Álcool
Tinta, Lágrimas e Veneno
O silêncio no luxuoso tríplex de Emanuel era algo raro, um artigo de luxo que ele raramente conseguia desfrutar. Naquela noite, o ar estava carregado, denso como a tinta preta que ele usava em suas tatuagens mais detalhadas. Emanuel estava sentado no sofá de couro italiano, as mãos massageando as têmporas, tentando ignorar a enxaqueca que latejava em sincronia com os passos pesados de Sara pelo corredor.
— Eu não aguento mais essa sonsa, Emanuel! — A voz de Sara cortou o ambiente como uma lâmina cega.
Ela surgiu na sala, uma visão de excessos: o cabelo loiro platinado perfeitamente escovado, o vestido vermelho tão justo que parecia uma segunda pele e o brilho agressivo das joias que ele mesmo havia dado. Sara era uma força da natureza, uma administradora que nunca exerceu a profissão, preferindo administrar o caos que causava por onde passava.
— Sara, por favor, eu acabei de chegar do estúdio — Emanuel murmurou, sem abrir os olhos. — Tivemos seis sessões de fechamento de costas hoje. Minha cabeça está explodindo.
— Ah, claro! O grande artista está cansado — ela debochou, parando na frente dele e cruzando os braços, o que destacava ainda mais o silicone impecável. — Mas para ouvir as lamentações daquela songamonga você sempre tem tempo, não é? Você sabe o que ela fez hoje?
Do outro lado da sala, encolhida em uma poltrona larga de linho claro, Eduarda permanecia em silêncio. Ela vestia um cardigã de tricô oversized e meias brancas, parecendo ainda menor do que já era. Seus olhos grandes e expressivos estavam marejados, e ela segurava um livro de História da Arte contra o peito, como se fosse um escudo.
— Eu não fiz nada, Emanuel... — a voz de Eduarda saiu num fio, doce e trêmula. — Eu só estava comentando como o pessoal do estúdio foi legal comigo quando levei o lanche para eles.
Sara soltou uma risada estridente e amarga.
— "Legal"? Eles te adoram porque você faz esse papel de santa, de coitadinha! "Ai, olhem para mim, sou tão sensível, gosto de museus e cores pastéis". Me poupa, Eduarda! Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Você usa essa timidez para manipular todo mundo, inclusive o Emanuel.
— Isso não é verdade — Eduarda fungou, uma única lágrima escorrendo por sua bochecha pálida. — Eu só queria ser gentil.
— Gentil? — Sara deu um passo em direção à outra, o salto agulha estalando no chão de porcelanato. — Você quer é me apagar! Hoje o Marcos me ligou do estúdio da matriz para perguntar se você ia na festa de confraternização. Eu sou a mulher dele há três anos, eu entendo de negócios, eu tenho presença! E eles preferem a menina que estuda quadrinhos de gente morta e não sabe abrir a boca sem gaguejar?
Emanuel suspirou, abrindo os olhos e encarando o teto. Ele amava as duas, de formas desesperadamente diferentes. Eduarda era sua paz, o porto seguro onde ele podia descansar sua mente lógica e exausta; ela era o rascunho suave de um desenho que ele nunca queria terminar. Sara era a adrenalina, a ambição, a mulher que desafiava seu controle e exigia cada grama de sua energia. Mas a convivência entre as duas estava se tornando um campo de batalha.
— Sara, chega de gritar — Emanuel disse, sua voz assumindo aquele tom baixo e autoritário que ele usava para gerenciar seus estúdios ao redor do mundo. — O pessoal gosta da Duda porque ela é calma. O ambiente de trabalho já é estressante o suficiente.
— Ah, agora a culpa é minha por ter personalidade? — Sara se virou para ele, os olhos faiscando. — Você está defendendo ela de novo! Você sempre defende essa sonsa! Ela se faz de vítima, Emanuel. Olha para ela agora, chorando sem barulho, esperando que você vá lá e a pegue no colo. É nojento!
Eduarda soluçou baixinho, escondendo o rosto entre as mãos. Seus ombros pequenos tremiam, e ela se encolheu ainda mais na poltrona, tornando-se uma imagem perfeita de fragilidade ferida.
— Desculpa... — Eduarda murmurou entre os dedos. — Eu não queria causar problemas. Eu posso ir para o meu quarto, Emanuel. Eu não quero que vocês briguem por minha causa.
Ela fez menção de se levantar, mas seus movimentos eram lentos e vacilantes, como se ela estivesse fisicamente exausta pelo conflito. Emanuel, cujo instinto de proteção era um gatilho automático, levantou-se antes de pensar.
— Não precisa ir a lugar nenhum, Duda. Vem cá.
Sara soltou um grito de frustração pura, jogando a bolsa de grife no chão.
— É sério isso? Você vai cair nesse teatrinho de novo? Ela é uma manipuladora, Emanuel! Ela sabe exatamente o que está fazendo. Ela usa esse jeito manhoso para te controlar, e você, o grande empresário racional, cai como um patinho!
— Sara, você está passando dos limites — Emanuel disse, aproximando-se de Eduarda e colocando a mão em seu ombro. — A Duda não falou uma palavra contra você a noite toda. Você entrou aqui já atacando.
— Porque eu não aguento mais ser a vilã dessa casa! — Sara gritou, as veias de seu pescoço saltando. — Eu sou a mulher que esteve do seu lado quando você abriu o segundo estúdio em Londres! Eu sou a mulher que sabe como o mundo funciona. E agora eu tenho que dividir meu espaço, meu homem e a atenção dos meus amigos com essa... essa coisinha que parece que vai quebrar se bater um vento?
Eduarda levantou o rosto, os olhos vermelhos e úmidos encontrando os de Emanuel.
— Emanuel, ela me odeia... — ela sussurrou, a mão pequena agarrando a manga da camisa dele. — Eu tento, eu juro que tento ser amiga dela, mas tudo o que eu faço a irrita. Talvez eu devesse mesmo ir embora por uns dias...
— Você não vai a lugar nenhum — Emanuel sentenciou, sentindo a pressão subir. Ele olhou para Sara com uma frieza que a fez recuar um passo. — Sara, chega. Você está sendo vulgar e agressiva. Se o pessoal do estúdio prefere a companhia da Eduarda, talvez seja porque ela não tenta diminuir ninguém para se sentir grande.
O rosto de Sara ficou lívido. A palavra "vulgar" atingiu-a como um tapa. Ela sabia que Emanuel valorizava a classe e a discrição, coisas que ela frequentemente ignorava em favor de seu estilo impactante.
— Vulgar? — ela repetiu, a voz falhando por um segundo antes de voltar com força total. — Eu sou autêntica! Eu não sou um fantasma que vive nas sombras dos outros. Se eu sou vulgar, por que você ainda me quer na sua cama, Emanuel? Por que você não fica só com a sua bonequinha de porcelana sem sal?
— Porque eu amo as duas! — Emanuel explodiu, sua paciência finalmente se esgotando. — Mas eu não sou obrigado a aguentar esse circo toda vez que chego em casa. Sara, você é impulsiva e está sendo injusta. Eduarda, pare de se desculpar por existir.
Eduarda começou a chorar de verdade agora, o rosto escondido no peito de Emanuel. Ela o abraçou pela cintura, buscando o calor e a segurança que só ele proporcionava. Emanuel suspirou, passando a mão pelos cabelos dela, sentindo a maciez dos fios enquanto seus olhos permaneciam fixos em Sara.
— Olha só para isso — Sara disse, apontando para os dois com um sorriso cínico, embora seus próprios olhos estivessem brilhando com lágrimas de raiva que ela se recusava a deixar cair. — Que cena linda. O cavaleiro e a donzela em perigo. E eu sou o dragão, não é? Sempre o dragão.
— Você se coloca nesse papel, Sara — Emanuel disse, mais calmo, mas ainda rígido. — Você tem tudo. Tem joias, tem conforto, tem a minha atenção. Por que você precisa atacar a Duda?
— Porque ela rouba o que o dinheiro não compra, Emanuel! — Sara gritou, a voz embargada. — Ela rouba a admiração das pessoas. Ela rouba o seu olhar de cuidado. Quando você olha para ela, você quer proteger. Quando olha para mim, você só quer... possuir. Ou controlar. Eu também quero que alguém se preocupe se eu estou triste, porra!
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda levantou levemente a cabeça, observando Sara com uma expressão que poderia ser interpretada como pena, ou talvez, para um observador mais atento como Sara, uma sutil vitória.
— Eu me preocupo com você, Sara — Emanuel disse, sua postura relaxando minimamente. — Mas você não me deixa chegar perto quando está nesse estado. Você só sabe atacar.
— Eu ataco porque é a única forma de não ser pisoteada — Sara retrucou, limpando o canto do olho com o dedo perfeitamente manicurado. — E essa aí... ela sabe disso. Ela sabe que, se ela ficar acuada, você vem correndo. Ela é mais esperta que todos nós, Emanuel.
— Por favor, parem... — Eduarda pediu, a voz abafada contra a camisa de Emanuel. — Eu não quero que ninguém sofra. Sara, se você quiser, eu não vou mais ao estúdio. Eu fico aqui, eu me escondo, só não brigue com ele.
— Viu? — Sara apontou, rindo sem vontade. — A mártir! Ela é perfeita, não é? "Eu me escondo". Que nojo, Eduarda. Que nojo de você.
Emanuel sentiu a tensão de Eduarda em seus braços e o cheiro doce do perfume dela, algo que remetia a flores frescas e tranquilidade. Ao mesmo tempo, ele via Sara, vibrante e furiosa, uma labareda que ele não conseguia apagar. O conflito interno o estava destruindo. Ele era um homem de lógica, de traços precisos e decisões definitivas, mas seu coração era um território dividido por duas forças opostas.
— Chega de discussões por hoje — Emanuel decretou, soltando-se gentilmente de Eduarda, mas mantendo a mão na dela. — Sara, vá para o quarto. Tome um banho, beba uma taça de vinho e se acalme. Duda, vá para a cozinha e prepare um chá para nós. Precisamos de silêncio.
— Eu não vou a lugar nenhum porque você mandou! — Sara rebateu, mas o fogo em sua voz estava diminuindo, substituído por um cansaço amargo. — Eu vou porque não aguento mais olhar para a cara de sonsa dessa menina.
Ela pegou sua bolsa do chão com um movimento brusco e caminhou em direção às escadas, os saltos batendo como tiros no chão. Antes de sumir no andar de cima, ela olhou por cima do ombro.
— Um dia, Emanuel, você vai perceber que a fragilidade dela é a sua maior prisão. E nesse dia, não venha procurar a "vulgar" aqui para te libertar.
Sara desapareceu no corredor, e o som de uma porta batendo ecoou por todo o apartamento. Emanuel fechou os olhos e soltou um suspiro longo, sentindo o peso do mundo em seus ombros.
Eduarda aproximou-se dele, seus passos silenciosos. Ela envolveu os braços em volta do pescoço dele, forçando-o a baixar a cabeça para encontrá-la.
— Ela foi muito má, Emanuel... — ela sussurrou, roçando o nariz no dele, os olhos ainda úmidos e brilhantes. — Você está bem? Seu coração está batendo tão rápido.
— Eu estou exausto, Duda — ele admitiu, deixando sua testa encostar na dela. — Eu só queria que vocês se dessem bem. Eu amo as duas. Por que tem que ser tão difícil?
— Porque ela é muito intensa — Eduarda disse, com uma suavidade que beirava o hipnótico. — Ela não entende o seu silêncio como eu entendo. Mas eu estou aqui. Eu vou cuidar de você. Esqueça o que ela disse. Ela só está com inveja porque as pessoas veem quem você realmente é quando estão comigo.
Emanuel a abraçou apertado, enterrando o rosto na curva de seu pescoço. Por um momento, a paz que Eduarda oferecia parecia ser a resposta para todos os seus problemas. Era fácil, era macio, era seguro.
Mas, em algum lugar no fundo de sua mente, as palavras de Sara ecoavam. Ele pensou no estúdio, nas luzes fortes, no barulho das máquinas de tatuagem e na energia caótica que ele tanto amava em sua profissão. Sara pertencia àquele mundo. Eduarda era o refúgio desse mundo.
— Vá fazer o chá, querida — ele disse, afastando-se um pouco. — Eu vou ver como ela está.
Eduarda franziu o cenho de forma quase imperceptível, uma sombra de insatisfação cruzando seu rosto doce por menos de um segundo.
— Mas ela te tratou tão mal...
— Ela é difícil, Duda. Mas ela também é minha.
Eduarda assentiu, voltando instantaneamente à sua expressão de obediência carinhosa.
— Tudo bem. Eu vou preparar o chá. Com mel, do jeito que você gosta.
Enquanto Eduarda caminhava em direção à cozinha com sua leveza característica, Emanuel ficou parado no centro da sala. Ele olhou para a escada por onde Sara subira e depois para o caminho que Eduarda seguira. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado, capaz de desenhar destinos na pele das pessoas com agulhas e tinta. No entanto, ali, naquele tríplex silencioso, ele se sentia como uma tela em branco, sendo rasgado ao meio por dois pincéis que se recusavam a misturar suas cores.
Ele subiu as escadas lentamente. Sabia que Sara estaria chorando, escondida atrás de sua maquiagem cara e de sua postura de aço. E sabia que, lá embaixo, Eduarda estaria preparando o chá com um sorriso discreto, sabendo que, no final das contas, era ela quem ele buscava para acalmar a alma.
A guerra estava longe de acabar. E Emanuel, o mediador exausto, sabia que a próxima batalha era apenas questão de tempo.
— Eu não aguento mais essa sonsa, Emanuel! — A voz de Sara cortou o ambiente como uma lâmina cega.
Ela surgiu na sala, uma visão de excessos: o cabelo loiro platinado perfeitamente escovado, o vestido vermelho tão justo que parecia uma segunda pele e o brilho agressivo das joias que ele mesmo havia dado. Sara era uma força da natureza, uma administradora que nunca exerceu a profissão, preferindo administrar o caos que causava por onde passava.
— Sara, por favor, eu acabei de chegar do estúdio — Emanuel murmurou, sem abrir os olhos. — Tivemos seis sessões de fechamento de costas hoje. Minha cabeça está explodindo.
— Ah, claro! O grande artista está cansado — ela debochou, parando na frente dele e cruzando os braços, o que destacava ainda mais o silicone impecável. — Mas para ouvir as lamentações daquela songamonga você sempre tem tempo, não é? Você sabe o que ela fez hoje?
Do outro lado da sala, encolhida em uma poltrona larga de linho claro, Eduarda permanecia em silêncio. Ela vestia um cardigã de tricô oversized e meias brancas, parecendo ainda menor do que já era. Seus olhos grandes e expressivos estavam marejados, e ela segurava um livro de História da Arte contra o peito, como se fosse um escudo.
— Eu não fiz nada, Emanuel... — a voz de Eduarda saiu num fio, doce e trêmula. — Eu só estava comentando como o pessoal do estúdio foi legal comigo quando levei o lanche para eles.
Sara soltou uma risada estridente e amarga.
— "Legal"? Eles te adoram porque você faz esse papel de santa, de coitadinha! "Ai, olhem para mim, sou tão sensível, gosto de museus e cores pastéis". Me poupa, Eduarda! Você é a pessoa mais falsa que eu já conheci. Você usa essa timidez para manipular todo mundo, inclusive o Emanuel.
— Isso não é verdade — Eduarda fungou, uma única lágrima escorrendo por sua bochecha pálida. — Eu só queria ser gentil.
— Gentil? — Sara deu um passo em direção à outra, o salto agulha estalando no chão de porcelanato. — Você quer é me apagar! Hoje o Marcos me ligou do estúdio da matriz para perguntar se você ia na festa de confraternização. Eu sou a mulher dele há três anos, eu entendo de negócios, eu tenho presença! E eles preferem a menina que estuda quadrinhos de gente morta e não sabe abrir a boca sem gaguejar?
Emanuel suspirou, abrindo os olhos e encarando o teto. Ele amava as duas, de formas desesperadamente diferentes. Eduarda era sua paz, o porto seguro onde ele podia descansar sua mente lógica e exausta; ela era o rascunho suave de um desenho que ele nunca queria terminar. Sara era a adrenalina, a ambição, a mulher que desafiava seu controle e exigia cada grama de sua energia. Mas a convivência entre as duas estava se tornando um campo de batalha.
— Sara, chega de gritar — Emanuel disse, sua voz assumindo aquele tom baixo e autoritário que ele usava para gerenciar seus estúdios ao redor do mundo. — O pessoal gosta da Duda porque ela é calma. O ambiente de trabalho já é estressante o suficiente.
— Ah, agora a culpa é minha por ter personalidade? — Sara se virou para ele, os olhos faiscando. — Você está defendendo ela de novo! Você sempre defende essa sonsa! Ela se faz de vítima, Emanuel. Olha para ela agora, chorando sem barulho, esperando que você vá lá e a pegue no colo. É nojento!
Eduarda soluçou baixinho, escondendo o rosto entre as mãos. Seus ombros pequenos tremiam, e ela se encolheu ainda mais na poltrona, tornando-se uma imagem perfeita de fragilidade ferida.
— Desculpa... — Eduarda murmurou entre os dedos. — Eu não queria causar problemas. Eu posso ir para o meu quarto, Emanuel. Eu não quero que vocês briguem por minha causa.
Ela fez menção de se levantar, mas seus movimentos eram lentos e vacilantes, como se ela estivesse fisicamente exausta pelo conflito. Emanuel, cujo instinto de proteção era um gatilho automático, levantou-se antes de pensar.
— Não precisa ir a lugar nenhum, Duda. Vem cá.
Sara soltou um grito de frustração pura, jogando a bolsa de grife no chão.
— É sério isso? Você vai cair nesse teatrinho de novo? Ela é uma manipuladora, Emanuel! Ela sabe exatamente o que está fazendo. Ela usa esse jeito manhoso para te controlar, e você, o grande empresário racional, cai como um patinho!
— Sara, você está passando dos limites — Emanuel disse, aproximando-se de Eduarda e colocando a mão em seu ombro. — A Duda não falou uma palavra contra você a noite toda. Você entrou aqui já atacando.
— Porque eu não aguento mais ser a vilã dessa casa! — Sara gritou, as veias de seu pescoço saltando. — Eu sou a mulher que esteve do seu lado quando você abriu o segundo estúdio em Londres! Eu sou a mulher que sabe como o mundo funciona. E agora eu tenho que dividir meu espaço, meu homem e a atenção dos meus amigos com essa... essa coisinha que parece que vai quebrar se bater um vento?
Eduarda levantou o rosto, os olhos vermelhos e úmidos encontrando os de Emanuel.
— Emanuel, ela me odeia... — ela sussurrou, a mão pequena agarrando a manga da camisa dele. — Eu tento, eu juro que tento ser amiga dela, mas tudo o que eu faço a irrita. Talvez eu devesse mesmo ir embora por uns dias...
— Você não vai a lugar nenhum — Emanuel sentenciou, sentindo a pressão subir. Ele olhou para Sara com uma frieza que a fez recuar um passo. — Sara, chega. Você está sendo vulgar e agressiva. Se o pessoal do estúdio prefere a companhia da Eduarda, talvez seja porque ela não tenta diminuir ninguém para se sentir grande.
O rosto de Sara ficou lívido. A palavra "vulgar" atingiu-a como um tapa. Ela sabia que Emanuel valorizava a classe e a discrição, coisas que ela frequentemente ignorava em favor de seu estilo impactante.
— Vulgar? — ela repetiu, a voz falhando por um segundo antes de voltar com força total. — Eu sou autêntica! Eu não sou um fantasma que vive nas sombras dos outros. Se eu sou vulgar, por que você ainda me quer na sua cama, Emanuel? Por que você não fica só com a sua bonequinha de porcelana sem sal?
— Porque eu amo as duas! — Emanuel explodiu, sua paciência finalmente se esgotando. — Mas eu não sou obrigado a aguentar esse circo toda vez que chego em casa. Sara, você é impulsiva e está sendo injusta. Eduarda, pare de se desculpar por existir.
Eduarda começou a chorar de verdade agora, o rosto escondido no peito de Emanuel. Ela o abraçou pela cintura, buscando o calor e a segurança que só ele proporcionava. Emanuel suspirou, passando a mão pelos cabelos dela, sentindo a maciez dos fios enquanto seus olhos permaneciam fixos em Sara.
— Olha só para isso — Sara disse, apontando para os dois com um sorriso cínico, embora seus próprios olhos estivessem brilhando com lágrimas de raiva que ela se recusava a deixar cair. — Que cena linda. O cavaleiro e a donzela em perigo. E eu sou o dragão, não é? Sempre o dragão.
— Você se coloca nesse papel, Sara — Emanuel disse, mais calmo, mas ainda rígido. — Você tem tudo. Tem joias, tem conforto, tem a minha atenção. Por que você precisa atacar a Duda?
— Porque ela rouba o que o dinheiro não compra, Emanuel! — Sara gritou, a voz embargada. — Ela rouba a admiração das pessoas. Ela rouba o seu olhar de cuidado. Quando você olha para ela, você quer proteger. Quando olha para mim, você só quer... possuir. Ou controlar. Eu também quero que alguém se preocupe se eu estou triste, porra!
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda levantou levemente a cabeça, observando Sara com uma expressão que poderia ser interpretada como pena, ou talvez, para um observador mais atento como Sara, uma sutil vitória.
— Eu me preocupo com você, Sara — Emanuel disse, sua postura relaxando minimamente. — Mas você não me deixa chegar perto quando está nesse estado. Você só sabe atacar.
— Eu ataco porque é a única forma de não ser pisoteada — Sara retrucou, limpando o canto do olho com o dedo perfeitamente manicurado. — E essa aí... ela sabe disso. Ela sabe que, se ela ficar acuada, você vem correndo. Ela é mais esperta que todos nós, Emanuel.
— Por favor, parem... — Eduarda pediu, a voz abafada contra a camisa de Emanuel. — Eu não quero que ninguém sofra. Sara, se você quiser, eu não vou mais ao estúdio. Eu fico aqui, eu me escondo, só não brigue com ele.
— Viu? — Sara apontou, rindo sem vontade. — A mártir! Ela é perfeita, não é? "Eu me escondo". Que nojo, Eduarda. Que nojo de você.
Emanuel sentiu a tensão de Eduarda em seus braços e o cheiro doce do perfume dela, algo que remetia a flores frescas e tranquilidade. Ao mesmo tempo, ele via Sara, vibrante e furiosa, uma labareda que ele não conseguia apagar. O conflito interno o estava destruindo. Ele era um homem de lógica, de traços precisos e decisões definitivas, mas seu coração era um território dividido por duas forças opostas.
— Chega de discussões por hoje — Emanuel decretou, soltando-se gentilmente de Eduarda, mas mantendo a mão na dela. — Sara, vá para o quarto. Tome um banho, beba uma taça de vinho e se acalme. Duda, vá para a cozinha e prepare um chá para nós. Precisamos de silêncio.
— Eu não vou a lugar nenhum porque você mandou! — Sara rebateu, mas o fogo em sua voz estava diminuindo, substituído por um cansaço amargo. — Eu vou porque não aguento mais olhar para a cara de sonsa dessa menina.
Ela pegou sua bolsa do chão com um movimento brusco e caminhou em direção às escadas, os saltos batendo como tiros no chão. Antes de sumir no andar de cima, ela olhou por cima do ombro.
— Um dia, Emanuel, você vai perceber que a fragilidade dela é a sua maior prisão. E nesse dia, não venha procurar a "vulgar" aqui para te libertar.
Sara desapareceu no corredor, e o som de uma porta batendo ecoou por todo o apartamento. Emanuel fechou os olhos e soltou um suspiro longo, sentindo o peso do mundo em seus ombros.
Eduarda aproximou-se dele, seus passos silenciosos. Ela envolveu os braços em volta do pescoço dele, forçando-o a baixar a cabeça para encontrá-la.
— Ela foi muito má, Emanuel... — ela sussurrou, roçando o nariz no dele, os olhos ainda úmidos e brilhantes. — Você está bem? Seu coração está batendo tão rápido.
— Eu estou exausto, Duda — ele admitiu, deixando sua testa encostar na dela. — Eu só queria que vocês se dessem bem. Eu amo as duas. Por que tem que ser tão difícil?
— Porque ela é muito intensa — Eduarda disse, com uma suavidade que beirava o hipnótico. — Ela não entende o seu silêncio como eu entendo. Mas eu estou aqui. Eu vou cuidar de você. Esqueça o que ela disse. Ela só está com inveja porque as pessoas veem quem você realmente é quando estão comigo.
Emanuel a abraçou apertado, enterrando o rosto na curva de seu pescoço. Por um momento, a paz que Eduarda oferecia parecia ser a resposta para todos os seus problemas. Era fácil, era macio, era seguro.
Mas, em algum lugar no fundo de sua mente, as palavras de Sara ecoavam. Ele pensou no estúdio, nas luzes fortes, no barulho das máquinas de tatuagem e na energia caótica que ele tanto amava em sua profissão. Sara pertencia àquele mundo. Eduarda era o refúgio desse mundo.
— Vá fazer o chá, querida — ele disse, afastando-se um pouco. — Eu vou ver como ela está.
Eduarda franziu o cenho de forma quase imperceptível, uma sombra de insatisfação cruzando seu rosto doce por menos de um segundo.
— Mas ela te tratou tão mal...
— Ela é difícil, Duda. Mas ela também é minha.
Eduarda assentiu, voltando instantaneamente à sua expressão de obediência carinhosa.
— Tudo bem. Eu vou preparar o chá. Com mel, do jeito que você gosta.
Enquanto Eduarda caminhava em direção à cozinha com sua leveza característica, Emanuel ficou parado no centro da sala. Ele olhou para a escada por onde Sara subira e depois para o caminho que Eduarda seguira. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado, capaz de desenhar destinos na pele das pessoas com agulhas e tinta. No entanto, ali, naquele tríplex silencioso, ele se sentia como uma tela em branco, sendo rasgado ao meio por dois pincéis que se recusavam a misturar suas cores.
Ele subiu as escadas lentamente. Sabia que Sara estaria chorando, escondida atrás de sua maquiagem cara e de sua postura de aço. E sabia que, lá embaixo, Eduarda estaria preparando o chá com um sorriso discreto, sabendo que, no final das contas, era ela quem ele buscava para acalmar a alma.
A guerra estava longe de acabar. E Emanuel, o mediador exausto, sabia que a próxima batalha era apenas questão de tempo.
