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Fandom: Nenhum
Criado: 24/05/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistória DomésticaPsicológicoEstudo de PersonagemRealismoCiúmesSuspenseSombrioLinguagem ExplícitaAbuso de Álcool
Entre o Caos e a Calmaria
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado no coração de um dos bairros mais caros da cidade, era o seu santuário de ordem. O som das máquinas de tatuar, o cheiro de antisséptico e a iluminação precisa eram as únicas coisas que ele sentia que podia controlar totalmente. Aos vinte e cinco anos, ele já era um nome lendário no meio, dono de uma rede internacional de estúdios que lhe rendia uma fortuna considerável. Mas, no fundo, ele era um homem de silêncios e racionalidade.
Naquela tarde de outono, o silêncio foi quebrado pela entrada de uma jovem que parecia ter saído de uma pintura renascentista. Eduarda, com seus vinte anos e um olhar que transbordava uma timidez quase dolorosa, segurava um livro de História da Arte contra o peito como se fosse um escudo.
— Com licença... — a voz dela era um sussurro, tão leve que Emanuel quase não ouviu acima do zumbido da máquina que ele limpava. — Eu... eu gostaria de fazer um orçamento, mas não sei se é o lugar certo.
Emanuel levantou os olhos. Ele estava acostumado a modelos, celebridades e tipos rudes que queriam marcar a pele com agressividade. Eduarda era o oposto. Ela era esguia, delicada, com traços finos e um cabelo que caía sobre os ombros de forma natural, sem o artifício das modas passageiras.
— Você está no lugar certo — ele respondeu, sua voz grave e calma. — O que você tem em mente?
— Algo pequeno... uma folha de acanto — ela disse, aproximando-se do balcão com passos curtos. — É um símbolo de superação e imortalidade na arquitetura clássica.
Emanuel sentiu algo que raramente sentia: curiosidade. Enquanto ela explicava o significado artístico por trás do desenho, ele observava como ela ficava vermelha quando ele mantinha o olhar por muito tempo, e como ela era manhosa ao pedir que o desenho não fosse "muito agressivo". Naquele momento, Emanuel já namorava Sara há quatro meses.
Sara era a tempestade. Loira, com curvas esculpidas por cirurgias plásticas que ela exibia com orgulho e uma personalidade que engolia o oxigênio de qualquer sala, ela era o fogo que Emanuel achava que precisava para se sentir vivo. Mas, olhando para Eduarda, ele percebeu que estava morrendo de sede por um pouco de água fresca.
O encontro das duas, semanas depois, foi o desastre que Emanuel, em sua tentativa falha de lógica, tentou orquestrar. Ele convidou Eduarda para um café, mas Sara, sentindo o cheiro de mudança no ar, apareceu sem ser convidada, vestindo um vestido vermelho extremamente justo e saltos que estalavam no chão como chicotadas.
— Então é essa a "estudantezinha" que está ocupando o tempo do meu homem? — Sara disparou antes mesmo de se sentar, cruzando as pernas e deixando o decote generoso em evidência.
Eduarda encolheu-se na cadeira, os olhos grandes e expressivos enchendo-se de uma umidade súbita. Ela não sabia como reagir à agressividade vulgar de Sara.
— Sara, chega — Emanuel disse, o tom de voz rígido, a mandíbula cerrada. — Eduarda é uma amiga. E você está sendo desnecessária.
— Amiga? — Sara soltou uma risada sarcástica, retocando o batom forte enquanto olhava para Eduarda com desprezo. — Ela parece uma criança perdida que precisa de um babá, Emanuel. Olha para ela, mal consegue falar.
Eduarda permaneceu em silêncio, apenas buscando a mão de Emanuel por baixo da mesa, um gesto de puro instinto e busca por proteção. Aquele toque suave e dependente selou o destino de Emanuel. Ele percebeu que não conseguia abrir mão da energia vibrante e do sexo voraz de Sara, mas também não podia mais viver sem a doçura e a paz que Eduarda trazia para o seu peito cansado.
A decisão de tê-las juntas não foi baseada em luxúria, mas em uma necessidade egoísta de equilíbrio. Emanuel era um homem prático. Se ele amava as duas de formas diferentes, a solução lógica era uni-las sob o seu teto.
— Eu não vou escolher — ele disse aos dois meses de convivência paralela, quando reuniu as duas em seu apartamento de cobertura. — Eu amo a vivacidade da Sara e amo a pureza da Eduarda. Quero que as duas morem comigo. Quero que sejamos nós três.
Sara gritou, quebrou um vaso de cristal e chamou Eduarda de todos os nomes possíveis. Eduarda apenas chorou, escondendo o rosto no ombro de Emanuel, implorando por carinho com aquele jeito manhoso que desarmava qualquer um. No fim, a ganância de Sara pelo estilo de vida que Emanuel proporcionava e a dependência emocional de Eduarda falaram mais alto.
Os primeiros meses morando juntos foram um campo de batalha silencioso e barulhento ao mesmo tempo.
— Emanuel, manda essa sonsa sair da cozinha! — Sara gritou certa manhã, vestindo apenas uma lingerie de renda preta, enquanto passava por Eduarda, que preparava um chá calmante. — O cheiro dessas ervas me dá náuseas.
— Eu... eu só estava fazendo um pouco de chá — Eduarda murmurou, os olhos baixos, segurando a xícara com as mãos trêmulas. — Sinto muito, Sara.
— Sente muito o caralho! — Sara se aproximou, a presença física sendo usada como arma. — Você faz esse papel de santinha, mas eu sei que você quer ser a favorita. Só que o Emanuel gosta de mulher de verdade, não de uma boneca de porcelana que ainda é virgem.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Sim, ela ainda era virgem. O medo da entrega total e sua natureza sensível a faziam recuar, e Emanuel, em sua proteção quase paternal, nunca a pressionara. Ele respeitava o tempo dela, o que só irritava Sara ainda mais.
Emanuel entrou na cozinha, a expressão cansada de quem tinha passado a noite gerenciando crises em seus estúdios na Europa.
— O que está acontecendo aqui? — ele perguntou, a voz carregada de autoridade.
— Essa garota está no meu caminho! — Sara apontou para Eduarda.
Emanuel caminhou até Eduarda e a puxou para um abraço lateral, sentindo o corpo dela relaxar instantaneamente contra o seu.
— Sara, pare de provocá-la. Eduarda tem tanto direito a este espaço quanto você. Se você não consegue conviver em paz, a porta está aberta.
Sara bufou, batendo o pé antes de sair da sala. Ela sabia que Emanuel não a expulsaria de verdade, mas odiava como ele sempre corria para proteger a "pequena".
Momentos depois, no sofá da sala, Eduarda se aninhou no colo de Emanuel, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Ela me odeia, Manu... — ela sussurrou, a voz manhosa, buscando o conforto das mãos dele em seu cabelo. — Por que ela tem que ser tão má?
— Ela é apenas diferente de você, querida — Emanuel suspirou, fechando os olhos e aproveitando a leveza que o corpo de Eduarda trazia. — Ela é fogo, e você é água. Eu preciso das duas para não queimar e nem afogar.
— Mas dói... — Eduarda insistiu, esfregando o rosto no peito dele, sentindo os músculos firmes por baixo da camiseta de algodão. — Eu queria que fôssemos só nós, às vezes.
— Eu sei — ele beijou o topo da cabeça dela. — Mas você prometeu que tentaria. Pelo nosso amor.
A dinâmica era um ciclo vicioso. Sara provocava, Eduarda recuava para o colo de Emanuel, e Emanuel tentava mediar o caos com uma rigidez que muitas vezes beirava a exaustão. À noite, o clima era ainda mais tenso. Emanuel dividia seu tempo. Algumas noites eram preenchidas pelos gemidos altos e pela agressividade sexual de Sara no quarto principal, o que fazia Eduarda se encolher em seu próprio quarto, ouvindo música clássica nos fones de ouvido para não chorar.
Em outras noites, Emanuel ia para o quarto de Eduarda. Lá, não havia sexo, apenas carícias lentas, conversas sobre arte e o sono tranquilo de quem se sentia protegido.
— Você vai ficar comigo para sempre? — Eduarda perguntou em uma dessas noites, enquanto ele a cobria com o edredom claro.
— Enquanto você precisar de mim, eu estarei aqui — Emanuel respondeu com sinceridade.
Na manhã seguinte, a rotina de conflito recomeçava. Sara apareceu na sala de jantar, onde Eduarda estudava para uma prova de História da Arte Moderna.
— Que coisa mais tediosa — Sara disse, pegando um dos livros de Eduarda com as unhas longas e impecavelmente feitas. — Por que você não vai trabalhar de verdade em vez de ficar olhando fotos de estátuas peladas?
— Eu gosto de estudar, Sara — Eduarda respondeu com uma coragem súbita, embora a voz ainda tremesse. — A arte explica o mundo.
— A arte não paga as contas, querida. O que paga as contas é o que eu faço para o Emanuel entre quatro paredes, algo que você nem sabe por onde começar — Sara sorriu com malícia, vendo Eduarda baixar o olhar, derrotada.
Emanuel, que observava da porta, sentiu a tensão acumulada latejar em suas têmporas. Ele caminhou até a mesa e tirou o livro das mãos de Sara, devolvendo-o gentilmente para Eduarda.
— Sara, você não trabalha porque não quer. Formou-se em administração e prefere gastar o meu dinheiro em shoppings. Não critique a dedicação da Eduarda.
— Ah, agora você vai defendê-la de novo? — Sara cruzou os braços, os seios siliconados saltando pelo decote do robe de seda. — Você está ficando mole, Emanuel. Essa garota está transformando você em um fracassado sensível.
— Chega! — o grito de Emanuel ecoou pelo apartamento, fazendo as duas mulheres saltarem. — Eu sustento esta casa, eu sustento a vida de vocês. Eu não vou tolerar esse desrespeito constante. Sara, vá para o seu quarto. Agora.
Sara, percebendo que tinha cruzado uma linha perigosa, recuou, mas não sem antes lançar um olhar de puro ódio para Eduarda.
Quando ela saiu, Eduarda se levantou e caminhou até Emanuel, abraçando-o pela cintura. Ela sentia a tensão no corpo dele, a rigidez de um homem que tentava equilibrar dois mundos irreconciliáveis.
— Desculpa, Manu... a culpa é minha — ela disse, manhosa, encostando a bochecha no braço dele.
— Não é sua culpa, Duda — ele relaxou o peso do corpo sobre ela, buscando naquela fragilidade a força que lhe faltava. — É apenas o preço que pagamos por querermos tudo.
Emanuel sabia que aquela paz era temporária. Ele sabia que Sara voltaria a atacar e que Eduarda continuaria a se esconder sob suas asas. Mas, enquanto ele olhava para o rosto doce de Eduarda e ouvia o som dos saltos de Sara no corredor, ele percebeu que, apesar do caos, ele não mudaria nada. Ele era o mestre de seu império, o tatuador que marcava a pele dos outros, mas eram aquelas duas mulheres, tão diferentes e tão cruéis uma com a outra, que haviam marcado permanentemente a sua alma.
A convivência nos primeiros meses foi um aprendizado de sobrevivência. Emanuel aprendeu que precisava dar joias e atenção pública para Sara se sentir rainha, e precisava de tempo, silêncio e toques suaves para Eduarda se sentir segura. Ele vivia no fio da navalha, entre o vulgar e o sublime, entre o grito e o sussurro. E, no final de cada dia, quando ele se sentava na varanda observando as luzes da cidade, ele percebia que o controle que tanto prezava era uma ilusão; ele era, na verdade, um prisioneiro voluntário daquele triângulo de amor e ódio.
Naquela tarde de outono, o silêncio foi quebrado pela entrada de uma jovem que parecia ter saído de uma pintura renascentista. Eduarda, com seus vinte anos e um olhar que transbordava uma timidez quase dolorosa, segurava um livro de História da Arte contra o peito como se fosse um escudo.
— Com licença... — a voz dela era um sussurro, tão leve que Emanuel quase não ouviu acima do zumbido da máquina que ele limpava. — Eu... eu gostaria de fazer um orçamento, mas não sei se é o lugar certo.
Emanuel levantou os olhos. Ele estava acostumado a modelos, celebridades e tipos rudes que queriam marcar a pele com agressividade. Eduarda era o oposto. Ela era esguia, delicada, com traços finos e um cabelo que caía sobre os ombros de forma natural, sem o artifício das modas passageiras.
— Você está no lugar certo — ele respondeu, sua voz grave e calma. — O que você tem em mente?
— Algo pequeno... uma folha de acanto — ela disse, aproximando-se do balcão com passos curtos. — É um símbolo de superação e imortalidade na arquitetura clássica.
Emanuel sentiu algo que raramente sentia: curiosidade. Enquanto ela explicava o significado artístico por trás do desenho, ele observava como ela ficava vermelha quando ele mantinha o olhar por muito tempo, e como ela era manhosa ao pedir que o desenho não fosse "muito agressivo". Naquele momento, Emanuel já namorava Sara há quatro meses.
Sara era a tempestade. Loira, com curvas esculpidas por cirurgias plásticas que ela exibia com orgulho e uma personalidade que engolia o oxigênio de qualquer sala, ela era o fogo que Emanuel achava que precisava para se sentir vivo. Mas, olhando para Eduarda, ele percebeu que estava morrendo de sede por um pouco de água fresca.
O encontro das duas, semanas depois, foi o desastre que Emanuel, em sua tentativa falha de lógica, tentou orquestrar. Ele convidou Eduarda para um café, mas Sara, sentindo o cheiro de mudança no ar, apareceu sem ser convidada, vestindo um vestido vermelho extremamente justo e saltos que estalavam no chão como chicotadas.
— Então é essa a "estudantezinha" que está ocupando o tempo do meu homem? — Sara disparou antes mesmo de se sentar, cruzando as pernas e deixando o decote generoso em evidência.
Eduarda encolheu-se na cadeira, os olhos grandes e expressivos enchendo-se de uma umidade súbita. Ela não sabia como reagir à agressividade vulgar de Sara.
— Sara, chega — Emanuel disse, o tom de voz rígido, a mandíbula cerrada. — Eduarda é uma amiga. E você está sendo desnecessária.
— Amiga? — Sara soltou uma risada sarcástica, retocando o batom forte enquanto olhava para Eduarda com desprezo. — Ela parece uma criança perdida que precisa de um babá, Emanuel. Olha para ela, mal consegue falar.
Eduarda permaneceu em silêncio, apenas buscando a mão de Emanuel por baixo da mesa, um gesto de puro instinto e busca por proteção. Aquele toque suave e dependente selou o destino de Emanuel. Ele percebeu que não conseguia abrir mão da energia vibrante e do sexo voraz de Sara, mas também não podia mais viver sem a doçura e a paz que Eduarda trazia para o seu peito cansado.
A decisão de tê-las juntas não foi baseada em luxúria, mas em uma necessidade egoísta de equilíbrio. Emanuel era um homem prático. Se ele amava as duas de formas diferentes, a solução lógica era uni-las sob o seu teto.
— Eu não vou escolher — ele disse aos dois meses de convivência paralela, quando reuniu as duas em seu apartamento de cobertura. — Eu amo a vivacidade da Sara e amo a pureza da Eduarda. Quero que as duas morem comigo. Quero que sejamos nós três.
Sara gritou, quebrou um vaso de cristal e chamou Eduarda de todos os nomes possíveis. Eduarda apenas chorou, escondendo o rosto no ombro de Emanuel, implorando por carinho com aquele jeito manhoso que desarmava qualquer um. No fim, a ganância de Sara pelo estilo de vida que Emanuel proporcionava e a dependência emocional de Eduarda falaram mais alto.
Os primeiros meses morando juntos foram um campo de batalha silencioso e barulhento ao mesmo tempo.
— Emanuel, manda essa sonsa sair da cozinha! — Sara gritou certa manhã, vestindo apenas uma lingerie de renda preta, enquanto passava por Eduarda, que preparava um chá calmante. — O cheiro dessas ervas me dá náuseas.
— Eu... eu só estava fazendo um pouco de chá — Eduarda murmurou, os olhos baixos, segurando a xícara com as mãos trêmulas. — Sinto muito, Sara.
— Sente muito o caralho! — Sara se aproximou, a presença física sendo usada como arma. — Você faz esse papel de santinha, mas eu sei que você quer ser a favorita. Só que o Emanuel gosta de mulher de verdade, não de uma boneca de porcelana que ainda é virgem.
Eduarda sentiu o rosto queimar. Sim, ela ainda era virgem. O medo da entrega total e sua natureza sensível a faziam recuar, e Emanuel, em sua proteção quase paternal, nunca a pressionara. Ele respeitava o tempo dela, o que só irritava Sara ainda mais.
Emanuel entrou na cozinha, a expressão cansada de quem tinha passado a noite gerenciando crises em seus estúdios na Europa.
— O que está acontecendo aqui? — ele perguntou, a voz carregada de autoridade.
— Essa garota está no meu caminho! — Sara apontou para Eduarda.
Emanuel caminhou até Eduarda e a puxou para um abraço lateral, sentindo o corpo dela relaxar instantaneamente contra o seu.
— Sara, pare de provocá-la. Eduarda tem tanto direito a este espaço quanto você. Se você não consegue conviver em paz, a porta está aberta.
Sara bufou, batendo o pé antes de sair da sala. Ela sabia que Emanuel não a expulsaria de verdade, mas odiava como ele sempre corria para proteger a "pequena".
Momentos depois, no sofá da sala, Eduarda se aninhou no colo de Emanuel, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Ela me odeia, Manu... — ela sussurrou, a voz manhosa, buscando o conforto das mãos dele em seu cabelo. — Por que ela tem que ser tão má?
— Ela é apenas diferente de você, querida — Emanuel suspirou, fechando os olhos e aproveitando a leveza que o corpo de Eduarda trazia. — Ela é fogo, e você é água. Eu preciso das duas para não queimar e nem afogar.
— Mas dói... — Eduarda insistiu, esfregando o rosto no peito dele, sentindo os músculos firmes por baixo da camiseta de algodão. — Eu queria que fôssemos só nós, às vezes.
— Eu sei — ele beijou o topo da cabeça dela. — Mas você prometeu que tentaria. Pelo nosso amor.
A dinâmica era um ciclo vicioso. Sara provocava, Eduarda recuava para o colo de Emanuel, e Emanuel tentava mediar o caos com uma rigidez que muitas vezes beirava a exaustão. À noite, o clima era ainda mais tenso. Emanuel dividia seu tempo. Algumas noites eram preenchidas pelos gemidos altos e pela agressividade sexual de Sara no quarto principal, o que fazia Eduarda se encolher em seu próprio quarto, ouvindo música clássica nos fones de ouvido para não chorar.
Em outras noites, Emanuel ia para o quarto de Eduarda. Lá, não havia sexo, apenas carícias lentas, conversas sobre arte e o sono tranquilo de quem se sentia protegido.
— Você vai ficar comigo para sempre? — Eduarda perguntou em uma dessas noites, enquanto ele a cobria com o edredom claro.
— Enquanto você precisar de mim, eu estarei aqui — Emanuel respondeu com sinceridade.
Na manhã seguinte, a rotina de conflito recomeçava. Sara apareceu na sala de jantar, onde Eduarda estudava para uma prova de História da Arte Moderna.
— Que coisa mais tediosa — Sara disse, pegando um dos livros de Eduarda com as unhas longas e impecavelmente feitas. — Por que você não vai trabalhar de verdade em vez de ficar olhando fotos de estátuas peladas?
— Eu gosto de estudar, Sara — Eduarda respondeu com uma coragem súbita, embora a voz ainda tremesse. — A arte explica o mundo.
— A arte não paga as contas, querida. O que paga as contas é o que eu faço para o Emanuel entre quatro paredes, algo que você nem sabe por onde começar — Sara sorriu com malícia, vendo Eduarda baixar o olhar, derrotada.
Emanuel, que observava da porta, sentiu a tensão acumulada latejar em suas têmporas. Ele caminhou até a mesa e tirou o livro das mãos de Sara, devolvendo-o gentilmente para Eduarda.
— Sara, você não trabalha porque não quer. Formou-se em administração e prefere gastar o meu dinheiro em shoppings. Não critique a dedicação da Eduarda.
— Ah, agora você vai defendê-la de novo? — Sara cruzou os braços, os seios siliconados saltando pelo decote do robe de seda. — Você está ficando mole, Emanuel. Essa garota está transformando você em um fracassado sensível.
— Chega! — o grito de Emanuel ecoou pelo apartamento, fazendo as duas mulheres saltarem. — Eu sustento esta casa, eu sustento a vida de vocês. Eu não vou tolerar esse desrespeito constante. Sara, vá para o seu quarto. Agora.
Sara, percebendo que tinha cruzado uma linha perigosa, recuou, mas não sem antes lançar um olhar de puro ódio para Eduarda.
Quando ela saiu, Eduarda se levantou e caminhou até Emanuel, abraçando-o pela cintura. Ela sentia a tensão no corpo dele, a rigidez de um homem que tentava equilibrar dois mundos irreconciliáveis.
— Desculpa, Manu... a culpa é minha — ela disse, manhosa, encostando a bochecha no braço dele.
— Não é sua culpa, Duda — ele relaxou o peso do corpo sobre ela, buscando naquela fragilidade a força que lhe faltava. — É apenas o preço que pagamos por querermos tudo.
Emanuel sabia que aquela paz era temporária. Ele sabia que Sara voltaria a atacar e que Eduarda continuaria a se esconder sob suas asas. Mas, enquanto ele olhava para o rosto doce de Eduarda e ouvia o som dos saltos de Sara no corredor, ele percebeu que, apesar do caos, ele não mudaria nada. Ele era o mestre de seu império, o tatuador que marcava a pele dos outros, mas eram aquelas duas mulheres, tão diferentes e tão cruéis uma com a outra, que haviam marcado permanentemente a sua alma.
A convivência nos primeiros meses foi um aprendizado de sobrevivência. Emanuel aprendeu que precisava dar joias e atenção pública para Sara se sentir rainha, e precisava de tempo, silêncio e toques suaves para Eduarda se sentir segura. Ele vivia no fio da navalha, entre o vulgar e o sublime, entre o grito e o sussurro. E, no final de cada dia, quando ele se sentava na varanda observando as luzes da cidade, ele percebia que o controle que tanto prezava era uma ilusão; ele era, na verdade, um prisioneiro voluntário daquele triângulo de amor e ódio.
