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Fandom: Nenhum

Criado: 24/05/2026

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Entre Tintas e Delicadeza

O estúdio de Emanuel não era apenas um local de trabalho; era um santuário de precisão, silêncio e arte. Localizado no coração de um dos bairros mais caros da cidade, o espaço refletia o sucesso do homem que, aos vinte e cinco anos, já comandava um império de estúdios ao redor do globo. As paredes de concreto exposto, a iluminação industrial e o cheiro persistente de antisséptico e tinta formavam o cenário onde ele se sentia em controle total.

Pelo menos, até a porta se abrir e o caos entrar saltando em saltos agulha.

— Emanuel, querido, você não vai acreditar no que aquela incompetente da recepção tentou me dizer! — Sara entrou na sala privada, sua voz cortando o silêncio como uma lâmina.

Ela usava um vestido vermelho extremamente justo, que realçava cada curva acentuada pelo silicone e pela academia. O cabelo loiro platinado estava impecavelmente escovado, e o perfume doce e invasivo inundou o ambiente instantaneamente.

Emanuel nem sequer levantou os olhos do esboço que desenhava em seu tablet. Ele suspirou, a tensão acumulada nos ombros subindo para o pescoço.

— Sara, eu estou trabalhando. O que houve agora?

— Ela queria que eu esperasse! — Sara bufou, jogando a bolsa de grife sobre a mesa de metal. — Eu sou sua namorada há quatro meses, não uma cliente qualquer. Você precisa dar um jeito naquela gente.

Emanuel finalmente olhou para ela. Seus olhos escuros e cansados percorreram a figura exuberante de Sara. Ele a amava, ou pelo menos, era viciado na energia vibrante e na agressividade que ela trazia para sua vida. Sara era um desafio constante, uma mulher que exigia ser notada e que não aceitava menos que o topo.

— Eu falo com ela depois — ele disse, a voz rouca e monótona. — Agora, se me der licença, tenho um horário marcado com uma nova cliente. É um projeto delicado.

Sara revirou os olhos, sentando-se de forma provocante na poltrona de couro.

— Vou ficar aqui. Quero ver quem é essa pessoa tão importante que me faz esperar.

Antes que Emanuel pudesse protestar, uma batida suave e hesitante ecoou na porta. Era tão baixa que quase passou despercebida pelo barulho da risada irônica que Sara soltou.

— Entra — comandou Emanuel, ajustando a postura.

A porta se abriu lentamente, revelando uma figura que parecia ter saído de uma pintura renascentista, em contraste total com a modernidade agressiva do estúdio.

Eduarda entrou com passos miúdos, os dedos longos e finos apertando a alça de uma bolsa de lona clara. Ela usava um vestido de algodão em tom lavanda, solto no corpo esguio, e seus cabelos castanhos caíam em ondas naturais sobre os ombros. Ela tinha vinte anos, mas havia uma aura de fragilidade e doçura nela que a fazia parecer um cristal precioso prestes a trincar.

— Com licença... — a voz dela era um sussurro, doce e melodioso. — Eu marquei um horário com o senhor Emanuel.

Emanuel sentiu algo estranho. Um solavanco no peito que ele não conseguia explicar logicamente. Ele, que sempre fora pautado pela razão e pela praticidade, viu-se momentaneamente sem palavras diante daqueles olhos grandes e expressivos que o encaravam com uma mistura de admiração e timidez.

— Você deve ser a Eduarda — disse ele, sua voz saindo mais suave do que pretendia. — Por favor, entre.

Eduarda deu mais alguns passos, mas parou abruptamente ao notar a presença de Sara. A loira a media de cima a baixo com um olhar predatório e um sorriso de canto carregado de desdém.

— É essa a "cliente importante"? — Sara soltou uma risada anasalada. — Ela parece que se perdeu no caminho para a biblioteca.

Eduarda baixou o olhar imediatamente, as bochechas tingindo-se de um rosa pálido. Ela se encolheu levemente, buscando proteção no próprio corpo, um gesto de timidez que fez o instinto protetor de Emanuel disparar.

— Sara, chega — Emanuel disse, o tom agora frio e firme. — Eduarda, não ligue para ela. Sente-se aqui, por favor.

Eduarda caminhou até a cadeira indicada, movendo-se com uma leveza quase etérea. Ela se sentou, mantendo as costas retas, mas os ombros ligeiramente curvados para dentro.

— Eu... eu trouxe algumas referências — disse ela, tateando a bolsa com mãos trêmulas. — Sou estudante de História da Arte... e queria algo que representasse a leveza do movimento impressionista. Mas não sei se é possível fazer isso na pele.

Ela estendeu um pequeno caderno de desenhos. Emanuel se aproximou para pegar, e quando seus dedos roçaram os dela, ele sentiu uma descarga elétrica. A pele de Eduarda era macia e fria.

— Tudo é possível se você tiver o artista certo — Emanuel murmurou, abrindo o caderno.

Ele ficou impressionado. Os desenhos eram delicados, traços finos de flores e formas abstratas que pareciam flutuar no papel. Era exatamente como ela: suave, profunda e discreta.

— É um trabalho lindo, Eduarda — ele elogiou, olhando-a nos olhos.

Ela deu um sorriso tímido, um brilho de gratidão iluminando seu rosto.

— Obrigada... eu fico com um pouco de medo de agulhas, para ser sincera. Mas eu queria muito marcar essa fase da minha vida.

— Não precisa ter medo — Emanuel disse, inclinando-se um pouco mais em direção a ela, ignorando completamente a presença de Sara, que agora bufava de impaciência. — Eu vou cuidar de você. Vou ser o mais gentil possível.

Eduarda mordeu o lábio inferior, um gesto manho que quase fez Emanuel perder o fio do pensamento.

— O senhor promete? — ela perguntou, a voz carregada de uma carência infantil e doce que pedia por proteção.

— Prometo. E pode me chamar de Emanuel.

— Que cena mais patética — Sara interrompeu, levantando-se e caminhando até eles. Ela parou ao lado de Emanuel, colocando uma mão possessiva em seu ombro e apertando. — Ela é só uma criança, Emanuel. Não perca seu tempo sendo tão... "gentil". Negócios são negócios.

Eduarda recuou na cadeira, visivelmente intimidada pela presença imponente e vulgar de Sara. O contraste entre as duas era gritante: Sara era o fogo que queimava e exigia atenção; Eduarda era a brisa que acalmava e pedia abrigo.

— Sara, eu já pedi para você sair — Emanuel disse, removendo a mão dela de seu ombro com firmeza excessiva. — Agora.

Sara arqueou as sobrancelhas, surpresa com o tom dele. Ela olhou para Eduarda com desprezo e depois para Emanuel.

— Você vai me expulsar por causa dessa coisinha sem sal?

— Eu estou trabalhando — Emanuel repetiu, os olhos fixos na namorada, mas a mente divagando sobre a garota sentada à sua frente. — Nos vemos em casa.

Sara soltou um som de indignação, pegou sua bolsa e saiu batendo a porta com tanta força que Eduarda deu um pequeno pulo na cadeira, soltando um ganido baixo de susto.

— Ei... está tudo bem — Emanuel disse rapidamente, dando um passo para o lado dela. — Ela já foi.

— Desculpe... — Eduarda sussurrou, os olhos levemente úmidos. — Eu não queria causar problemas entre vocês. Eu posso voltar outra hora se for melhor...

— Não — ele a interrompeu, sentindo uma necessidade urgente de que ela ficasse. — Você não causou nada. Ela é apenas... intensa. Por favor, fique.

Eduarda olhou para ele, buscando segurança em seus traços sérios e fechados. Emanuel transmitia uma estabilidade que ela, em sua insegurança constante, desejava desesperadamente.

— Você é muito famoso, não é? — ela perguntou, tentando mudar de assunto, sua voz voltando ao tom manho e suave. — Vi suas fotos nas revistas de arte da faculdade. Não achei que um homem como você aceitaria tatuar alguém como eu.

— Alguém como você? — Emanuel perguntou, intrigado.

— Tão... comum. E com medo de dor.

Emanuel soltou um riso curto, o primeiro do dia. Ele estendeu a mão e, num impulso que desafiava sua própria natureza reservada, tocou uma mecha do cabelo dela, colocando-a atrás da orelha.

— Você não tem nada de comum, Eduarda. Na verdade, acho que você é a coisa mais interessante que entrou por aquela porta em muito tempo.

Eduarda corou profundamente, baixando o rosto, mas não se afastou do toque dele. Pelo contrário, ela inclinou levemente a cabeça na direção da mão dele, como um gato buscando carinho.

— Eu sou um pouco manhosa às vezes — ela confessou, com um sorriso pequeno e travesso. — Minha mãe diz que eu preciso de muita atenção.

— Eu sou bom em dar atenção aos detalhes — Emanuel respondeu, sua voz baixando uma oitava. — E acho que poderia me acostumar a cuidar de você.

Naquele momento, enquanto o sol da tarde filtrava pelas janelas altas do estúdio, Emanuel sentiu uma clareza assustadora. Ele ainda amava Sara — amava a adrenalina, o sexo selvagem, a discussão que terminava em reconciliação ardente. Mas, ao olhar para Eduarda, ele sentiu um tipo de fome diferente. Ele queria protegê-la do mundo, queria que ela vivesse sob sua asa, queria a doçura dela preenchendo os espaços vazios de sua vida racional.

Ele queria as duas.

A ideia, que para qualquer outro homem seria um dilema moral impossível, para Emanuel soou como um plano de negócios ambicioso. Ele era rico, poderoso e acostumado a ter o que desejava. Se Sara era o sol que o queimava, Eduarda seria a lua que o guiava no escuro.

— Vamos começar o desenho? — Eduarda perguntou, tirando-o de seus pensamentos.

— Vamos — ele disse, voltando-se para a mesa de trabalho, mas mantendo o olhar fixo nela. — Mas antes, quero que saiba de uma coisa, Eduarda.

— O quê?

— Quando eu começo um projeto, eu nunca o deixo pela metade. E eu pretendo ser muito presente na sua vida daqui para frente.

Eduarda não entendeu completamente a profundidade daquelas palavras, mas sentiu um arrepio percorrer sua espinha — um arrepio que não era de medo, mas de uma antecipação doce.

— Eu gostaria disso — ela murmurou, voltando a ser a menina tímida e sensível. — Eu me sinto segura com você, Emanuel.

— Ótimo — ele disse, com um brilho possessivo nos olhos. — Porque é exatamente assim que eu quero que você se sinta. Comigo.

Lá fora, a cidade continuava seu ritmo frenético, e em algum lugar, Sara provavelmente estava gastando uma fortuna em compras para compensar a raiva. Mas dentro daquele estúdio, um novo mundo estava sendo desenhado. Um mundo onde Emanuel não precisaria escolher, pois ele já havia decidido que a delicadeza de Eduarda e a força de Sara pertenciam, ambas, ao seu domínio.

Ele começou a desenhar na pele de Eduarda com a ponta de uma caneta cirúrgica, marcando o local da tatuagem. O toque era leve, quase um carinho, e ela fechou os olhos, suspirando de forma manhosa ao sentir a atenção dele focada inteiramente nela.

Emanuel sorriu para si mesmo. O jogo estava apenas começando. Ele teria a administração de sua vida sob o controle de Sara e a arte de sua alma sob o cuidado de Eduarda. E nenhuma das duas, ele pensou com a arrogância de quem tem o mundo aos pés, seria capaz de resistir ao que ele tinha a oferecer.
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