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Criado: 25/05/2026

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Entre Tinta, Seda e Contrastes

O salão da mansão estava impregnado com o cheiro de champanhe caro e perfumes importados que pareciam lutar por espaço no ar climatizado. Era a festa de noivado de Lucas, primo de Emanuel, e o evento exalava a opulência que a família sempre fizera questão de exibir. Emanuel, no entanto, sentia o peso habitual em seus ombros. Mesmo sendo um tatuador renomado, dono de um império de estúdios que desafiava o conservadorismo de seu sobrenome, ele ainda se sentia um estranho em eventos tão rígidos.

Ao seu lado, Sara era a personificação do impacto. O vestido dourado, excessivamente justo e curto, realçava cada curva acentuada pelo silicone e pela academia. Ela ria alto, bebendo seu terceiro Dry Martini, atraindo olhares que oscilavam entre a admiração e o julgamento. Emanuel mantinha a mão na cintura dela por puro costume, seus olhos escuros e cansados varrendo o salão em busca de um escape mental.

— Emanuel, querido, pare de olhar para o nada com essa cara de quem está calculando o fechamento de caixa — Sara disse, encostando o corpo quente no dele e deixando uma marca de batom vermelho em seu rosto com um selinho estalado. — É uma festa! Relaxe ou eu vou ter que te dar um motivo real para ficar tenso.

Ele deu um sorriso de canto, forçado.

— Só estou cansado, Sara. A viagem de Londres para cá foi longa.

— Bobagem. Você precisa de outra bebida. Vou buscar para nós, não saia daí.

Emanuel a viu se afastar com seu andar decidido e chamativo. Ele suspirou, sentindo a tensão acumulada na nuca. Foi quando, ao desviar o olhar da silhueta de sua namorada, ele a viu.

Perto da mesa de doces, quase escondida atrás de um arranjo floral monumental, estava uma figura que parecia ter saído de uma pintura renascentista, algo que ele certamente esperaria ver em um museu de arte, não naquela festa barulhenta.

Eduarda usava um vestido de seda em tom de lavanda pálido, com alças finas e um decote discreto que sugeria uma sensualidade suave, sem nunca cruzar a linha da vulgaridade. O tecido fluía pelo seu corpo esguio de forma delicada, e o cabelo caía em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia pequena, frágil e infinitamente doce.

Emanuel, um homem que lidava com agulhas e peles brutas todos os dias, sentiu um solavanco estranho no peito. Ele não conseguia parar de olhar para a forma como ela mexia nervosamente em uma pequena pulseira de pérolas, os olhos grandes e expressivos fixos no chão.

Sem pensar, ele começou a caminhar em direção a ela. O instinto protetor, que ele normalmente reservava para seus negócios, despertou com uma força avassaladora.

Eduarda percebeu a aproximação. Ela levantou o olhar e, ao encontrar os olhos intensos e sérios de Emanuel, suas bochechas ganharam um tom rosado instantâneo. Ela deu um passo para trás, quase tropeçando no próprio vestido.

— Cuidado — disse Emanuel, sua voz saindo mais profunda do que o normal. Ele estendeu a mão, segurando-a suavemente pelo cotovelo para estabilizá-la.

O toque foi elétrico. A pele dela era tão macia quanto parecia, e o calor que emanava dele a fez estremecer.

— O-obrigada — sussurrou ela, a voz pequena e manhosa, carregada de uma timidez que o deixou desarmado. — Eu sou um pouco desastrada.

— Eu não chamaria de desastre. O chão é que é liso demais para alguém tão delicada — Emanuel disse, sem soltar o braço dela imediatamente. — Você é amiga da noiva?

— Sim... sou a Eduarda. Estudamos História da Arte juntas na faculdade. — Ela olhou para a mão dele em seu braço e depois para o resto do salão, visivelmente desconfortável. — E você é o primo do Lucas, não é? O tatuador?

Emanuel assentiu, sentindo uma vontade súbita de envolvê-la em um abraço apenas para ver se ela caberia perfeitamente sob seu queixo.

— Sou eu. Mas hoje eu sou apenas alguém tentando sobreviver a essa formalidade toda. E você, Eduarda, parece estar tentando desaparecer.

Ela deu um sorriso tímido, escondendo metade do rosto atrás de uma mecha de cabelo.

— Às vezes é mais seguro observar de longe.

— Do que você tem medo? — ele perguntou, inclinando-se um pouco mais para perto, ignorando o fato de que Sara poderia voltar a qualquer momento.

Eduarda sentiu o perfume amadeirado dele e a presença esmagadora que ele emanava. Ele era lindo, de uma forma rústica e controlada, mas havia algo em seu olhar que a assustava: um interesse direto demais, intenso demais para um homem que ela sabia estar acompanhado.

— Eu não deveria estar conversando com você — disse ela, a voz falhando levemente. — Eu vi você chegar. Com a moça loira.

Emanuel sentiu uma pontada de irritação, não com Eduarda, mas com a realidade da situação.

— A Sara é... complicada. Mas eu estou aqui agora, falando com você.

— Por favor, eu... eu vou buscar um pouco de água — Eduarda disse, desviando o olhar. Ela sentia o coração martelar contra as costelas. A atração era inegável, uma gravidade que a puxava para ele, mas sua moralidade e sua timidez gritavam para que ela fugisse.

Ela se esquivou dele, caminhando apressadamente em direção ao terraço, buscando o ar fresco da noite para acalmar os nervos.

Emanuel não a deixou ir tão facilmente. Ele a seguiu, seus passos firmes ecoando no mármore. Ele a alcançou perto da balaustrada de pedra, onde o jardim da mansão se estendia sob a luz do luar.

— Eduarda, espere.

Ela parou, de costas para ele, os ombros subindo e descendo com a respiração acelerada.

— Por que você está me seguindo? — ela perguntou, virando-se devagar, os olhos brilhando com uma vulnerabilidade que o atingiu como um soco. — Você tem namorada. Isso é errado.

— Eu sei que parece errado — ele disse, aproximando-se até que restassem apenas poucos centímetros entre eles. — Mas eu não consigo evitar. Há algo em você... um silêncio que eu precisava ouvir.

Eduarda abraçou o próprio corpo, parecendo ainda menor sob o olhar dele.

— Você não me conhece. Eu sou apenas... eu.

— Exatamente — ele murmurou, estendendo a mão para tocar o rosto dela. Eduarda recuou um milímetro, mas depois cedeu, fechando os olhos quando os dedos ásperos e calejados dele acariciaram sua bochecha. — Você é doce, Eduarda. É como se o mundo não tivesse conseguido te endurecer ainda.

— Emanuel! — A voz de Sara cortou o momento como uma lâmina.

Eduarda deu um pulo, afastando-se dele como se tivesse levado um choque. Seus olhos se arregalaram ao ver Sara parada na porta do terraço, com um copo em cada mão e uma expressão que oscilava entre a confusão e a fúria latente.

— O que você está fazendo aqui fora com essa... garotinha? — Sara perguntou, caminhando em direção a eles com os saltos estalando agressivamente. Ela mediu Eduarda de cima a baixo, um sorriso de escárnio surgindo em seus lábios perfeitamente desenhados. — Perdeu o caminho do berçário, querida?

Eduarda sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. A agressividade de Sara era tudo o que ela mais temia em um conflito.

— Eu... eu já estava saindo — Eduarda sussurrou, a voz embargada.

— Eduarda, não — Emanuel tentou intervir, sua voz assumindo um tom rígido de comando. — Sara, abaixe o tom. Estávamos apenas conversando.

— Conversando? — Sara riu, uma risada seca e sem humor. — Você não conversa com esse tipo de mosca morta, Emanuel. Você a devora com os olhos. Eu conheço esse olhar.

Eduarda não esperou para ouvir o resto. Ela passou por Sara como um vulto, mantendo a cabeça baixa, o coração em frangalhos. Ela só queria sua casa, seus livros e a segurança de sua solidão.

Emanuel fez menção de ir atrás dela, mas Sara segurou seu braço com força, as unhas compridas cravando-se no tecido de seu paletó.

— Deixe ela ir, Emanuel. Ela não é do seu nível. É só uma menina assustada que não aguentaria cinco minutos no seu mundo.

Emanuel olhou para Sara, sentindo uma mistura explosiva de sentimentos. Ele amava a energia de Sara, a paixão desenfreada e até mesmo a possessividade que o fazia se sentir desejado. Mas, ao olhar para a porta por onde Eduarda havia desaparecido, ele sentiu um vazio novo e profundo.

Ele queria a força de Sara, mas precisava desesperadamente da paz de Eduarda.

— Você não entende, Sara — disse ele, desvencilhando-se do aperto dela com uma frieza que a fez recuar um passo. — Você não entende nada.

Emanuel caminhou até a beirada do terraço, olhando para o jardim onde Eduarda havia sumido na escuridão. Naquele momento, em meio ao luxo e ao barulho da festa, o tatuador que sempre teve o controle de tudo tomou uma decisão que mudaria a vida dos três.

Ele não ia escolher. Ele não podia.

Ele queria Sara para incendiar suas noites, para ser a mulher impetuosa que desafiava seu controle. Mas ele precisava de Eduarda para acalmar sua alma, para ser a doçura que ele nem sabia que estava procurando. Ele queria a faculdade de História da Arte misturada com a administração bruta de seus negócios. Queria o silicone e a seda. O grito e o sussurro.

— Eu vou ter as duas — murmurou para si mesmo, os olhos fixos no horizonte.

No estacionamento, Eduarda entrou em seu carro, as mãos tremendo no volante. Ela se sentia humilhada, mas, acima de tudo, sentia algo que a apavorava: um desejo latente de voltar para aquele terraço e se perder nos braços de um homem que claramente não lhe pertencia.

Ela era uma estudante de arte, sensível e romântica, que acreditava em amores puros. Mas o olhar de Emanuel não era puro; era possessivo, escuro e prometia uma proteção que ela, em sua timidez e carência, desejava mais do que tudo.

Emanuel voltou para dentro, encontrando Sara no bar. Ele a puxou pela cintura e a beijou com uma intensidade que a deixou sem fôlego, um beijo que carregava toda a sua tensão e sua nova e perigosa determinação.

— O que foi isso? — Sara perguntou, sorrindo vitoriosa, achando que tinha ganhado a disputa.

— Só estou garantindo que você saiba quem manda aqui — ele respondeu, os olhos frios.

Enquanto Sara comemorava sua suposta vitória, Emanuel já estava planejando como encontraria Eduarda novamente. Ele sabia onde ela estudava. Sabia o nome dela. E ele tinha recursos e paciência de sobra.

O jogo estava apenas começando, e Emanuel não estava acostumado a perder o que desejava marcar como seu. Eduarda seria sua proteção, Sara seria sua força, e ele seria o centro de um furacão que nenhuma das duas estava preparada para enfrentar.
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