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O guerreiro gelado

Fandom: Mulan

Criado: 25/05/2026

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RomanceDramaDor/ConfortoSombrioAçãoSobrevivênciaEstudo de PersonagemDivergênciaRecontarViolência Gráfica
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O Sangue e o Gelo

O vento uivava como uma besta ferida entre as fendas das montanhas nevadas. Mulan sentia o frio penetrar não apenas em sua armadura, mas em seus próprios ossos. O corte em seu flanco, cortesia da lâmina de Shan Yu durante a avalanche, pulsava com uma dor ardente que contrastava violentamente com o entorpecimento de seus dedos. Ela estava sozinha. Abandonada por Shang, por Chi-Fu, por todos aqueles que ela chamara de irmãos de armas. A honra que ela buscara preservar para sua família agora parecia uma piada cruel escrita na neve que logo a cobriria.

Ela se arrastou por alguns metros, segurando a ferida, até que uma sombra se projetou sobre o branco ofuscante.

Mulan ergueu o olhar, a respiração saindo em nuvens espessas de vapor. Shan Yu estava parado a poucos metros, uma silhueta imponente e aterrorizante contra o céu cinzento. Ele deveria estar morto, enterrado sob as toneladas de neve que ela mesma provocara. Mas ali estava ele, com os olhos amarelos brilhando com uma fúria predatória e o falcão pousado em seu ombro maciço.

— Você... — a voz de Mulan falhou, mas ela forçou as mãos a encontrarem o cabo da espada caída.

O líder Hun deu um passo à frente, um sorriso cruel curvando seus lábios. Ele não parecia com pressa. Ele queria saborear a morte do soldado que havia dizimado seu exército.

— O pequeno rato sobreviveu à própria armadilha — disse Shan Yu, sua voz um rosnado baixo que parecia vibrar no peito de Mulan. — Mas as montanhas não perdoam duas vezes.

Com um rugido, ele avançou. Mulan reagiu por puro instinto, rolando para o lado e golpeando com a espada. O metal colidiu com o metal, uma faísca brilhando no crepúsculo gélido. Ela era mais rápida, mas ele era uma força da natureza. Shan Yu desferiu um golpe de cimitarra que a jogou contra uma parede de rocha. O impacto fez o mundo girar.

Mulan tentou se levantar, mas Shan Yu a agarrou pelo colarinho da armadura, suspendendo-a no ar com uma força bruta. Ele a prensou contra a pedra, a mão livre apertando o pescoço dela.

— Eu vou levar sua cabeça para o seu Imperador — rosnou ele, aproximando o rosto marcado pelo frio do dela.

Mulan lutou, chutando e arranhando, mas o aperto dele era como ferro. Em um movimento desesperado, ela usou as pernas para se impulsionar contra a rocha, forçando os dois a caírem na neve profunda. Na luta corporal, a armadura de Mulan, já danificada e frouxa, começou a ceder.

Shan Yu a dominou rapidamente, sentando-se sobre o torso dela e prendendo seus pulsos acima da cabeça. Ele puxou a faca de sua bota, pronto para acabar com aquilo, mas parou. O movimento brusco da queda e a luta intensa haviam desfeito o coque improvisado de Mulan. O cabelo negro e longo espalhou-se pela neve como tinta derramada.

Mais do que isso, as amarras de tecido que prendiam seu peito, já frouxas pelo esforço e pelo sangue, soltaram-se sob o peso da armadura entreaberta.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da tempestade. Shan Yu congelou. Seus olhos percorreram o rosto dela — os traços finos, os lábios trêmulos, a pele pálida — e desceram para a revelação óbvia sob a túnica rasgada.

— Uma mulher? — A voz de Shan Yu não era mais de fúria, mas de uma perplexidade sombria.

Mulan fechou os olhos, esperando o golpe final. A vergonha era maior que o medo. Ser morta como um soldado era uma coisa; ser morta como uma impostora, exposta e vulnerável, era um tormento que ela não sabia se suportaria.

— Mate-me logo — sibilou ela, as lágrimas congelando em seus cílios.

Shan Yu não a matou. Ele soltou os pulsos dela, mas não se afastou. Seus dedos enluvados tocaram o queixo de Mulan, forçando-a a olhar para ele. Havia algo novo em seu olhar — não era mais apenas o desejo de destruir um inimigo, mas uma curiosidade predatória e obscura.

— Então foi uma fêmea que derrubou o meu exército — disse ele, um riso seco e perigoso escapando de sua garganta. — Os homens da China são mais covardes do que eu imaginei, se precisam se esconder atrás de uma saia para lutar.

— Eu lutei melhor que qualquer um deles! — disparou Mulan, a centelha de sua determinação brilhando em meio à exaustão.

Shan Yu apertou o queixo dela com mais força, os olhos fixos nos dela.

— Sim... você lutou.

Antes que ele pudesse dizer mais, um estrondo ecoou acima deles. Uma nova avalanche, menor mas perigosa, começava a se desprender do pico acima. Shan Yu olhou para cima e, em um movimento rápido e inesperado, agarrou Mulan pela cintura, jogando-a por cima do ombro como se ela não pesasse nada.

— O que você está fazendo? Solte-me! — gritou ela, batendo em suas costas.

— Se eu soltar, a montanha vai te engolir, e eu ainda não decidi o que fazer com você — rosnou ele.

Ele correu através da neve cegante, encontrando a entrada de uma caverna estreita momentos antes que a massa branca cobrisse o local onde estavam.

Lá dentro, o silêncio era absoluto, exceto pelo som de suas respirações pesadas. Shan Yu jogou Mulan no chão de pedra fria. Ela se encolheu, tentando cobrir o peito com os restos da túnica, tremendo violentamente. O frio ali dentro era menos cortante que o vento externo, mas ainda assim mortal.

Shan Yu caminhou até a entrada e começou a empilhar pedras e detritos para bloquear a maior parte da abertura, impedindo que a neve entrasse. Quando terminou, ele se virou para ela. Ele retirou sua pesada capa de pele e a jogou sobre Mulan.

— Cubra-se. Não quero que morra de frio antes que eu termine meu interrogatório.

Mulan hesitou, mas o calor residual da pele era tentador demais. Ela se embrulhou nela, sentindo o cheiro de couro, suor e algo selvagem que emanava do líder Hun.

— Por que me salvou? — perguntou ela, a voz fraca.

Shan Yu sentou-se à frente dela, cruzando as pernas maciças. Ele começou a afiar sua cimitarra com uma pedra pequena, o som metálico ecoando nas paredes da caverna.

— Salvar é uma palavra forte. Eu apenas adiei o seu fim. Você é uma curiosidade, mulher. Na minha terra, as mulheres são fortes, mas nenhuma delas ousaria desafiar um exército inteiro sozinha.

— Eu fiz o que precisava ser feito para proteger meu pai — respondeu ela, tentando manter a dignidade apesar da situação.

Shan Yu parou de afiar a lâmina e olhou para ela. A luz fraca que vinha da entrada da caverna acentuava as cicatrizes em seu rosto e a intensidade de seus olhos.

— Lealdade... — murmurou ele. — Uma virtude rara. Seus próprios homens a deixaram para morrer na neve assim que descobriram quem você era. Eles a temem mais do que me temem agora.

Mulan sentiu a pontada daquelas palavras. Era verdade. Shang a havia abandonado.

— Eles seguem a lei — disse ela, embora suas palavras soassem vazias.

— As leis são para os fracos — declarou Shan Yu, levantando-se e caminhando lentamente em direção a ela. — Eu não sigo leis. Eu as crio.

Ele parou diante dela, sua presença dominando o pequeno espaço. Mulan sentiu o coração disparar. Ele se ajoelhou, ficando ao nível dos olhos dela. A mão dele, grande e calejada, estendeu-se e afastou uma mecha de cabelo molhado do rosto dela.

— Você é pequena... frágil — disse ele, a voz descendo para um tom perigosamente baixo. — Mas tem o fogo de um dragão nos olhos.

Mulan não recuou. Ela o encarou, a despeito do medo.

— E você é um monstro.

Shan Yu soltou uma risada curta e sombria.

— Talvez. Mas neste momento, sou a única coisa que separa você da morte.

Ele deslizou a mão do rosto dela para o pescoço, sentindo o pulso acelerado de Mulan sob sua palma. Havia uma tensão elétrica no ar, algo que ia além da inimizade entre dois guerreiros. Shan Yu nunca havia encontrado algo que não pudesse dominar pela força, mas aquela mulher, envolta em sua própria capa, ferida e desarmada, ainda o desafiava com o olhar.

— O que você vai fazer comigo? — perguntou ela, a respiração curta.

Shan Yu se inclinou para mais perto, o calor de seu corpo irradiando contra o frio dela.

— O que eu quiser — respondeu ele, os olhos brilhando com uma fome que Mulan nunca vira antes. — Você me custou um exército. Você me custou a conquista da China. O pagamento por tal dívida não será rápido, nem será indolor.

Ele segurou o queixo dela com firmeza, forçando-a a inclinar a cabeça para trás.

— Mas primeiro — continuou ele, sua voz roçando o ouvido dela como uma promessa sombria —, vamos ver quanto desse fogo ainda queima sob essa pele pálida.

Mulan sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o gelo. Ela era uma guerreira, uma filha leal, uma salvadora... mas ali, naquela caverna, isolada do mundo e das regras que a haviam rejeitado, ela era apenas uma mulher diante de um predador que a via não como uma presa, mas como um desafio à altura de sua própria selvageria.

— Eu não vou me quebrar — sussurrou ela, embora seu corpo traísse sua resistência ao se inclinar involuntariamente para o calor dele.

— Veremos — disse Shan Yu, e seus lábios se curvaram em um sorriso que prometia uma tempestade muito mais devastadora do que a que rugia lá fora.

Ele se afastou apenas o suficiente para olhar o ferimento no flanco dela, que voltara a sangrar levemente.

— Tire a túnica — ordenou ele.

— O quê? Não!

— Tire — repetiu ele, o tom não aceitando discussões. — O sangue vai congelar o tecido na sua pele e você vai apodrecer. Eu vou cauterizar isso.

Ele se levantou e começou a preparar uma pequena fogueira com alguns gravetos secos que estavam no fundo da caverna, usando uma pederneira com eficiência brutal. Em poucos minutos, uma chama pequena, mas firme, iluminava o ambiente.

Mulan, tremendo, desfez os restos de sua vestimenta superior, mantendo a capa de Shan Yu em volta dos ombros como um escudo. Quando ela revelou a ferida, Shan Yu aproximou-se com a ponta de sua adaga, que ele havia colocado nas brasas.

— Isso vai doer — avisou ele, seus olhos fixos nos dela.

— Eu já senti dor pior — mentiu ela, cerrando os dentes.

Quando o metal quente tocou sua carne, Mulan soltou um grito abafado, suas unhas cravando-se na pele da capa dele. Shan Yu a segurou pelo ombro com uma mão firme, mantendo-a no lugar. Ele não desviou o olhar. Ele observava cada reação dela, cada tremor, com uma intensidade quase devota.

Quando terminou, ele jogou a faca de lado e permaneceu perto, perto demais. O cheiro de carne queimada misturava-se ao ar frio, mas o calor da fogueira e a proximidade de seus corpos criavam uma bolha de intimidade forçada.

Mulan estava ofegante, as lágrimas finalmente caindo. Shan Yu estendeu a mão e, desta vez, seu toque foi quase suave ao limpar o rastro de uma lágrima em sua bochecha.

— Você é forte — reconheceu ele, a voz suave como veludo sobre navalhas. — Mais forte que qualquer homem que já conheci.

Mulan olhou para ele, e por um momento, a imagem do monstro vacilou. Ela viu o homem — um conquistador, um sobrevivente, alguém que, como ela, não se encaixava no mundo comum.

— E você é mais do que apenas um assassino — disse ela, a voz rouca.

Shan Yu aproximou o rosto do dela, seus narizes quase se tocando.

— Não se engane, flor da China. Eu ainda sou o lobo. E você ainda é a minha prisioneira.

— Então por que não me matou quando teve a chance? — desafiou ela.

Shan Yu soltou um grunhido baixo, sua mão descendo do rosto dela para o ombro nu, onde a pele era macia e quente.

— Porque matar você seria um desperdício. Eu quero ver o que acontece quando o gelo encontra o fogo.

Ele reduziu a distância restante, seus lábios roçando os dela em um desafio silencioso antes de tomar sua boca em um beijo que não tinha nada de gentil. Era uma colisão de vontades, um ato de posse e descoberta. Mulan, pega de surpresa, tentou resistir por um segundo, mas a adrenalina, o frio e a sensação de ter sido descartada pelo seu próprio povo a empurraram para os braços do único homem que a via pelo que ela realmente era.

Ela retribuiu o beijo com uma intensidade desesperada, suas mãos encontrando o peito largo de Shan Yu, agarrando-se à sua túnica de pele. O líder Hun soltou um rosnado de aprovação, puxando-a para mais perto, até que não houvesse mais espaço entre eles.

A tempestade lá fora poderia durar dias, mas ali dentro, em meio às sombras e ao calor das chamas, uma nova e perigosa aliança — ou uma destruição mútua — estava apenas começando. Mulan sabia que, ao se entregar àquele momento, ela estava deixando para trás tudo o que conhecia. Mas, pela primeira vez em sua vida, ela não estava fingindo ser ninguém. E Shan Yu, o flagelo das estepes, havia finalmente encontrado algo que não queria apenas conquistar, mas possuir em toda a sua complexidade selvagem.
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