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Fandom: Nenhum

Criado: 25/05/2026

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Tinta, Mar e o Doce Amargor da Cereja

O sol de final de tarde em Ipanema tingia o céu com tons de laranja e violeta, refletindo-se nas águas mansas que beijavam a areia. Emanuel caminhava pela orla com os pensamentos pesados, uma raridade para um homem que construiu um império de estúdios de tatuagem ao redor do mundo baseando-se em lógica e controle. Aos vinte e cinco anos, ele tinha tudo o que o dinheiro e a fama no mundo da arte corporal podiam comprar. Tinha também Sara.

Sara era como um incêndio florestal: impossível de ignorar, perigosa e fascinante. A loira, com suas curvas acentuadas pelo silicone e roupas que sempre pareciam pequenas demais para o impacto que ela queria causar, estava em sua vida há quatro meses. Ele a amava, ou pelo menos amava a adrenalina que ela injetava em sua rotina monótona de reuniões e agulhas. Mas, naquele dia, a energia caótica de Sara e suas cobranças por atenção haviam exaurido Emanuel, que buscara refúgio em uma caminhada solitária.

Ele parou perto de um quiosque mais afastado do burburinho, sentindo o cheiro de maresia e protetor solar. Foi quando a viu.

Sentada em um banco alto, de costas para o movimento, estava uma figura que parecia ter saído de uma pintura renascentista transportada para o século XXI. Eduarda era a antítese de tudo o que Emanuel conhecia. Ela vestia um biquíni de crochê azul-claro, tão pequeno que mal cobria sua pele alva e delicada, mas que nela não parecia vulgar; parecia uma extensão de sua fragilidade. O contraste do azul com a suavidade de seus traços finos e o cabelo ondulado que caía displicente pelos ombros fez o coração do tatuador errar uma batida.

Ela segurava um pedaço de chocolate branco, levando-o à boca com uma lentidão melancólica. Seus olhos, grandes e expressivos, estavam marejados, e os lábios pequenos formavam um biquinho manhoso que Emanuel achou, instantaneamente, a coisa mais adorável que já vira.

Emanuel, movido por um instinto de proteção que raramente sentia por estranhos, aproximou-se. Ele notou que ela olhava para o cardápio de bebidas com uma tristeza genuína, quase infantil.

— O chocolate não está bom? — A voz dele saiu mais grave e suave do que o normal, tentando não assustá-la.

Eduarda deu um leve sobressalto, virando o rosto delicado para encará-lo. Suas bochechas ganharam um tom rosado imediato. Ela o observou por baixo dos cílios longos, sentindo o peso da presença daquele homem alto, de expressão séria e braços cobertos por artes em preto e cinza.

— Está... está sim — murmurou ela, a voz tão baixa que quase se perdia no som das ondas. — É só que... eu queria a minha bebida de cereja. Sem álcool. Eles disseram que acabou.

Ela fungou baixinho, uma reação exageradamente sensível para algo tão trivial, mas Emanuel não sentiu vontade de rir. Pelo contrário, sentiu uma urgência absurda de resolver o problema dela.

— Cereja sem álcool? — Ele arqueou uma sobrancelha, um meio sorriso surgindo no rosto marcado pelo cansaço. — É uma escolha bem específica para uma tarde de sol.

— É a minha favorita — explicou ela, encolhendo os ombros, o que fez o biquíni de crochê se ajustar ainda mais ao seu corpo esguio e aos seios médios e macios que Emanuel não pôde deixar de notar. — Eu estudo História da Arte... as cores das bebidas me ajudam a relaxar. O vermelho da cereja combina com o pôr do sol. Agora só sobrou o branco do chocolate.

Emanuel ficou fascinado. A forma como ela falava, a maneira manhosa como se apoiava no balcão, buscando uma proximidade quase inconsciente mesmo sem conhecê-lo, atingiu um ponto cego em sua racionalidade.

— Espera um pouco — disse ele, fazendo um sinal para o atendente que já o conhecia de outras passagens por ali. — Ei, Marcos. Eu sei que o xarope de cereja acabou, mas você ainda tem aquelas frutas em conserva para os coquetéis da noite, não tem?

— Tenho sim, Emanuel, mas não é a mesma coisa para o drink — respondeu o rapaz.

— Macere as frutas, use água tônica e um pouco de granadine que eu sei que você guarda debaixo do balcão. Faça o melhor drink de cereja da história deste quiosque. Eu pago o triplo.

Eduarda observava a interação com os olhos arregalados, o chocolate branco esquecido na mão. Quando Emanuel se voltou para ela, a expressão dele era firme, mas os olhos tinham uma doçura que ele raramente mostrava ao mundo.

— Obrigado — sussurrou ela, inclinando a cabeça para o lado. — Você não precisava fazer isso. Eu sou a Eduarda.

— Emanuel. E eu achei que precisava, sim. Você parecia prestes a chorar por causa de uma fruta, Eduarda.

— Eu sou um pouco... sensível — admitiu ela, dando uma mordida pequena no chocolate e oferecendo um pedaço a ele com um gesto tímido. — Quer? Para compensar o trabalho?

Emanuel aceitou, os dedos roçando levemente nos dela. O toque foi como um choque elétrico. A pele dela era fria e macia, o oposto da energia quente e abrasiva de Sara. Naquele momento, uma engrenagem girou na mente do tatuador. Ele era um homem de posses, um homem que conseguia o que queria. E ele queria Eduarda. Queria protegê-la, queria ouvir suas análises sobre arte, queria vê-la usando aqueles biquínis delicados em sua casa, longe dos olhares da praia.

— Você mora por aqui? — perguntou ele, sentando-se no banco ao lado, quebrando sua própria regra de não se envolver com estranhos em momentos de lazer.

— Moro em um pensionato perto da faculdade — ela respondeu, bebendo o drink que acabara de chegar com um suspiro de satisfação pura. — É pequeno e barulhento. Eu gosto de silêncio.

— Silêncio é luxo — concordou ele. — Eu tenho estúdios onde o som das máquinas nunca para. Às vezes, tudo o que eu quero é alguém que saiba apreciar o vazio.

Eduarda olhou para ele de forma intuitiva, percebendo a tensão acumulada nos ombros largos do homem à sua frente.

— Você parece carregar o mundo nas costas, Emanuel — disse ela, estendendo a mão livre e tocando timidamente o antebraço dele, onde uma tatuagem de fênix se escondia sob a pele bronzeada. — Deve ser difícil ser tão sério o tempo todo.

Aquele gesto de carinho espontâneo desarmou Emanuel completamente. Ele pensou em Sara, que provavelmente estaria agora em algum salão de beleza gritando com alguém ou postando fotos provocantes para seus milhares de seguidores, exigindo que ele comentasse e marcasse território. Ele amava a intensidade de Sara, a forma como ela o desafiava e como o sexo entre eles era uma batalha de vontades.

Mas Eduarda... Eduarda era o porto seguro que ele nem sabia que estava procurando.

— O que você diria — começou ele, a voz decidida — se eu dissesse que não quero que você volte para aquele pensionato barulhento?

Eduarda piscou, confusa e encantada ao mesmo tempo. Sua natureza dependente e carente brilhou em seus olhos.

— Eu diria que você é um estranho muito generoso... ou muito perigoso.

— Eu sou apenas um homem que sabe reconhecer algo precioso quando vê — Emanuel se aproximou, o cheiro de perfume caro misturado com a brisa do mar invadindo o espaço dela. — Eu tenho uma casa onde o único som é o das ondas. E eu gostaria de ver você lá. Estudando sua arte, bebendo sua cereja.

— Mas... e a sua namorada? — Eduarda perguntou, apontando para a tela do celular de Emanuel que brilhava com uma notificação: uma foto de Sara no espelho, usando um vestido vermelho minúsculo e vulgar, com a legenda "Vem logo, gato".

Emanuel olhou para a tela e depois para a doçura de Eduarda. A lógica dizia que ele deveria escolher. A razão dizia que Sara era seu par oficial, a mulher que aguentava seu ritmo. Mas seu lado controlador, o homem que construiu um império, não aceitava perdas.

— Sara é... uma parte da minha vida — disse ele, a voz sombria e possessiva. — Mas você, Eduarda, acabou de se tornar a outra parte. Eu não pretendo abrir mão de nenhuma das duas.

Eduarda não recuou. Ela não tinha a força verbal de Sara para protestar, nem a malícia para entender a complexidade daquela afirmação. Ela apenas sentiu a segurança que emanava de Emanuel, a promessa de proteção que sua alma manhosa tanto buscava.

— Você cuidaria de mim? — perguntou ela, a voz trêmula, buscando o apoio físico dele ao encostar a cabeça em seu ombro.

Emanuel passou o braço pela cintura fina dela, sentindo a textura do crochê e a maciez da pele.

— Eu vou dar a você tudo o que você sonhar, pequena. E ninguém vai encostar um dedo em você.

Enquanto o sol se punha, Emanuel já começava a arquitetar como manteria aqueles dois mundos colidindo sob seu teto. Ele sabia que Sara odiaria dividir o trono, que ela usaria cada grama de seu sarcasmo e agressividade para destruir a "intrusa". E sabia que Eduarda sofreria com as provocações, que se encolheria diante dos ataques da loira.

Mas ele estaria lá. Ele mediaria o caos. Ele teria o fogo de Sara e a paz de Eduarda. Pela primeira vez em muito tempo, o tatuador sentiu que o controle total estava ao seu alcance, mesmo que o preço fosse uma guerra emocional que estava apenas começando.

— Vamos? — chamou ele, levantando-se e estendendo a mão para a garota de azul.

Eduarda sorriu, um sorriso doce e carregado de uma confiança cega.

— Para onde?

— Para o começo da sua nova vida — respondeu ele, já discando o número de Sara para avisar que a noite seria longa, e que ele estava levando um "investimento" para casa.

A areia ficava para trás, mas o destino das duas mulheres já estava traçado pelas mãos firmes e tatuadas de um homem que não aceitava nada menos do que o absoluto.
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