
← Voltar à lista de fanfics
0 curtida
D
Fandom: Nenhum
Criado: 25/05/2026
Tags
DramaAngústiaPsicológicoSombrioHistória DomésticaCiúmesEstudo de PersonagemRealismoRomanceNoir GóticoDor/ConfortoAbuso de ÁlcoolFatias de VidaLinguagem Explícita
Entre o Silêncio e o Grito
O estúdio particular de Emanuel, localizado na cobertura de um dos prédios mais luxuosos da cidade, cheirava a tinta fresca, antisséptico e ao perfume caro que Sara insistia em borrifar toda vez que entrava no ambiente. Era o seu santuário, ou deveria ser. O som da máquina de tatuagem, um zumbido constante e rítmico que geralmente o acalmava, hoje parecia uma abelha furiosa presa dentro de seu crânio.
Emanuel limpou o excesso de tinta preta da pele de um cliente — um empresário que voara de Londres apenas para ter o braço fechado pelo "mestre das sombras" — e respirou fundo. Ele tinha vinte e cinco anos, uma conta bancária com sete dígitos e estúdios espalhados de Tóquio a Nova York, mas sentia que não conseguia governar o metro quadrado da sua própria sala de estar.
O motivo do seu estresse tinha nomes, personalidades opostas e uma capacidade infinita de testar sua sanidade.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo, sem qualquer cerimônia. Sara entrou, seus saltos agulha estalando contra o piso de concreto polido. Ela usava um vestido vermelho tão justo que parecia uma segunda pele, realçando as curvas esculpidas por cirurgias plásticas caras e uma confiança inabalável. O cabelo loiro, perfeitamente escovado, brilhava sob as luzes de LED.
— Emanuel, querido, até quando você vai fingir que esse trabalho é mais importante do que o nosso jantar? — Sara perguntou, ignorando completamente o cliente na maca. Ela se aproximou, o cheiro de seu perfume doce e invasivo preenchendo o ar.
Emanuel nem sequer levantou o olhar.
— Sara, eu estou terminando um sombreamento. Faltam vinte minutos. Sente-se e espere.
— Esperar? Eu não nasci para esperar, você sabe disso — ela rebateu, cruzando os braços, o que acentuava o decote generoso. — E aquela sonsa da Eduarda já está lá fora, sentada no sofá com aquela cara de quem perdeu o cachorrinho. Se eu tiver que ficar mais cinco minutos sozinha com ela, não respondo por mim.
Quase como se tivesse sido invocada pelo veneno na voz de Sara, uma figura pequena e delicada apareceu no batente da porta. Eduarda parecia o oposto absoluto da loira. Ela vestia um vestido de seda leve, num tom de azul pastel que combinava com a suavidade de sua pele. O corte era romântico, com mangas bufantes e uma saia fluida que chegava aos joelhos, mas o decote sutil e a forma como o tecido abraçava seu corpo esguio traziam uma sensualidade discreta e elegante.
Eduarda segurava um livro de História da Arte contra o peito, os dedos finos apertando a capa. Seus olhos grandes e expressivos encontraram os de Emanuel, e ela forçou um sorriso tímido, ignorando a presença vibrante de Sara.
— Manu... — a voz de Eduarda era baixa, quase um sussurro manhoso. — Você disse que íamos ver os esboços novos hoje. Eu não queria incomodar, mas a Sara está sendo... difícil.
Sara soltou uma risada anasalada, carregada de sarcasmo.
— Difícil? Eu só disse que esse seu vestidinho de camponesa é patético para o evento de hoje à noite. Você parece uma criança perdida, Eduarda.
Eduarda encolheu os ombros, aproximando-se de Emanuel e parando ao seu lado, longe de Sara. Ela tocou levemente o ombro do tatuador, buscando um contato físico que servia como sua âncora.
— Eu só gosto de me sentir confortável — murmurou Eduarda, os olhos começando a brilhar com uma umidade emocional que Emanuel conhecia bem.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo a pulsação na têmpora. Ele desligou a máquina, pedindo desculpas ao cliente e solicitando que seu assistente terminasse o curativo. Ele se levantou, sua estatura alta e postura firme dominando o espaço entre as duas mulheres.
— Chega — disse Emanuel, a voz rouca e autoritária. — Sara, pare de provocá-la. Eduarda, não comece a chorar, por favor. Eu tive um dia longo.
— Ah, claro! Proteja a boneca de porcelana — Sara revirou os olhos, caminhando até a mesa de desenho de Emanuel e mexendo nos papéis de forma descuidada. — Você mima demais essa garota. Ela precisa aprender que o mundo não é uma galeria de arte silenciosa.
— E você precisa aprender que o mundo não é um palco para os seus shows — Emanuel rebateu, pegando um dos papéis da mão de Sara com firmeza. — Eu pago as suas contas, Sara, mas não pago para você infernizar a Eduarda no meu local de trabalho.
Eduarda se aproximou mais de Emanuel, segurando a barra da sua camiseta preta, o rosto escondido parcialmente atrás do braço dele.
— Ela me chamou de vulgar por causa do meu interesse em Renascimento, Manu... — Eduarda disse, a voz trêmula de uma forma que Emanuel sabia ser metade mágoa real e metade busca por atenção.
— Eu não chamei sua arte de vulgar, querida. Chamei seu estilo de sem graça — Sara corrigiu, sorrindo com malícia. — Vulgar sou eu, e o Emanuel adora, não é, amor? Ou você mudou de gosto e agora prefere chá de camomila em vez de uísque?
Emanuel sentiu a pressão subir. De um lado, a energia agressiva e sexual de Sara, que o desafiava e o cansava na mesma medida em que o atraía com sua confiança. Do outro, a fragilidade doce e dependente de Eduarda, que despertava nele um instinto protetor quase primitivo, mas que também o sufocava com sua necessidade constante de afirmação.
— Nós vamos jantar — Emanuel declarou, pegando sua jaqueta de couro. — Os três. E se eu ouvir uma única palavra de insulto, eu mando o motorista levar cada uma para uma ponta diferente da cidade e vou dormir sozinho. Fui claro?
Sara bufou, ajeitando o cabelo no espelho da parede, mas assentiu. Ela sabia até onde podia esticar a corda antes que Emanuel se tornasse frio e inacessível. Eduarda apenas assentiu com a cabeça, limpando o canto do olho e dando um passo para frente para entrelaçar seu braço ao dele.
— Posso ir no banco da frente com você? — Eduarda pediu, com aquele tom manhoso que costumava desarmá-lo.
— Nem pensar! — Sara interrompeu, já caminhando para a saída. — Eu tenho pernas longas e esse vestido não foi feito para ficar espremida atrás. Você vai atrás, "Dudinha".
Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade de manter aquelas duas órbitas em torno de si sem que elas colidissem e causassem uma explosão.
O trajeto até o restaurante foi um exercício de paciência. Sara falava sem parar sobre uma nova marca de joias que queria que Emanuel financiasse, enquanto Eduarda permanecia em silêncio no banco de trás, olhando pela janela com uma expressão de mártir incompreendida. Emanuel mantinha as mãos firmes no volante, a mente vagando entre os novos contratos de seu estúdio em Berlim e o caos emocional do seu carro.
Ao chegarem ao restaurante, um local exclusivo onde o glamour era a moeda de troca, a dinâmica mudou ligeiramente. Sara estava em seu elemento. Ela desfilava pelo salão, cumprimentando conhecidos com sorrisos ensaiados e garantindo que todos notassem sua presença. Eduarda, por outro lado, caminhava quase fundida ao lado de Emanuel, sua mão pequena buscando a dele constantemente.
Quando se sentaram à mesa reservada, a tensão voltou a borbulhar.
— Peça um vinho tinto, Emanuel — Sara ordenou, abrindo o cardápio com desdém. — Um encorpado. Nada de suquinho de uva para acompanhar a "estudante".
— Eu gostaria de um vinho branco, se não for problema — Eduarda disse baixinho, olhando para Emanuel com olhos suplicantes. — O tinto me dá dor de cabeça.
— Branco é para peixe e para quem não tem personalidade — Sara disparou, sem tirar os olhos do menu.
— Sara, chega — Emanuel disse, o tom de voz baixando perigosamente. — Vamos pedir uma garrafa de cada ou uma que agrade aos dois paladares. Não vou transformar um jantar de mil dólares em uma briga de escola.
— Ela que começou com esse jeito de vítima — Sara murmurou, embora tivesse diminuído o tom.
— Eu não fiz nada... — Eduarda começou a chorar silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto delicado. — Eu só queria uma noite agradável. Por que você me odeia tanto, Sara?
— Eu não te odeio, Eduarda. Eu só não tenho paciência para gente que usa a fragilidade como arma — Sara rebateu, fechando o cardápio e encarando a outra por cima da mesa. — Você se faz de santinha, mas sabe exatamente como puxar o Emanuel para o seu lado toda vez que eu abro a boca.
Emanuel sentiu que o controle estava escorrendo por entre seus dedos. Ele era um homem prático. Ele lidava com agulhas, sangue, contratos e expansão de mercado. Mas ali, entre a loira explosiva e a morena sensível, ele se sentia um amador.
— Eduarda, beba um pouco de água e se acalme — Emanuel disse, tentando ser gentil, mas a rigidez em sua voz era evidente. — E Sara, se você disser mais uma palavra sobre a personalidade dela, eu juro que cancelo o seu cartão de crédito de luxo por um mês.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara estreitou os olhos, a fúria faiscando, mas o aviso sobre o cartão de crédito — sua única fonte de sustento, já que sua formação em administração servia apenas para decorar o diploma na parede da casa dos pais — a fez recuar. Eduarda soluçou uma última vez, buscando a mão de Emanuel por cima da mesa.
Ele permitiu que ela segurasse sua mão, mas seus olhos estavam fixos em um ponto distante do restaurante.
— Eu cuido de vocês — Emanuel começou, a voz cansada. — Eu dou tudo o que vocês pedem. Conforto, segurança, luxo. Mas eu não posso dar paz se vocês não quiserem ter paz. Eu sou um homem, não um juiz de paz.
— Você nos ama, Manu? — Eduarda perguntou, a voz carregada de uma carência que sempre o atingia no peito.
Emanuel olhou para ela, vendo a doçura e a dependência. Depois olhou para Sara, que agora o observava com uma expectativa feroz escondida atrás da máscara de arrogância.
— Eu estou aqui, não estou? — ele respondeu de forma evasiva, sua natureza racional impedindo-o de se entregar a declarações sentimentais no meio de um restaurante. — Se eu não quisesse as duas, não estaria passando por esse inferno toda noite.
Sara soltou um riso seco.
— Um inferno bem pago, convenhamos.
— Para de ser cínica, Sara — Eduarda murmurou, ganhando um pouco de coragem. — O Manu faz tudo pela gente. Você devia ser mais grata.
— Grata? Querida, eu trago vida para essa relação. Se dependesse de você e do silêncio contemplativo do Emanuel, vocês dois morreriam de tédio em uma semana.
— Pelo menos teríamos paz — rebateu Eduarda.
— Paz é para os mortos. Eu prefiro intensidade — Sara retrucou, inclinando-se para frente e pegando a taça de água como se fosse um troféu.
Emanuel sentiu uma dor de cabeça latejar. Ele chamou o garçom e fez o pedido mais caro do menu, esperando que a comida pudesse, de alguma forma, calar as bocas que tanto o atormentavam e o fascinavam.
Ao longo do jantar, a dinâmica seguiu seu curso habitual. Sara dominava a conversa com fofocas da alta sociedade e planos para viagens extravagantes, enquanto Eduarda fazia comentários pontuais sobre a estética do lugar ou como a luz das velas lembrava um quadro de Caravaggio. Emanuel funcionava como o pivô, o ponto central para onde ambas convergiam.
Ele observava Eduarda, a forma como ela comia delicadamente, quase pedindo desculpas por existir, e sentia uma onda de ternura. Ela era o seu porto seguro, a suavidade que ele precisava após um dia lidando com o lado bruto do mundo. Mas então seus olhos se voltavam para Sara, para o brilho desafiador em seu olhar e a forma como ela não tinha medo de exigir o que queria, e ele sentia uma descarga de adrenalina que só ela conseguia proporcionar.
Era um equilíbrio doentio, ele sabia.
Quando o jantar finalmente terminou e eles voltaram para a cobertura, o clima estava mais calmo, embora a eletricidade estática entre as duas mulheres ainda fosse palpável.
Emanuel jogou as chaves sobre o aparador de mármore e desabotoou os primeiros botões de sua camisa. Ele estava exausto.
— Eu vou tomar um banho — ele anunciou. — Sem brigas. Sem discussões sobre quem vai dormir de qual lado.
Eduarda aproximou-se dele, abraçando-o pela cintura e apoiando a cabeça em seu peito.
— Você está muito estressado, Manu... quer que eu prepare aquele chá que você gosta? — ela perguntou, a voz doce e submissa.
Antes que ele pudesse responder, Sara apareceu atrás deles, retirando os brincos de diamante.
— Chá? O que ele precisa é de uma massagem de verdade e de alguém que saiba tirar essa tensão dos ombros dele, não de água quente com ervas — Sara disse, passando a mão pelo pescoço de Emanuel, seus dedos longos e unhas bem feitas arranhando levemente a pele dele.
Emanuel suspirou, fechando os olhos. Ele sentia o calor de Eduarda em sua frente e a provocação de Sara em suas costas.
— As duas — ele disse, a voz baixa e carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — Eduarda, faça o chá. Sara, pegue o óleo de massagem. Eu vou estar no quarto em dez minutos. E se eu ouvir um grito de uma de vocês enquanto eu estiver no banho...
— Já sabemos — Sara interrompeu com um sorriso de canto. — O cartão de crédito.
— E as minhas aulas de pintura — completou Eduarda, com um beicinho triste.
Emanuel caminhou em direção ao banheiro, ouvindo os passos das duas se afastando em direções opostas na cozinha e no closet. Ele se olhou no espelho, vendo os traços cansados e os olhos que carregavam o peso de um império e de um relacionamento triplo que muitos chamariam de loucura.
Ele era rico, bem-sucedido e tinha as duas mulheres mais bonitas que já conhecera competindo por cada centímetro de sua atenção. Para o mundo, Emanuel tinha tudo. Para si mesmo, ele era apenas um homem tentando manter o controle em um mar de emoções contraditórias.
Enquanto a água quente batia em seus ombros, ele sabia que a paz duraria pouco. Amanhã haveria uma nova briga, um novo comentário sarcástico de Sara, uma nova crise de choro de Eduarda. E ele estaria lá, no centro de tudo, sendo o juiz, o amante e o protetor.
Porque, no fim das contas, Emanuel não sabia mais como viver no silêncio, nem como sobreviver sem o caos que elas traziam para sua vida. Ele era viciado na doçura de uma e no veneno da outra, e enquanto pudesse pagar o preço, ele continuaria sendo o mestre daquela dança perigosa.
Ao sair do banho, ele encontrou o quarto iluminado apenas por velas. Eduarda estava sentada na ponta da cama com uma xícara fumegante, o olhar suave e acolhedor. Sara estava encostada na cabeceira, usando uma lingerie de renda preta que deixava pouco para a imaginação, segurando o frasco de óleo com um sorriso desafiador.
Emanuel sorriu pela primeira vez naquela noite. O caos tinha suas vantagens.
— Venha aqui, Manu — Eduarda chamou baixinho.
— É, venha logo — Sara completou, a voz rouca. — Temos muito o que resolver antes de amanhã.
Emanuel caminhou em direção a elas, deixando o estresse do mundo exterior do lado de fora da porta. Ali, entre o romantismo tímido e a vulgaridade ostensiva, ele era o único rei de um reino em constante guerra. E ele não mudaria nada.
Emanuel limpou o excesso de tinta preta da pele de um cliente — um empresário que voara de Londres apenas para ter o braço fechado pelo "mestre das sombras" — e respirou fundo. Ele tinha vinte e cinco anos, uma conta bancária com sete dígitos e estúdios espalhados de Tóquio a Nova York, mas sentia que não conseguia governar o metro quadrado da sua própria sala de estar.
O motivo do seu estresse tinha nomes, personalidades opostas e uma capacidade infinita de testar sua sanidade.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo, sem qualquer cerimônia. Sara entrou, seus saltos agulha estalando contra o piso de concreto polido. Ela usava um vestido vermelho tão justo que parecia uma segunda pele, realçando as curvas esculpidas por cirurgias plásticas caras e uma confiança inabalável. O cabelo loiro, perfeitamente escovado, brilhava sob as luzes de LED.
— Emanuel, querido, até quando você vai fingir que esse trabalho é mais importante do que o nosso jantar? — Sara perguntou, ignorando completamente o cliente na maca. Ela se aproximou, o cheiro de seu perfume doce e invasivo preenchendo o ar.
Emanuel nem sequer levantou o olhar.
— Sara, eu estou terminando um sombreamento. Faltam vinte minutos. Sente-se e espere.
— Esperar? Eu não nasci para esperar, você sabe disso — ela rebateu, cruzando os braços, o que acentuava o decote generoso. — E aquela sonsa da Eduarda já está lá fora, sentada no sofá com aquela cara de quem perdeu o cachorrinho. Se eu tiver que ficar mais cinco minutos sozinha com ela, não respondo por mim.
Quase como se tivesse sido invocada pelo veneno na voz de Sara, uma figura pequena e delicada apareceu no batente da porta. Eduarda parecia o oposto absoluto da loira. Ela vestia um vestido de seda leve, num tom de azul pastel que combinava com a suavidade de sua pele. O corte era romântico, com mangas bufantes e uma saia fluida que chegava aos joelhos, mas o decote sutil e a forma como o tecido abraçava seu corpo esguio traziam uma sensualidade discreta e elegante.
Eduarda segurava um livro de História da Arte contra o peito, os dedos finos apertando a capa. Seus olhos grandes e expressivos encontraram os de Emanuel, e ela forçou um sorriso tímido, ignorando a presença vibrante de Sara.
— Manu... — a voz de Eduarda era baixa, quase um sussurro manhoso. — Você disse que íamos ver os esboços novos hoje. Eu não queria incomodar, mas a Sara está sendo... difícil.
Sara soltou uma risada anasalada, carregada de sarcasmo.
— Difícil? Eu só disse que esse seu vestidinho de camponesa é patético para o evento de hoje à noite. Você parece uma criança perdida, Eduarda.
Eduarda encolheu os ombros, aproximando-se de Emanuel e parando ao seu lado, longe de Sara. Ela tocou levemente o ombro do tatuador, buscando um contato físico que servia como sua âncora.
— Eu só gosto de me sentir confortável — murmurou Eduarda, os olhos começando a brilhar com uma umidade emocional que Emanuel conhecia bem.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo a pulsação na têmpora. Ele desligou a máquina, pedindo desculpas ao cliente e solicitando que seu assistente terminasse o curativo. Ele se levantou, sua estatura alta e postura firme dominando o espaço entre as duas mulheres.
— Chega — disse Emanuel, a voz rouca e autoritária. — Sara, pare de provocá-la. Eduarda, não comece a chorar, por favor. Eu tive um dia longo.
— Ah, claro! Proteja a boneca de porcelana — Sara revirou os olhos, caminhando até a mesa de desenho de Emanuel e mexendo nos papéis de forma descuidada. — Você mima demais essa garota. Ela precisa aprender que o mundo não é uma galeria de arte silenciosa.
— E você precisa aprender que o mundo não é um palco para os seus shows — Emanuel rebateu, pegando um dos papéis da mão de Sara com firmeza. — Eu pago as suas contas, Sara, mas não pago para você infernizar a Eduarda no meu local de trabalho.
Eduarda se aproximou mais de Emanuel, segurando a barra da sua camiseta preta, o rosto escondido parcialmente atrás do braço dele.
— Ela me chamou de vulgar por causa do meu interesse em Renascimento, Manu... — Eduarda disse, a voz trêmula de uma forma que Emanuel sabia ser metade mágoa real e metade busca por atenção.
— Eu não chamei sua arte de vulgar, querida. Chamei seu estilo de sem graça — Sara corrigiu, sorrindo com malícia. — Vulgar sou eu, e o Emanuel adora, não é, amor? Ou você mudou de gosto e agora prefere chá de camomila em vez de uísque?
Emanuel sentiu a pressão subir. De um lado, a energia agressiva e sexual de Sara, que o desafiava e o cansava na mesma medida em que o atraía com sua confiança. Do outro, a fragilidade doce e dependente de Eduarda, que despertava nele um instinto protetor quase primitivo, mas que também o sufocava com sua necessidade constante de afirmação.
— Nós vamos jantar — Emanuel declarou, pegando sua jaqueta de couro. — Os três. E se eu ouvir uma única palavra de insulto, eu mando o motorista levar cada uma para uma ponta diferente da cidade e vou dormir sozinho. Fui claro?
Sara bufou, ajeitando o cabelo no espelho da parede, mas assentiu. Ela sabia até onde podia esticar a corda antes que Emanuel se tornasse frio e inacessível. Eduarda apenas assentiu com a cabeça, limpando o canto do olho e dando um passo para frente para entrelaçar seu braço ao dele.
— Posso ir no banco da frente com você? — Eduarda pediu, com aquele tom manhoso que costumava desarmá-lo.
— Nem pensar! — Sara interrompeu, já caminhando para a saída. — Eu tenho pernas longas e esse vestido não foi feito para ficar espremida atrás. Você vai atrás, "Dudinha".
Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade de manter aquelas duas órbitas em torno de si sem que elas colidissem e causassem uma explosão.
O trajeto até o restaurante foi um exercício de paciência. Sara falava sem parar sobre uma nova marca de joias que queria que Emanuel financiasse, enquanto Eduarda permanecia em silêncio no banco de trás, olhando pela janela com uma expressão de mártir incompreendida. Emanuel mantinha as mãos firmes no volante, a mente vagando entre os novos contratos de seu estúdio em Berlim e o caos emocional do seu carro.
Ao chegarem ao restaurante, um local exclusivo onde o glamour era a moeda de troca, a dinâmica mudou ligeiramente. Sara estava em seu elemento. Ela desfilava pelo salão, cumprimentando conhecidos com sorrisos ensaiados e garantindo que todos notassem sua presença. Eduarda, por outro lado, caminhava quase fundida ao lado de Emanuel, sua mão pequena buscando a dele constantemente.
Quando se sentaram à mesa reservada, a tensão voltou a borbulhar.
— Peça um vinho tinto, Emanuel — Sara ordenou, abrindo o cardápio com desdém. — Um encorpado. Nada de suquinho de uva para acompanhar a "estudante".
— Eu gostaria de um vinho branco, se não for problema — Eduarda disse baixinho, olhando para Emanuel com olhos suplicantes. — O tinto me dá dor de cabeça.
— Branco é para peixe e para quem não tem personalidade — Sara disparou, sem tirar os olhos do menu.
— Sara, chega — Emanuel disse, o tom de voz baixando perigosamente. — Vamos pedir uma garrafa de cada ou uma que agrade aos dois paladares. Não vou transformar um jantar de mil dólares em uma briga de escola.
— Ela que começou com esse jeito de vítima — Sara murmurou, embora tivesse diminuído o tom.
— Eu não fiz nada... — Eduarda começou a chorar silenciosamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto delicado. — Eu só queria uma noite agradável. Por que você me odeia tanto, Sara?
— Eu não te odeio, Eduarda. Eu só não tenho paciência para gente que usa a fragilidade como arma — Sara rebateu, fechando o cardápio e encarando a outra por cima da mesa. — Você se faz de santinha, mas sabe exatamente como puxar o Emanuel para o seu lado toda vez que eu abro a boca.
Emanuel sentiu que o controle estava escorrendo por entre seus dedos. Ele era um homem prático. Ele lidava com agulhas, sangue, contratos e expansão de mercado. Mas ali, entre a loira explosiva e a morena sensível, ele se sentia um amador.
— Eduarda, beba um pouco de água e se acalme — Emanuel disse, tentando ser gentil, mas a rigidez em sua voz era evidente. — E Sara, se você disser mais uma palavra sobre a personalidade dela, eu juro que cancelo o seu cartão de crédito de luxo por um mês.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara estreitou os olhos, a fúria faiscando, mas o aviso sobre o cartão de crédito — sua única fonte de sustento, já que sua formação em administração servia apenas para decorar o diploma na parede da casa dos pais — a fez recuar. Eduarda soluçou uma última vez, buscando a mão de Emanuel por cima da mesa.
Ele permitiu que ela segurasse sua mão, mas seus olhos estavam fixos em um ponto distante do restaurante.
— Eu cuido de vocês — Emanuel começou, a voz cansada. — Eu dou tudo o que vocês pedem. Conforto, segurança, luxo. Mas eu não posso dar paz se vocês não quiserem ter paz. Eu sou um homem, não um juiz de paz.
— Você nos ama, Manu? — Eduarda perguntou, a voz carregada de uma carência que sempre o atingia no peito.
Emanuel olhou para ela, vendo a doçura e a dependência. Depois olhou para Sara, que agora o observava com uma expectativa feroz escondida atrás da máscara de arrogância.
— Eu estou aqui, não estou? — ele respondeu de forma evasiva, sua natureza racional impedindo-o de se entregar a declarações sentimentais no meio de um restaurante. — Se eu não quisesse as duas, não estaria passando por esse inferno toda noite.
Sara soltou um riso seco.
— Um inferno bem pago, convenhamos.
— Para de ser cínica, Sara — Eduarda murmurou, ganhando um pouco de coragem. — O Manu faz tudo pela gente. Você devia ser mais grata.
— Grata? Querida, eu trago vida para essa relação. Se dependesse de você e do silêncio contemplativo do Emanuel, vocês dois morreriam de tédio em uma semana.
— Pelo menos teríamos paz — rebateu Eduarda.
— Paz é para os mortos. Eu prefiro intensidade — Sara retrucou, inclinando-se para frente e pegando a taça de água como se fosse um troféu.
Emanuel sentiu uma dor de cabeça latejar. Ele chamou o garçom e fez o pedido mais caro do menu, esperando que a comida pudesse, de alguma forma, calar as bocas que tanto o atormentavam e o fascinavam.
Ao longo do jantar, a dinâmica seguiu seu curso habitual. Sara dominava a conversa com fofocas da alta sociedade e planos para viagens extravagantes, enquanto Eduarda fazia comentários pontuais sobre a estética do lugar ou como a luz das velas lembrava um quadro de Caravaggio. Emanuel funcionava como o pivô, o ponto central para onde ambas convergiam.
Ele observava Eduarda, a forma como ela comia delicadamente, quase pedindo desculpas por existir, e sentia uma onda de ternura. Ela era o seu porto seguro, a suavidade que ele precisava após um dia lidando com o lado bruto do mundo. Mas então seus olhos se voltavam para Sara, para o brilho desafiador em seu olhar e a forma como ela não tinha medo de exigir o que queria, e ele sentia uma descarga de adrenalina que só ela conseguia proporcionar.
Era um equilíbrio doentio, ele sabia.
Quando o jantar finalmente terminou e eles voltaram para a cobertura, o clima estava mais calmo, embora a eletricidade estática entre as duas mulheres ainda fosse palpável.
Emanuel jogou as chaves sobre o aparador de mármore e desabotoou os primeiros botões de sua camisa. Ele estava exausto.
— Eu vou tomar um banho — ele anunciou. — Sem brigas. Sem discussões sobre quem vai dormir de qual lado.
Eduarda aproximou-se dele, abraçando-o pela cintura e apoiando a cabeça em seu peito.
— Você está muito estressado, Manu... quer que eu prepare aquele chá que você gosta? — ela perguntou, a voz doce e submissa.
Antes que ele pudesse responder, Sara apareceu atrás deles, retirando os brincos de diamante.
— Chá? O que ele precisa é de uma massagem de verdade e de alguém que saiba tirar essa tensão dos ombros dele, não de água quente com ervas — Sara disse, passando a mão pelo pescoço de Emanuel, seus dedos longos e unhas bem feitas arranhando levemente a pele dele.
Emanuel suspirou, fechando os olhos. Ele sentia o calor de Eduarda em sua frente e a provocação de Sara em suas costas.
— As duas — ele disse, a voz baixa e carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — Eduarda, faça o chá. Sara, pegue o óleo de massagem. Eu vou estar no quarto em dez minutos. E se eu ouvir um grito de uma de vocês enquanto eu estiver no banho...
— Já sabemos — Sara interrompeu com um sorriso de canto. — O cartão de crédito.
— E as minhas aulas de pintura — completou Eduarda, com um beicinho triste.
Emanuel caminhou em direção ao banheiro, ouvindo os passos das duas se afastando em direções opostas na cozinha e no closet. Ele se olhou no espelho, vendo os traços cansados e os olhos que carregavam o peso de um império e de um relacionamento triplo que muitos chamariam de loucura.
Ele era rico, bem-sucedido e tinha as duas mulheres mais bonitas que já conhecera competindo por cada centímetro de sua atenção. Para o mundo, Emanuel tinha tudo. Para si mesmo, ele era apenas um homem tentando manter o controle em um mar de emoções contraditórias.
Enquanto a água quente batia em seus ombros, ele sabia que a paz duraria pouco. Amanhã haveria uma nova briga, um novo comentário sarcástico de Sara, uma nova crise de choro de Eduarda. E ele estaria lá, no centro de tudo, sendo o juiz, o amante e o protetor.
Porque, no fim das contas, Emanuel não sabia mais como viver no silêncio, nem como sobreviver sem o caos que elas traziam para sua vida. Ele era viciado na doçura de uma e no veneno da outra, e enquanto pudesse pagar o preço, ele continuaria sendo o mestre daquela dança perigosa.
Ao sair do banho, ele encontrou o quarto iluminado apenas por velas. Eduarda estava sentada na ponta da cama com uma xícara fumegante, o olhar suave e acolhedor. Sara estava encostada na cabeceira, usando uma lingerie de renda preta que deixava pouco para a imaginação, segurando o frasco de óleo com um sorriso desafiador.
Emanuel sorriu pela primeira vez naquela noite. O caos tinha suas vantagens.
— Venha aqui, Manu — Eduarda chamou baixinho.
— É, venha logo — Sara completou, a voz rouca. — Temos muito o que resolver antes de amanhã.
Emanuel caminhou em direção a elas, deixando o estresse do mundo exterior do lado de fora da porta. Ali, entre o romantismo tímido e a vulgaridade ostensiva, ele era o único rei de um reino em constante guerra. E ele não mudaria nada.
