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Criado: 25/05/2026

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Entre o Cetim e o Verniz

O Mercedes preto de Emanuel deslizava pelas ruas arborizadas do Jardim Europa com um silêncio que contrastava drasticamente com a tensão dentro da cabine. No banco do passageiro, Eduarda apertava as mãos sobre o colo, amassando levemente o tecido de seu vestido de seda em tom rosa-chá. Ela estava deslumbrante, de uma forma sutil e cara: o decote em "V" era profundo o suficiente para ser sexy, mas as rendas delicadas e o caimento fluido mantinham aquela aura de "boneca de porcelana" que ela exalava. Seus olhos grandes, expressivos e levemente úmidos pela ansiedade, buscavam o perfil sério de Emanuel a cada semáforo.

Atrás, o perfume doce e invasivo de Sara preenchia o espaço, quase sufocante. Ela usava um vestido vermelho curtíssimo, de um material que imitava couro, com fendas que deixavam pouco para a imaginação. O decote generoso exibia o resultado de suas cirurgias plásticas com orgulho, e o batom vibrante parecia uma declaração de guerra.

— Sinceramente, Emanuel, quanto tempo mais para chegarmos na casa da "mamãe"? — Sara perguntou, arrastando a última palavra com um sarcasmo ácido. Ela retocava o rímel no espelho de mão, ignorando os solavancos do carro. — Espero que ela tenha contratado um buffet decente desta vez. Da última vez, a comida parecia tão sem sal quanto certas pessoas nesta viagem.

Eduarda encolheu os ombros, sentindo a alfinetada. Ela se inclinou um pouco mais para o lado de Emanuel, buscando o calor do braço dele.

— Eu... eu acho que a comida da dona Helena é maravilhosa — sussurrou Eduarda, a voz pequena e doce. — Ela cozinha com amor.

Sara soltou uma risada nasalada, guardando o espelho com um estalo.

— Amor não enche barriga nem substitui tempero, querida. Mas entendo por que você gosta. É o nível de emoção que você consegue processar, não é? Coisas mornas e previsíveis.

Emanuel apertou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O estresse de gerenciar seus estúdios de tatuagem pelo mundo já era o suficiente; ter suas duas namoradas no mesmo metro quadrado era um exercício de masoquismo que ele ainda não sabia como resolver. Ele amava a paz que Eduarda lhe trazia, a forma como ela se aninhava nele como se ele fosse seu único porto seguro. Mas também era viciado na energia caótica e no fogo que Sara provocava, mesmo que isso viesse acompanhado de dores de cabeça constantes.

— Chega, Sara — Emanuel disse, a voz rouca e firme. — Estamos indo para um jantar de família. Se você não conseguir manter a língua dentro da boca por duas horas, eu juro que te deixo no próximo ponto de táxi.

Sara revirou os olhos, mas se calou, cruzando as pernas e balançando o salto agulha de forma impaciente. Eduarda, sentindo a irritação de Emanuel, estendeu a mão e tocou levemente o braço dele, um gesto de carinho silencioso. Ele relaxou os ombros por um segundo, cobrindo a mão dela com a sua.

Quando estacionaram diante da mansão de Helena, o estômago de Eduarda deu um nó. Ela amava a sogra, mas sabia que a preferência da mulher por ela era o combustível perfeito para as explosões de Sara.

A porta foi aberta por Helena antes mesmo que tocassem a campainha. A mulher, elegante em um conjunto de linho, abriu um sorriso radiante assim que viu o trio, mas seus olhos brilharam de forma diferente ao pousarem na estudante de História da Arte.

— Minha querida Eduarda! — Helena ignorou o filho por um momento e envolveu a moça em um abraço caloroso. — Você está divina. Esse vestido... tão romântico, tão a sua cara. E cheira a flores!

— Obrigada, dona Helena — Eduarda respondeu, corando e retribuindo o abraço com sua habitual delicadeza. — Eu trouxe aqueles doces de lavanda que a senhora gosta.

— Um anjo, como sempre — Helena suspirou, antes de se virar para o filho e dar-lhe um beijo no rosto. — Oi, meu filho. Você parece cansado. Precisa comer mais.

E, por fim, o olhar de Helena caiu sobre Sara. O sorriso da anfitriã não desapareceu, mas tornou-se algo mais formal, quase profissional.

— Sara. Que bom que veio. Um visual... impactante, como sempre.

— É a nova coleção da Versace, Helena — Sara respondeu, entrando na casa sem esperar convite, os saltos estalando no mármore. — Achei que a ocasião pedia algo que não fosse... bom, sem graça.

O jantar foi servido na sala de jantar formal, sob um lustre de cristal que parecia observar a discórdia silenciosa à mesa. Emanuel sentou-se na cabeceira, com Eduarda à sua direita e Sara à esquerda. Helena sentou-se na outra ponta, de frente para o filho.

— E como vão os estudos, Duda? — Helena perguntou, servindo o vinho. — Emanuel me disse que você está escrevendo um artigo sobre a Renascença Italiana.

— Sim — Eduarda começou, os olhos brilhando com o tema. — Estou analisando a simbologia das flores nas obras de Botticelli. É fascinante como cada detalhe escondia um sentimento ou uma mensagem política...

— Ai, meu Deus, eu vou dormir no meio da entrada — Sara interrompeu, girando a taça de vinho com desdém. — Flores, quadros velhos e poeira. Eduarda, querida, por que você não estuda algo que realmente dê dinheiro? Administração, por exemplo. O mundo não precisa de mais ninguém para explicar por que uma margarida foi pintada em 1480.

Emanuel pousou o talher com um som seco no prato.

— Sara, a Eduarda é apaixonada pelo que faz. E ela é brilhante nisso.

— Ela é "fofa" nisso, Emanuel. Não confunda as coisas — Sara retrucou, inclinando-se para frente, o decote quase tocando a mesa. — Enquanto ela analisa pétalas, eu estou pensando em como a logística dos seus estúdios na Europa poderia ser otimizada. Você sabe que eu tenho visão para o negócio.

— Você tem visão para o gasto, Sara — Helena disparou, com uma calma cortante. — Administração é um curso maravilhoso, mas só funciona quando se pratica. E até onde eu sei, a única coisa que você administra são as suas faturas de cartão de crédito que o meu filho paga.

O silêncio que se seguiu foi gélido. Eduarda baixou a cabeça, sentindo-se pequena, e começou a brincar com o guardanapo de linho. Ela odiava conflitos. A energia agressiva de Sara a deixava fisicamente exausta. Ela sentiu uma lágrima teimosa ameaçar cair e tentou respirar fundo.

— Mãe, por favor — Emanuel interveio, a voz carregada de tensão. — Não vamos transformar o jantar em um tribunal.

— Eu não estou em tribunal nenhum — Sara disse, a voz subindo de tom, os olhos fixos em Eduarda, que parecia a vítima perfeita. — Eu só estou cansada dessa encenação. Todo mundo fingindo que a "santinha" aqui é perfeita. Ela é manhosa, Emanuel! Ela te manipula com esse jeito de quem vai quebrar a qualquer momento. É patético.

Eduarda soltou um soluço baixo, incapaz de segurar a emoção. Ela se levantou da cadeira, as pernas tremendo levemente.

— Com licença... eu... eu preciso de um pouco de ar — disse ela, a voz embargada.

— Duda, espera — Emanuel tentou segurá-la, mas ela já estava caminhando em direção à varanda que dava para o jardim.

Sara soltou uma risada triunfante.

— Viu? Qualquer coisinha e ela foge. Como você aguenta alguém tão fraca, Emanuel?

Emanuel levantou-se, a expressão agora puramente fria. Ele olhou para Sara com uma irritação que beirava o limite.

— Ela não é fraca, Sara. Ela é humana. Coisa que você parece esquecer de ser às vezes para manter essa pose de mulher de negócios que não trabalha. Fica aqui com a minha mãe. Eu vou falar com ela.

— Emanuel, não ouse me deixar aqui sozinha com ela! — Sara protestou, levantando-se também, mas Helena foi mais rápida.

— Sente-se, Sara — a voz de Helena era de puro comando. — Deixe-os. Se você quer tanto agir como uma mulher madura e poderosa, aprenda a hora de calar a boca.

No jardim, o ar da noite estava fresco e cheirava a jasmim. Eduarda estava encostada na mureta de pedra, abraçando o próprio corpo. O vestido rosa parecia pálido sob a luz da lua. Quando ouviu os passos de Emanuel, ela não se virou.

— Eu estraguei tudo, não foi? — ela perguntou, a voz falha. — Eu sou sempre a que causa problemas porque não consigo me defender.

Emanuel aproximou-se e envolveu-a por trás, abraçando sua cintura e descansando o queixo em seu ombro. Ele sentiu a maciez da pele dela e o perfume delicado que sempre o acalmava.

— Você não estragou nada, pequena — ele murmurou, a voz suavizando-se apenas para ela. — A Sara perde a mão. Ela é impulsiva e... difícil.

— Ela me odeia — Eduarda virou-se nos braços dele, os olhos vermelhos. — E eu não sei como lidar com isso. Eu tento ser legal, eu tento ignorar, mas dói. Por que você precisa dela, Emanuel? Por que não podemos apenas... ser nós?

Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento. Era a pergunta que ele se fazia nas noites de insônia. Como explicar a atração pelo caos? Como explicar que, embora Eduarda fosse sua paz, Sara era a adrenalina que ele, como artista e homem de negócios, parecia viciado em sentir?

— É complicado, Duda. Minha vida é um caos, e de alguma forma, vocês duas representam lados diferentes de mim. Mas nunca duvide do quanto eu me importo com você. Você é a única que consegue me fazer esquecer do trabalho.

Ele a puxou para um beijo lento e protetor. Eduarda derreteu-se nos braços dele, as mãos pequenas agarrando a camisa de Emanuel como se temesse que ele desaparecesse. Ela era manhosa, sim, e naquele momento, queria apenas ser carregada para longe de toda aquela hostilidade.

— Vamos voltar? — ele perguntou, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.

— Só se você prometer que não vai me deixar sozinha com ela de novo.

— Eu prometo.

Quando voltaram para a sala, Sara estava sentada no sofá, bebendo um conhaque com uma expressão de tédio mortal, enquanto Helena lia um livro do outro lado da sala, ignorando-a completamente. O clima era de uma trégua armada.

— Que lindo — Sara ironizou assim que os viu entrar de mãos dadas. — O resgate da princesa em perigo. Já podemos ir embora agora? Ou temos que esperar o momento do chá com biscoitos?

Emanuel olhou para a mãe, que apenas deu um aceno de cabeça compreensivo.

— Acho que já deu por hoje — Emanuel disse. — Mãe, o jantar estava excelente. Obrigado.

— Venha me ver amanhã, Eduarda — Helena disse, ignorando Sara completamente. — Quero que me conte mais sobre Botticelli sem interrupções vulgares.

Eduarda sorriu timidamente.

— Eu virei, dona Helena.

O caminho de volta foi silencioso, mas era um silêncio diferente. Sara estava furiosa por ter sido "vencida" pela sogra e pela passividade de Eduarda. Ela batia as unhas longas no painel do carro, o som irritante ecoando no espaço fechado.

— Você me humilhou na frente da sua mãe, Emanuel — Sara explodiu de repente, quando estavam a poucos quarteirões de casa. — Você deixou aquela velha me tratar como se eu fosse uma acompanhante de luxo.

— Você se tratou assim, Sara — Emanuel respondeu, sem tirar os olhos da estrada. — A forma como você se veste é problema seu, mas a forma como você trata as pessoas na minha casa é problema meu.

— Ah, agora a culpa é minha? — Ela riu, uma risada amarga. — Se essa sonsa não fosse tão sensível, nada disso teria acontecido. Ela usa essa timidez como arma!

Eduarda, no banco do passageiro, sentiu as lágrimas voltarem, mas desta vez, algo nela mudou. Talvez fosse o apoio de Helena ou o cansaço emocional.

— Eu não uso nada como arma, Sara — Eduarda disse, a voz firme apesar de baixa. — Eu só queria um jantar em paz. Se você se sente ameaçada por eu ser "fofa", o problema talvez seja a sua própria insegurança.

Sara ficou boquiaberta. Emanuel arqueou as sobrancelhas, surpreso com o lampejo de coragem da namorada mais jovem.

— Insegura? Eu? — Sara soltou uma gargalhada histérica. — Querida, olhe para mim. Eu sou o que todo homem deseja. Você é apenas o que eles protegem por pena.

— Chega! — Emanuel rugiu, parando o carro bruscamente na garagem do prédio de luxo onde moravam. — As duas, para fora. Agora.

O elevador subiu em um silêncio sepulcral. Ao entrarem na cobertura vasta e decorada com obras de arte modernas e fotografias de tatuagens premiadas de Emanuel, a tensão atingiu o ápice.

Emanuel jogou as chaves na mesa de centro e desabotoou os primeiros botões da camisa, exausto.

— Eu vou tomar um banho — ele anunciou. — Quando eu sair, não quero ouvir uma palavra sobre jantares, mães ou Botticelli. Se vocês não conseguem conviver, escolham quartos diferentes para passar a noite.

Ele caminhou em direção à suíte master, deixando as duas mulheres sozinhas na sala iluminada por luzes indiretas.

Sara caminhou até o bar e serviu-se de mais uma dose de uísque puro. Ela olhou para Eduarda, que estava parada perto da janela, observando as luzes de São Paulo.

— Você acha que venceu hoje, não é? — Sara perguntou, aproximando-se. O cheiro de álcool e perfume era forte. — Só porque a mamãe te ama e o Emanuel te deu um beijinho no jardim.

Eduarda virou-se, a expressão doce agora tingida de uma melancolia profunda.

— Eu não quero vencer nada, Sara. Eu só queria que você parasse de me ver como uma inimiga. Nós duas amamos o mesmo homem. Não deveria ser assim.

Sara parou por um segundo, a agressividade vacilando diante da sinceridade desarmante de Eduarda. Mas a vulnerabilidade era algo que ela não sabia processar.

— Você é irritante — Sara murmurou, embora o veneno tivesse diminuído. — Esse seu jeito... dá vontade de quebrar para ver se tem algo real por baixo dessa seda toda.

— Tem muita coisa real aqui — Eduarda respondeu, aproximando-se um passo, o que fez Sara recuar instintivamente. — Mas você está ocupada demais gritando para conseguir ouvir.

Eduarda passou por ela, caminhando em direção ao quarto de hóspedes que costumava usar quando as brigas eram intensas demais. No meio do caminho, ela parou e olhou para trás.

— Boa noite, Sara. Espero que o uísque ajude você a dormir.

Sara ficou sozinha na sala, o copo na mão, sentindo um vazio estranho. Ela olhou para o corredor por onde Emanuel tinha ido e depois para a porta onde Eduarda desaparecera.

Minutos depois, Emanuel saiu do banho, apenas de calça de moletom, e encontrou Sara sentada no sofá, olhando para o nada. Ele suspirou e sentou-se ao lado dela.

— Onde ela está? — ele perguntou.

— No quarto de hóspedes. Ela... ela me deu um "boa noite" educado depois de me chamar de barulhenta, basicamente.

Emanuel sorriu de canto, puxando Sara para perto.

— Ela tem razão. Você faz barulho demais.

— E você ama isso — ela rebateu, mordendo o lábio inferior e subindo no colo dele, recuperando seu território da única forma que sabia.

— Amo — ele admitiu, sentindo as mãos de Sara em seu pescoço. — Mas também amo o silêncio dela.

— Você é um homem impossível, Emanuel — Sara sussurrou, antes de beijá-lo com urgência.

Enquanto isso, no quarto ao lado, Eduarda abraçava o travesseiro, ouvindo o murmúrio abafado das vozes na sala. Ela sentia o coração apertado, a timidez voltando a envolvê-la como um manto protetor. Amanhã seria outro dia de provocações e olhares atravessados, de ser a "manhosa" contra a "vulgar". Mas, por enquanto, ela fechou os olhos e imaginou as flores de Botticelli, buscando na arte a paz que a realidade de seu relacionamento triplo raramente oferecia.

Ela sabia que Emanuel viria vê-la antes de dormir. Ele sempre vinha. Ele precisava do seu carinho suave para limpar o gosto amargo das brigas com Sara. E Eduarda, com sua alma intuitiva, estaria lá, pronta para ser seu refúgio, enquanto esperava que um dia, talvez, o amor fosse menos barulhento e mais parecido com uma pintura renascentista: eterno, belo e, acima de tudo, em paz.
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