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Destiny

Fandom: Mulan

Criado: 26/05/2026

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Entre o Gelo e o Lobo

A neve não era apenas fria; ela era faminta. Cada floco que pousava na pele exposta de Mulan parecia devorar um pouco mais do calor que restava em seu corpo. Ela rastejava, os dedos enterrados no pó branco e congelado, deixando para trás um rastro de carmesim que manchava a pureza da montanha. A ferida em seu flanco, cortada pela espada de Chi-Fu e agravada pelo frio cortante, pulsava com uma agonia que a fazia querer simplesmente fechar os olhos e deixar que o inverno a abraçasse para sempre.

Ela fora expulsa. Abandonada. O General Shang poupara sua vida, mas tirara dela a única coisa que a mantinha em pé: sua honra. Agora, ela não era Ping, o soldado herói, nem Mulan, a filha dedicada. Ela era um fantasma entre os picos nevados, uma decepção viva que o Império preferia esquecer.

O som do vento mudou. Não era mais apenas o uivo da tempestade, mas algo mais pesado, um ritmo que cortava o ar. Mulan tentou se levantar, mas suas pernas cederam. Ela rolou de costas, olhando para o céu cinzento, quando uma sombra imensa se projetou sobre ela.

Shan Yu.

O líder dos Hunos parecia uma força da natureza, uma personificação da própria montanha. Ele estava coberto de neve, seus olhos amarelos brilhando com uma malevolência que faria o mais bravo dos homens desmaiar. Ele segurava sua espada curva, a lâmina ainda marcada pelo fuligem da avalanche que quase dizimara seu exército.

— Então... o pequeno rato sobreviveu ao próprio gelo — a voz de Shan Yu era um rosnado grave, vibrando no peito de Mulan.

Mulan tentou alcançar sua espada, mas sua mão estava dormente. Com um esforço sobre-humano, ela se apoiou nos cotovelos, os dentes batendo violentamente.

— Vá... embora — ela sussurrou, a voz falhando.

Shan Yu soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Ele avançou, chutando a neve para o lado, e agarrou Mulan pelo colarinho da armadura roubada, levantando-a como se ela fosse feita de palha.

— Você tirou minha vitória. Você enterrou meus homens sob a montanha — ele a sacudiu, aproximando o rosto desfigurado pelo ódio do dela. — Eu vou saborear cada momento da sua morte, soldado.

Ele a arremessou contra uma rocha saliente. O impacto expulsou o ar dos pulmões de Mulan. Antes que ela pudesse se recuperar, ele estava sobre ela, a mão pesada apertando seu pescoço enquanto a outra buscava a adaga em seu cinto. Mulan lutou, chutando e arranhando, movida por um instinto primitivo de sobrevivência que nem mesmo o frio conseguira apagar.

No meio da luta brutal, o movimento brusco de Shan Yu rasgou o tecido da túnica de Mulan. Os curativos apertados que escondiam sua identidade, já frouxos pela batalha e pelo ferimento, cederam completamente. O coque alto, preso com pressa, desmoronou, e uma cascata de cabelos negros espalhou-se sobre a neve branca.

Shan Yu parou. A lâmina de sua adaga parou a milímetros da garganta dela.

Seus olhos dourados se arregalaram, percorrendo o rosto de Mulan, agora emoldurado pelos cabelos longos, e descendo para a forma revelada sob a armadura despedaçada. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a própria tempestade.

— Uma mulher? — A palavra saiu dele como um insulto, mas carregada de uma confusão genuína.

Ele a soltou abruptamente, recuando um passo. Mulan desabou na neve, tossindo e tentando cobrir o peito com as mãos trêmulas, os olhos cheios de lágrimas de dor e humilhação.

— O grande exército do Imperador... — Shan Yu começou, olhando para o horizonte onde as tropas chinesas haviam partido. — Eles deixaram você aqui.

— Eles não sabem... eles não entenderam — Mulan murmurou, a consciência oscilando.

— Eles sabem exatamente o que você é agora — Shan Yu sibilou, a fúria voltando, mas de uma forma diferente. — Eles a descartaram como lixo. Depois de tudo o que você fez. Depois de derrotar o meu exército sozinha.

Ele caminhou em círculos ao redor dela, como um lobo avaliando uma presa que se revelara algo muito mais interessante do que um simples cordeiro.

— Você é a criatura mais fascinante que já encontrei — disse ele, parando diante dela. — Eles a odeiam por ser o que é, enquanto eu os odeio pelo que eles fingem ser.

— Mate-me logo — desafiou Mulan, reunindo o último resquício de sua força para encará-lo. — Não me dê discursos.

Shan Yu inclinou a cabeça, observando a chama de desafio que ainda ardia naqueles olhos castanhos, apesar da hipotermia. Ele viu nela o reflexo de sua própria existência: um pária, alguém que não pertencia a lugar nenhum, odiado pelo mundo civilizado que ele tanto desejava destruir.

— Não — disse ele, guardando a adaga. — A morte seria um desperdício. O Imperador quer que você morra no esquecimento. Eu quero ver o que acontece quando o maior erro da China se torna sua maior ameaça.

Ele se inclinou e, sem qualquer delicadeza, jogou Mulan por cima do ombro.

— O que... o que está fazendo? — ela protestou, sua voz mal passando de um suspiro.

— Salvando o que eles jogaram fora — respondeu Shan Yu, começando a caminhar através da nevasca em direção ao acampamento oculto dos sobreviventes hunos. — Você vai viver, mulher. Nem que seja para que eu possa entender como uma única garota conseguiu me humilhar.

***

Mulan acordou com o estalar de lenha queimando. O calor era tão intenso que chegava a ser doloroso contra sua pele congelada. Ela tentou se levantar, mas uma mão pesada em seu ombro a empurrou de volta para o monte de peles de animais.

— Não se mova — ordenou uma voz áspera.

Ela olhou para o lado e viu Shan Yu sentado perto do fogo, limpando sua espada com uma pedra de amolar. Ela estava dentro de uma tenda de couro, o cheiro de fumaça e carne seca impregnando o ar. Mulan percebeu, com um sobressalto de pânico, que suas roupas de soldado haviam sido removidas. Ela estava envolta em mantas grossas de pele de lobo, e seu ferimento fora limpo e cauterizado.

— Por que me ajudou? — ela perguntou, a voz ainda rouca.

Shan Yu não desviou os olhos da lâmina.

— Eu não ajudo as pessoas. Eu coleciono armas. E você provou ser a arma mais eficaz que o Império já teve. O fato de eles terem quebrado você e a jogado fora apenas facilita o meu trabalho.

— Eu não sou uma arma para você usar — retrucou Mulan, sentindo uma pontada de indignação que aqueceu seu sangue.

Shan Yu parou de amolar a espada e olhou para ela. A luz das chamas dançava em seu rosto cruel, acentuando as cicatrizes.

— Você não tem mais nada, Mulan — ele disse o nome dela com uma pronúncia estranha, arrastada. — Sua família sentirá vergonha de você. Seu exército a executará se você cruzar o caminho deles. Para o mundo, você está morta. Para mim, você é a única coisa nesta montanha que vale a pena manter viva.

— Você matou milhares — disse ela, a voz tremendo de emoção. — Destruiu vilas. Como pode esperar que eu fique aqui?

— Eu sou um monstro, sim — Shan Yu levantou-se, caminhando até ela com uma agilidade predatória. Ele se ajoelhou ao lado de sua cama improvisada, emanando uma aura de poder e perigo. — Mas eu sou um monstro honesto. Eu não me escondo atrás de decretos imperiais ou tradições que dizem quem pode ou não segurar uma espada. Eu vejo força e a tomo para mim.

Ele estendeu a mão e tocou uma mecha do cabelo curto de Mulan, um gesto que era ao mesmo tempo ameaçador e estranhamente íntimo.

— Eles a traíram. Eu ofereço a você o que eles nunca poderiam: um lugar onde sua força é a única lei que importa.

Mulan desviou o rosto, as lágrimas finalmente caindo. A dor da traição de Shang e de seus companheiros de armas ainda era uma ferida aberta, muito mais profunda que o corte em seu flanco. Ela se sentia vazia, um receptáculo de sonhos quebrados.

— Eu quero ir para casa — ela soluçou.

— Você não tem mais casa — Shan Yu disse, sua voz suavizando-se apenas um pouco, tornando-se uma tentação sombria. — Sua casa agora é o aço e o vento.

Ele se levantou e foi até a entrada da tenda, olhando para a vastidão branca lá fora.

— Descanse. Amanhã, decidiremos se você vai cavalgar ao meu lado ou se prefere tentar a sorte na neve novamente. Mas saiba de uma coisa, pequena guerreira: o lobo não abandona os seus, ao contrário dos homens que você chamava de irmãos.

Mulan fechou os olhos, o som do vento lá fora parecendo agora um eco de sua própria solidão. Ela odiava o homem à sua frente, odiava tudo o que ele representava. Mas, no silêncio daquela noite gelada, uma verdade terrível começou a criar raízes em seu coração: pela primeira vez em sua vida, alguém a vira por quem ela realmente era, e não pedira que ela mudasse.

Shan Yu era o seu inimigo, o vilão de todas as histórias. Mas, naquela montanha onde a honra morria e o gelo reinava, ele era a única mão estendida que não exigia que ela fosse um homem para ser respeitada.

E, enquanto o sono a levava novamente, Mulan soube que a garota que saíra de casa para salvar o pai nunca mais voltaria. Algo novo estava nascendo nas sombras das montanhas, algo forjado no ódio e temperado pela sobrevivência.
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