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Fandom: Nenhum
Criado: 26/05/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaPsicológicoEstudo de PersonagemCiúmesSombrioSuspenseLinguagem ExplícitaRealismoCrimeNoirHumorCrack / Humor Paródico
Entre a Tinta e o Veneno
O ronco do motor da SUV de luxo de Emanuel era o único som que preenchia o interior do veículo, além do clique metálico e irritante das unhas de gel de Sara contra a tela do celular. O clima estava denso, carregado por uma eletricidade que parecia prestes a explodir a qualquer momento. No banco do passageiro, Sara exibia seu habitual ar de superioridade, vestindo um vestido vermelho curtíssimo e justo, que deixava pouco para a imaginação. Atrás, encolhida contra o couro do banco, Eduarda observava a paisagem urbana de São Paulo passar como um borrão, apertando as alças de seu vestido de seda azul-claro, um modelo romântico com rendas delicadas que Emanuel adorava.
Emanuel mantinha as mãos firmes no volante. Seus olhos, marcados pelo cansaço de gerenciar um império de estúdios de tatuagem ao redor do mundo, estavam fixos na estrada. Ele amava as duas, de formas terrivelmente diferentes, mas a convivência entre elas era um campo minado que ele era forçado a atravessar todos os dias.
— Dá para você parar de respirar tão alto aí atrás, Eduarda? Tá me desconcentrando — disparou Sara, sem sequer desviar os olhos do Instagram.
Eduarda estremeceu, os olhos grandes e expressivos murchando instantaneamente. Ela se encolheu ainda mais, buscando conforto no próprio corpo.
— Eu... eu não estou fazendo por mal, Sara. Desculpe.
— Tudo o que você faz é "sem querer", né? Essa carinha de santa não me engana — debochou a loira, ajeitando o busto farto, turbinado por próteses de silicone que ela fazia questão de exibir com decotes profundos. — Emanuel, por que a gente tem que levar ela junto? É dia de beleza, não de creche.
Emanuel apertou o volante com mais força, os nós dos dedos ficando brancos.
— Chega, Sara. Fomos convidados para o evento da galeria hoje à noite. A Eduarda estuda História da Arte, ela é a mais interessada nisso. E as duas precisam estar impecáveis. Eu pago, eu decido.
O tom de voz dele era baixo, sombrio, carregado de uma autoridade que raramente era questionada. Sara bufou, cruzando os braços e empinando os lábios pintados de um batom carmim berrante. Eduarda, por outro lado, sentiu um pequeno alento. Emanuel sempre a protegia, mesmo que de forma contida. Ela esticou a mão timidamente e tocou o ombro dele por trás.
— Obrigada, Manu — sussurrou ela, com a voz manhosa que sempre amolecia o coração do tatuador.
Emanuel olhou pelo retrovisor, encontrando o olhar doce da jovem de vinte anos. Por um breve segundo, a tensão em seu rosto relaxou.
— De nada, pequena.
O carro parou em frente a um dos salões mais exclusivos do Jardins. O letreiro minimalista indicava a sofisticação do local. Assim que entraram, o aroma de perfumes caros e produtos de alta tecnologia capilar os envolveu. Helena, a proprietária e uma das cabeleireiras mais respeitadas da cidade, veio recebê-los com um sorriso profissional.
— Emanuel, querido! Que prazer recebê-lo. E estas devem ser suas acompanhantes.
— Olá, Helena — Emanuel cumprimentou com um aceno seco. — Preciso que as duas estejam perfeitas para a noite. A Eduarda quer algo clássico, suave. A Sara... bom, você sabe o estilo dela.
Sara deu um passo à frente, empurrando levemente Eduarda para o lado com o quadril.
— O meu estilo é de quem tem dinheiro e bom gosto, querida — disse Sara, olhando para Helena de cima a baixo com desdém. — E espero que você tenha alguém melhor do que da última vez para lavar meu cabelo. Aquela menina quase arrancou meus cílios com a água.
Helena manteve o sorriso, embora seus olhos tenham brilhado com uma faísca de irritação.
— Nossos profissionais são os melhores do país, senhorita.
— É o que dizem, mas esse chão parece um pouco empoeirado para um salão desse preço, não acha? — Sara passou o dedo por uma mesa de vidro impecável e fingiu analisar uma partícula invisível. — E esse café que estão servindo... cheira a queimado. Emanuel, tem certeza que não quer me levar em outro lugar?
Emanuel suspirou, uma expressão sombria nublando seu rosto. Ele se aproximou de Sara, parando a poucos centímetros dela. Sua presença física era imponente, e a aura de controle que ele emanava costumava silenciar até os mais corajosos.
— Sara, você vai sentar naquela cadeira, vai fechar a boca e deixar a Helena trabalhar. Se eu ouvir mais uma reclamação desnecessária ou qualquer grosseria com a equipe dela, nós voltamos agora para o apartamento e você passa a noite trancada. Fui claro?
Sara engoliu em seco. Ela adorava testar os limites de Emanuel, mas sabia exatamente quando ele estava prestes a explodir. Ela deu um sorriso forçado e deu de ombros.
— Credo, que mau humor. Eu só estava comentando.
Enquanto Sara era escoltada para uma das cadeiras principais, Eduarda permanecia em pé, perto da entrada, parecendo querer desaparecer. Ela odiava conflitos. A agressividade de Sara a deixava fisicamente exausta.
— Duda? — Emanuel chamou, suavizando o tom.
Ela caminhou até ele e se apoiou em seu braço, escondendo o rosto levemente em seu ombro.
— Eu não gosto quando ela fala assim com as pessoas, Manu. Me deixa triste.
— Eu sei, meu anjo — Emanuel passou o braço pela cintura dela, sentindo a fragilidade de seu corpo esguio. — Vá com a assistente da Helena. Ela vai cuidar de você. Peça o que quiser, não se preocupe com o tempo.
Eduarda assentiu, dando um beijo casto na bochecha dele antes de seguir para a área de lavagem.
As horas seguintes foram um exercício de paciência para todos os envolvidos. De um lado do salão, Sara comandava três funcionários ao mesmo tempo. Ela gritava ao celular sobre uma bolsa que queria comprar, reclamava da temperatura da água e exigia que sua maquiagem fosse "mais marcante, algo que mostre quem manda".
— Mais brilho nos olhos! — ordenava Sara. — Eu não quero parecer uma dessas meninas de faculdade que usam apenas gloss. Eu quero impacto. Entendeu ou precisa que eu desenhe?
Do outro lado, o ambiente era oposto. Eduarda estava sentada em silêncio, apreciando o toque das mãos da cabeleireira. Ela escolhera um penteado semi-preso com ondas naturais e uma maquiagem em tons de pêssego e nude, que realçava a doçura de seus traços finos.
— Você tem um cabelo lindo, querida — comentou a assistente. — É tão macio.
— Obrigada — respondeu Eduarda, com um sorriso tímido. — Eu gosto de coisas simples. Acho que a arte está nos detalhes pequenos, sabe?
Emanuel observava as duas de longe, sentado em uma poltrona de couro, folheando uma revista de design, mas sem realmente ler nada. Ele era um homem de contrastes. Sua mente lógica apreciava a eficiência de Sara na administração de sua imagem e o fogo que ela trazia para a cama, mas sua alma, cansada da brutalidade do mundo dos negócios e da crueza das agulhas de tatuagem, buscava refúgio na paz que Eduarda proporcionava.
O problema era que essas duas metades de sua vida pareciam destinadas a colidir e se destruir.
De repente, um grito ecoou pelo salão.
— Você está louca?! Olha o que você fez! — Sara estava de pé, apontando para uma mancha minúscula de spray de cabelo que havia caído em sua bolsa de grife.
A jovem estagiária que a atendia estava pálida, tremendo.
— Me desculpe, senhora, eu... eu limpo agora mesmo...
— "Senhora" é a sua mãe! Você estragou o couro! Emanuel! Olha isso!
Emanuel se levantou lentamente. O som de seus passos no piso de mármore parecia o tique-taque de uma bomba. Ele caminhou até Sara, que esperava que ele a defendesse e, talvez, exigisse a demissão da garota.
— Sara, cala a boca — disse ele, a voz tão fria que fez o ar ao redor parecer congelar.
— Mas ela...
— Eu disse para calar a boca. Agora. — Ele olhou para a estagiária. — Vá para o fundo, tire dez minutos de descanso. Eu resolvo isso com a Helena depois.
Eduarda, atraída pelo barulho, aproximou-se devagar. Ela viu a expressão de ódio no rosto de Sara e a tensão nos ombros de Emanuel.
— Sara, foi só um acidente — disse Eduarda, com a voz baixa e trêmula. — Não precisa gritar.
Sara virou-se para ela como uma leoa pronta para o bote.
— E quem pediu a sua opinião, sua mosca morta? Você passa o dia olhando para quadros velhos e agindo como se fosse uma criança de cinco anos. Por que não volta para o seu cantinho e me deixa em paz? Você é um peso morto na vida do Emanuel, sabia? Ele só te carrega por pena.
As palavras atingiram Eduarda como um soco. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. Ela não respondeu; o silêncio era sua única defesa. Ela deu um passo para trás, buscando o apoio de uma parede.
Emanuel sentiu a raiva borbulhar. Ele não era um homem de explosões histéricas, mas de ações decisivas. Ele segurou o braço de Sara com firmeza — não para machucar, mas para garantir que ela o ouvisse.
— Você passou de todos os limites hoje — murmurou ele, o rosto a centímetros do dela. — A Eduarda vale dez de você em termos de caráter. Se você disser mais uma palavra ofensiva para ela ou para qualquer pessoa neste salão, você vai sair daqui a pé, sem cartões, sem motorista e sem o convite para o evento. Eu cansei do seu show, Sara.
Sara abriu a boca para retrucar, mas a escuridão no olhar de Emanuel a fez recuar. Ele parecia perigoso, como o homem que construiu um império do nada, lidando com gangues e magnatas com a mesma frieza. Ela bufou, sentando-se novamente na cadeira e virando o rosto para o espelho, os olhos brilhando de fúria e humilhação.
Emanuel caminhou até Eduarda. Ela estava com a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas.
— Ei — chamou ele suavemente.
— Ela está certa, Manu? — perguntou ela, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto. — Você me protege só porque tem pena de mim? Porque eu sou fraca?
Emanuel suspirou, puxando-a para um abraço apertado. Ele enterrou o rosto no cabelo dela, sentindo o perfume de flores que ela sempre exalava.
— Ela não sabe o que diz, Duda. Eu te protejo porque você é a única coisa real e pura que eu tenho. O mundo é barulhento demais, e você é o meu silêncio. Não deixe que o veneno dela te atinja.
Eduarda se aconchegou nele, buscando proteção sob seu casaco escuro. Ela era manhosa, dependente daquele afeto para se sentir segura.
— Promete que não vai me deixar sozinha com ela hoje à noite?
— Eu prometo.
Emanuel olhou por cima da cabeça de Eduarda e viu Sara observando-os pelo espelho. O olhar da loira era carregado de inveja e ressentimento. Ele sabia que aquela paz era temporária. Logo, ele teria que lidar com as exigências de Sara, com sua sensualidade agressiva e sua necessidade de ser o centro das atenções. Ele teria que mediar mais uma briga, pagar mais uma conta cara para compensar um insulto, e tentar manter o equilíbrio precário de sua vida privada.
— Vamos terminar isso — disse Emanuel para o salão em geral, embora seus olhos estivessem fixos no vazio. — Temos um evento para ir.
O restante da tarde passou em um silêncio tenso. Sara terminou sua transformação, emergindo como uma "femme fatale" moderna, com cabelos loiros platinados perfeitamente ondulados e uma maquiagem que a tornava quase intimidante. Eduarda parecia uma pintura renascentista que ganhou vida, delicada e etérea em sua elegância simples.
Quando saíram do salão, Emanuel caminhava entre as duas. Sara de um lado, tentando segurar seu braço e exibir sua conquista; Eduarda do outro, segurando sua mão com força, como se temesse ser levada pelo vento.
Ele era o mestre das tintas, capaz de criar beleza permanente na pele das pessoas, mas ali, entre as duas mulheres que amava, ele se sentia como um homem tentando desenhar na água. A beleza de Eduarda o acalmava, mas a vulgaridade e a força de Sara o desafiavam. E, no fundo, Emanuel sabia que, por mais que tentasse controlar a situação com sua lógica e autoridade, ele era o prisioneiro daquele conflito eterno entre a doçura e o veneno.
Ao entrarem no carro, Sara quebrou o silêncio mais uma vez.
— Espero que o buffet seja bom. Estou morrendo de fome.
— Eu só quero ver as obras do mestre que você tatuou, Manu — disse Eduarda, baixinho.
Emanuel deu partida no motor.
— Vai ser uma longa noite — murmurou ele para si mesmo, enquanto a SUV desaparecia no trânsito de São Paulo, levando consigo três corações que, embora batessem juntos, nunca pareciam estar na mesma sintonia.
Emanuel mantinha as mãos firmes no volante. Seus olhos, marcados pelo cansaço de gerenciar um império de estúdios de tatuagem ao redor do mundo, estavam fixos na estrada. Ele amava as duas, de formas terrivelmente diferentes, mas a convivência entre elas era um campo minado que ele era forçado a atravessar todos os dias.
— Dá para você parar de respirar tão alto aí atrás, Eduarda? Tá me desconcentrando — disparou Sara, sem sequer desviar os olhos do Instagram.
Eduarda estremeceu, os olhos grandes e expressivos murchando instantaneamente. Ela se encolheu ainda mais, buscando conforto no próprio corpo.
— Eu... eu não estou fazendo por mal, Sara. Desculpe.
— Tudo o que você faz é "sem querer", né? Essa carinha de santa não me engana — debochou a loira, ajeitando o busto farto, turbinado por próteses de silicone que ela fazia questão de exibir com decotes profundos. — Emanuel, por que a gente tem que levar ela junto? É dia de beleza, não de creche.
Emanuel apertou o volante com mais força, os nós dos dedos ficando brancos.
— Chega, Sara. Fomos convidados para o evento da galeria hoje à noite. A Eduarda estuda História da Arte, ela é a mais interessada nisso. E as duas precisam estar impecáveis. Eu pago, eu decido.
O tom de voz dele era baixo, sombrio, carregado de uma autoridade que raramente era questionada. Sara bufou, cruzando os braços e empinando os lábios pintados de um batom carmim berrante. Eduarda, por outro lado, sentiu um pequeno alento. Emanuel sempre a protegia, mesmo que de forma contida. Ela esticou a mão timidamente e tocou o ombro dele por trás.
— Obrigada, Manu — sussurrou ela, com a voz manhosa que sempre amolecia o coração do tatuador.
Emanuel olhou pelo retrovisor, encontrando o olhar doce da jovem de vinte anos. Por um breve segundo, a tensão em seu rosto relaxou.
— De nada, pequena.
O carro parou em frente a um dos salões mais exclusivos do Jardins. O letreiro minimalista indicava a sofisticação do local. Assim que entraram, o aroma de perfumes caros e produtos de alta tecnologia capilar os envolveu. Helena, a proprietária e uma das cabeleireiras mais respeitadas da cidade, veio recebê-los com um sorriso profissional.
— Emanuel, querido! Que prazer recebê-lo. E estas devem ser suas acompanhantes.
— Olá, Helena — Emanuel cumprimentou com um aceno seco. — Preciso que as duas estejam perfeitas para a noite. A Eduarda quer algo clássico, suave. A Sara... bom, você sabe o estilo dela.
Sara deu um passo à frente, empurrando levemente Eduarda para o lado com o quadril.
— O meu estilo é de quem tem dinheiro e bom gosto, querida — disse Sara, olhando para Helena de cima a baixo com desdém. — E espero que você tenha alguém melhor do que da última vez para lavar meu cabelo. Aquela menina quase arrancou meus cílios com a água.
Helena manteve o sorriso, embora seus olhos tenham brilhado com uma faísca de irritação.
— Nossos profissionais são os melhores do país, senhorita.
— É o que dizem, mas esse chão parece um pouco empoeirado para um salão desse preço, não acha? — Sara passou o dedo por uma mesa de vidro impecável e fingiu analisar uma partícula invisível. — E esse café que estão servindo... cheira a queimado. Emanuel, tem certeza que não quer me levar em outro lugar?
Emanuel suspirou, uma expressão sombria nublando seu rosto. Ele se aproximou de Sara, parando a poucos centímetros dela. Sua presença física era imponente, e a aura de controle que ele emanava costumava silenciar até os mais corajosos.
— Sara, você vai sentar naquela cadeira, vai fechar a boca e deixar a Helena trabalhar. Se eu ouvir mais uma reclamação desnecessária ou qualquer grosseria com a equipe dela, nós voltamos agora para o apartamento e você passa a noite trancada. Fui claro?
Sara engoliu em seco. Ela adorava testar os limites de Emanuel, mas sabia exatamente quando ele estava prestes a explodir. Ela deu um sorriso forçado e deu de ombros.
— Credo, que mau humor. Eu só estava comentando.
Enquanto Sara era escoltada para uma das cadeiras principais, Eduarda permanecia em pé, perto da entrada, parecendo querer desaparecer. Ela odiava conflitos. A agressividade de Sara a deixava fisicamente exausta.
— Duda? — Emanuel chamou, suavizando o tom.
Ela caminhou até ele e se apoiou em seu braço, escondendo o rosto levemente em seu ombro.
— Eu não gosto quando ela fala assim com as pessoas, Manu. Me deixa triste.
— Eu sei, meu anjo — Emanuel passou o braço pela cintura dela, sentindo a fragilidade de seu corpo esguio. — Vá com a assistente da Helena. Ela vai cuidar de você. Peça o que quiser, não se preocupe com o tempo.
Eduarda assentiu, dando um beijo casto na bochecha dele antes de seguir para a área de lavagem.
As horas seguintes foram um exercício de paciência para todos os envolvidos. De um lado do salão, Sara comandava três funcionários ao mesmo tempo. Ela gritava ao celular sobre uma bolsa que queria comprar, reclamava da temperatura da água e exigia que sua maquiagem fosse "mais marcante, algo que mostre quem manda".
— Mais brilho nos olhos! — ordenava Sara. — Eu não quero parecer uma dessas meninas de faculdade que usam apenas gloss. Eu quero impacto. Entendeu ou precisa que eu desenhe?
Do outro lado, o ambiente era oposto. Eduarda estava sentada em silêncio, apreciando o toque das mãos da cabeleireira. Ela escolhera um penteado semi-preso com ondas naturais e uma maquiagem em tons de pêssego e nude, que realçava a doçura de seus traços finos.
— Você tem um cabelo lindo, querida — comentou a assistente. — É tão macio.
— Obrigada — respondeu Eduarda, com um sorriso tímido. — Eu gosto de coisas simples. Acho que a arte está nos detalhes pequenos, sabe?
Emanuel observava as duas de longe, sentado em uma poltrona de couro, folheando uma revista de design, mas sem realmente ler nada. Ele era um homem de contrastes. Sua mente lógica apreciava a eficiência de Sara na administração de sua imagem e o fogo que ela trazia para a cama, mas sua alma, cansada da brutalidade do mundo dos negócios e da crueza das agulhas de tatuagem, buscava refúgio na paz que Eduarda proporcionava.
O problema era que essas duas metades de sua vida pareciam destinadas a colidir e se destruir.
De repente, um grito ecoou pelo salão.
— Você está louca?! Olha o que você fez! — Sara estava de pé, apontando para uma mancha minúscula de spray de cabelo que havia caído em sua bolsa de grife.
A jovem estagiária que a atendia estava pálida, tremendo.
— Me desculpe, senhora, eu... eu limpo agora mesmo...
— "Senhora" é a sua mãe! Você estragou o couro! Emanuel! Olha isso!
Emanuel se levantou lentamente. O som de seus passos no piso de mármore parecia o tique-taque de uma bomba. Ele caminhou até Sara, que esperava que ele a defendesse e, talvez, exigisse a demissão da garota.
— Sara, cala a boca — disse ele, a voz tão fria que fez o ar ao redor parecer congelar.
— Mas ela...
— Eu disse para calar a boca. Agora. — Ele olhou para a estagiária. — Vá para o fundo, tire dez minutos de descanso. Eu resolvo isso com a Helena depois.
Eduarda, atraída pelo barulho, aproximou-se devagar. Ela viu a expressão de ódio no rosto de Sara e a tensão nos ombros de Emanuel.
— Sara, foi só um acidente — disse Eduarda, com a voz baixa e trêmula. — Não precisa gritar.
Sara virou-se para ela como uma leoa pronta para o bote.
— E quem pediu a sua opinião, sua mosca morta? Você passa o dia olhando para quadros velhos e agindo como se fosse uma criança de cinco anos. Por que não volta para o seu cantinho e me deixa em paz? Você é um peso morto na vida do Emanuel, sabia? Ele só te carrega por pena.
As palavras atingiram Eduarda como um soco. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente. Ela não respondeu; o silêncio era sua única defesa. Ela deu um passo para trás, buscando o apoio de uma parede.
Emanuel sentiu a raiva borbulhar. Ele não era um homem de explosões histéricas, mas de ações decisivas. Ele segurou o braço de Sara com firmeza — não para machucar, mas para garantir que ela o ouvisse.
— Você passou de todos os limites hoje — murmurou ele, o rosto a centímetros do dela. — A Eduarda vale dez de você em termos de caráter. Se você disser mais uma palavra ofensiva para ela ou para qualquer pessoa neste salão, você vai sair daqui a pé, sem cartões, sem motorista e sem o convite para o evento. Eu cansei do seu show, Sara.
Sara abriu a boca para retrucar, mas a escuridão no olhar de Emanuel a fez recuar. Ele parecia perigoso, como o homem que construiu um império do nada, lidando com gangues e magnatas com a mesma frieza. Ela bufou, sentando-se novamente na cadeira e virando o rosto para o espelho, os olhos brilhando de fúria e humilhação.
Emanuel caminhou até Eduarda. Ela estava com a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas.
— Ei — chamou ele suavemente.
— Ela está certa, Manu? — perguntou ela, uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto. — Você me protege só porque tem pena de mim? Porque eu sou fraca?
Emanuel suspirou, puxando-a para um abraço apertado. Ele enterrou o rosto no cabelo dela, sentindo o perfume de flores que ela sempre exalava.
— Ela não sabe o que diz, Duda. Eu te protejo porque você é a única coisa real e pura que eu tenho. O mundo é barulhento demais, e você é o meu silêncio. Não deixe que o veneno dela te atinja.
Eduarda se aconchegou nele, buscando proteção sob seu casaco escuro. Ela era manhosa, dependente daquele afeto para se sentir segura.
— Promete que não vai me deixar sozinha com ela hoje à noite?
— Eu prometo.
Emanuel olhou por cima da cabeça de Eduarda e viu Sara observando-os pelo espelho. O olhar da loira era carregado de inveja e ressentimento. Ele sabia que aquela paz era temporária. Logo, ele teria que lidar com as exigências de Sara, com sua sensualidade agressiva e sua necessidade de ser o centro das atenções. Ele teria que mediar mais uma briga, pagar mais uma conta cara para compensar um insulto, e tentar manter o equilíbrio precário de sua vida privada.
— Vamos terminar isso — disse Emanuel para o salão em geral, embora seus olhos estivessem fixos no vazio. — Temos um evento para ir.
O restante da tarde passou em um silêncio tenso. Sara terminou sua transformação, emergindo como uma "femme fatale" moderna, com cabelos loiros platinados perfeitamente ondulados e uma maquiagem que a tornava quase intimidante. Eduarda parecia uma pintura renascentista que ganhou vida, delicada e etérea em sua elegância simples.
Quando saíram do salão, Emanuel caminhava entre as duas. Sara de um lado, tentando segurar seu braço e exibir sua conquista; Eduarda do outro, segurando sua mão com força, como se temesse ser levada pelo vento.
Ele era o mestre das tintas, capaz de criar beleza permanente na pele das pessoas, mas ali, entre as duas mulheres que amava, ele se sentia como um homem tentando desenhar na água. A beleza de Eduarda o acalmava, mas a vulgaridade e a força de Sara o desafiavam. E, no fundo, Emanuel sabia que, por mais que tentasse controlar a situação com sua lógica e autoridade, ele era o prisioneiro daquele conflito eterno entre a doçura e o veneno.
Ao entrarem no carro, Sara quebrou o silêncio mais uma vez.
— Espero que o buffet seja bom. Estou morrendo de fome.
— Eu só quero ver as obras do mestre que você tatuou, Manu — disse Eduarda, baixinho.
Emanuel deu partida no motor.
— Vai ser uma longa noite — murmurou ele para si mesmo, enquanto a SUV desaparecia no trânsito de São Paulo, levando consigo três corações que, embora batessem juntos, nunca pareciam estar na mesma sintonia.
