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Fandom: Nenhum

Criado: 27/05/2026

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Traços de Tinta e Silêncio

Emanuel nunca foi um homem de acreditar em destino, mas acreditava em impacto. Como um tatuador que passou anos marcando peles com precisão cirúrgica, ele sabia que certas linhas, uma vez traçadas, jamais poderiam ser apagadas. O dia em que conheceu Eduarda na faculdade de História da Arte foi exatamente assim: um traço definitivo em sua vida.

Ele havia sido convidado para dar uma palestra sobre a estética da modificação corporal e a história dos pigmentos. O auditório estava cheio, mas seus olhos pararam nela. Eduarda estava sentada na terceira fileira, vestindo um vestido de seda clara que caía suavemente sobre seus ombros, o rosto emoldurado por cabelos castanhos naturais que pareciam brilhar sob a luz fluorescente. Ela não anotava nada; ela apenas o observava com um olhar sensível, uma expressão de quem via além da superfície da pele.

Emanuel, acostumado com a presença vibrante e muitas vezes exaustiva de Sara, sentiu um choque térmico de serenidade. Sara era o sol do meio-dia: quente, ofuscante e impossível de ignorar com suas curvas acentuadas pelo silicone e sua voz que sempre exigia atenção. Eduarda era o amanhecer: suave, silenciosa e necessária.

Foram trinta dias de insistência. Emanuel, o dono de um império de estúdios de tatuagem, rico e respeitado, viu-se agindo como um adolescente. Ele a esperava na saída das aulas, enviava flores discretas e tentava quebrar a barreira da timidez dela. Quando finalmente saíram, ele descobriu que Eduarda não era apenas bonita; ela era manhosa de um jeito que despertava nele um instinto protetor que ele nem sabia que possuía.

Três meses depois, o inevitável aconteceu. Entre lençóis de linho e o perfume floral dela, Emanuel se viu perdidamente apaixonado. Mas havia um problema, um problema chamado Sara. Ele já namorava a loira há quatro meses quando conheceu Eduarda. Sara era a administração do caos, a mulher que frequentava as festas mais caras e usava as roupas mais ousadas, sempre marcando território.

Emanuel tentou racionalizar. Ele era um homem prático, um solucionador de problemas. Mas como resolver o fato de que ele amava a intensidade de Sara e a paz de Eduarda? Ele queria as duas. Queria a estrutura de uma e a doçura da outra. Ele estava pronto para abrir o jogo, para propor o impossível, até que o destino decidiu cobrar a conta de suas escolhas.

O dia começou com Sara. Ela entrou em seu escritório principal, batendo os saltos altos com força contra o piso de porcelanato, o perfume doce e forte inundando o ambiente antes mesmo dela abrir a boca.

— Emanuel, querido, pare de olhar para esses desenhos — disse ela, jogando a bolsa de grife sobre a mesa dele. — Temos um problema. Ou uma solução, dependendo de como você encarar.

Emanuel suspirou, sentindo a tensão habitual subir pela nuca.

— O que foi agora, Sara? Alguma conta que você esqueceu de pagar?

— Não seja idiota — ela sorriu, um sorriso vitorioso que não chegava aos olhos frios. — Eu estou grávida. Você vai ser pai, tatuador.

O mundo de Emanuel girou. Ele não teve tempo de processar, de sentir alegria ou pavor, porque o celular em seu bolso vibrou freneticamente. Era uma mensagem da recepção do estúdio no andar de baixo: "Eduarda está aqui. Ela não parece bem."

Ele despachou Sara com uma promessa vazia de que conversariam à noite e desceu as escadas quase correndo. O contraste não poderia ser mais doloroso. Enquanto Sara estava radiante com o poder que a notícia lhe conferia, Eduarda estava encolhida em um sofá de couro no fundo do estúdio, as mãos pequenas tremendo enquanto segurava um lenço.

Ela usava uma saia midi plissada e uma blusa de renda fina, um visual sexy romântico que sempre o encantava, mas agora ela parecia pequena, frágil demais para o ambiente carregado de agulhas e tinta.

— Duda? — Emanuel se aproximou, sua voz suavizando instantaneamente.

Ao ouvir a voz dele, Eduarda levantou o rosto. Seus olhos, naturalmente expressivos, estavam vermelhos e transbordando lágrimas. Ela se levantou e praticamente tropeçou em direção a ele, escondendo o rosto no peito de Emanuel, buscando o refúgio que ele sempre representou.

— Emanuel... eu não sei o que fazer — ela soluçou, a voz abafada pela camisa dele.

— Calma, meu bem. Respira — ele passou os braços ao redor dela, sentindo a leveza do corpo de Eduarda contra o seu. — O que aconteceu? Alguém te machucou na faculdade?

Eduarda negou com a cabeça, apertando o tecido da camisa dele entre os dedos. Ela se afastou apenas o suficiente para olhá-lo, o lábio inferior tremendo de um jeito que partia o coração dele.

— Eu fui ao médico hoje... — ela começou, a voz falhando. — Eu andava me sentindo tonta, achei que fosse o estresse das provas de História da Arte... Mas não é, Emanuel.

Emanuel sentiu um frio gélido percorrer sua espinha. Ele já sabia o que viria, mas a confirmação parecia um peso impossível de carregar.

— Eu estou grávida — sussurrou ela, antes de desabar em um novo choro, escondendo o rosto nas mãos. — Eu estou com tanto medo. Meus pais, a faculdade... O que vai ser de nós?

Emanuel a puxou de volta para um abraço apertado, fechando os olhos com força. O silêncio do estúdio parecia gritar. Ele sentia o calor de Eduarda, a necessidade dela por proteção, enquanto a imagem de Sara, confiante e grávida no andar de cima, ainda queimava em sua mente.

— Ei, olha para mim — ele pediu, segurando o rosto delicado dela com as mãos marcadas por tinta e cicatrizes. — Não precisa ter medo. Eu estou aqui. Eu sempre vou cuidar de você.

— Você promete? — Eduarda perguntou, com aquela manha típica que o desarmava totalmente, os olhos grandes implorando por uma segurança que ele mesmo não tinha naquele momento.

— Eu prometo — ele afirmou, embora sua mente racional estivesse em colapso. — Nada vai faltar para você ou para esse bebê. Eu vou resolver tudo.

— Eu me sinto tão sozinha com isso, Emanuel... — ela murmurou, encostando a testa no ombro dele. — Eu não queria que fosse assim, eu queria que fosse um momento feliz, mas eu estou tão assustada.

— Você não está sozinha, Duda. Nunca mais vai estar — ele beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de lavanda de seus cabelos.

Por dentro, Emanuel estava em guerra. Ele era um homem de controle, mas a situação havia escapado por entre seus dedos como tinta diluída. Duas mulheres, dois bebês, um único homem que não conseguia abrir mão de nenhuma delas.

A fragilidade de Eduarda o prendia pelo amor e pela necessidade de ser o seu pilar. A força de Sara o prendia pela história e pela paixão que ainda ardia, por mais tóxica que fosse.

— Vem, vamos para minha casa — Emanuel disse, guiando Eduarda em direção à saída lateral para evitar qualquer chance de encontro com Sara. — Você precisa descansar. Eu vou cuidar de tudo.

— Você vai ficar comigo hoje? — ela perguntou, segurando a mão dele com força, os dedos entrelaçados.

— Vou. Eu não vou a lugar nenhum — mentiu ele, sabendo que o telefone em seu bolso voltaria a tocar a qualquer momento com as exigências de Sara.

Enquanto caminhavam para o carro, Emanuel olhou para o céu cinzento da cidade. Ele tinha construído um império com suas mãos, mas agora sentia que o chão sob seus pés era feito de vidro. Ele amava a doçura de Eduarda, mas temia a tempestade que Sara causaria quando descobrisse que não era a única rainha daquele castelo em ruínas.

— Emanuel? — Eduarda chamou baixinho, já dentro do carro, observando a expressão sombria dele.

— Sim?

— Obrigada por não ficar bravo. Eu achei que você fosse me deixar.

Emanuel forçou um sorriso, acariciando a bochecha dela.

— Eu nunca deixaria você, Duda. Você é a parte mais bonita da minha vida.

E era verdade. O problema era que Sara era a parte mais intensa, e ele, em sua ganância emocional, queria o mundo inteiro, mesmo que isso significasse viver no centro de um furacão que estava apenas começando. A vida de Emanuel, o tatuador que tinha resposta para tudo, acabava de se tornar o desenho mais complexo e perigoso que ele já ousou traçar.
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