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Criado: 27/05/2026

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Entre o Doce e o Veneno

O som ambiente do bar "Underground" era uma mistura caótica de rock clássico, risadas estridentes e o tilintar constante de copos de vidro. O lugar, embora sofisticado, mantinha uma estética rústica que combinava perfeitamente com Emanuel. Sentado no centro de um sofá de couro em formato de U, ele parecia o eixo de um furacão que ameaçava sair do controle a qualquer momento.

De um lado, Sara. Ela usava um vestido vermelho curtíssimo, cujas alças finas pareciam lutar para conter o volume do silicone. O cabelo loiro, perfeitamente escovado, brilhava sob as luzes neon. Ela estava cercada por três amigas tão barulhentas quanto ela, todas formadas em administração, mas que, assim como Sara, preferiam gastar o tempo e o dinheiro de Emanuel em vez de assinarem qualquer contrato.

Do outro lado, quase fundida ao braço de Emanuel, estava Eduarda. Ela vestia um suéter de tricô leve na cor creme e uma saia rodada. Seus olhos grandes e expressivos observavam o movimento com uma mistura de curiosidade e receio. Para ela, o bar era barulhento demais, mas estar ali era o preço que pagava para não ficar longe do homem que era seu porto seguro.

— Emanuel, querido, peça mais uma rodada de tequila para as meninas — disse Sara, jogando o cabelo para trás e lançando um olhar de soslaio para Eduarda. — Esse lugar está muito parado. Parece que estamos num velório de museu.

Eduarda encolheu-se levemente, sentindo a alfinetada sobre seu curso de História da Arte. Ela apertou o braço de Emanuel, que suspirou, sentindo a tensão nos ombros.

— Sara, vocês acabaram de chegar — Emanuel respondeu, sua voz grave e calma, embora o vinco entre suas sobrancelhas denunciasse o estresse. — Vamos com calma.

— Ah, não seja chato! — Sara riu, uma risada alta que atraiu olhares de outras mesas. — Se a "santinha" ali não aguenta o tranco, ela pode ir para casa ler um livro de pintura antiga.

Eduarda não respondeu. Ela apenas baixou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Emanuel, percebendo o desconforto da namorada mais jovem, passou o braço por cima dos ombros dela, trazendo-a para mais perto.

— Deixa ela em paz, Sara.

— Eu estou ótima, Manu... — sussurrou Eduarda, a voz pequena. — Só quero algo para beber também.

Emanuel olhou para ela com preocupação. Eduarda raramente bebia, e quando o fazia, perdia a resistência muito rápido.

— Vou pedir um suco para você, Duda.

— Não! — Ela protestou, fazendo um biquinho manhoso que sempre desarmava Emanuel. — Eu queria testar aquela caipirinha que passou... aquela colorida.

— É caipirinha de caju com frutas vermelhas, senhorita — explicou o garçom que se aproximava.

— Essa! — Eduarda sorriu, os olhos brilhando. — Posso, Manu? Por favor?

Emanuel olhou para o rosto delicado de Eduarda e depois para o olhar desafiador de Sara. Ele sabia que, se proibisse Eduarda, Sara usaria isso para chamá-la de criança o resto da noite.

— Tudo bem. Mas só uma. E beba devagar.

Quando a bebida chegou, Eduarda deu o primeiro gole. A mistura do doce do caju com a acidez das frutas vermelhas e o toque da cachaça premium foi uma revelação para o seu paladar.

— Nossa... é muito bom! — exclamou ela, bebendo mais um longo gole.

— Cuidado, garota — zombou Sara, entornando um shot de tequila de uma vez. — Isso aí sobe rápido para quem só está acostumada com leite com achocolatado.

Eduarda ignorou. O álcool, mesmo em pequenas doses iniciais, começou a lhe dar uma coragem que ela normalmente não possuía. Em trinta minutos, o primeiro copo já havia secado. Emanuel estava distraído, tentando mediar uma discussão fútil entre as amigas de Sara sobre qual marca de bolsa era a mais "exclusiva" da temporada.

— Garçom! — Eduarda chamou, a voz um pouco mais alta e melodiosa. — Mais uma, por favor.

— Duda, acho que já chega — Emanuel interveio, colocando a mão sobre a dela.

— Só mais uma, Manu... por favorzinho? — Ela se inclinou, roçando o nariz no pescoço dele, exalando o perfume doce de frutas vermelhas. — Eu estou tão feliz. Você não quer que eu fique feliz?

Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo o toque macio dela. Eduarda era sua fraqueza. O jeito como ela se apoiava nele, buscando proteção, alimentava seu instinto protetor de uma forma que a agressividade de Sara jamais faria.

— A última — ele cedeu, embora soubesse que se arrependeria.

Uma hora depois, a situação havia mudado drasticamente. Eduarda não estava apenas feliz; ela estava completamente inebriada. Sua timidez havia sido substituída por uma carência extrema. Ela estava praticamente sentada no colo de Emanuel, com os braços entrelaçados no pescoço dele, enquanto balançava o corpo levemente no ritmo da música.

— Manu... você me acha bonita? — perguntou ela, a voz arrastada e manhosa, os olhos semicerrados focados nos lábios dele.

— Você é linda, Eduarda. Você sabe disso.

— Mais bonita que a loira barulhenta? — Ela perguntou, sem se importar se Sara ouviria.

Sara, que estava retocando o batom, parou abruptamente. Ela guardou o espelho na bolsa com força, o estalo ecoando na mesa.

— O que você disse, sua pombinha mansa? — Sara rosnou, os olhos faiscando.

Eduarda escondeu o rosto no peito de Emanuel, mas soltou uma risadinha abafada.

— Você é muito brava, Sara... devia beber caju. O caju faz a gente amar as pessoas.

— Eu vou te mostrar o amor daqui a pouco! — Sara se levantou, a postura imponente e vulgar, atraindo a atenção de metade do bar. — Emanuel, tira essa bêbada de cima de você. Ela está dando vexame.

— Vexame quem está dando é você gritando no meio do bar, Sara — Emanuel respondeu, sua voz subindo de tom, a paciência no limite. — Senta agora.

— Ah, agora a culpa é minha? — Sara cruzou os braços, fazendo com que o decote ficasse ainda mais evidente. — Eu estou aqui com as minhas amigas, tentando me divertir, e você está aí servindo de babá para essa menina que não aguenta dois copos de fruta!

Eduarda se afastou um pouco do peito de Emanuel, olhando para Sara com os olhos marejados, mas com um sorriso travesso nos lábios.

— Eu aguento sim... — Eduarda soluçou baixinho e depois fez um bico. — Manu, ela está sendo má comigo de novo. Manda ela parar?

— Duda, vamos para casa — Emanuel tentou levantá-la, mas ela se tornou um peso morto, manhosa demais para colaborar.

— Não quero ir embora! Quero ficar aqui agarradinha... — Ela começou a distribuir beijos castos pelo rosto de Emanuel. — Você é tão cheiroso. Tem cheiro de tinta e de homem sério.

Sara soltou uma gargalhada sarcástica.

— Que patético. Emanuel, você é um tatuador respeitado, um empresário. O que as pessoas vão pensar vendo você com essa criança pendurada no seu pescoço?

— Eu não me importo com o que as pessoas pensam, Sara. E, sinceramente, o seu tom de voz está me dando dor de cabeça — Emanuel se levantou, pegando Eduarda pela cintura e firmando-a ao seu lado. — Eu vou levá-la. Você vem ou vai ficar com suas amigas?

Sara olhou para as amigas, que observavam a cena com sorrisos maldosos, e depois para Emanuel. Ela detestava perder. Detestava a ideia de que Eduarda, com toda aquela fragilidade, conseguia desarmar Emanuel de um jeito que ela não conseguia.

— Eu vou — Sara disse, pegando a bolsa de grife. — Mas não pense que isso acabou.

O caminho até o carro foi um desafio. Eduarda tropeçava nos próprios pés, rindo de coisas que só ela via, e insistia em parar para olhar as estrelas, mesmo que a poluição luminosa da cidade não permitisse ver quase nada.

— Olha, Manu! Aquela estrela parece um pincel! — Ela apontou para um poste de luz, cambaleando.

— É um poste, Duda. Vamos, entra no carro.

Emanuel a acomodou no banco de trás, achando que seria mais seguro. Sara entrou no banco do carona, batendo a porta com força suficiente para fazer o carro balançar.

— Você mima demais essa garota — Sara reclamou, olhando-se no espelho do quebra-sol. — Ela faz isso de propósito. Essa timidez toda é fachada para te manipular.

— Cala a boca, Sara — Emanuel disse, ligando o motor. — Só por um minuto, cala a boca.

— Não calo! Eu sou sua namorada também, tenho direitos! — Ela se virou para trás, apontando o dedo para Eduarda, que estava deitada no banco, abraçada à própria bolsa. — E você, sua sonsa! Pare de fingir que está dormindo!

Eduarda abriu um olho só, o brilho da embriaguez ainda presente.

— Sara... você é loira.

— E daí?

— O caju é laranja. Laranja é uma cor quente. Você é fria. Você precisa de um abraço — Eduarda esticou os braços, tentando alcançar o pescoço de Sara a partir do banco de trás.

— Sai de perto de mim! — Sara se esquivou, enojada. — Emanuel, olha isso! Ela vai vomitar no meu cabelo!

— Eu não vou vomitar... — Eduarda fez uma voz de choro, tornando-se subitamente emocional. — Eu só queria que a gente fosse amiga. Por que você me odeia? É porque eu sou baixinha?

— É porque você é irritante! — Sara gritou.

— Chega! — O grito de Emanuel ecoou dentro do carro luxuoso, fazendo as duas se calarem instantaneamente. — Eu não aguento mais uma palavra de nenhuma das duas até chegarmos em casa. Sara, se você abrir a boca, eu te deixo na próxima esquina. Eduarda, se você não ficar quieta, eu vou ficar muito zangado.

O silêncio que se seguiu foi tenso. Emanuel dirigia com as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele amava as duas, de formas completamente diferentes, mas momentos como aquele o faziam questionar sua própria sanidade. Ele gostava da energia e da presença de Sara, da forma como ela o desafiava, mas a paz e a doçura de Eduarda eram o que realmente o mantinham equilibrado. O problema era que as duas eram como óleo e água.

Ao chegarem na cobertura de Emanuel, o tatuador teve que carregar Eduarda no colo. Ela estava na fase "mole" da bebedeira, murmurando palavras desconexas e distribuindo beijos no ombro dele.

— Manu... você é o meu gigante favorito — ela sussurrou, a voz sumindo.

Sara vinha logo atrás, bufando, seus saltos altos estalando no mármore do corredor.

— Vai colocar a "princesa" na cama e depois vai vir falar comigo — Sara ordenou, entrando no apartamento e indo direto para o bar particular dele para servir-se de um uísque puro.

Emanuel levou Eduarda para o quarto dela — no arranjo deles, cada uma tinha seu espaço, embora raramente dormissem sozinhas. Ele a deitou na cama com cuidado, tirando seus sapatos.

— Água... — ela pediu, com os olhos quase fechados. — Manu, minha cabeça está rodando.

— Eu avisei, pequena.

Ele buscou um copo de água e a ajudou a beber. Eduarda segurou a mão dele com força, puxando-o para que ele se sentasse na beirada da cama.

— Fica aqui? Não vai lá com ela... ela é malvada.

— Ela só é temperamental, Duda. Dorme um pouco.

— Promete que me ama mais? — Ela pediu, a voz manhosa atingindo o nível máximo de vulnerabilidade.

Emanuel suspirou, beijando a testa dela.

— Eu amo você. Agora dorme.

Ele saiu do quarto e fechou a porta suavemente, encontrando Sara encostada na parede do corredor, com o copo de uísque na mão e um sorriso amargo.

— Ela é boa nisso, tenho que admitir — Sara disse, dando um gole na bebida. — O papel de vítima indefesa. Ela te ganha no cansaço.

— E você me ganha na irritação — Emanuel retrucou, passando por ela e indo em direção à varanda, precisando de ar fresco. — O que você ganha provocando ela daquele jeito, Sara? Você sabe que ela é sensível.

— Eu ganho a verdade! — Sara o seguiu, a voz subindo de tom novamente. — Ela não é tão santinha assim. Você viu como ela me enfrentou hoje? O álcool tira as máscaras, Emanuel.

— Ela não enfrentou você, ela estava bêbada e confusa!

— Ela é uma ameaça para o que a gente tem! — Sara se aproximou, colando o corpo ao dele, tentando usar sua sensualidade para retomar o controle da situação. — Você não precisa de uma criança chorona. Você precisa de uma mulher que aguente o seu ritmo.

Emanuel olhou para Sara. Ela era deslumbrante, poderosa e exalava uma confiança que muitas vezes o atraía. Mas, naquele momento, tudo o que ele conseguia pensar era na suavidade de Eduarda e no quanto ele queria apenas um pouco de silêncio.

— O que eu preciso, Sara — ele disse, afastando-a gentilmente —, é de paz. E nenhuma das duas está me dando isso hoje.

Ele caminhou até o parapeito, observando as luzes da cidade. Ser um homem de posses, um tatuador renomado e ter duas mulheres lindas parecia o sonho de qualquer um, mas a realidade era um campo de batalha emocional constante.

De repente, a porta do quarto se abriu. Eduarda apareceu, enrolada em um cobertor, arrastando os pés e com o cabelo todo bagunçado. Ela parecia uma criança perdida.

— Manu... eu tive um pesadelo — ela choramingou, ignorando completamente a presença de Sara. — O caju era um monstro.

Sara revirou os olhos tão forte que chegou a doer.

— Ah, pelo amor de Deus! O caju era um monstro? Essa é nova!

Emanuel, apesar do estresse, não conseguiu conter um pequeno sorriso de canto. Ele estendeu a mão para Eduarda, que correu para o seu abraço, escondendo-se sob o braço dele.

— Vem cá, Duda.

— Eu também quero atenção — Sara declarou, aproximando-se e abraçando o outro lado de Emanuel, recusando-se a ficar de fora. — Se é para ser ridículo, vamos ser ridículos juntos.

Emanuel ficou ali, entre a loira explosiva e a morena manhosa, sentindo o peso das duas em seus braços. O cheiro de uísque de um lado e o de frutas vermelhas do outro. Era um equilíbrio impossível, uma dinâmica fadada ao caos, mas enquanto sentia o coração das duas batendo perto do seu, ele soube que, por mais que reclamasse, não saberia mais viver de outra forma.

— Vocês duas vão me deixar louco — ele murmurou.

— A gente já deixou, Manu — Eduarda disse, quase dormindo novamente em seu ombro.

— E você ama cada segundo disso — completou Sara, dando um beijo possessivo em seu pescoço antes de encostar a cabeça também.

No silêncio da noite, Emanuel apenas aceitou o seu destino. Ele era o porto seguro de duas tempestades completamente diferentes, e a noite, que começara com brigas e caipirinhas de caju, terminava naquele estranho e frágil momento de trégua. Pelo menos até o amanhecer, quando a ressaca de Eduarda e o mau humor de Sara certamente dariam início a um novo round.
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