Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Sob o peso das estrelas

Fandom: Harry potter

Criado: 27/05/2026

Tags

UA (Universo Alternativo)DramaAngústiaDor/ConfortoFantasiaIsekai / Fantasia PortalConsertoViagem no TempoEstudo de PersonagemDivergênciaRomanceCenário CanônicoCiúmes
Índice

O Eco do Retrato e o Peso do Ouro

A Mansão Black, no número 12 de Grimmauld Place, sempre pareceu a Jhe um organismo vivo e doente. As paredes respiravam mofo, as sombras se esticavam como dedos esqueléticos e o ar carregava o cheiro metálico de uma aristocracia em decomposição. Era véspera de Natal, mas não havia alegria ali. Enquanto Ron e Hermione discutiam sobre o próximo passo da Ordem da Fênix na cozinha, Jhe se afastou, subindo as escadas para fugir do peso sufocante daquela casa.

No segundo andar, em um corredor onde a luz das velas mal alcançava, ela o viu. O retrato estava coberto por uma fina camada de poeira cinzenta, esquecido entre tapeçarias mofadas. Jhe limpou a moldura com a manga do casaco e seu coração deu um solavanco.

Não era Sirius. Os traços eram mais finos, a postura mais tensa, e os olhos cinzentos não brilhavam com a rebeldia selvagem de seu amigo, mas sim com uma melancolia profunda e silenciosa. Regulus Black.

— Por que você parece tão triste? — sussurrou ela, tocando a tela fria.

Naquele momento, uma conexão avassaladora a atingiu. Não foi magia consciente, foi um eco. Jhe sentiu, por um breve segundo, o peso da solidão daquele rapaz, o pavor de uma criança forçada a ser um soldado em uma guerra que não entendia.

— Jhe? O que está fazendo aqui em cima? — A voz de Sirius veio do pé da escada, rouca e tingida de amargura.

Jhe virou-se, os olhos ainda úmidos.

— Por que você nunca fala dele, Sirius? Do seu irmão.

Sirius subiu os degraus, o rosto endurecendo como pedra. Ele olhou para o retrato com um desprezo que não conseguia esconder a dor.

— Regulus fez suas escolhas. Ele escolheu a marca, escolheu o caminho fácil. Ele era o filho perfeito para os meus pais. Um covarde que se afogou na própria arrogância.

— Ele tinha dezesseis anos, Sirius! — Jhe rebateu, a indignação subindo por sua garganta. — Ele foi deixado sozinho nesta casa com monstros enquanto você fugia para os Potter. Você teve o James. Quem ele teve? Ninguém. Ele foi abandonado à própria sorte para carregar o fanatismo da sua família sozinho.

Sirius não respondeu. Ele apenas virou as costas e desceu, deixando o silêncio pesado para trás.

Naquela noite, deitada em um beliche rangente, Jhe não conseguia tirar os olhos de Regulus da mente. A injustiça daquilo a queimava por dentro. Ela era uma nascida-trouxa, sabia o que era lutar por um lugar no mundo bruxo, mas a tragédia de Regulus parecia uma ferida aberta na história.

"Eu queria ter estado lá", ela pensou, as lágrimas escorrendo enquanto o sono a vencia. "Eu queria ter tido a chance de salvá-lo."

O mundo se dissolveu em um borrão de luz dourada.

Quando Jhe abriu os olhos, a primeira coisa que sentiu foi o cheiro de madeira antiga e cera de abelha. O teto não era o teto úmido de Grimmauld Place, mas o dossel alto e familiar da Torre da Grifinória. No entanto, algo estava errado. As cortinas eram de um vermelho vibrante, novas, e o quarto parecia mais... vivo.

Ela se levantou abruptamente e correu para o espelho. O reflexo que a encarava era o dela, mas com sutis diferenças. Seu cabelo estava mais brilhante, e pendurado na cadeira ao lado da cama estava uma gravata vermelha e dourada com um brasão que ela nunca vira antes: o brasão da família Potter.

— Jhe! Vamos, se apresse! Pontas já está lá embaixo tentando enfeitiçar o cabelo de novo e o Sirius está reclamando que você vai nos fazer perder o café! — Uma voz feminina gritou da porta. Era Lily Evans. Mas ela parecia mais jovem, os olhos verdes brilhando com uma vivacidade que Jhe só vira em fotos.

Jhe sentiu o mundo girar. O pedido. O desejo. O tempo a ouvira.

Ela não era mais a amiga do Trio de Ouro. Ela era Jhe Potter. A irmã de James. E o ano, como percebeu ao ver um jornal sobre a mesa, era 1976.

O Salão Comunal da Grifinória estava um caos. James Potter, com seus óculos tortos e o cabelo perpetuamente bagunçado, estava rindo enquanto Sirius Black — um Sirius jovem, sem as cicatrizes de Azkaban e com o sorriso mais brilhante que Jhe já vira — jogava uma bomba de bosta em direção a um grupo de terceiranistas.

— Bom dia, maninha! — James exclamou, passando o braço pelos ombros de Jhe. — Pronta para mais um dia de glória e detenções?

Jhe olhou para ele, o coração batendo forte. O amor que sentia por James era instantâneo, uma memória implantada que se fundia com sua própria alma. Mas seus olhos logo se desviaram para a mesa da Sonserina, do outro lado do Salão Principal.

Lá, sentado em uma extremidade, distante dos outros, estava ele.

Regulus Black parecia uma estátua de mármore. Ele estava impecável em suas vestes, a postura aristocrática e fria. Ele não ria. Ele apenas observava, os olhos cinzentos capturando tudo com uma inteligência cortante.

Jhe sabia que não tinha muito tempo. Naquela linha temporal, a Marca Negra logo estaria em seu braço. Ela precisava agir.

Ignorando os chamados de James e Sirius, Jhe caminhou em direção à mesa da Sonserina. O silêncio se espalhou conforme ela avançava. Uma Potter cruzando as fronteiras invisíveis entre as casas era um evento raro.

Regulus não levantou a cabeça até que ela parasse exatamente à sua frente.

— O que você quer, Potter? — A voz dele era como gelo fino quebrando sob os pés. Fria, irônica e perigosamente sofisticada.

Jhe respirou fundo, tentando manter a calma diante daquele olhar desconfiado.

— Eu queria falar com você, Regulus.

Ele soltou um riso seco, um som sem alegria que fez os pelos dos braços de Jhe se arrepiarem.

— "Regulus"? Desde quando temos tanta intimidade? — Ele fechou o livro de Poções com um estalo seco. — Se seu irmão mandou você aqui para alguma brincadeira de mau gosto, diga a ele que meu estoque de paciência com os Marotos já se esgotou no café da manhã.

— James não me mandou — Jhe insistiu, aproximando-se um passo, ignorando os olhares hostis de Bellatrix e Lucius Malfoy mais adiante na mesa. — Eu vim por conta própria. Eu... eu notei que você parece carregar o mundo nas costas ultimamente.

Os olhos de Regulus se estreitaram. Ele se levantou, a diferença de altura fazendo-a se sentir pequena, mas a determinação de Jhe era uma chama que não se apagaria facilmente.

— Você não sabe nada sobre mim — sibilou ele, a voz baixa para que apenas ela ouvisse. — Você é uma Potter. Você vive sob o sol, cercada por pessoas que a adoram e regras que você quebra apenas por diversão. Não tente projetar sua bondade irritante e altruísta em alguém que não a solicitou.

— Eu sei o que é ser leal a algo que está te destruindo — Jhe rebateu, a voz firme. — E sei que você é melhor do que o que esperam de você.

Regulus recuou, um lampejo de surpresa cruzando seus olhos cinzentos antes de ser substituído por uma máscara de desprezo absoluto.

— Sua arrogância é quase tão grande quanto a do seu irmão, mas muito mais perigosa, porque você se veste de gentileza. — Ele pegou sua bolsa e passou por ela, seu ombro batendo propositalmente no dela. — Fique longe de mim, Potter. O brilho da sua família me dá náuseas.

Jhe ficou parada no meio do Salão Principal, sentindo o peso do fracasso inicial, mas não recuou. Ela viu Sirius observando a cena de longe, a expressão confusa e protetora.

Ela sabia que Regulus usava o sarcasmo como uma armadura e a frieza como um escudo. Ele era orgulhoso demais para admitir que estava afogando. Mas Jhe era persistente. Ela atravessara o tempo e o espaço por aquele momento.

— Eu não vou desistir de você — sussurrou ela para o espaço vazio que ele deixara.

Nos dias que se seguiram, Jhe tornou-se uma sombra persistente na vida de Regulus Black. Ela o encontrava na biblioteca, sentando-se a duas mesas de distância. Ela o seguia pelos jardins, observando-o olhar para o Lago Negro com aquela mesma melancolia que vira no retrato.

Em uma tarde chuvosa de terça-feira, ela o encontrou na Seção Restrita da biblioteca. Ele estava procurando algo, as mãos pálidas tremendo levemente enquanto folheava um tomo antigo sobre artes das trevas.

— Esse livro não tem as respostas que você procura — disse Jhe, saindo das sombras de uma estante.

Regulus quase deixou o livro cair. Ele se virou, os olhos faiscando de fúria.

— Você é uma doença, sabia? Uma praga que se recusa a ser erradicada. O que eu tenho que fazer para você entender que não quero sua companhia?

— Você pode começar parando de mentir para si mesmo — Jhe caminhou até ele, a coragem de uma Potter misturada com a inteligência de quem já vira o futuro. — Você está com medo. E você tem razão de estar. O que eles estão pedindo para você fazer... o que seus pais querem... não é honra, Regulus. É uma sentença de morte.

Regulus a prensou contra a estante, as mãos segurando seus ombros com força. Ele estava perto o suficiente para que ela visse a tensão em sua mandíbula e o pavor escondido no fundo de suas pupilas.

— Cale a boca! — sussurrou ele, a voz falhando. — Você não entende as linhagens, não entende o dever. Eu não sou como o Sirius. Eu não posso simplesmente virar as costas e ir morar na casa de outra pessoa. Eu sou o herdeiro. Eu sou o que sobrou.

— Você é uma pessoa, não um troféu de família — Jhe disse, suavizando o tom, sua mão subindo para tocar o braço dele, onde ela sabia que a marca um dia estaria. — Você é inteligente, Regulus. Criativo. Eu vi o jeito que você resolveu aquele problema em Aritmancia. Você não pertence às sombras.

Por um segundo, apenas um segundo, a máscara de Regulus caiu. Ele pareceu o menino do retrato: perdido, sozinho e desesperado por um resgate que nunca veio. Ele olhou para a mão dela em seu braço como se fosse um objeto estranho, algo quente em um mundo de gelo.

Mas então, o orgulho Black retornou com força total. Ele a soltou como se ela o tivesse queimado.

— Sua gentileza é um insulto, Potter. Você age como se pudesse me salvar, mas quem vai salvar você da sua própria ingenuidade? — Ele deu um passo para trás, a expressão tornando-se a de um estranho novamente. — Se você se aproximar de mim novamente, eu farei questão de que James saiba que sua irmãzinha anda se encontrando com "comensais da morte em treinamento" nas horas vagas. Imagine o que o Sirius pensaria disso.

— Ele pensaria que estou fazendo o que ele não teve coragem de fazer: não desistir do irmão dele.

Regulus parou por um momento, as costas rígidas. Ele não se virou, mas Jhe viu seus punhos se fecharem ao lado do corpo.

— Sirius desistiu de mim no momento em que saiu por aquela porta. E eu desisti dele no momento em que aceitei meu destino. — Ele começou a caminhar para a saída. — Não tente ser a heroína da minha história, Jhe. Algumas histórias não foram feitas para ter finais felizes.

Jhe observou-o partir, o coração apertado no peito. O Regulus que ela conhecera através do retrato era um fantasma de arrependimento. O Regulus à sua frente era um jovem lutando para manter a cabeça acima da água enquanto fingia que sabia nadar.

Ela voltou para o Salão Comunal da Grifinória, onde James e Sirius estavam jogando Snap Explosivo. Sirius olhou para ela, o semblante preocupado.

— Você está bem, Jhe? Tem estado estranha desde que as aulas começaram. Se algum Sonserino estiver te incomodando, eu juro que...

— Está tudo bem, Sirius — mentiu ela, sentando-se ao lado dele. — Só estou pensando no futuro.

— O futuro é brilhante, maninha! — James exclamou, ganhando a partida com uma explosão de faíscas. — Nós vamos nos formar, derrotar qualquer bruxo das trevas que aparecer e viver como reis.

Jhe sorriu tristemente. Ela olhou para as chamas da lareira, vendo ali o reflexo de um futuro que ela estava desesperada para mudar. Sirius não sabia que seu irmão morreria sozinho em uma caverna. James não sabia que teria apenas alguns anos de vida.

Ela tinha o poder do conhecimento, a determinação de uma Potter e a lealdade de uma amiga.

Regulus Black podia ser frio, rude e desconfiado. Ele podia tentar afastá-la com palavras ácidas e olhares de desprezo. Mas Jhe vira o eco de sua alma no futuro, e ela sabia que, por baixo daquela sofisticação aristocrática, havia um coração que valia a pena salvar.

Ela não era apenas a irmã de James Potter nesta vida. Ela era a bússola que guiaria Regulus para fora da escuridão. E ela não descansaria até que o cinza melancólico daqueles olhos fosse substituído pela luz da liberdade.

Naquela noite, antes de dormir, Jhe pegou um pergaminho e escreveu apenas uma frase, deixando-o anonimamente na mesa de Regulus na manhã seguinte:

"O ouro não brilha apenas no sol; ele é forjado no fogo mais intenso. Não deixe que eles apaguem o seu."

Longe dali, no Salão Comunal da Sonserina, Regulus Black leu aquelas palavras repetidamente, sentindo, pela primeira vez em anos, que o peso em seu peito talvez pudesse ser compartilhado. E, embora nunca admitisse, ele guardou o bilhete no bolso mais próximo do coração.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic