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Fandom: Nenhum

Criado: 28/05/2026

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Entre o Cetim e o Caos

O ar na mansão dos pais de Eduarda estava saturado com o perfume caro das flores de laranjeira e o som discreto de talheres de prata contra porcelana fina. Era um evento de família impecável, do tipo que Eduarda costumava odiar por se sentir pequena demais sob os olhares julgadores da elite local. Ela usava um vestido de seda em tom de champanhe, com alças finas e um decote em V que equilibrava perfeitamente a doçura de sua expressão com uma sensualidade velada, quase acidental.

Eduarda buscava o refúgio das sombras perto da varanda, segurando sua taça de espumante com as duas mãos, quando o viu pela primeira vez.

Emanuel não parecia pertencer àquele ambiente de frescuras. Embora vestisse um terno de corte impecável, a postura era rígida, os olhos observadores e cansados de quem carregava o peso de um império construído com tinta e agulhas. Ele era o contraste puro: a estabilidade de um homem que conquistou o mundo e a tensão de quem não tinha paciência para futilidades.

E, ao lado dele, como um outdoor de neon em uma igreja, estava Sara.

Sua prima usava um vestido vermelho tão justo que parecia uma segunda pele, os seios turbinados pelo silicone saltando sob o tecido, o batom berrante e a risada alta que ecoava pelo salão, atraindo olhares de desaprovação que ela parecia saborear.

— Emanuel, querido, você precisa conhecer minha prima — disse Sara, arrastando o namorado pelo braço com uma possessividade que não passou despercebida. — Ela é a "intelectual" da família. Estuda História da Arte. Um tédio, não é?

Emanuel não respondeu de imediato. Seus olhos se cravaram em Eduarda. Ele esperava encontrar outra cópia de Sara, ou talvez alguém tão ruidoso quanto o resto da família. Em vez disso, encontrou o silêncio. Encontrou um par de olhos expressivos que pareciam pedir desculpas por existir, e uma pele que parecia brilhar sob a luz do luar.

— Eduarda — murmurou Emanuel. Sua voz era um barítono profundo que fez a garota encolher os ombros, num gesto manhoso e instintivo.

— Prazer — respondeu ela, a voz quase um sussurro, desviando o olhar para os próprios pés.

Naquele momento, algo estalou dentro de Emanuel. Ele amava Sara; amava o fogo dela, a vulgaridade sem filtros que o distraía do seu trabalho estressante, a energia inesgotável. Mas Eduarda... Eduarda era o bálsamo. Ela era a paz que ele nem sabia que estava procurando.

Três semanas se passaram desde a festa, e o mundo de Emanuel havia se tornado um campo de batalha interno. Ele continuava com Sara, mas sua mente era habitada pela imagem de Eduarda folheando livros de arte em seu estúdio improvisado. Ele queria as duas. Ele precisava do caos de uma e da serenidade da outra.

E Emanuel não era um homem de aceitar "não" como resposta.

Naquela tarde, ele apareceu sem avisar na faculdade de História da Arte. Eduarda estava saindo da biblioteca, carregando uma pasta pesada, quando a mão firme de Emanuel envolveu seu braço.

— O que você está fazendo aqui? — Eduarda perguntou, o coração disparado. Ela tentou puxar o braço, mas ele não apertava; apenas mantinha uma pressão constante, protetora e possessiva.

— Vim buscar você — disse ele, a expressão séria, os traços do rosto fechados como sempre. — Vamos conversar.

— Você namora a minha prima, Emanuel. Isso é errado — ela murmurou, os olhos começando a marejar. Eduarda era sensível demais para aquele tipo de embate. — Por favor, me solta.

— Eu não vou soltar — ele deu um passo à frente, forçando-a a recuar contra uma pilastra. — Eu cuido da Sara. Ela tem tudo o que quer. Mas eu quero você também, Eduarda. Quero você em uma das minhas casas. Quero que você estude sem se preocupar com nada, cercada pelo que você gosta.

— Você está louco — ela soluçou, o corpo esguio tremendo sob o toque dele. — Eu não sou um objeto que você pode colecionar.

— Não é coleção — ele aproximou o rosto, o cheiro de tabaco e perfume amadeirado invadindo os sentidos dela. — É necessidade.

Eduarda conseguiu se desvencilhar e correu. Ela fugiu dele como se fugisse de um predador, mas Emanuel apenas ficou parado, observando-a ir. Ele tinha paciência. Tinha recursos.

No dia seguinte, o conflito explodiu no estúdio principal de Emanuel. Sara entrou como um furacão, jogando a bolsa de grife sobre a mesa de desenho dele.

— Que porra é essa, Emanuel? — ela gritou, os olhos azuis faiscando de fúria. — Eu soube que você foi atrás daquela sonsa na faculdade. Da Eduarda? Sério? Aquela mosca morta?

Emanuel nem sequer levantou os olhos do esboço que estava fazendo. Sua calma era irritante.

— Abaixa o tom, Sara. Você está no meu local de trabalho.

— Eu não vou abaixar nada! — ela se aproximou, batendo as unhas longas e decoradas no peito dele. — Eu sou sua namorada. O que você quer com aquela garota que nem sabe se vestir direito? Ela parece uma boneca de porcelana que vai quebrar se você soprar.

— Exatamente — Emanuel finalmente a olhou, a frieza no olhar fazendo Sara recuar um passo. — Ela é delicada. Ela é o oposto de você. E eu decidi que não quero escolher.

Sara soltou uma risada histérica, as mãos nos quadris, fazendo suas curvas se destacarem ainda mais.

— Você acha que ela vai aceitar isso? Ela é toda certinha, toda "romântica". Ela vai te odiar!

— Ela já foge de mim — Emanuel deu de ombros, voltando ao desenho. — Mas quanto mais ela foge, mais eu tenho certeza de que ela me pertence. E você, Sara... você gosta do luxo, gosta da proteção que eu te dou. Você não vai a lugar nenhum.

— Você é um doente — Sara cuspiu as palavras, mas no fundo, a semente da competição já estava plantada. Ela odiava Eduarda, sempre odiou aquela aura de "pureza" da prima. Se Emanuel queria as duas, ela faria da vida de Eduarda um inferno, apenas para provar que era a favorita.

Enquanto isso, Eduarda tentava se esconder em seu pequeno apartamento de estudante. Ela se sentia suja por desejar a atenção que Emanuel lhe dava, e ao mesmo tempo, apavorada com a intensidade dele. O telefone tocou. Era uma mensagem dele.

"Abra a porta. Deixei algo para você."

Eduarda hesitou, mas a curiosidade e a natureza dócil falaram mais alto. Ao abrir a porta, encontrou uma caixa de veludo. Dentro, um colar de pérolas legítimas e um bilhete com a caligrafia firme de Emanuel:

"Pérolas para quem é rara. Amanhã passarei para te levar ao jantar da galeria. Não adianta fugir, Eduarda. Eu sempre te encontro."

Ela abraçou a caixa contra o peito, sentindo as lágrimas caírem. Ela queria odiá-lo. Queria ter a força de Sara para gritar e enfrentar. Mas tudo o que conseguia sentir era a necessidade avassaladora de ser protegida por aqueles braços fortes, mesmo que isso significasse dividir o oxigênio com o caos que era sua prima.

Na noite seguinte, o encontro inevitável aconteceu. Emanuel organizou um jantar privado em um de seus restaurantes favoritos. Ele chegou com Sara pendurada em seu braço. Ela usava um vestido dourado que deixava pouco para a imaginação, o decote profundo exibindo o silicone de forma desafiadora.

Eduarda já estava lá, sentada a uma mesa de canto, usando um vestido de renda azul-claro, as mãos entrelaçadas no colo, parecendo uma pintura de um século passado.

Ao verem-se, o ar na sala pareceu sumir.

— Olha só quem resolveu aparecer — provocou Sara, sentando-se à mesa sem ser convidada, forçando Emanuel a sentar entre as duas. — O colar ficou lindo em você, priminha. Pena que o Emanuel comprou um anel de diamantes pra mim no mesmo dia.

Eduarda baixou o rosto, o lábio inferior tremendo.

— Eu não pedi nada disso... — sussurrou ela.

— Mas eu quis dar — interveio Emanuel, sua voz cortando a tensão como uma navalha. Ele colocou uma mão sobre a de Eduarda, que estava sobre a mesa, e a outra sobre a coxa de Sara, por baixo da toalha. — Vamos deixar as coisas claras. Sara, você conhece as regras. Eu cuido de você, eu te dou o mundo, mas eu não aceito que você ataque a Eduarda.

— E ela? — Sara apontou para a prima com desdém. — Ela vai aceitar ser a "outra"?

— Ninguém é a outra — Emanuel apertou a mão de Eduarda com firmeza quando ela tentou puxá-la. — Vocês duas fazem parte da minha vida agora. Eduarda precisa de cuidado, de alguém que a entenda. E você, Sara... você precisa de alguém que te controle.

— Você é louco — Eduarda disse, finalmente levantando os olhos marejados para ele. — Eu quero ir embora.

— Você não vai — Emanuel disse, e não havia raiva em sua voz, apenas uma determinação absoluta. — Você vai comer, vai beber e vai aceitar que, a partir de hoje, sua vida mudou.

— Ela é tão manhosa que chega a dar nojo — Sara revirou os olhos, mas não se retirou. Ela começou a beber o vinho caro, observando a prima com uma mistura de inveja e triunfo.

O jantar foi um exercício de tortura psicológica. Sara não parava de ostentar sua intimidade com Emanuel, tocando-o constantemente, rindo de piadas internas, enquanto Eduarda permanecia em um silêncio sofrido, apenas aceitando a comida que Emanuel colocava em seu prato como se ela fosse uma criança que precisasse de direção.

— Você está pálida, querida — disse Sara, com um sorriso venenoso. — Talvez precise de um pouco mais de sol. Ou talvez de um homem de verdade, e não de um que precise te carregar no colo.

— Deixe-a em paz, Sara — Emanuel avisou, o tom de voz baixando perigosamente.

— Por que você a defende tanto? — Sara explodiu, batendo a taça na mesa. — Ela não tem graça nenhuma! Ela é só um rostinho bonito que estuda quadros velhos!

— Ela é a paz que você não consegue me dar — Emanuel respondeu de forma curta e grossa.

Eduarda se levantou subitamente, as pernas tremendo.

— Eu não aguento mais isso!

Ela correu em direção à saída do restaurante, o vestido de renda balançando com seus passos apressados. Emanuel não hesitou. Ele se levantou, deixando Sara falando sozinha.

— Emanuel! Se você for atrás dela, eu quebro tudo neste lugar! — gritou Sara, chamando a atenção dos poucos clientes presentes.

— Quebre — disse ele, sem olhar para trás. — Eu pago a conta depois.

Ele alcançou Eduarda no estacionamento. Estava chovendo levemente, e as gotas de água brilhavam no cabelo dela. Ele a segurou pela cintura, puxando-a para o seu peito largo.

— Me solta, Emanuel! Por favor! — ela chorava abertamente agora, as mãos pequenas batendo inutilmente contra o terno dele. — Isso é cruel. Comigo, com ela...

— Eu não sou um homem bom, Eduarda — ele murmurou, enterrando o rosto no pescoço dela, aspirando o perfume suave de baunilha que emanava de sua pele. — Eu sou ganancioso. Eu vi algo que eu queria, e eu não vou deixar ir. Você é minha. Ela também é. Eu vou dar a você tudo o que você sempre sonhou.

— Eu só queria ser amada... de verdade — ela soluçou, o corpo amolecendo contra o dele. A resistência de Eduarda estava esvaindo; ela era emocionalmente intuitiva e sentia que, apesar da loucura daquela situação, Emanuel realmente pretendia protegê-la do mundo.

— E você será — ele assegurou, levantando o queixo dela para que ela olhasse em seus olhos sérios. — Do meu jeito.

Ele a beijou então. Foi um beijo que misturava a possessividade de um dono com a ternura de um amante. Eduarda tentou não corresponder, mas sua natureza carente e manhosa a traiu, e ela acabou segurando as lapelas do terno dele, entregando-se ao momento.

Ao longe, na porta do restaurante, Sara observava a cena. Seus punhos estavam cerrados, a maquiagem perfeita começando a borrar com a raiva. Ela não aceitaria perder. Se Emanuel queria as duas, ela jogaria o jogo dele, mas faria questão de ser a rainha daquele castelo distorcido.

Emanuel separou o beijo, limpando uma lágrima do rosto de Eduarda com o polegar.

— Vamos voltar. Sara está esperando.

— Eu não quero olhar para ela — Eduarda sussurrou, escondendo o rosto no peito dele.

— Você não precisa olhar. Eu estarei lá. Eu sempre estarei entre vocês duas.

E assim, sob a chuva fina e as luzes da cidade, o pacto estava selado. Emanuel tinha o que queria: o fogo e a água, o caos e a paz. Ele sabia que o caminho à frente seria repleto de brigas, ciúmes e tensão constante, mas enquanto ele estivesse no controle, nada mais importava.

Ele caminhou de volta para o restaurante com Eduarda protegida sob seu braço, pronto para enfrentar a fúria de Sara e a fragilidade de sua nova conquista. Para Emanuel, o mundo era um estúdio de tatuagem gigante, e ele acabara de começar a desenhar a obra mais complexa de sua vida.
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