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Sla
Fandom: Sla
Criado: 28/05/2026
Tags
RomanceFantasiaAçãoDor/ConfortoFofuraDramaCiúmesHistória Doméstica
Sombras, Prata e Safira
O elevador subia silenciosamente, mas a tensão dentro da cabine metálica era quase palpável. Isaac, um gigante de um metro e noventa e dois, ajustava o colarinho apertado do uniforme de garçom. Ele parecia deslocado naquela roupa formal, seus ombros largos e a postura rígida denunciando que ele preferia estar em qualquer lugar, menos ali. Suas orelhas de lince, brancas e peludas, estavam achatadas contra o topo da cabeça, e seus grandes chifres brancos pareciam brilhar sob a luz dicroica do teto.
Ele sentiu um toque suave em seu braço e olhou para baixo. Safira o observava com aqueles olhos azuis profundos que pareciam conter todo o oceano. Ela estava deslumbrante em um vestido que abraçava suas curvas e destacava sua pele negra retinta. Mesmo sem as asas que sua linhagem angelical sugeria, ela emanava uma aura de divindade que Isaac nunca se cansava de admirar.
— Você está lindo, meu gatinho — sussurrou ela, ficando na ponta dos pés para alcançar o rosto dele.
Isaac sentiu o calor subir pelas bochechas, um contraste gritante com sua natureza de demônio do gelo. Ele desviou o olhar, o cabelo longo caindo propositalmente sobre seus olhos tricolores. Ele odiava aqueles olhos — o azul e o amarelo com as pupilas trocadas eram lembretes constantes de sua natureza híbrida e do tempo em que fora usado como uma mercadoria valiosa. Mas para Safira, eles eram joias.
— Eu me sinto ridículo — murmurou ele, a voz profunda vibrando no peito. — Esse plano... eu deveria apenas entrar e acabar com isso.
— E perder a chance de me ver brilhar? — Ela riu, depositando um beijo carinhoso na bochecha dele. — Relaxe. É uma missão rápida. Matamos o alvo e vamos embora. Eu só queria ver meu gatinho trabalhando de perto hoje.
Isaac não resistiu. Ele a envolveu em seus braços, as asas peludas, que ele mantinha pequenas para não atrapalhar, roçando levemente nas costas dela. Eles se perderam em um momento de carinho, um refúgio antes da violência que estava por vir. Isaac a apertou contra si, o medo constante de perdê-la sussurrando no fundo de sua mente, um eco dos pesadelos que o impediam de dormir à noite.
As portas do elevador se abriram. O som da música clássica e o tilintar de taças de cristal inundaram o ambiente. O salão de festas estava lotado de humanos influentes, o tipo de gente que adoraria vender Isaac por uma fortuna se soubessem o que ele era.
— No seu posto, Safira — ordenou Isaac, recuperando sua máscara de frieza.
Safira piscou para ele e se dirigiu à área de bebidas, onde se misturaria aos convidados com facilidade. Isaac, por sua vez, começou a circular com uma bandeja, seus olhos atentos vigiando cada movimento do alvo — um homem idoso e corrupto que já havia causado dor demais a inocentes — e, claro, vigiando Safira.
Tudo corria conforme o planejado, até que o imprevisto aconteceu. Duas mulheres jovens, vestidas com sedas caras e sorrisos predatórios, bloquearam o caminho de Isaac.
— Nossa, olha só para você — disse uma delas, passando a mão pelo braço dele de forma ousada. — Minha amiga ali achou você um verdadeiro gato. E ela não está errada.
Isaac sentiu um nojo imediato. Ele tentou se afastar, mas as garotas eram persistentes, falando baixo, tentando atraí-lo para um canto mais reservado do salão sob o pretexto de precisarem de "serviços especiais".
Do outro lado do salão, Safira parou com a taça a meio caminho da boca. Seus olhos azuis escureceram, ficando frios como o gelo que Isaac manipulava. O ciúme borbulhou em seu peito como uma tempestade marítima. Ela viu quando as garotas começaram a arrastar Isaac para um corredor lateral. Ele parecia perdido, dividido entre o desejo de simplesmente congelar as duas e a necessidade de não causar uma cena na frente de Safira.
Safira não esperou. Ela caminhou pelo salão com uma elegância letal, cada passo exalando uma autoridade divina que fazia as pessoas abrirem caminho sem saber por quê. Quando ela alcançou o corredor, as garotas estavam rindo, tentando intimidar o "garçom" silencioso.
— Se vocês duas vagabundas querem sair daqui vivas... saiam daqui agora. E não abram o bico — a voz de Safira saiu baixa, mas carregada de um poder que fez o ar vibrar.
Ela apontou um dedo, e uma centelha de luz divina brilhou na ponta, pronta para ser disparada. As garotas empalideceram. Elas não sabiam quem era aquela mulher, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Elas tropeçaram uma na outra enquanto fugiam de volta para a festa.
Isaac soltou um suspiro de alívio, observando Safira com uma admiração renovada. Ela desativou o poder, mas o rosto ainda estava vermelho de raiva.
— Eu fiquei com medo! — exclamou ela, batendo levemente no peito dele. — Achei que você já tivesse matado o velho e me deixado sozinha aqui lidando com essas urubus!
Isaac soltou uma risada ruidosa, algo raro para ele. Ele se inclinou e beijou a bochecha dela.
— Eu nunca deixaria você sozinha, Safira.
Nesse momento, o alvo da missão apareceu no corredor, provavelmente procurando as garotas. Ele parou abruptamente ao ver a cena: uma jovem pequena de cabelos azuis e um gigante de pele branca e chifres. O homem abriu a boca para gritar, mas Isaac foi mais rápido. Com um movimento fluido de mão, uma onda de frio absoluto envolveu o idoso, transformando-o em uma estátua de gelo instantânea.
— Missão cumprida — disse Isaac.
Ele pegou Safira no colo, como se ela não pesasse nada, e saiu pela saída de emergência. O ar da noite estava fresco, e a adrenalina da missão os deixou eufóricos. Safira agarrou o rosto de Isaac, seus dedos acariciando as orelhas dele.
— A gente bem podia ir a um restaurante agora, né amor? — Ela fez um biquinho irresistível. — Estou morrendo de fome.
— Tudo o que você quiser — ele concordou, colocando-a no banco do passageiro do carro.
Antes de entrar no lado do motorista, Isaac parou. Ele sentiu uma presença. Seus olhos tricolores brilharam na escuridão. No limite da floresta que cercava a propriedade, uma figura felina branca o observava. Eles se encararam por longos segundos, um reconhecimento silencioso entre predadores. Isaac entrou no carro, o semblante agora sério.
No caminho, ele colocou a mão sobre a coxa de Safira, buscando conforto no contato físico. Safira sorriu e segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos.
— Olha essa mãozinha boba, viu? — brincou ela.
Isaac deu um sorriso de canto, embora houvesse uma sombra de decepção por ela não ter deixado a mão ali. Quando chegaram perto do restaurante, ele viu a figura novamente, entrando na mata lateral.
— Fique no carro — disse Isaac, sem olhar para ela. — Não saia até eu voltar.
— O que? Isaac, o que está acontecendo? — Safira perguntou, a preocupação imediata em sua voz.
Ele não tinha tempo para explicar. Ele encostou a testa na dela, fechando os olhos com força.
— Por favor, Safira. Só saia quando eu voltar. Eu imploro.
Ela hesitou, mas assentiu. Isaac saiu do carro e desapareceu entre as árvores.
Minutos se passaram. Safira batia os dedos no painel, a ansiedade crescendo a cada segundo. De repente, um clarão de luz azul explodiu no céu sobre a floresta. Era o sinal de Isaac. Ela não pensou duas vezes. Chutou os saltos altos para longe e correu descalça em direção ao brilho.
Ao chegar em uma clareira, o sangue de Safira ferveu. Uma garota de cabelos brancos e olhos amarelos, com traços felinos muito parecidos com os de Isaac, estava por cima dele, tentando atacá-lo com garras afiadas.
— Saia de cima dele! — gritou Safira.
Ela não esperou por uma resposta. Invocando seus poderes marinhos, ela lançou uma rajada de água pressurizada tão forte que jogou a desconhecida contra as pedras do outro lado da clareira. Safira avançou, as mãos brilhando com poder divino, pronta para finalizar o ataque, até que Isaac se colocou na frente dela.
— Pare! — gritou Isaac, segurando os ombros de Safira. — Eu estou bem... Safira, eu só não posso deixar que você a mate. Não você.
Safira parou, ofegante, os olhos fixos nos dele. A raiva ainda estava lá, mas a confusão começou a tomar conta.
Horas depois, na segurança de casa, a garota desconhecida acordou. Ela estava presa a uma cadeira por correntes de gelo sólido que Isaac havia criado. Isaac estava parado diante dela, a aura fria e ameaçadora.
— Eu mandei você ficar longe da gente — disse Isaac, a voz carregada de um estresse profundo. — A porra da sua vida não tem nada a ver com a minha mais, Marina.
— Você é um traidor! — cuspiu a garota, lutando contra as correntes. — Se afastou de todos nós porque se acha mais forte, vivendo nesse mundo de humanos como se fosse um deles!
Safira observava a cena de longe, sentada no sofá enquanto colocava um curativo no joelho. Ela havia tropeçado em uma raiz durante a corrida na mata.
— Eu mataria você agora mesmo se ela não estivesse aqui — rosnou Isaac, mostrando as presas brancas para Marina.
— Ela? — Marina olhou para Safira com desdém. — Essa humana?
Safira se levantou, ignorando a dor no joelho, e caminhou até Isaac. Ela puxou o braço dele gentilmente, levando-o para um canto da sala.
— Deixe-me falar com ela, Isaac. Por favor.
— De jeito nenhum — ele recusou imediatamente. — Ela é perigosa, Safira. Ela veio da minha antiga vila.
Safira usou sua arma secreta: olhou para ele com aqueles olhos de súplica, fazendo um pequeno charme que ela sabia que desarmava qualquer defesa dele. Isaac suspirou, derrotado.
— Se ela tentar qualquer coisa, grite. Eu estarei logo ali na cozinha.
Ele saiu, deixando as duas sozinhas. Safira se aproximou de Marina com um sorriso calmo.
— Qual o seu nome? — perguntou ela, a voz doce.
— Eu não converso com humanos — Marina respondeu friamente. — Especialmente a humana que o Isaac "prende" para se satisfazer.
Safira piscou, confusa.
— Como assim, humana que ele prende?
Marina soltou uma risada amarga.
— No nosso mundo, Isaac é conhecido como o Devorador Sem Piedade. Todos acham que ele fugiu para cá para ter uma escrava humana ou algo pior. Não há como ele ter piedade de alguém como você.
Safira olhou para a cozinha, onde Isaac estava visivelmente inquieto, quase submisso à vontade dela, o mesmo homem que pedia desesperadamente para entrar no banheiro com ela porque tinha medo de ficar sozinho. Ela voltou a olhar para Marina.
— Eu não sou prisioneira dele, Marina. Nós somos namorados. Eu moro aqui porque eu o amo. Meu nome é Safira.
Ela estendeu a mão. Marina recuou, os olhos amarelos se arregalando.
— Safira? Você é... a filha de Luna? A Guerreira da Água?
Safira ficou surpresa.
— Você conheceu minha mãe?
— Você é igualzinha a ela — murmurou Marina, a agressividade desaparecendo. — Eu me chamo Marina.
As duas começaram a conversar. Safira descobriu que Marina tinha crescido com Isaac e seu irmão mais velho, Nathaniel.
— Isaac! — chamou Safira. — Venha aqui e solte ela. Agora.
Isaac apareceu, relutante, mas obedeceu à ordem de Safira. Ele desfez as correntes de gelo com um toque, mas manteve o olhar fixo em Marina.
— Eu mato você se tentar algo — avisou ele.
— Eu nunca imaginei que você ficaria com alguém, Isaac — disse Marina, massageando os pulsos. — Especialmente alguém tão doce.
— Vocês não me conhecem — Isaac respondeu, ainda mantendo a distância. — Eu não sou o demônio que vocês criaram nas suas histórias.
Marina baixou a cabeça.
— Na vila... todos dizem que você foi embora porque se achava superior. Nathaniel disse que talvez você voltasse para se vingar de todos nós por termos te tratado mal por ser híbrido. Eu treinei a vida toda para te matar primeiro. Eu não sabia que Nathaniel estava mentindo.
Isaac sentiu uma pontada de amargura.
— Vocês me mandaram para este mundo porque me achavam fraco. Me venderam, me usaram. Eu não quero vingança contra a vila, Marina. Eu só quero ser deixado em paz. O fato de vocês acharem que eu sou o vilão diz mais sobre vocês do que sobre mim.
O silêncio caiu sobre a sala. Safira sentiu o peso da dor de Isaac.
— Eu posso até te perdoar, Marina — continuou Isaac, virando o rosto para esconder a emoção. — Mas nunca voltarei a confiar em você como confiava antes.
Marina deu um sorriso triste.
— Pelo menos você parece feliz. Depois de tudo o que passou... é bom ver que você encontrou algo real.
Para quebrar o clima pesado, Marina começou a contar histórias de quando eram filhotes. Ela descreveu como Isaac era desajeitado com suas asas grandes e como ele sempre se escondia quando os anciãos falavam sobre "esposas ideais" para os guerreiros. Safira ria, encantada com as histórias, mas, conforme o tempo passava, uma pequena pontada de insegurança surgiu. Marina sabia tanto sobre o passado dele... coisas que Safira ainda estava descobrindo.
Depois que Marina foi embora, prometendo manter o paradeiro de Isaac em segredo, o silêncio retornou à casa. Isaac viu que Safira ainda usava o vestido da festa, mas ela parecia pensativa.
— O que houve? — perguntou ele, aproximando-se. — Por que ainda está com essa roupa?
Safira o olhou nos olhos, uma pergunta simples escapando de seus lábios:
— Qual é a sua mulher ideal, gatinho?
Isaac parou. Ele entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Ele se aproximou e segurou o rosto dela com as mãos grandes e frias, mas o toque era de uma delicadeza extrema.
— Eu não tenho um "estilo" ideal, Safira.
— Mas Marina disse que vocês falavam sobre isso na vila...
Isaac deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso verdadeiramente relaxado da noite.
— A minha mulher ideal é linda, tem a pele escura como a noite mais bonita e um sorriso que faz meus pesadelos desaparecerem. Ela tem olhos encantadores que me veem como eu sou, e não como um monstro. Ela tem longos cabelos azulados e adora comer de tudo, especialmente quando estamos juntos.
Ele encostou a sua testa na dela.
— Essa é a mulher que eu amo. A única que eu quero para a vida toda. Você não precisa me seduzir com roupas bonitas por causa de um ciúme bobinho. Eu já sou seu, Safira. Totalmente seu.
Safira riu, sentindo o peso sair de seus ombros.
— Eu não estava com ciúmes!
— Ah, não? — Isaac começou a fazer cócegas nela, fazendo-a soltar gargalhadas altas que ecoaram pelo apartamento.
Mais tarde, quando as luzes se apagaram, Isaac deitou-se na cama. Safira sentou-se ao lado dele, e ele, o demônio de quase dois metros de altura, deitou a cabeça no colo dela com uma submissão total. Safira começou a fazer cafuné em suas orelhas de lince, sentindo o ronronar vibrar no peito dele. Ali, nos braços dela, Isaac finalmente conseguiu fechar os olhos e dormir, sem medo, sem pesadelos, apenas em paz.
Ele sentiu um toque suave em seu braço e olhou para baixo. Safira o observava com aqueles olhos azuis profundos que pareciam conter todo o oceano. Ela estava deslumbrante em um vestido que abraçava suas curvas e destacava sua pele negra retinta. Mesmo sem as asas que sua linhagem angelical sugeria, ela emanava uma aura de divindade que Isaac nunca se cansava de admirar.
— Você está lindo, meu gatinho — sussurrou ela, ficando na ponta dos pés para alcançar o rosto dele.
Isaac sentiu o calor subir pelas bochechas, um contraste gritante com sua natureza de demônio do gelo. Ele desviou o olhar, o cabelo longo caindo propositalmente sobre seus olhos tricolores. Ele odiava aqueles olhos — o azul e o amarelo com as pupilas trocadas eram lembretes constantes de sua natureza híbrida e do tempo em que fora usado como uma mercadoria valiosa. Mas para Safira, eles eram joias.
— Eu me sinto ridículo — murmurou ele, a voz profunda vibrando no peito. — Esse plano... eu deveria apenas entrar e acabar com isso.
— E perder a chance de me ver brilhar? — Ela riu, depositando um beijo carinhoso na bochecha dele. — Relaxe. É uma missão rápida. Matamos o alvo e vamos embora. Eu só queria ver meu gatinho trabalhando de perto hoje.
Isaac não resistiu. Ele a envolveu em seus braços, as asas peludas, que ele mantinha pequenas para não atrapalhar, roçando levemente nas costas dela. Eles se perderam em um momento de carinho, um refúgio antes da violência que estava por vir. Isaac a apertou contra si, o medo constante de perdê-la sussurrando no fundo de sua mente, um eco dos pesadelos que o impediam de dormir à noite.
As portas do elevador se abriram. O som da música clássica e o tilintar de taças de cristal inundaram o ambiente. O salão de festas estava lotado de humanos influentes, o tipo de gente que adoraria vender Isaac por uma fortuna se soubessem o que ele era.
— No seu posto, Safira — ordenou Isaac, recuperando sua máscara de frieza.
Safira piscou para ele e se dirigiu à área de bebidas, onde se misturaria aos convidados com facilidade. Isaac, por sua vez, começou a circular com uma bandeja, seus olhos atentos vigiando cada movimento do alvo — um homem idoso e corrupto que já havia causado dor demais a inocentes — e, claro, vigiando Safira.
Tudo corria conforme o planejado, até que o imprevisto aconteceu. Duas mulheres jovens, vestidas com sedas caras e sorrisos predatórios, bloquearam o caminho de Isaac.
— Nossa, olha só para você — disse uma delas, passando a mão pelo braço dele de forma ousada. — Minha amiga ali achou você um verdadeiro gato. E ela não está errada.
Isaac sentiu um nojo imediato. Ele tentou se afastar, mas as garotas eram persistentes, falando baixo, tentando atraí-lo para um canto mais reservado do salão sob o pretexto de precisarem de "serviços especiais".
Do outro lado do salão, Safira parou com a taça a meio caminho da boca. Seus olhos azuis escureceram, ficando frios como o gelo que Isaac manipulava. O ciúme borbulhou em seu peito como uma tempestade marítima. Ela viu quando as garotas começaram a arrastar Isaac para um corredor lateral. Ele parecia perdido, dividido entre o desejo de simplesmente congelar as duas e a necessidade de não causar uma cena na frente de Safira.
Safira não esperou. Ela caminhou pelo salão com uma elegância letal, cada passo exalando uma autoridade divina que fazia as pessoas abrirem caminho sem saber por quê. Quando ela alcançou o corredor, as garotas estavam rindo, tentando intimidar o "garçom" silencioso.
— Se vocês duas vagabundas querem sair daqui vivas... saiam daqui agora. E não abram o bico — a voz de Safira saiu baixa, mas carregada de um poder que fez o ar vibrar.
Ela apontou um dedo, e uma centelha de luz divina brilhou na ponta, pronta para ser disparada. As garotas empalideceram. Elas não sabiam quem era aquela mulher, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Elas tropeçaram uma na outra enquanto fugiam de volta para a festa.
Isaac soltou um suspiro de alívio, observando Safira com uma admiração renovada. Ela desativou o poder, mas o rosto ainda estava vermelho de raiva.
— Eu fiquei com medo! — exclamou ela, batendo levemente no peito dele. — Achei que você já tivesse matado o velho e me deixado sozinha aqui lidando com essas urubus!
Isaac soltou uma risada ruidosa, algo raro para ele. Ele se inclinou e beijou a bochecha dela.
— Eu nunca deixaria você sozinha, Safira.
Nesse momento, o alvo da missão apareceu no corredor, provavelmente procurando as garotas. Ele parou abruptamente ao ver a cena: uma jovem pequena de cabelos azuis e um gigante de pele branca e chifres. O homem abriu a boca para gritar, mas Isaac foi mais rápido. Com um movimento fluido de mão, uma onda de frio absoluto envolveu o idoso, transformando-o em uma estátua de gelo instantânea.
— Missão cumprida — disse Isaac.
Ele pegou Safira no colo, como se ela não pesasse nada, e saiu pela saída de emergência. O ar da noite estava fresco, e a adrenalina da missão os deixou eufóricos. Safira agarrou o rosto de Isaac, seus dedos acariciando as orelhas dele.
— A gente bem podia ir a um restaurante agora, né amor? — Ela fez um biquinho irresistível. — Estou morrendo de fome.
— Tudo o que você quiser — ele concordou, colocando-a no banco do passageiro do carro.
Antes de entrar no lado do motorista, Isaac parou. Ele sentiu uma presença. Seus olhos tricolores brilharam na escuridão. No limite da floresta que cercava a propriedade, uma figura felina branca o observava. Eles se encararam por longos segundos, um reconhecimento silencioso entre predadores. Isaac entrou no carro, o semblante agora sério.
No caminho, ele colocou a mão sobre a coxa de Safira, buscando conforto no contato físico. Safira sorriu e segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos.
— Olha essa mãozinha boba, viu? — brincou ela.
Isaac deu um sorriso de canto, embora houvesse uma sombra de decepção por ela não ter deixado a mão ali. Quando chegaram perto do restaurante, ele viu a figura novamente, entrando na mata lateral.
— Fique no carro — disse Isaac, sem olhar para ela. — Não saia até eu voltar.
— O que? Isaac, o que está acontecendo? — Safira perguntou, a preocupação imediata em sua voz.
Ele não tinha tempo para explicar. Ele encostou a testa na dela, fechando os olhos com força.
— Por favor, Safira. Só saia quando eu voltar. Eu imploro.
Ela hesitou, mas assentiu. Isaac saiu do carro e desapareceu entre as árvores.
Minutos se passaram. Safira batia os dedos no painel, a ansiedade crescendo a cada segundo. De repente, um clarão de luz azul explodiu no céu sobre a floresta. Era o sinal de Isaac. Ela não pensou duas vezes. Chutou os saltos altos para longe e correu descalça em direção ao brilho.
Ao chegar em uma clareira, o sangue de Safira ferveu. Uma garota de cabelos brancos e olhos amarelos, com traços felinos muito parecidos com os de Isaac, estava por cima dele, tentando atacá-lo com garras afiadas.
— Saia de cima dele! — gritou Safira.
Ela não esperou por uma resposta. Invocando seus poderes marinhos, ela lançou uma rajada de água pressurizada tão forte que jogou a desconhecida contra as pedras do outro lado da clareira. Safira avançou, as mãos brilhando com poder divino, pronta para finalizar o ataque, até que Isaac se colocou na frente dela.
— Pare! — gritou Isaac, segurando os ombros de Safira. — Eu estou bem... Safira, eu só não posso deixar que você a mate. Não você.
Safira parou, ofegante, os olhos fixos nos dele. A raiva ainda estava lá, mas a confusão começou a tomar conta.
Horas depois, na segurança de casa, a garota desconhecida acordou. Ela estava presa a uma cadeira por correntes de gelo sólido que Isaac havia criado. Isaac estava parado diante dela, a aura fria e ameaçadora.
— Eu mandei você ficar longe da gente — disse Isaac, a voz carregada de um estresse profundo. — A porra da sua vida não tem nada a ver com a minha mais, Marina.
— Você é um traidor! — cuspiu a garota, lutando contra as correntes. — Se afastou de todos nós porque se acha mais forte, vivendo nesse mundo de humanos como se fosse um deles!
Safira observava a cena de longe, sentada no sofá enquanto colocava um curativo no joelho. Ela havia tropeçado em uma raiz durante a corrida na mata.
— Eu mataria você agora mesmo se ela não estivesse aqui — rosnou Isaac, mostrando as presas brancas para Marina.
— Ela? — Marina olhou para Safira com desdém. — Essa humana?
Safira se levantou, ignorando a dor no joelho, e caminhou até Isaac. Ela puxou o braço dele gentilmente, levando-o para um canto da sala.
— Deixe-me falar com ela, Isaac. Por favor.
— De jeito nenhum — ele recusou imediatamente. — Ela é perigosa, Safira. Ela veio da minha antiga vila.
Safira usou sua arma secreta: olhou para ele com aqueles olhos de súplica, fazendo um pequeno charme que ela sabia que desarmava qualquer defesa dele. Isaac suspirou, derrotado.
— Se ela tentar qualquer coisa, grite. Eu estarei logo ali na cozinha.
Ele saiu, deixando as duas sozinhas. Safira se aproximou de Marina com um sorriso calmo.
— Qual o seu nome? — perguntou ela, a voz doce.
— Eu não converso com humanos — Marina respondeu friamente. — Especialmente a humana que o Isaac "prende" para se satisfazer.
Safira piscou, confusa.
— Como assim, humana que ele prende?
Marina soltou uma risada amarga.
— No nosso mundo, Isaac é conhecido como o Devorador Sem Piedade. Todos acham que ele fugiu para cá para ter uma escrava humana ou algo pior. Não há como ele ter piedade de alguém como você.
Safira olhou para a cozinha, onde Isaac estava visivelmente inquieto, quase submisso à vontade dela, o mesmo homem que pedia desesperadamente para entrar no banheiro com ela porque tinha medo de ficar sozinho. Ela voltou a olhar para Marina.
— Eu não sou prisioneira dele, Marina. Nós somos namorados. Eu moro aqui porque eu o amo. Meu nome é Safira.
Ela estendeu a mão. Marina recuou, os olhos amarelos se arregalando.
— Safira? Você é... a filha de Luna? A Guerreira da Água?
Safira ficou surpresa.
— Você conheceu minha mãe?
— Você é igualzinha a ela — murmurou Marina, a agressividade desaparecendo. — Eu me chamo Marina.
As duas começaram a conversar. Safira descobriu que Marina tinha crescido com Isaac e seu irmão mais velho, Nathaniel.
— Isaac! — chamou Safira. — Venha aqui e solte ela. Agora.
Isaac apareceu, relutante, mas obedeceu à ordem de Safira. Ele desfez as correntes de gelo com um toque, mas manteve o olhar fixo em Marina.
— Eu mato você se tentar algo — avisou ele.
— Eu nunca imaginei que você ficaria com alguém, Isaac — disse Marina, massageando os pulsos. — Especialmente alguém tão doce.
— Vocês não me conhecem — Isaac respondeu, ainda mantendo a distância. — Eu não sou o demônio que vocês criaram nas suas histórias.
Marina baixou a cabeça.
— Na vila... todos dizem que você foi embora porque se achava superior. Nathaniel disse que talvez você voltasse para se vingar de todos nós por termos te tratado mal por ser híbrido. Eu treinei a vida toda para te matar primeiro. Eu não sabia que Nathaniel estava mentindo.
Isaac sentiu uma pontada de amargura.
— Vocês me mandaram para este mundo porque me achavam fraco. Me venderam, me usaram. Eu não quero vingança contra a vila, Marina. Eu só quero ser deixado em paz. O fato de vocês acharem que eu sou o vilão diz mais sobre vocês do que sobre mim.
O silêncio caiu sobre a sala. Safira sentiu o peso da dor de Isaac.
— Eu posso até te perdoar, Marina — continuou Isaac, virando o rosto para esconder a emoção. — Mas nunca voltarei a confiar em você como confiava antes.
Marina deu um sorriso triste.
— Pelo menos você parece feliz. Depois de tudo o que passou... é bom ver que você encontrou algo real.
Para quebrar o clima pesado, Marina começou a contar histórias de quando eram filhotes. Ela descreveu como Isaac era desajeitado com suas asas grandes e como ele sempre se escondia quando os anciãos falavam sobre "esposas ideais" para os guerreiros. Safira ria, encantada com as histórias, mas, conforme o tempo passava, uma pequena pontada de insegurança surgiu. Marina sabia tanto sobre o passado dele... coisas que Safira ainda estava descobrindo.
Depois que Marina foi embora, prometendo manter o paradeiro de Isaac em segredo, o silêncio retornou à casa. Isaac viu que Safira ainda usava o vestido da festa, mas ela parecia pensativa.
— O que houve? — perguntou ele, aproximando-se. — Por que ainda está com essa roupa?
Safira o olhou nos olhos, uma pergunta simples escapando de seus lábios:
— Qual é a sua mulher ideal, gatinho?
Isaac parou. Ele entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Ele se aproximou e segurou o rosto dela com as mãos grandes e frias, mas o toque era de uma delicadeza extrema.
— Eu não tenho um "estilo" ideal, Safira.
— Mas Marina disse que vocês falavam sobre isso na vila...
Isaac deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso verdadeiramente relaxado da noite.
— A minha mulher ideal é linda, tem a pele escura como a noite mais bonita e um sorriso que faz meus pesadelos desaparecerem. Ela tem olhos encantadores que me veem como eu sou, e não como um monstro. Ela tem longos cabelos azulados e adora comer de tudo, especialmente quando estamos juntos.
Ele encostou a sua testa na dela.
— Essa é a mulher que eu amo. A única que eu quero para a vida toda. Você não precisa me seduzir com roupas bonitas por causa de um ciúme bobinho. Eu já sou seu, Safira. Totalmente seu.
Safira riu, sentindo o peso sair de seus ombros.
— Eu não estava com ciúmes!
— Ah, não? — Isaac começou a fazer cócegas nela, fazendo-a soltar gargalhadas altas que ecoaram pelo apartamento.
Mais tarde, quando as luzes se apagaram, Isaac deitou-se na cama. Safira sentou-se ao lado dele, e ele, o demônio de quase dois metros de altura, deitou a cabeça no colo dela com uma submissão total. Safira começou a fazer cafuné em suas orelhas de lince, sentindo o ronronar vibrar no peito dele. Ali, nos braços dela, Isaac finalmente conseguiu fechar os olhos e dormir, sem medo, sem pesadelos, apenas em paz.
