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Fandom: Nenhum
Criado: 28/05/2026
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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaEstudo de PersonagemCiúmesDiscriminação
Entre o Sagrado e o Profano
O motor potente do SUV de Emanuel rugiu suavemente quando ele estacionou em frente ao casarão de muros altos e jardim impecável. O clima dentro do carro, no entanto, era de uma tensão que beirava o insuportável. No banco do passageiro, Sara retocava o batom vermelho vibrante, o decote generoso do seu vestido de seda preta desafiando qualquer conceito de discrição. No banco de trás, Eduarda apertava as mãos pequenas sobre o vestido de linho azul-claro, os olhos castanhos fixos na fachada da casa da tia.
Emanuel desligou o motor e soltou um suspiro pesado, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros. Ser um tatuador de renome internacional exigia controle, mas mediar a relação entre suas duas namoradas era um trabalho que nenhuma lógica ou riqueza parecia resolver.
— Lembrem-se, é um evento de família — disse Emanuel, a voz rouca e firme, olhando pelo retrovisor para Eduarda antes de se virar para Sara. — Sem provocações hoje.
— Eu sou um anjo, Manu — Sara deu um sorriso irônico, guardando o espelho na bolsa de grife. — Mas não prometo nada se as primas da Duda começarem com aqueles olhares de igreja.
Eduarda apenas baixou a cabeça, o cabelo castanho caindo como uma cortina sobre o rosto delicado.
— A tia Odete é... rigorosa, Emanuel. Eu só queria que fosse um dia tranquilo — murmurou Eduarda, a voz sumindo no final.
Eles desceram do carro. Sara caminhava com a confiança de quem era dona do mundo, o salto agulha estalando no pavimento. Eduarda, por outro lado, caminhava mais perto de Emanuel, buscando o contato de sua mão, um refúgio silencioso contra a tempestade que sentia chegar.
Ao chegarem ao portão principal, a figura imponente da tia Odete já os aguardava. Vestida com um conjunto cinza fechado até o pescoço e um terço pendurado no pulso, ela parecia uma sentinela diante de um templo sagrado.
— Eduarda, minha sobrinha querida — disse Odete, ignorando completamente os outros dois por um momento. — Que bom que veio.
— Oi, tia — Eduarda sorriu timidamente, aproximando-se para um abraço rápido.
Emanuel deu um passo à frente, mantendo a postura firme e protetora que lhe era natural.
— Boa tarde, Dona Odete. Obrigado pelo convite.
A mulher encarou Emanuel com um respeito contido, ciente do sucesso e da seriedade do homem, mas seus olhos rapidamente se desviaram para a figura ao lado dele. O escrutínio foi imediato. Sara, com seus cabelos loiros perfeitamente estilizados, o silicone evidente sob o tecido fino e a expressão de puro deboche, era o oposto de tudo o que Odete pregava.
— Você e a minha sobrinha podem entrar, Emanuel — a voz de Odete soou como um veredito de tribunal. — Mas essa... essa mulher não pisa no meu chão.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços de forma a destacar ainda mais o busto.
— Como é que é, vovó? — Sara soltou uma risada curta e ácida. — Eu acho que não ouvi direito.
— Ouviu muito bem — Odete deu um passo à frente, a face rígida. — Eu não permito esse tipo de vulgaridade na minha casa. Aqui é um ambiente de família, de Deus. Não há lugar para quem se veste como uma perdida e exibe o corpo dessa maneira pecaminosa.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele era um homem prático, mas sua lealdade era absoluta. Seus dedos se fecharam em punhos ao lado do corpo.
— Dona Odete, a Sara está comigo — a voz de Emanuel subiu um tom, carregada de uma autoridade perigosa. — Ela é minha convidada e minha companheira. Se a senhora a está insultando, está me insultando também.
— Emanuel, por favor... — Eduarda interveio, a voz trêmula. Ela olhou para a tia com olhos suplicantes. — Tia, a Sara é legal, ela só tem o jeito dela. Não faz isso, é uma festa de família...
— Justamente por ser de família, Eduarda! — Odete cortou a sobrinha sem piedade. — Você é uma menina doce, mas tem o coração mole demais. Essa loira vulgar não entra. Ponto final.
Sara deu um passo à frente, o rosto vermelho de raiva reprimida, pronta para disparar uma de suas ofensas letais, mas Emanuel colocou o braço na frente dela, impedindo-a.
— Chega — Emanuel rosnou, os olhos fixos na tia de Eduarda. — Eu não vou ficar aqui ouvindo a senhora humilhar a Sara. Se ela não entra, nenhum de nós entra. Vamos embora agora.
Ele se virou para pegar a mão de Eduarda, esperando que ela o seguisse como sempre fazia, buscando sua proteção. Mas, para sua surpresa, Eduarda não se moveu. Ela olhava para o interior da casa, onde seus pais e primos já se reuniam.
— Emanuel... eu... eu quero ficar — Eduarda sussurrou, as lágrimas começando a brilhar nos olhos. — É o aniversário da vovó também, eu não a vejo faz meses. Por favor, não me obriga a ir embora.
Emanuel parou, chocado. A irritação que já sentia por Odete agora se voltava contra a própria Eduarda.
— Você está falando sério? — Emanuel perguntou, a voz baixa e tensa. — Essa mulher acabou de chamar a Sara de "perdida" na nossa cara, e você quer ficar para comer bolo?
— Eu sinto muito pela Sara, de verdade! — Eduarda se aproximou dele, tentando tocar seu braço com aquele jeito manhoso que costumava desarmá-lo, mas Emanuel se esquivou. — Mas é minha família, Manu. Eu não tenho culpa do que a tia Odete pensa.
Sara soltou uma gargalhada amarga, os olhos azuis faiscando de desprezo tanto pela tia quanto pela "rival".
— Viu só, Manu? A santinha não quer sujar o sapatinho de cristal por nós — Sara provocou, a voz pingando sarcasmo. — Deixa ela aí com as rezas dela.
Nesse momento, a porta da casa se abriu novamente e um homem surgiu. Era o pai de Eduarda, Ricardo. Aos 45 anos, ele mantinha um porte jovem e uma mente aberta que Emanuel sempre admirou. Ricardo observou a cena — a irmã irredutível, a filha em prantos, o genro furioso e a outra namorada ofendida.
— O que está acontecendo aqui? — Ricardo perguntou, embora o cenário fosse autoexplicativo.
— Ricardo, diga a esse rapaz que eu não aceito essa... criatura aqui dentro! — Odete exclamou.
Ricardo suspirou, olhando para Sara com um aceno educado de cabeça, e depois para Emanuel. Ele sabia que a irmã era impossível quando decidia ser moralista.
— Odete, você está sendo desnecessária — Ricardo disse com calma, mas depois olhou para a filha. — Eduarda, você quer entrar?
— Quero, pai — ela respondeu, limpando o rosto com as costas das mãos.
Ricardo então se voltou para Emanuel. O respeito entre os dois homens era mútuo, mas Ricardo era um pai protetor à sua própria maneira.
— Emanuel, entendo sua fúria. Você está certo em defender a Sara. Odete passou dos limites. Mas a Eduarda não vê a avó há muito tempo e ela não deve pagar pelos pecados da tia.
Emanuel tentou argumentar, mas Ricardo levantou a mão, assumindo o controle da situação.
— Vá com a Sara. Tire-a daqui, leve-a para algum lugar legal. A Eduarda fica comigo. Quando a festa terminar, eu mesmo a levo para a sua casa. Eu estou afirmando isso, Emanuel. Não se preocupe com ela.
Emanuel sentiu a mandíbula travar. Ele odiava perder o controle. Odiava a sensação de que o grupo estava se fragmentando. Ele olhou para Eduarda, que agora se escondia atrás do pai, parecendo pequena e vulnerável, mas decidida a ficar.
— Tudo bem — Emanuel disse, a voz fria como gelo, olhando diretamente nos olhos de Eduarda. — Você fica. Mas quando você chegar em casa, Eduarda... nós vamos ter uma conversa muito séria.
O tom de Emanuel não era de ameaça física, mas de uma rigidez emocional que Eduarda conhecia bem. Era o tom de quem estava profundamente decepcionado. Ela estremeceu, o lábio inferior tremendo.
— Manu, não fica bravo... — ela tentou, mas ele já estava se virando.
Emanuel segurou o braço de Sara com firmeza, não por agressividade, mas para guiá-la para longe dali o mais rápido possível.
— Vamos, Sara. Já perdemos tempo demais aqui.
Sara, sentindo-se vitoriosa por ter Emanuel só para si pelo resto do dia, mas ainda furiosa pela humilhação, lançou um último olhar de superioridade para Odete e um sorriso cínico para Eduarda.
— Aproveita o chá com as freiras, querida — disse Sara, antes de girar nos calcanhares e caminhar em direção ao SUV.
Emanuel não olhou para trás. Ele entrou no carro e bateu a porta, o som ecoando pela rua silenciosa. O motor rugiu novamente, e o SUV arrancou, deixando para trás o rastro de uma família dividida.
Dentro da casa, o ambiente era de uma paz forçada, mas para Eduarda, o ar parecia pesado. Ela se sentou em uma das poltronas da sala, recusando os salgadinhos que a tia lhe oferecia com um sorriso triunfante.
— Você fez o certo, Eduarda — disse Odete, passando a mão pelo cabelo da sobrinha. — Aquela mulher é uma má influência. E Emanuel precisa entender que não pode carregar o lixo para dentro de casas de família.
Eduarda não respondeu. Ela sentia um aperto no peito, uma ansiedade que subia pela garganta. Ela conhecia Emanuel. Sabia que, por trás daquela fachada racional e prática, ele estava fervendo. Ele valorizava a lealdade acima de tudo, e naquele momento, na porta daquela casa, ele sentiu que ela tinha escolhido o lado oposto.
As horas passaram devagar. As conversas sobre a paróquia, os negócios da família e as fofocas locais entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Eduarda buscava o celular a cada cinco minutos, mas não havia mensagens. Emanuel estava em silêncio. E o silêncio dele era sempre o pior sinal.
Por volta das dez da noite, Ricardo se aproximou da filha.
— Vamos, Duda? Vou te levar para casa como prometi.
— Vamos, pai — ela se levantou prontamente, querendo fugir daquele ambiente que agora lhe parecia sufocante.
O caminho até o loft de Emanuel foi silencioso. Ricardo sabia que a filha estava sofrendo, mas também sabia que a dinâmica entre os três era algo que só eles poderiam resolver. Quando o carro parou em frente ao prédio moderno onde Emanuel morava e mantinha um de seus estúdios privados, Ricardo tocou o ombro da filha.
— Seja firme, mas seja carinhosa. Ele está ferido no orgulho, Eduarda.
— Eu sei, pai. Obrigada.
Eduarda subiu o elevador com o coração batendo na garganta. Ela usou sua chave para entrar. O loft estava na penumbra, iluminado apenas por algumas luzes embutidas e pelo brilho da cidade que entrava pelas enormes janelas de vidro. O cheiro de tinta de tatuagem e o perfume amadeirado de Emanuel preenchiam o ar.
Sara estava deitada no sofá de couro, usando apenas uma camiseta de Emanuel, assistindo TV com um copo de vinho na mão. Ela olhou para Eduarda com um tédio fingido.
— A sobrevivente voltou — Sara comentou, voltando os olhos para a tela. — Ele está no estúdio. E eu se fosse você, prepararia o espírito. Ele não está nada feliz.
Eduarda engoliu em seco e caminhou em direção à porta de vidro fosco que dividia a área de estar do estúdio particular de Emanuel. Ela bateu levemente e entrou.
Emanuel estava sentado em seu mocho, limpando meticulosamente uma de suas máquinas de tatuar. Ele não usava camisa, e as tatuagens que cobriam seus braços e peito pareciam mais escuras sob a luz direta da luminária de bancada. Ele nem sequer levantou os olhos quando ela entrou.
— Oi — ela disse, a voz quase um sussurro, aproximando-se dele com passos lentos.
Emanuel continuou seu trabalho por mais alguns segundos antes de colocar a máquina sobre a mesa e finalmente olhar para ela. Sua expressão era gélida, os olhos cansados refletindo a tensão acumulada do dia.
— Senta aí, Eduarda — ele apontou para a cadeira de couro onde os clientes costumavam ficar.
Ela obedeceu, sentindo-se como uma criança prestes a levar uma bronca.
— Eu tentei explicar para a tia... — ela começou, mas ele a cortou com um gesto de mão.
— Eu não quero saber da sua tia. Eu sei quem ela é. O que me importa aqui é a sua atitude — Emanuel se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Nós somos um grupo, Eduarda. Eu, você e a Sara. Quando alguém humilha uma de vocês, está me humilhando. Eu coloquei meu rosto a tapa para defender a Sara, e você simplesmente me deu as costas e entrou.
— Eu não dei as costas! — lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela. — Eu só queria ver minha avó! Você sabe como eu sou, eu não consigo enfrentar as pessoas daquele jeito, eu fico nervosa...
— Sua timidez não é desculpa para falta de lealdade — a voz dele era dura, racional, o que doía ainda mais nela. — A Sara é impulsiva, ela é difícil, eu sei. Mas ela nunca deixaria você ser humilhada daquela forma sem dizer nada. Ela ficou lá fora, sendo chamada de nomes que eu nem gosto de repetir, enquanto você estava lá dentro sendo a "sobrinha perfeita".
Eduarda se levantou e caminhou até ele, tentando se encaixar entre suas pernas, buscando o contato físico que sempre amolecia o coração dele. Ela rodeou o pescoço dele com os braços, escondendo o rosto em seu ombro.
— Desculpa, Manu... por favor, me perdoa. Eu me senti tão mal lá dentro. Eu não conseguia parar de pensar em vocês. Eu sou fraca, eu sei... eu sou manhosa e covarde, mas eu amo você. Eu amo a nossa vida.
Emanuel suspirou, sentindo o corpo macio de Eduarda contra o seu. O cheiro doce dela e a fragilidade de seu choro eram suas maiores fraquezas. Ele fechou os olhos por um momento, sentindo a raiva lutar contra o instinto de proteção. Suas mãos, grandes e marcadas, hesitaram, mas acabaram pousando na cintura fina dela, puxando-a para mais perto.
— Você não pode fazer isso, Duda — ele murmurou, a voz suavizando apenas um pouco, mas ainda mantendo a firmeza. — Se a gente quer que isso funcione, temos que ser um bloco único. Se você permite que sua família trate a Sara assim, você está permitindo que eles me desrespeitem também.
— Eu sei, eu prometo que nunca mais vou deixar isso acontecer — ela soluçou, beijando o pescoço dele, sentindo o pulsar da veia em sua garganta. — Eu vou falar com a tia Odete, eu vou dizer que se a Sara não for bem-vinda, eu também não vou mais.
Emanuel a afastou um pouco para olhar em seus olhos. Ele viu a sinceridade na expressão dela, mas também viu a dependência emocional que o preocupava.
— Você vai falar mesmo? Ou está dizendo isso só para eu parar de brigar com você?
Eduarda baixou os olhos, mas depois assentiu com a cabeça.
— Eu vou falar. Por você. E por ela também.
Emanuel a observou por um longo tempo. Ele ainda estava irritado, a imagem de Sara sendo barrada na porta ainda queimava em sua mente, mas ele sabia que Eduarda não tinha a mesma armadura que ele ou Sara.
— Vai para o quarto — ele disse, finalmente soltando um suspiro longo. — Toma um banho e tenta descansar. Eu vou terminar de organizar as coisas aqui e falar com a Sara.
— Você ainda está bravo? — ela perguntou, fazendo um biquinho manhoso, os olhos úmidos.
Emanuel passou o polegar pelo lábio inferior dela, um gesto que era metade carinho, metade controle.
— Estou. Mas a gente resolve isso. Agora vá.
Eduarda deu um selinho rápido nele e saiu do estúdio, sentindo um alívio parcial. Ela sabia que a noite ainda seria longa e que a dinâmica entre os três teria que ser recalibrada.
No estúdio, Emanuel voltou a olhar para suas máquinas. Ele era um homem que lidava com a dor e a arte todos os dias, transformando cicatrizes em beleza. Mas as cicatrizes que aquela tarde de domingo haviam deixado em sua pequena e complexa família seriam muito mais difíceis de tatuar. Ele precisaria de toda a sua paciência e de todo o seu controle para manter aquelas duas mulheres tão diferentes unidas sob o mesmo teto, especialmente quando o mundo lá fora parecia determinado a separá-los.
Emanuel desligou o motor e soltou um suspiro pesado, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros. Ser um tatuador de renome internacional exigia controle, mas mediar a relação entre suas duas namoradas era um trabalho que nenhuma lógica ou riqueza parecia resolver.
— Lembrem-se, é um evento de família — disse Emanuel, a voz rouca e firme, olhando pelo retrovisor para Eduarda antes de se virar para Sara. — Sem provocações hoje.
— Eu sou um anjo, Manu — Sara deu um sorriso irônico, guardando o espelho na bolsa de grife. — Mas não prometo nada se as primas da Duda começarem com aqueles olhares de igreja.
Eduarda apenas baixou a cabeça, o cabelo castanho caindo como uma cortina sobre o rosto delicado.
— A tia Odete é... rigorosa, Emanuel. Eu só queria que fosse um dia tranquilo — murmurou Eduarda, a voz sumindo no final.
Eles desceram do carro. Sara caminhava com a confiança de quem era dona do mundo, o salto agulha estalando no pavimento. Eduarda, por outro lado, caminhava mais perto de Emanuel, buscando o contato de sua mão, um refúgio silencioso contra a tempestade que sentia chegar.
Ao chegarem ao portão principal, a figura imponente da tia Odete já os aguardava. Vestida com um conjunto cinza fechado até o pescoço e um terço pendurado no pulso, ela parecia uma sentinela diante de um templo sagrado.
— Eduarda, minha sobrinha querida — disse Odete, ignorando completamente os outros dois por um momento. — Que bom que veio.
— Oi, tia — Eduarda sorriu timidamente, aproximando-se para um abraço rápido.
Emanuel deu um passo à frente, mantendo a postura firme e protetora que lhe era natural.
— Boa tarde, Dona Odete. Obrigado pelo convite.
A mulher encarou Emanuel com um respeito contido, ciente do sucesso e da seriedade do homem, mas seus olhos rapidamente se desviaram para a figura ao lado dele. O escrutínio foi imediato. Sara, com seus cabelos loiros perfeitamente estilizados, o silicone evidente sob o tecido fino e a expressão de puro deboche, era o oposto de tudo o que Odete pregava.
— Você e a minha sobrinha podem entrar, Emanuel — a voz de Odete soou como um veredito de tribunal. — Mas essa... essa mulher não pisa no meu chão.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços de forma a destacar ainda mais o busto.
— Como é que é, vovó? — Sara soltou uma risada curta e ácida. — Eu acho que não ouvi direito.
— Ouviu muito bem — Odete deu um passo à frente, a face rígida. — Eu não permito esse tipo de vulgaridade na minha casa. Aqui é um ambiente de família, de Deus. Não há lugar para quem se veste como uma perdida e exibe o corpo dessa maneira pecaminosa.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele era um homem prático, mas sua lealdade era absoluta. Seus dedos se fecharam em punhos ao lado do corpo.
— Dona Odete, a Sara está comigo — a voz de Emanuel subiu um tom, carregada de uma autoridade perigosa. — Ela é minha convidada e minha companheira. Se a senhora a está insultando, está me insultando também.
— Emanuel, por favor... — Eduarda interveio, a voz trêmula. Ela olhou para a tia com olhos suplicantes. — Tia, a Sara é legal, ela só tem o jeito dela. Não faz isso, é uma festa de família...
— Justamente por ser de família, Eduarda! — Odete cortou a sobrinha sem piedade. — Você é uma menina doce, mas tem o coração mole demais. Essa loira vulgar não entra. Ponto final.
Sara deu um passo à frente, o rosto vermelho de raiva reprimida, pronta para disparar uma de suas ofensas letais, mas Emanuel colocou o braço na frente dela, impedindo-a.
— Chega — Emanuel rosnou, os olhos fixos na tia de Eduarda. — Eu não vou ficar aqui ouvindo a senhora humilhar a Sara. Se ela não entra, nenhum de nós entra. Vamos embora agora.
Ele se virou para pegar a mão de Eduarda, esperando que ela o seguisse como sempre fazia, buscando sua proteção. Mas, para sua surpresa, Eduarda não se moveu. Ela olhava para o interior da casa, onde seus pais e primos já se reuniam.
— Emanuel... eu... eu quero ficar — Eduarda sussurrou, as lágrimas começando a brilhar nos olhos. — É o aniversário da vovó também, eu não a vejo faz meses. Por favor, não me obriga a ir embora.
Emanuel parou, chocado. A irritação que já sentia por Odete agora se voltava contra a própria Eduarda.
— Você está falando sério? — Emanuel perguntou, a voz baixa e tensa. — Essa mulher acabou de chamar a Sara de "perdida" na nossa cara, e você quer ficar para comer bolo?
— Eu sinto muito pela Sara, de verdade! — Eduarda se aproximou dele, tentando tocar seu braço com aquele jeito manhoso que costumava desarmá-lo, mas Emanuel se esquivou. — Mas é minha família, Manu. Eu não tenho culpa do que a tia Odete pensa.
Sara soltou uma gargalhada amarga, os olhos azuis faiscando de desprezo tanto pela tia quanto pela "rival".
— Viu só, Manu? A santinha não quer sujar o sapatinho de cristal por nós — Sara provocou, a voz pingando sarcasmo. — Deixa ela aí com as rezas dela.
Nesse momento, a porta da casa se abriu novamente e um homem surgiu. Era o pai de Eduarda, Ricardo. Aos 45 anos, ele mantinha um porte jovem e uma mente aberta que Emanuel sempre admirou. Ricardo observou a cena — a irmã irredutível, a filha em prantos, o genro furioso e a outra namorada ofendida.
— O que está acontecendo aqui? — Ricardo perguntou, embora o cenário fosse autoexplicativo.
— Ricardo, diga a esse rapaz que eu não aceito essa... criatura aqui dentro! — Odete exclamou.
Ricardo suspirou, olhando para Sara com um aceno educado de cabeça, e depois para Emanuel. Ele sabia que a irmã era impossível quando decidia ser moralista.
— Odete, você está sendo desnecessária — Ricardo disse com calma, mas depois olhou para a filha. — Eduarda, você quer entrar?
— Quero, pai — ela respondeu, limpando o rosto com as costas das mãos.
Ricardo então se voltou para Emanuel. O respeito entre os dois homens era mútuo, mas Ricardo era um pai protetor à sua própria maneira.
— Emanuel, entendo sua fúria. Você está certo em defender a Sara. Odete passou dos limites. Mas a Eduarda não vê a avó há muito tempo e ela não deve pagar pelos pecados da tia.
Emanuel tentou argumentar, mas Ricardo levantou a mão, assumindo o controle da situação.
— Vá com a Sara. Tire-a daqui, leve-a para algum lugar legal. A Eduarda fica comigo. Quando a festa terminar, eu mesmo a levo para a sua casa. Eu estou afirmando isso, Emanuel. Não se preocupe com ela.
Emanuel sentiu a mandíbula travar. Ele odiava perder o controle. Odiava a sensação de que o grupo estava se fragmentando. Ele olhou para Eduarda, que agora se escondia atrás do pai, parecendo pequena e vulnerável, mas decidida a ficar.
— Tudo bem — Emanuel disse, a voz fria como gelo, olhando diretamente nos olhos de Eduarda. — Você fica. Mas quando você chegar em casa, Eduarda... nós vamos ter uma conversa muito séria.
O tom de Emanuel não era de ameaça física, mas de uma rigidez emocional que Eduarda conhecia bem. Era o tom de quem estava profundamente decepcionado. Ela estremeceu, o lábio inferior tremendo.
— Manu, não fica bravo... — ela tentou, mas ele já estava se virando.
Emanuel segurou o braço de Sara com firmeza, não por agressividade, mas para guiá-la para longe dali o mais rápido possível.
— Vamos, Sara. Já perdemos tempo demais aqui.
Sara, sentindo-se vitoriosa por ter Emanuel só para si pelo resto do dia, mas ainda furiosa pela humilhação, lançou um último olhar de superioridade para Odete e um sorriso cínico para Eduarda.
— Aproveita o chá com as freiras, querida — disse Sara, antes de girar nos calcanhares e caminhar em direção ao SUV.
Emanuel não olhou para trás. Ele entrou no carro e bateu a porta, o som ecoando pela rua silenciosa. O motor rugiu novamente, e o SUV arrancou, deixando para trás o rastro de uma família dividida.
Dentro da casa, o ambiente era de uma paz forçada, mas para Eduarda, o ar parecia pesado. Ela se sentou em uma das poltronas da sala, recusando os salgadinhos que a tia lhe oferecia com um sorriso triunfante.
— Você fez o certo, Eduarda — disse Odete, passando a mão pelo cabelo da sobrinha. — Aquela mulher é uma má influência. E Emanuel precisa entender que não pode carregar o lixo para dentro de casas de família.
Eduarda não respondeu. Ela sentia um aperto no peito, uma ansiedade que subia pela garganta. Ela conhecia Emanuel. Sabia que, por trás daquela fachada racional e prática, ele estava fervendo. Ele valorizava a lealdade acima de tudo, e naquele momento, na porta daquela casa, ele sentiu que ela tinha escolhido o lado oposto.
As horas passaram devagar. As conversas sobre a paróquia, os negócios da família e as fofocas locais entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Eduarda buscava o celular a cada cinco minutos, mas não havia mensagens. Emanuel estava em silêncio. E o silêncio dele era sempre o pior sinal.
Por volta das dez da noite, Ricardo se aproximou da filha.
— Vamos, Duda? Vou te levar para casa como prometi.
— Vamos, pai — ela se levantou prontamente, querendo fugir daquele ambiente que agora lhe parecia sufocante.
O caminho até o loft de Emanuel foi silencioso. Ricardo sabia que a filha estava sofrendo, mas também sabia que a dinâmica entre os três era algo que só eles poderiam resolver. Quando o carro parou em frente ao prédio moderno onde Emanuel morava e mantinha um de seus estúdios privados, Ricardo tocou o ombro da filha.
— Seja firme, mas seja carinhosa. Ele está ferido no orgulho, Eduarda.
— Eu sei, pai. Obrigada.
Eduarda subiu o elevador com o coração batendo na garganta. Ela usou sua chave para entrar. O loft estava na penumbra, iluminado apenas por algumas luzes embutidas e pelo brilho da cidade que entrava pelas enormes janelas de vidro. O cheiro de tinta de tatuagem e o perfume amadeirado de Emanuel preenchiam o ar.
Sara estava deitada no sofá de couro, usando apenas uma camiseta de Emanuel, assistindo TV com um copo de vinho na mão. Ela olhou para Eduarda com um tédio fingido.
— A sobrevivente voltou — Sara comentou, voltando os olhos para a tela. — Ele está no estúdio. E eu se fosse você, prepararia o espírito. Ele não está nada feliz.
Eduarda engoliu em seco e caminhou em direção à porta de vidro fosco que dividia a área de estar do estúdio particular de Emanuel. Ela bateu levemente e entrou.
Emanuel estava sentado em seu mocho, limpando meticulosamente uma de suas máquinas de tatuar. Ele não usava camisa, e as tatuagens que cobriam seus braços e peito pareciam mais escuras sob a luz direta da luminária de bancada. Ele nem sequer levantou os olhos quando ela entrou.
— Oi — ela disse, a voz quase um sussurro, aproximando-se dele com passos lentos.
Emanuel continuou seu trabalho por mais alguns segundos antes de colocar a máquina sobre a mesa e finalmente olhar para ela. Sua expressão era gélida, os olhos cansados refletindo a tensão acumulada do dia.
— Senta aí, Eduarda — ele apontou para a cadeira de couro onde os clientes costumavam ficar.
Ela obedeceu, sentindo-se como uma criança prestes a levar uma bronca.
— Eu tentei explicar para a tia... — ela começou, mas ele a cortou com um gesto de mão.
— Eu não quero saber da sua tia. Eu sei quem ela é. O que me importa aqui é a sua atitude — Emanuel se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Nós somos um grupo, Eduarda. Eu, você e a Sara. Quando alguém humilha uma de vocês, está me humilhando. Eu coloquei meu rosto a tapa para defender a Sara, e você simplesmente me deu as costas e entrou.
— Eu não dei as costas! — lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela. — Eu só queria ver minha avó! Você sabe como eu sou, eu não consigo enfrentar as pessoas daquele jeito, eu fico nervosa...
— Sua timidez não é desculpa para falta de lealdade — a voz dele era dura, racional, o que doía ainda mais nela. — A Sara é impulsiva, ela é difícil, eu sei. Mas ela nunca deixaria você ser humilhada daquela forma sem dizer nada. Ela ficou lá fora, sendo chamada de nomes que eu nem gosto de repetir, enquanto você estava lá dentro sendo a "sobrinha perfeita".
Eduarda se levantou e caminhou até ele, tentando se encaixar entre suas pernas, buscando o contato físico que sempre amolecia o coração dele. Ela rodeou o pescoço dele com os braços, escondendo o rosto em seu ombro.
— Desculpa, Manu... por favor, me perdoa. Eu me senti tão mal lá dentro. Eu não conseguia parar de pensar em vocês. Eu sou fraca, eu sei... eu sou manhosa e covarde, mas eu amo você. Eu amo a nossa vida.
Emanuel suspirou, sentindo o corpo macio de Eduarda contra o seu. O cheiro doce dela e a fragilidade de seu choro eram suas maiores fraquezas. Ele fechou os olhos por um momento, sentindo a raiva lutar contra o instinto de proteção. Suas mãos, grandes e marcadas, hesitaram, mas acabaram pousando na cintura fina dela, puxando-a para mais perto.
— Você não pode fazer isso, Duda — ele murmurou, a voz suavizando apenas um pouco, mas ainda mantendo a firmeza. — Se a gente quer que isso funcione, temos que ser um bloco único. Se você permite que sua família trate a Sara assim, você está permitindo que eles me desrespeitem também.
— Eu sei, eu prometo que nunca mais vou deixar isso acontecer — ela soluçou, beijando o pescoço dele, sentindo o pulsar da veia em sua garganta. — Eu vou falar com a tia Odete, eu vou dizer que se a Sara não for bem-vinda, eu também não vou mais.
Emanuel a afastou um pouco para olhar em seus olhos. Ele viu a sinceridade na expressão dela, mas também viu a dependência emocional que o preocupava.
— Você vai falar mesmo? Ou está dizendo isso só para eu parar de brigar com você?
Eduarda baixou os olhos, mas depois assentiu com a cabeça.
— Eu vou falar. Por você. E por ela também.
Emanuel a observou por um longo tempo. Ele ainda estava irritado, a imagem de Sara sendo barrada na porta ainda queimava em sua mente, mas ele sabia que Eduarda não tinha a mesma armadura que ele ou Sara.
— Vai para o quarto — ele disse, finalmente soltando um suspiro longo. — Toma um banho e tenta descansar. Eu vou terminar de organizar as coisas aqui e falar com a Sara.
— Você ainda está bravo? — ela perguntou, fazendo um biquinho manhoso, os olhos úmidos.
Emanuel passou o polegar pelo lábio inferior dela, um gesto que era metade carinho, metade controle.
— Estou. Mas a gente resolve isso. Agora vá.
Eduarda deu um selinho rápido nele e saiu do estúdio, sentindo um alívio parcial. Ela sabia que a noite ainda seria longa e que a dinâmica entre os três teria que ser recalibrada.
No estúdio, Emanuel voltou a olhar para suas máquinas. Ele era um homem que lidava com a dor e a arte todos os dias, transformando cicatrizes em beleza. Mas as cicatrizes que aquela tarde de domingo haviam deixado em sua pequena e complexa família seriam muito mais difíceis de tatuar. Ele precisaria de toda a sua paciência e de todo o seu controle para manter aquelas duas mulheres tão diferentes unidas sob o mesmo teto, especialmente quando o mundo lá fora parecia determinado a separá-los.
