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Fandom: Nenhum
Criado: 28/05/2026
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RomanceDramaPsicológicoCiúmesEstudo de PersonagemRealismoLinguagem Explícita
O Peso do Contraste
O sol de fim de tarde sobre a Ilha Bela tinha um tom de ouro envelhecido, refletindo-se nas ondas mansas que quebravam diante da casa de veraneio de alto padrão. Emanuel estava encostado no parapeito da varanda de madeira, um copo de uísque esquecido na mão direita. Ele observava o horizonte, tentando ignorar, pelo menos por alguns minutos, o som estridente da risada de Sara que vinha da área da piscina.
Sara era uma força da natureza, ou talvez um furacão controlado. Naqueles quatro meses de namoro, Emanuel se vira tragado pela energia caótica da loira. Ela era magnífica à sua maneira — o corpo escultural realçado pelo biquíni minúsculo, os seios siliconados que ela exibia com orgulho e aquela confiança inabalável que beirava a vulgaridade. Ela era administração pura: sabia gerenciar olhares, espaços e pessoas, mesmo que não trabalhasse um dia sequer. Emanuel a amava pelo fogo, pela intensidade que o tirava da monotonia de seus estúdios de tatuagem e reuniões de negócios.
— Emanuel! Amor, vem aqui tirar uma foto minha! — a voz de Sara cortou o ar, exigente.
Ele suspirou, um vinco de cansaço surgindo entre as sobrancelhas. Antes que pudesse responder, o som de um carro subindo a rampa de cascalho chamou sua atenção. Era o jipe de Lucas, seu melhor amigo de longa data.
— Finalmente — resmungou Emanuel, sentindo um alívio genuíno.
Ele desceu as escadas da varanda e caminhou até o pátio. Lucas saltou do carro, esticando os braços e soltando um grito de saudação.
— Fala, meu mano! Achei que o GPS ia me mandar pro meio do oceano, mas chegamos.
Os dois se cumprimentaram com um abraço firme e um aperto de mão. Foi então que Emanuel percebeu que a porta do passageiro ainda estava fechada, e havia um movimento sutil lá dentro.
— Trouxe a carga preciosa? — brincou Emanuel.
Lucas mudou a expressão instantaneamente, tornando-se mais sério, quase alerta.
— Trouxe. E já aviso: juízo, Emanuel. Você e essa galera. A Duda é... você sabe. Ela é na dela. Se alguém for babaca com ela, a gente vai ter problema.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, curioso. Ele sabia que Lucas tinha uma irmã mais nova, mas nunca a tinha conhecido pessoalmente. A "pequena Eduarda" era quase uma lenda urbana, sempre estudando, sempre protegida sob as asas do irmão.
A porta do passageiro se abriu devagar. Primeiro, surgiu um pé calçado em uma sapatilha clara e delicada. Depois, uma jovem saiu do carro, parecendo querer se esconder atrás da própria porta.
O ar pareceu faltar nos pulmões de Emanuel por um segundo.
Ela era o oposto absoluto de tudo o que estava acontecendo naquela casa. Eduarda usava um vestido de linho branco, leve e solto, que batia nos joelhos. O cabelo castanho escuro caía em ondas naturais sobre os ombros, sem o artifício de sprays ou modeladores. A pele era clara, quase translúcida, e o rosto tinha traços tão finos que pareciam esculpidos em porcelana.
— Duda, vem cá — chamou Lucas, estendendo a mão para ela.
Ela caminhou até eles com passos curtos, os ombros levemente encolhidos. Quando parou ao lado do irmão, seus olhos — grandes, expressivos e carregados de uma timidez quase palpável — encontraram os de Emanuel.
— Emanuel, essa é a Eduarda. Duda, esse é o Emanuel, o dono da casa e meu irmão de outra mãe.
— Oi... — a voz dela saiu em um sussurro, tão doce e suave que Emanuel sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Ela não estendeu a mão. Em vez disso, segurou a alça da própria bolsa com as duas mãos à frente do corpo, um gesto de autoproteção que a deixava ainda mais vulnerável aos olhos dele.
— É um prazer, Eduarda — disse Emanuel, sua voz saindo mais grave do que o pretendido. Ele, que costumava ser o mestre do controle e da racionalidade, sentiu um impulso irracional de dar um passo à frente e protegê-la do vento que soprava do mar. — Seja bem-vinda. O Lucas fala muito de você.
Eduarda deu um sorriso minúsculo, as bochechas ganhando um tom rosado que encantou o tatuador.
— Ele fala muito do senhor também — ela disse, baixando o olhar imediatamente após a fala.
— "Senhor"? — Emanuel soltou uma risada curta, sentindo uma leveza que não experimentava há meses. — Tenho só vinte e cinco anos, Eduarda. Pode me chamar de Emanuel. Ou só Manu, se preferir.
— Tá bom... Emanuel — ela repetiu o nome dele como se estivesse testando o sabor de uma fruta nova.
— Bom, vamos entrar? — Lucas interrompeu, pegando as malas no porta-malas. — Quero um quarto longe da bagunça. A Duda precisa de silêncio para estudar as coisas dela da faculdade. História da Arte, sabe como é.
Emanuel não conseguia parar de olhar para ela. Havia uma fragilidade nela que o fascinava. Enquanto Sara era um outdoor de neon, Eduarda era a luz suave de uma vela em um quarto escuro. Ele sentiu uma vontade súbita de ver as mãos dela, de saber se eram tão macias quanto pareciam, de entender o que se passava por trás daqueles olhos observadores.
No entanto, o momento de paz foi destruído pelo som de saltos altos batendo com força contra o piso de pedra.
— Emanuel! Quem chegou? Você me deixou falando sozinha lá embaixo!
Sara apareceu, caminhando com seu rebolado característico. O biquíni rosa choque brilhava sob o sol, e o cabelo loiro platinado estava impecavelmente alinhado. Ela parou ao lado de Emanuel, passando o braço pela cintura dele de forma possessiva e encostando os seios siliconados contra o braço do namorado.
— Ah, oi Lucas — disse ela, mal olhando para o amigo de Emanuel. Seus olhos se cravaram imediatamente em Eduarda, varrendo a garota de cima a baixo com um julgamento ácido. — E essa... quem é? A babá?
Emanuel sentiu a tensão de Lucas aumentar ao seu lado. Eduarda, por sua vez, pareceu encolher-se ainda mais, dando um passo discreto para trás, quase se escondendo atrás do irmão.
— Sara, essa é a Eduarda, irmã do Lucas — Emanuel disse, o tom de voz ficando frio e firme. — E ela é nossa convidada. Trate-a com respeito.
Sara soltou um "tsc" sonoro, revirando os olhos.
— Credo, que mau humor. Só achei que era uma criança, com esse vestidinho de primeira comunhão. Prazer, querida. Eu sou a Sara, a dona do coração e da paciência do Emanuel.
Eduarda não respondeu com palavras. Ela apenas assentiu levemente, os olhos fixos nos próprios pés. Emanuel sentiu uma pontada de irritação com a vulgaridade de Sara, mas ao mesmo tempo, ao sentir o corpo da namorada pressionado contra o seu, não conseguiu repelir a atração física que ainda sentia por ela.
— Lucas, leve as coisas dela para a suíte azul — ordenou Emanuel, tentando retomar o controle da situação. — É a mais silenciosa da casa.
— Valeu, cara — Lucas disse, lançando um olhar de aviso para Sara antes de tocar o ombro da irmã. — Vamos, Duda.
Eduarda começou a seguir o irmão, mas parou por um segundo. Ela olhou para Emanuel uma última vez. Foi um olhar rápido, carregado de uma timidez manhosa, como se estivesse pedindo desculpas por existir ou por causar qualquer transtorno.
— Com licença — ela murmurou antes de se afastar.
Emanuel ficou parado, observando-a subir a escada. O jeito leve como ela caminhava, quase sem fazer barulho, contrastava violentamente com a presença barulhenta de Sara ao seu lado.
— Que garota estranha — comentou Sara, soltando o braço de Emanuel e começando a lixar uma unha imaginária. — Meio morta, né? Não tem sal, não tem corpo... Emanuel, você tá me ouvindo?
Ele não estava. Sua mente estava processando algo novo, algo perigoso. Ele amava Sara, ou pelo menos amava a adrenalina que ela proporcionava. Mas aquela menina... Eduarda... ela tinha despertado algo que ele nem sabia que possuía: um instinto de posse misturado com uma ternura profunda.
— Ela é só tímida, Sara — ele respondeu, a voz distante.
— Tímida ou sonsa? — Sara provocou, aproximando-se dele e passando as mãos pelo peito tatuado do namorado. — Cuidado, essas santinhas são as piores. Mas não se preocupa, eu estou aqui para te distrair delas.
Ela o beijou, um beijo faminto e técnico, cheio de língua e intenção. Emanuel correspondeu, as mãos descendo mecanicamente para as curvas de Sara, mas seus olhos permaneceram abertos por um segundo a mais, fixos na porta por onde Eduarda havia desaparecido.
A noite caiu e o jantar foi servido no terraço. A dinâmica era desconfortável. Sara falava alto, contava sobre suas viagens e sobre como pretendia reformar um dos estúdios de Emanuel em Paris, agindo como se já fosse a dona de tudo. Lucas tentava manter uma conversa civilizada sobre carros e negócios, mas seus olhos não saíam da irmã.
Eduarda estava sentada à ponta da mesa, comendo pouco, os movimentos delicados e precisos. Ela parecia flutuar em um mundo próprio.
— E você, Eduarda? — Sara disparou, no meio de um gole de vinho tinto. — O que você faz da vida além de ser a sombra do seu irmão? Tem namorado? Ou os meninos têm medo de quebrar você se encostarem?
O silêncio caiu sobre a mesa. Lucas apertou o garfo com força, mas antes que pudesse explodir, Emanuel interveio.
— Sara, chega.
— O quê? Só estou tentando integrar a menina! — Sara riu, a voz carregada de ironia. — Ela está aqui há duas horas e não disse dez palavras.
Eduarda levantou os olhos devagar. Ela parecia à beira das lágrimas, mas havia uma dignidade silenciosa nela.
— Eu não... eu não gosto de falar muito — ela disse, a voz trêmula e manhosa. — Eu prefiro observar as coisas.
— Ah, uma observadora! — Sara debochou. — Que profundo.
— Eu acho que observar é uma virtude — Emanuel disse, sua voz cortando o sarcasmo de Sara como uma lâmina. Ele olhou diretamente para Eduarda. — Muitas pessoas falam demais para esconder que não têm nada a dizer. Quem observa, geralmente entende mais do mundo.
Eduarda sustentou o olhar dele por alguns segundos. Um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu nos lábios dela. Foi um momento de conexão pura, um fio invisível que se estendeu entre o tatuador experiente e a estudante de arte.
— Obrigada — ela sussurrou.
— Bom, eu terminei — anunciou Lucas, levantando-se. — Duda, quer caminhar um pouco na areia antes de dormir?
— Quero sim, Lu.
Eles se retiraram, e Emanuel ficou observando as duas silhuetas descendo para a praia.
— Você defendeu ela — Sara disse, a voz agora baixa e perigosa. Ela se inclinou sobre a mesa, o decote generoso quase tocando o prato. — Por que você defendeu aquela mosquinha morta?
Emanuel tomou o resto do seu uísque, sentindo o líquido queimar a garganta. Ele olhou para a namorada, a mulher que representava o seu presente, o seu prazer e o seu caos.
— Porque ela é diferente, Sara. E você está sendo desnecessariamente agressiva.
— Eu sinto o cheiro de ameaça de longe, Emanuel. E aquela garota... ela tem um jeito de olhar para você que eu não gostei.
Emanuel deu um sorriso de lado, um gesto que escondia a turbulência interna que começava a se formar.
— Ela é só uma menina, Sara. Relaxa.
Mas, por dentro, Emanuel sabia que não era apenas uma menina. Ele sentia uma necessidade crescente de estar perto de Eduarda, de ouvir o som daquela voz manhosa novamente, de protegê-la da própria Sara e de qualquer outra coisa que pudesse ferir aquela delicadeza.
Ele queria a intensidade de Sara. Queria o fogo que ela trazia para sua cama e a forma como ela desafiava sua autoridade. Mas, ao mesmo tempo, ele sentia que precisava da paz de Eduarda. Ele a queria morando com ele, preenchendo os espaços vazios de suas casas luxuosas com aquela presença suave.
Ele queria as duas.
E, como um homem acostumado a conseguir tudo o que desejava através do poder e do dinheiro, Emanuel decidiu, naquele exato momento, enquanto observava Eduarda caminhar sob o luar, que ele não escolheria.
Ele encontraria um jeito de ter o fogo e a brisa. O caos e a arte. Sara e Eduarda.
— Vamos dormir — ele disse para Sara, levantando-se.
— Finalmente — ela sorriu, levantando-se também e grudando-se ao seu corpo.
Enquanto subiam para o quarto, Emanuel olhou uma última vez para a praia. Lá embaixo, Eduarda parou e olhou para trás, para a casa. Seus olhos se encontraram à distância. Ela não acenou, não sorriu. Apenas inclinou levemente a cabeça, um gesto de submissão e curiosidade que selou o destino de todos naquela casa.
O jogo havia começado, e Emanuel estava disposto a quebrar todas as regras para ganhar o que agora considerava seu.
Sara era uma força da natureza, ou talvez um furacão controlado. Naqueles quatro meses de namoro, Emanuel se vira tragado pela energia caótica da loira. Ela era magnífica à sua maneira — o corpo escultural realçado pelo biquíni minúsculo, os seios siliconados que ela exibia com orgulho e aquela confiança inabalável que beirava a vulgaridade. Ela era administração pura: sabia gerenciar olhares, espaços e pessoas, mesmo que não trabalhasse um dia sequer. Emanuel a amava pelo fogo, pela intensidade que o tirava da monotonia de seus estúdios de tatuagem e reuniões de negócios.
— Emanuel! Amor, vem aqui tirar uma foto minha! — a voz de Sara cortou o ar, exigente.
Ele suspirou, um vinco de cansaço surgindo entre as sobrancelhas. Antes que pudesse responder, o som de um carro subindo a rampa de cascalho chamou sua atenção. Era o jipe de Lucas, seu melhor amigo de longa data.
— Finalmente — resmungou Emanuel, sentindo um alívio genuíno.
Ele desceu as escadas da varanda e caminhou até o pátio. Lucas saltou do carro, esticando os braços e soltando um grito de saudação.
— Fala, meu mano! Achei que o GPS ia me mandar pro meio do oceano, mas chegamos.
Os dois se cumprimentaram com um abraço firme e um aperto de mão. Foi então que Emanuel percebeu que a porta do passageiro ainda estava fechada, e havia um movimento sutil lá dentro.
— Trouxe a carga preciosa? — brincou Emanuel.
Lucas mudou a expressão instantaneamente, tornando-se mais sério, quase alerta.
— Trouxe. E já aviso: juízo, Emanuel. Você e essa galera. A Duda é... você sabe. Ela é na dela. Se alguém for babaca com ela, a gente vai ter problema.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, curioso. Ele sabia que Lucas tinha uma irmã mais nova, mas nunca a tinha conhecido pessoalmente. A "pequena Eduarda" era quase uma lenda urbana, sempre estudando, sempre protegida sob as asas do irmão.
A porta do passageiro se abriu devagar. Primeiro, surgiu um pé calçado em uma sapatilha clara e delicada. Depois, uma jovem saiu do carro, parecendo querer se esconder atrás da própria porta.
O ar pareceu faltar nos pulmões de Emanuel por um segundo.
Ela era o oposto absoluto de tudo o que estava acontecendo naquela casa. Eduarda usava um vestido de linho branco, leve e solto, que batia nos joelhos. O cabelo castanho escuro caía em ondas naturais sobre os ombros, sem o artifício de sprays ou modeladores. A pele era clara, quase translúcida, e o rosto tinha traços tão finos que pareciam esculpidos em porcelana.
— Duda, vem cá — chamou Lucas, estendendo a mão para ela.
Ela caminhou até eles com passos curtos, os ombros levemente encolhidos. Quando parou ao lado do irmão, seus olhos — grandes, expressivos e carregados de uma timidez quase palpável — encontraram os de Emanuel.
— Emanuel, essa é a Eduarda. Duda, esse é o Emanuel, o dono da casa e meu irmão de outra mãe.
— Oi... — a voz dela saiu em um sussurro, tão doce e suave que Emanuel sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Ela não estendeu a mão. Em vez disso, segurou a alça da própria bolsa com as duas mãos à frente do corpo, um gesto de autoproteção que a deixava ainda mais vulnerável aos olhos dele.
— É um prazer, Eduarda — disse Emanuel, sua voz saindo mais grave do que o pretendido. Ele, que costumava ser o mestre do controle e da racionalidade, sentiu um impulso irracional de dar um passo à frente e protegê-la do vento que soprava do mar. — Seja bem-vinda. O Lucas fala muito de você.
Eduarda deu um sorriso minúsculo, as bochechas ganhando um tom rosado que encantou o tatuador.
— Ele fala muito do senhor também — ela disse, baixando o olhar imediatamente após a fala.
— "Senhor"? — Emanuel soltou uma risada curta, sentindo uma leveza que não experimentava há meses. — Tenho só vinte e cinco anos, Eduarda. Pode me chamar de Emanuel. Ou só Manu, se preferir.
— Tá bom... Emanuel — ela repetiu o nome dele como se estivesse testando o sabor de uma fruta nova.
— Bom, vamos entrar? — Lucas interrompeu, pegando as malas no porta-malas. — Quero um quarto longe da bagunça. A Duda precisa de silêncio para estudar as coisas dela da faculdade. História da Arte, sabe como é.
Emanuel não conseguia parar de olhar para ela. Havia uma fragilidade nela que o fascinava. Enquanto Sara era um outdoor de neon, Eduarda era a luz suave de uma vela em um quarto escuro. Ele sentiu uma vontade súbita de ver as mãos dela, de saber se eram tão macias quanto pareciam, de entender o que se passava por trás daqueles olhos observadores.
No entanto, o momento de paz foi destruído pelo som de saltos altos batendo com força contra o piso de pedra.
— Emanuel! Quem chegou? Você me deixou falando sozinha lá embaixo!
Sara apareceu, caminhando com seu rebolado característico. O biquíni rosa choque brilhava sob o sol, e o cabelo loiro platinado estava impecavelmente alinhado. Ela parou ao lado de Emanuel, passando o braço pela cintura dele de forma possessiva e encostando os seios siliconados contra o braço do namorado.
— Ah, oi Lucas — disse ela, mal olhando para o amigo de Emanuel. Seus olhos se cravaram imediatamente em Eduarda, varrendo a garota de cima a baixo com um julgamento ácido. — E essa... quem é? A babá?
Emanuel sentiu a tensão de Lucas aumentar ao seu lado. Eduarda, por sua vez, pareceu encolher-se ainda mais, dando um passo discreto para trás, quase se escondendo atrás do irmão.
— Sara, essa é a Eduarda, irmã do Lucas — Emanuel disse, o tom de voz ficando frio e firme. — E ela é nossa convidada. Trate-a com respeito.
Sara soltou um "tsc" sonoro, revirando os olhos.
— Credo, que mau humor. Só achei que era uma criança, com esse vestidinho de primeira comunhão. Prazer, querida. Eu sou a Sara, a dona do coração e da paciência do Emanuel.
Eduarda não respondeu com palavras. Ela apenas assentiu levemente, os olhos fixos nos próprios pés. Emanuel sentiu uma pontada de irritação com a vulgaridade de Sara, mas ao mesmo tempo, ao sentir o corpo da namorada pressionado contra o seu, não conseguiu repelir a atração física que ainda sentia por ela.
— Lucas, leve as coisas dela para a suíte azul — ordenou Emanuel, tentando retomar o controle da situação. — É a mais silenciosa da casa.
— Valeu, cara — Lucas disse, lançando um olhar de aviso para Sara antes de tocar o ombro da irmã. — Vamos, Duda.
Eduarda começou a seguir o irmão, mas parou por um segundo. Ela olhou para Emanuel uma última vez. Foi um olhar rápido, carregado de uma timidez manhosa, como se estivesse pedindo desculpas por existir ou por causar qualquer transtorno.
— Com licença — ela murmurou antes de se afastar.
Emanuel ficou parado, observando-a subir a escada. O jeito leve como ela caminhava, quase sem fazer barulho, contrastava violentamente com a presença barulhenta de Sara ao seu lado.
— Que garota estranha — comentou Sara, soltando o braço de Emanuel e começando a lixar uma unha imaginária. — Meio morta, né? Não tem sal, não tem corpo... Emanuel, você tá me ouvindo?
Ele não estava. Sua mente estava processando algo novo, algo perigoso. Ele amava Sara, ou pelo menos amava a adrenalina que ela proporcionava. Mas aquela menina... Eduarda... ela tinha despertado algo que ele nem sabia que possuía: um instinto de posse misturado com uma ternura profunda.
— Ela é só tímida, Sara — ele respondeu, a voz distante.
— Tímida ou sonsa? — Sara provocou, aproximando-se dele e passando as mãos pelo peito tatuado do namorado. — Cuidado, essas santinhas são as piores. Mas não se preocupa, eu estou aqui para te distrair delas.
Ela o beijou, um beijo faminto e técnico, cheio de língua e intenção. Emanuel correspondeu, as mãos descendo mecanicamente para as curvas de Sara, mas seus olhos permaneceram abertos por um segundo a mais, fixos na porta por onde Eduarda havia desaparecido.
A noite caiu e o jantar foi servido no terraço. A dinâmica era desconfortável. Sara falava alto, contava sobre suas viagens e sobre como pretendia reformar um dos estúdios de Emanuel em Paris, agindo como se já fosse a dona de tudo. Lucas tentava manter uma conversa civilizada sobre carros e negócios, mas seus olhos não saíam da irmã.
Eduarda estava sentada à ponta da mesa, comendo pouco, os movimentos delicados e precisos. Ela parecia flutuar em um mundo próprio.
— E você, Eduarda? — Sara disparou, no meio de um gole de vinho tinto. — O que você faz da vida além de ser a sombra do seu irmão? Tem namorado? Ou os meninos têm medo de quebrar você se encostarem?
O silêncio caiu sobre a mesa. Lucas apertou o garfo com força, mas antes que pudesse explodir, Emanuel interveio.
— Sara, chega.
— O quê? Só estou tentando integrar a menina! — Sara riu, a voz carregada de ironia. — Ela está aqui há duas horas e não disse dez palavras.
Eduarda levantou os olhos devagar. Ela parecia à beira das lágrimas, mas havia uma dignidade silenciosa nela.
— Eu não... eu não gosto de falar muito — ela disse, a voz trêmula e manhosa. — Eu prefiro observar as coisas.
— Ah, uma observadora! — Sara debochou. — Que profundo.
— Eu acho que observar é uma virtude — Emanuel disse, sua voz cortando o sarcasmo de Sara como uma lâmina. Ele olhou diretamente para Eduarda. — Muitas pessoas falam demais para esconder que não têm nada a dizer. Quem observa, geralmente entende mais do mundo.
Eduarda sustentou o olhar dele por alguns segundos. Um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu nos lábios dela. Foi um momento de conexão pura, um fio invisível que se estendeu entre o tatuador experiente e a estudante de arte.
— Obrigada — ela sussurrou.
— Bom, eu terminei — anunciou Lucas, levantando-se. — Duda, quer caminhar um pouco na areia antes de dormir?
— Quero sim, Lu.
Eles se retiraram, e Emanuel ficou observando as duas silhuetas descendo para a praia.
— Você defendeu ela — Sara disse, a voz agora baixa e perigosa. Ela se inclinou sobre a mesa, o decote generoso quase tocando o prato. — Por que você defendeu aquela mosquinha morta?
Emanuel tomou o resto do seu uísque, sentindo o líquido queimar a garganta. Ele olhou para a namorada, a mulher que representava o seu presente, o seu prazer e o seu caos.
— Porque ela é diferente, Sara. E você está sendo desnecessariamente agressiva.
— Eu sinto o cheiro de ameaça de longe, Emanuel. E aquela garota... ela tem um jeito de olhar para você que eu não gostei.
Emanuel deu um sorriso de lado, um gesto que escondia a turbulência interna que começava a se formar.
— Ela é só uma menina, Sara. Relaxa.
Mas, por dentro, Emanuel sabia que não era apenas uma menina. Ele sentia uma necessidade crescente de estar perto de Eduarda, de ouvir o som daquela voz manhosa novamente, de protegê-la da própria Sara e de qualquer outra coisa que pudesse ferir aquela delicadeza.
Ele queria a intensidade de Sara. Queria o fogo que ela trazia para sua cama e a forma como ela desafiava sua autoridade. Mas, ao mesmo tempo, ele sentia que precisava da paz de Eduarda. Ele a queria morando com ele, preenchendo os espaços vazios de suas casas luxuosas com aquela presença suave.
Ele queria as duas.
E, como um homem acostumado a conseguir tudo o que desejava através do poder e do dinheiro, Emanuel decidiu, naquele exato momento, enquanto observava Eduarda caminhar sob o luar, que ele não escolheria.
Ele encontraria um jeito de ter o fogo e a brisa. O caos e a arte. Sara e Eduarda.
— Vamos dormir — ele disse para Sara, levantando-se.
— Finalmente — ela sorriu, levantando-se também e grudando-se ao seu corpo.
Enquanto subiam para o quarto, Emanuel olhou uma última vez para a praia. Lá embaixo, Eduarda parou e olhou para trás, para a casa. Seus olhos se encontraram à distância. Ela não acenou, não sorriu. Apenas inclinou levemente a cabeça, um gesto de submissão e curiosidade que selou o destino de todos naquela casa.
O jogo havia começado, e Emanuel estava disposto a quebrar todas as regras para ganhar o que agora considerava seu.
