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Criado: 28/05/2026

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O Peso do Equilíbrio e o Sabor do Conflito

O som da máquina de tatuagem ainda ecoava na mente de Emanuel, um zumbido constante que parecia mais pacífico do que o silêncio tenso que pairava na sala de seu luxuoso apartamento em São Paulo. Ele afrouxou o colarinho da camisa cinza, sentindo o peso de um dia administrando três de seus estúdios internacionais por videochamada. Ser um tatuador renomado e um empresário de sucesso trazia fortuna, mas não comprava a única coisa que ele desejava desesperadamente naquele momento: paz doméstica.

No sofá de veludo, a divisão do território era clara. De um lado, Eduarda, com seus vinte anos e a delicadeza de uma pintura renascentista que ela tanto estudava na faculdade de História da Arte. Ela vestia um cardigã bege largo e meias felpudas, encolhida como se tentasse ocupar o menor espaço possível. Do outro lado, Sara, uma explosão de presença. Aos vinte e cinco anos, a loira exibia o corpo esculpido por cirurgias e roupas de grife, o perfume importado lutando contra o cheiro de incenso que Eduarda gostava de acender.

— Eu já disse, Emanuel — começou Sara, lixando uma unha perfeitamente esculpida, o brilho do diamante em seu anel captando a luz do lustre. — Minhas amigas estão chegando em uma hora. A gente não vai pedir qualquer coisa. Eu quero o menu degustação daquele bistrô novo. Salmão com crosta de ervas e caviar. É o mínimo para receber a comitiva.

Eduarda, que estava com o rosto quase escondido em um livro sobre o Barroco, soltou um suspiro baixinho, quase inaudível, mas Emanuel percebeu. Ele sempre percebia.

— Eu... eu não gosto de peixe cru, Manu — murmurou Eduarda, fechando o livro devagar e olhando para ele com aqueles grandes olhos castanhos, úmidos e expressivos. — Eu queria bife com batata frita. Aquela bem crocante que você faz... ou daquela lanchonete simples que a gente gosta.

Sara soltou uma risada anasalada, carregada de sarcasmo.

— Bife com batata, Eduarda? Jura? Você tem a mentalidade de uma criança de cinco anos. Melhore. Estamos recebendo pessoas de nível, não é um piquenique no parque.

— Não é mentalidade de criança — rebateu Eduarda, a voz falhando levemente enquanto se aproximava de Emanuel, buscando o refúgio do seu braço. Ela se aninhou ao lado dele, esfregando o rosto em seu ombro de forma manhosa. — Eu só queria algo confortável. Estou cansada, a faculdade foi pesada hoje...

Emanuel sentiu a pressão. De um lado, o toque macio e dependente de Eduarda, que despertava seu instinto protetor mais primitivo. Do outro, o olhar desafiador e a postura dominante de Sara, que testava sua paciência e sua autoridade constantemente.

— Sara, as suas amigas são suas convidadas, mas esta ainda é a minha casa — disse Emanuel, a voz grave e controlada, embora uma veia saltasse levemente em sua têmpora. — A Duda quer algo simples. Podemos pedir os dois.

— Ah, claro! — Sara levantou-se, as curvas acentuadas pelo vestido justo de seda vermelha. — Vamos transformar a mesa de jantar em um buffet de rodoviária. Caviar de um lado e gordura de fritura do outro. Você mima demais essa menina, Emanuel. Ela precisa crescer e aprender a se comportar como a mulher de um homem da sua posição.

Eduarda encolheu-se visivelmente, as bochechas corando de humilhação. Ela não respondeu; nunca respondia à altura. Apenas apertou a mão de Emanuel, os dedos finos cravando-se levemente na pele tatuada dele.

— Eu não sou vulgar, Sara... — sussurrou Eduarda, a voz trêmula.

— O que você disse, sua mosquita morta? — Sara deu um passo à frente, a mão na cintura.

— Chega — interveio Emanuel, levantando-se e colocando-se entre as duas. Sua presença física era imponente, o corpo de porte médio-forte agindo como um muro. — Eu vou resolver o jantar. Sara, vá se trocar ou terminar de se produzir. Eduarda, vá guardar seus livros.

— Mas Manu... — Eduarda começou, fazendo beicinho, tentando usar sua doçura para convencê-lo.

— Agora, Duda — ele disse, com a rigidez que usava para gerir seus negócios.

Sara deu um sorriso vitorioso e saiu em direção ao quarto principal, o som de seus saltos estalando no porcelanato como chicotadas. Eduarda olhou para Emanuel com mágoa, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas, e caminhou silenciosamente para o escritório.

Emanuel suspirou, passando a mão pelo cabelo curto. Ele amava as duas, de formas terrivelmente diferentes. Eduarda era sua âncora de pureza, o descanso para sua alma cansada. Sara era o fogo, a ambição, a mulher que entendia o mundo cruel do poder e da imagem, mesmo que ela mesma optasse por não trabalhar e apenas desfrutar do que a vida oferecia. O problema era que o fogo e a âncora pareciam estar em um curso de colisão constante, e ele era o oceano tentando conter ambos.

Uma hora depois, a campainha tocou. As amigas de Sara — três mulheres que pareciam clones dela, com lábios preenchidos e roupas que gritavam logotipos de marcas caras — entraram no apartamento com uma energia caótica.

— Emanuel, querido! Você está cada vez mais gato — disse uma delas, lançando um olhar predatório que ele ignorou solenemente.

— Onde está a loira mais gata de SP? — gritou outra.

Sara apareceu, radiante, abraçando as amigas e lançando olhares de superioridade para o canto da sala, onde Eduarda estava sentada em uma poltrona, segurando uma taça de água como se fosse um escudo.

O jantar foi servido. Emanuel, em uma tentativa de conciliação lógica, havia encomendado o melhor dos dois mundos. No centro da mesa, pratos de porcelana fina exibiam o salmão e o caviar, enquanto em uma extremidade, discretamente, havia uma travessa de prata com bifes de filé mignon perfeitamente grelhados e batatas fritas artesanais.

— Meu Deus, o que é aquele cheiro de óleo? — perguntou uma das amigas de Sara, fazendo uma careta enquanto apontava para o prato de Eduarda.

— Ah, ignorem — Sara disse, servindo-se de uma generosa porção de caviar. — É o jantar da "estudante". Ela tem um paladar... digamos, pouco refinado.

Eduarda sentiu o nó na garganta apertar. Ela olhou para o bife, que agora parecia uma marca de sua inadequação.

— É bife com batata — disse Eduarda, a voz quase sumindo. — É gostoso.

— É comida de boteco, querida — retrucou Sara, rindo com as amigas. — Emanuel, como você deixa ela comer isso na frente das visitas? Parece que temos uma criança de caridade à mesa.

Emanuel, que estava em silêncio até então, sentiu a irritação borbulhar. Ele observou Eduarda baixar a cabeça, uma mecha de cabelo castanho caindo sobre o rosto, escondendo a expressão de dor.

— Sara, já chega — disse ele, o tom de voz baixando uma oitava, o que era sempre um sinal de perigo.

— Ah, Manu, não seja chato! Estamos apenas brincando — Sara deu de ombros, virando-se para as amigas. — Ela é tão sensível que chega a ser irritante, não é? Dá vontade de dar uma boneca para ela brincar e nos deixar em paz.

Eduarda levantou-se bruscamente. A cadeira arrastou no chão com um som estridente.

— Eu não quero mais jantar — ela murmurou, a voz embargada.

— Duda, senta — pediu Emanuel, tentando manter o controle da situação.

— Não, Emanuel! — Ela finalmente explodiu, embora sua explosão fosse mais um choro desesperado do que um grito. — Ela sempre faz isso! Ela me trata como se eu fosse lixo porque eu não uso esse batom ridículo ou porque eu gosto de coisas simples. Eu só queria comer em paz com você!

— Ai, que drama! — Sara revirou os olhos, levando uma taça de champanhe aos lábios. — Vai lá chorar no quarto, vai.

Eduarda saiu correndo em direção ao corredor. Emanuel fez menção de ir atrás dela, mas Sara segurou seu braço.

— Deixa ela, Emanuel. Ela só quer atenção. Vamos aproveitar o jantar com gente que sabe conversar.

Emanuel olhou para a mão de Sara em seu braço, depois para as amigas dela, que observavam tudo com sorrisos cínicos. Ele sentiu uma repulsa súbita pela futilidade daquele momento. A racionalidade que ele tanto prezava dizia que ele deveria mediar, mas o cansaço emocional falou mais alto.

— Solta o meu braço, Sara — disse ele, com uma frieza que fez o sorriso dela vacilar.

— O quê?

— Vocês — ele olhou para as amigas de Sara — o jantar acabou. Podem sair.

— Emanuel, você ficou louco? — Sara gritou, levantando-se. — Você vai me expulsar? Vai expulsar minhas amigas por causa daquela sonsa?

— Eu estou pedindo para elas saírem. Você fica, porque precisamos conversar — Emanuel caminhou até a porta e a abriu. — Agora.

As amigas, percebendo que o clima de "proteção e riqueza" tinha dado lugar a uma autoridade perigosa, pegaram suas bolsas e saíram sem dizer uma palavra. Sara estava lívida, o rosto vermelho sob a maquiagem pesada.

— Você me humilhou! — ela gritou, batendo o pé. — Tudo por causa daquela garota de vinte anos que nem sabe se vestir!

— Eu não te humilhei, Sara. Você se humilha quando se comporta como uma bully de colégio — Emanuel respondeu, fechando a porta e caminhando em direção a ela. — Eu sustento seus luxos, eu te dou tudo o que você quer, mas eu não vou tolerar que você destrua a saúde mental da Eduarda só para se sentir superior.

— Você a defende porque ela é fraca! Você gosta de se sentir o herói!

— Eu a defendo porque ela tem um coração que você parece ter esquecido que existe — ele retrucou, a voz firme. — Agora, você vai para o outro quarto. Eu vou ver como ela está. E amanhã, vamos rever as regras desta casa. Ou você aprende a conviver com ela com respeito, ou esse triângulo acaba aqui.

Sara abriu a boca para retrucar, mas o olhar de Emanuel era final. Ela bufou, pegando sua taça e marchando para o quarto de hóspedes, batendo a porta com força suficiente para fazer os quadros na parede tremerem.

Emanuel respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. A paz ainda parecia um sonho distante. Ele caminhou até o quarto de Eduarda e bateu de leve.

— Duda? Sou eu.

Não houve resposta, apenas um soluço baixo. Ele entrou. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pela janela. Eduarda estava encolhida na cama, um pequeno ovil de dor.

Ele sentou-se na beirada da cama e colocou a mão em suas costas. Ela imediatamente se virou e se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito, soluçando contra sua camisa cinza.

— Ela me odeia, Manu... ela me odeia e eu não fiz nada...

— Eu sei, pequena. Eu sei — ele murmurou, acariciando o cabelo castanho dela, sentindo a maciez de sua pele. — Eu mandei as amigas dela embora.

Eduarda levantou o rosto, os olhos inchados, mas surpresos.

— Mandou?

— Mandei. E falei com a Sara. Ela não vai mais falar assim com você.

Eduarda limpou uma lágrima com as costas da mão, parecendo tão frágil que Emanuel sentiu o coração apertar.

— Você não comeu nada — disse ele, sua voz suavizando. — Quer que eu traga o bife para cá? Podemos comer aqui, só nós dois.

Um pequeno sorriso, ainda triste, mas grato, surgiu nos lábios de Eduarda.

— Você comeria bife comigo? Mesmo com o salmão lá fora?

— Eu prefiro mil vezes um bife com você do que caviar com o resto do mundo — ele confessou, e era a mais pura verdade.

Ele a trouxe para mais perto, sentindo o calor do corpo dela. Por um momento, o estresse dos negócios, a agressividade de Sara e as pressões da vida desapareceram. Ali, no silêncio do quarto, com a inocência de Eduarda apoiada em seu peito, Emanuel encontrou a pequena parcela de paz que o dinheiro não podia comprar.

Mas, ao fundo, ele sabia que o silêncio de Sara no outro quarto era apenas a calmaria antes de uma nova tempestade. E ele, como o centro daquela estrutura caótica, teria que continuar sendo o pilar, mesmo que estivesse começando a rachar sob o peso de duas mulheres que eram, ao mesmo tempo, seu paraíso e seu inferno.

— Manu? — Eduarda chamou baixinho, já mais calma.

— Sim?

— Coloca bastante batata frita?

Emanuel riu, uma risada curta e genuína pela primeira vez no dia.

— Coloco, Duda. Todas as que você quiser.

Ele a beijou na testa e levantou-se. Enquanto caminhava para a cozinha, ele passou pela porta fechada de Sara. O conflito não estava resolvido; talvez nunca estivesse. Mas, naquela noite, a simplicidade venceria a sofisticação, e o carinho ganharia da provocação. Pelo menos até o sol nascer.
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