Fanfy
.studio
Imagem de fundo

D

Fandom: Nenhum

Criado: 29/05/2026

Tags

RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoCiúmesEstudo de PersonagemHistória DomésticaPsicológicoLinguagem ExplícitaRealismoHumorSombrioSuspenseSátiraSobrevivênciaAbuso de ÁlcoolViolência Gráfica
Índice

Entre Garras, Manhas e Rosnados

A luz da tarde filtrava pelas janelas amplas da cobertura de Emanuel, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar. O silêncio, algo raro naquela residência, era interrompido apenas pelo som rítmico de patas pesadas contra o piso de madeira nobre. Bóris, o filhote de Rottweiler que Emanuel havia resgatado há duas semanas, já não era tão pequeno, mas sua energia parecia dobrar a cada dia.

Emanuel estava sentado no sofá de couro preto, com o notebook apoiado nos joelhos. O cenho franzido e o olhar cansado delatavam a manhã exaustiva em um de seus estúdios de tatuagem. Ele era um homem de silêncios e precisão, mas sua vida pessoal estava se tornando um caos que nem mesmo sua fortuna ou seu autocontrole conseguiam organizar.

— Oh, meu deus, quem é o bebezinho mais lindo da mamãe? Quem é? — A voz de Eduarda surgiu suave e melosa vinda do corredor.

Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. Ele viu quando a jovem de vinte anos entrou na sala, os cabelos castanhos caindo desordenados sobre os ombros delicados. Ela vestia um cardigã de tricô bege e meias claras, parecendo uma pintura de algum de seus livros de História da Arte. Eduarda se ajoelhou no chão, ignorando completamente a postura imponente que um cão daquela raça deveria manter.

— Duda, eu já te pedi para não fazer isso — disse Emanuel, sua voz grave ressoando com uma autoridade cansada.

Eduarda nem sequer olhou para cima. Ela estava ocupada demais deixando Bóris lamber seu rosto enquanto ela o abraçava, apertando as bochechas peludas do animal.

— Mas olha como ele é sensível, Manu! Ele entende tudo o que eu falo. Não é, meu amorzinho? Você é um neném, não é?

— Ele é um cão de guarda, Eduarda. — Emanuel deixou o notebook de lado e se levantou. — Se você continuar tratando ele como um recém-nascido, ele vai perder o instinto. Ele precisa de limites, de uma postura firme. Você está mimando o cachorro a ponto de ele não me respeitar mais.

Eduarda fez um biquinho, os olhos grandes e expressivos brilhando com uma leve umidade. Ela se encolheu levemente, buscando a proteção física do próprio cachorro, apoiando o queixo na cabeça de Bóris.

— Você é muito durão com ele... e comigo também. Ele só quer carinho. O mundo já é muito bruto, Manu. Deixa ele ser meu bebê.

Emanuel sentiu aquela pontada familiar de proteção. Era difícil ser rígido com Eduarda; ela tinha uma fragilidade que o desarmava, uma doçura que era o oposto do mundo de tintas, agulhas e negócios brutos onde ele vivia. Mas, antes que ele pudesse suavizar o tom, o som seco de saltos altos batendo no chão anunciou a chegada da tempestade.

— Pelo amor de Deus, que cena mais patética.

Sara entrou na sala exalando um perfume importado forte e doce. Ela usava um vestido de seda vermelha extremamente justo que acentuava cada curva de seu corpo esculpido e turbinado pelo silicone. O cabelo loiro estava impecavelmente escovado, e a maquiagem carregada dava a ela um ar de vilã de cinema.

— O cachorro já é um estorvo, mas essa daí tratando ele como se tivesse parido o bicho é de revirar o estômago — continuou Sara, jogando a bolsa de grife sobre a mesa de jantar.

Eduarda imediatamente se calou, abaixando o olhar e focando apenas em acariciar a orelha de Bóris. Ela detestava confrontos, e a presença de Sara sempre a fazia se sentir minúscula.

— Sara, não começa — avisou Emanuel, cruzando os braços. — Eu já tenho problemas demais hoje.

— Ah, não começa você, Emanuel! — Sara caminhou até ele, parando a poucos centímetros e colocando uma mão no peito dele, ignorando a presença de Eduarda no chão. — Eu liguei para o fotógrafo. A iluminação aqui à tarde é perfeita. Eu quero fazer aquela sessão para o meu portfólio. "A Bela e a Fera", entende? Eu de lingerie, as joias que você me deu e esse cachorro enorme do lado. Vai ficar icônico.

Emanuel arqueou uma sobrancelha, a irritação começando a borbulhar.

— Não.

Sara piscou, surpresa.

— Como assim, "não"?

— O Bóris não é um acessório de moda, Sara. Ele ainda está em fase de treinamento e é imprevisível. Eu não quero flashes na cara dele e você tentando forçar pose com um animal que pesa quase o mesmo que você.

— Ai, por favor! — Sara soltou uma risada sarcástica, virando-se para Eduarda com desprezo. — Se essa songamonga pode ficar babando nele o dia todo, por que eu não posso usar ele para algo útil? Pelo menos as minhas fotos trariam algum prestígio, ao contrário desse teatrinho de berçário.

Eduarda apertou os lábios, sentindo o rosto esquentar.

— Ele não é um objeto, Sara... — sussurrou Eduarda, sem coragem de levantar a voz, mas incapaz de ficar totalmente calada. — Ele se estressa com muita gente e barulho.

— Alguém pediu sua opinião, "História da Arte"? — Sara se aproximou de Eduarda, olhando-a de cima para baixo. — Volta para os seus livros mofados e deixa os adultos conversarem. Emanuel, eu já marquei com o maquiador. Vai ser hoje.

Emanuel deu um passo à frente, interpondo-se entre as duas. A tensão na sala era quase palpável. De um lado, a carência silenciosa e manhosa de Eduarda; do outro, a agressividade dominadora de Sara. E no meio, ele, tentando manter as rédeas de uma situação que parecia sempre prestes a descarrilar.

— Eu disse que não, Sara. E minha palavra é final. — O tom de Emanuel era gélido. — O Bóris fica fora disso. Se quiser tirar fotos, tire sozinha.

Sara bufou, os olhos faiscando de fúria. Ela odiava ser contrariada, especialmente quando sentia que Emanuel estava, de certa forma, protegendo o "território" de Eduarda.

— Você sempre mima ela! — gritou Sara, apontando para Eduarda. — Ela desobedece você na cara dura, trata o cachorro feito um idiota, e você não faz nada! Mas quando eu quero fazer algo profissional, você cresce para cima de mim?

— Profissional? — Emanuel riu, um som seco e sem humor. — Você nem trabalha, Sara. Você quer likes no Instagram.

— Eu sou formada em Administração, caso você tenha esquecido!

— Uma formação que você usa apenas para administrar o limite dos cartões que eu te dou — rebateu ele, implacável.

Eduarda, vendo a briga escalar, sentiu a ansiedade subir pela garganta. Ela odiava gritos. Instintivamente, ela se inclinou mais sobre Bóris, escondendo o rosto no pescoço do cão.

— Manu... para... — pediu ela baixinho, a voz trêmula.

Emanuel olhou para baixo e viu o estado de Eduarda. O coração dele amoleceu, mas a irritação com Sara ainda estava no topo. Ele se sentia puxado por dois cabos de guerra: um feito de seda delicada que o prendia pela culpa e pelo afeto, e outro de arame farpado que o desafiava e o provocava.

— Sai daqui, Sara — disse Emanuel, apontando para a escada que levava ao andar superior. — Vai esfriar a cabeça.

— Eu não vou a lugar nenhum! — Sara se virou para Eduarda e, em um impulso de raiva, tentou puxar o cachorro pela coleira. — Vem aqui, totó. Vamos ver se você é tão difícil assim.

Bóris, sentindo a energia agressiva e o movimento brusco de Sara, soltou um rosnado baixo e gutural que vibrou no peito de Eduarda.

— Sara, solta ele! — gritou Eduarda, finalmente levantando o olhar, o medo dando lugar a uma urgência protetora.

— Solta o cachorro agora, Sara! — a voz de Emanuel trovejou pela sala, fazendo até as janelas vibrarem.

Sara recuou um passo, assustada com a reação do animal e, principalmente, com a fúria nos olhos de Emanuel. Ela soltou a coleira como se tivesse queimado as mãos.

— Esse bicho é um monstro! — exclamou ela, tentando recuperar a compostura, embora suas mãos estivessem tremendo. — Igual a essa daí. Dois inúteis que você sustenta por pura pena.

Ela girou nos saltos e subiu as escadas batendo os pés, deixando o eco de sua indignação para trás.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o cansaço de mil anos pesando sobre seus ombros. Ele olhou para o chão e viu Eduarda abraçada a Bóris, que agora lambia as lágrimas que começavam a cair pelo rosto dela.

Emanuel suspirou e se agachou ao lado delas. Ele estendeu a mão e acariciou o cabelo de Eduarda, puxando-a gentilmente para perto.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz agora suave, o "Emanuel protetor" assumindo o lugar do "Emanuel rígido".

— Por que ela tem que ser assim? — Eduarda fungou, encostando a cabeça no ombro dele. — Eu só queria que a gente ficasse em paz. O Bóris ficou assustado.

— Eu sei, pequena. Eu sei. — Emanuel olhou para o cachorro, que o encarava com aqueles olhos castanhos inteligentes. — Mas ela tem razão em um ponto, Duda.

Eduarda se afastou um pouco, olhando-o com desconfiança.

— No quê?

— Você precisa parar de tratar ele como um bebê. — Ele tocou o nariz dela com o dedo. — Eu vi como ele rosnou. Ele está tentando te proteger porque acha que você é fraca. Se ele crescer achando que manda em você, eu vou ter que tirar ele daqui para a sua própria segurança. Você entende?

Eduarda baixou os olhos, fazendo um biquinho manhoso.

— Mas ele gosta...

— Eduarda. — O tom de Emanuel voltou a ser firme, embora não agressivo. — Sem "mas". Eu sou o dono desta casa e eu dito as regras. Você vai me obedecer quanto ao treinamento dele, ou eu vou ser obrigado a ser mais rigoroso com você também. Estamos entendidos?

Eduarda sentiu aquele frio na barriga que sempre sentia quando Emanuel exercia seu controle. Era uma mistura de temor e uma estranha segurança. Ela sabia que, no fundo, ele estava apenas cuidando dela.

— Sim, Manu... — sussurrou ela, vencida.

— Ótimo. — Ele beijou a testa dela e se levantou. — Agora, leve o Bóris para o jardim dos fundos. Eu vou falar com a Sara antes que ela quebre o quarto inteiro.

Eduarda observou Emanuel subir as escadas. Ela sabia que, em poucos minutos, ele estaria discutindo com Sara novamente, ou talvez cedendo a algum capricho dela para manter a paz, enquanto ela ficaria ali, com o cachorro e seus pensamentos.

Ela olhou para Bóris, que inclinou a cabeça para o lado, esperando o próximo comando.

— Ele acha que manda na gente, não é, Bóris? — sussurrou ela, dando um beijo rápido no topo da cabeça do cão, desobedecendo a ordem de Emanuel no exato momento em que ele desapareceu de vista. — Mas ele não sabe que quem manda no coração dele somos nós.

Eduarda sorriu discretamente, uma pequena vitória silenciosa em meio ao caos de um relacionamento que ninguém de fora conseguiria entender. Ela se levantou, limpando os joelhos da calça clara, e caminhou calmamente para o jardim, sentindo o peso da proteção de Emanuel e a leveza de sua própria rebeldia silenciosa. Naquela casa, as regras eram ditadas por ele, mas o equilíbrio delicado entre o amor, o ciúme e a posse era uma dança que as duas mulheres, cada uma à sua maneira, ainda tentavam liderar.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic