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Fandom: Nenhum
Criado: 29/05/2026
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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoPsicológicoHistória DomésticaCiúmesEstudo de PersonagemRealismoSombrio
Entre o Silêncio do Campo e o Caos do Controle
O sol de sábado ainda não havia se posto, mas para Emanuel, o dia já parecia ter durado uma eternidade. A manhã fora produtiva, quase perfeita dentro de sua zona de conforto. Ele e Sara haviam compartilhado o café da manhã na cobertura luxuosa que dividiam. Sara, com seus cabelos loiros impecavelmente escovados e um conjunto de seda que deixava pouco para a imaginação, era a personificação da eficiência quando queria. Entre beijos provocativos e risadas irônicas, eles revisaram planilhas de faturamento de dois de seus estúdios na Europa. Sara, formada em administração, raramente exercia a profissão para terceiros, mas adorava palpitar nos negócios de Emanuel, usando sua inteligência social aguçada para sugerir estratégias de marketing que beiravam a agressividade.
— Você precisa de mais impacto visual em Berlim, querido — dissera ela, cruzando as pernas torneadas enquanto retocava o batom vermelho. — O minimalismo está morrendo. As pessoas querem o choque.
Emanuel apenas assentiu, sentindo o peso do estresse acumulado nos ombros. Ele amava a energia vibrante de Sara, a forma como ela não pedia licença para existir, mas seu lado racional e protetor ansiava pela calmaria que só a outra metade de seu coração poderia proporcionar.
Após o almoço, ele deixou Sara em casa — que provavelmente passaria o resto da tarde gastando o dinheiro dele em sites de grife ou retocando o bronzeado na piscina privativa — e dirigiu até a casa dos pais de Eduarda. No caminho, ele ensaiou o pedido que vinha repetindo há meses. Queria Eduarda ali, sob seu teto, sob seus olhos. A ideia de tê-la em uma casa diferente, longe de seu controle e proteção, era um ruído constante em sua mente pragmática.
Ao estacionar o carro esportivo diante da casa moderna e arejada dos sogros, Emanuel sentiu uma pontada de ansiedade. Os pais de Eduarda eram jovens, liberais e tratavam o relacionamento poligâmico da filha com uma naturalidade que às vezes confundia a mente rígida de Emanuel.
— Emanuel! Que surpresa — disse Helena, a mãe de Eduarda, abrindo a porta com um sorriso gentil. Ela segurava uma taça de vinho branco e parecia relaxada.
— Boa tarde, Helena. A Duda está? Queria fazer uma surpresa e levá-la para jantar.
Helena franziu o cenho, parecendo genuinamente surpresa.
— Oh, querido... ela não te avisou? A Duda foi para o sítio da tia de uma amiga de faculdade. A Bia, eu acho.
O corpo de Emanuel ficou rígido instantaneamente. A mandíbula travou.
— Sítio? Que sítio? Ela não mencionou nada comigo ontem à noite.
— Foi um convite de última hora, Emanuel. Coisa de jovens, você sabe — Helena deu de ombros, sem perceber a tempestade que se formava nos olhos escuros do genro. — Eles passaram aqui para pegá-la faz umas duas horas. Ela estava tão animada, disse que precisava de ar puro para terminar uns esboços de História da Arte.
— Onde fica esse lugar, Helena? Me dê o endereço. Eu vou buscar ela.
— Eu não tenho o endereço exato, querido. É algum lugar para os lados de Minas, bem isolado. Ela disse que o sinal lá é péssimo, então nem adiantava eu me preocupar se ela ficasse offline.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele pegou o celular e discou o número de Eduarda pela quinta vez em dez minutos. Caixa postal.
— Ela não atende — rosnou ele, mais para si mesmo do que para a sogra. — Como ela vai para um lugar isolado sem me avisar? Sem segurança, sem que eu saiba com quem ela está?
— Calma, Emanuel — Helena riu suavemente, tocando o braço dele. — Ela tem vinte anos, está com amigos da faculdade. Deixe a menina respirar um pouco. Segunda-feira ela está de volta.
Emanuel despediu-se secamente e caminhou até o carro. Dentro do veículo, ele socou o volante. A falta de controle era algo que ele desprezava. Eduarda era doce, manhosa e dependente dele para tantas coisas, mas aquela resistência em morar com ele e, agora, aquela "fuga" repentina, eram como farpas cravadas em seu ego. Ele queria protegê-la do mundo, mas como faria isso se ela se escondia em sítios sem sinal de celular?
***
Enquanto isso, a cerca de duzentos quilômetros dali, o cenário era o oposto do caos mental de Emanuel.
O sítio era uma construção rústica, cercada por colinas verdes e um silêncio que só era interrompido pelo canto dos pássaros e pelo balanço das árvores. Eduarda estava sentada em uma rede na varanda, com um caderno de desenho apoiado nos joelhos e um casaco de lã leve cobrindo seus ombros esguios.
Ela se sentia em paz, mas era uma paz tingida de melancolia.
— Duda? Vai ficar aí desenhando o tempo todo ou vai vir ajudar a gente a acender a fogueira? — Bia, sua amiga de faculdade, apareceu na porta.
— Já vou, Bia — respondeu Eduarda com sua voz suave e doce. — Só estou terminando uma luz aqui no desenho.
Eduarda olhou para o celular desligado dentro da bolsa. Ela sabia que Emanuel estaria furioso. Conseguia imaginar perfeitamente a expressão séria dele, os vincos na testa, a forma como ele passaria a mão pelo cabelo curto, impaciente. Ela o amava com uma intensidade que chegava a assustá-la; amava o jeito como ele a envolvia em seus braços grandes e a fazia se sentir a pessoa mais segura do mundo. Mas, às vezes, a proteção dele parecia uma redoma de vidro que a impedia de respirar.
E havia Sara.
Eduarda suspirou, abraçando as próprias pernas. A convivência com Sara era um desafio constante. Sara era tudo o que Eduarda não era: barulhenta, confiante, sexualmente agressiva e dona de si. Emanuel parecia equilibrar as duas como se fossem pratos de uma balança, mas Eduarda muitas vezes sentia que seu prato era o mais leve, o mais frágil. Ela tinha medo de que, se fosse morar com eles, acabaria sendo engolida pela personalidade de Sara e pela dominância de Emanuel.
— Eu só preciso de um tempo para ser eu mesma — sussurrou para o vento.
Ela sentia falta dele. Sentia falta do cheiro de tinta de tatuagem e perfume caro que emanava da pele de Emanuel. Sentia falta de como ele a chamava de "minha pequena" e de como ele sempre sabia quando ela precisava de um carinho atrás da orelha antes de dormir. Mas estar ali, naquele sítio, era sua pequena rebelião silenciosa.
***
A noite de sábado para Emanuel foi um inferno particular. Ele voltou para casa e encontrou Sara bebendo espumante e ouvindo música alta.
— Onde está a santinha? — perguntou Sara, com um sorriso sarcástico, assim que o viu entrar com a cara fechada. — Achei que você fosse trazer ela pelos cabelos e trancá-la no quarto de hóspedes.
— Não comece, Sara — Emanuel foi direto para o bar e serviu-se de um whisky puro. — Ela foi para um sítio. Com amigos. Não atende o celular.
Sara soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás.
— A pequena Duda tem garras? Que surpresa deliciosa! Ela finalmente percebeu que você sufoca até as plantas, Emanuel.
— Eu não sufoco ninguém. Eu cuido do que é meu.
— Ela não é sua propriedade, querido. Ela é sua namorada. E, sinceramente, se eu fosse ela, também fugiria de vez em quando. Você é um controlador maníaco.
Emanuel caminhou até ela, ficando a poucos centímetros de seu rosto. A tensão entre os dois era palpável, uma mistura de irritação e desejo que sempre definira a dinâmica deles.
— Eu quero as duas aqui. Quero saber que vocês estão seguras. Isso é pedir demais?
— É, quando você tenta transformar um relacionamento em um gerenciamento de inventário — Sara tocou o peito dele com a ponta da unha bem feita. — Relaxa. Ela vai voltar na segunda, morrendo de saudade e cheia de manha para você perdoar ela. E você vai perdoar, porque é louco por aquele jeito de cachorrinho abandonado que ela tem.
Emanuel virou o resto do whisky, sentindo o líquido queimar a garganta.
— Amanhã cedo eu vou tentar descobrir onde é esse lugar.
— Você não vai a lugar nenhum — Sara disse, agora com um tom mais sério, puxando-o pela gola da camisa. — Você vai ficar aqui, vai me dar atenção e vai esperar ela voltar por vontade própria. Se você for atrás dela como um perseguidor, vai assustar a menina de vez. Deixe ela sentir sua falta.
Emanuel fechou os olhos, lutando contra o impulso de dirigir por todas as estradas de Minas Gerais. Ele sabia que Sara, à sua maneira distorcida, tinha razão. Eduarda era sensível; pressão demais a faria se fechar como uma ostra.
***
O domingo no sítio passou devagar. Eduarda aproveitou o sol, colheu algumas frutas no pomar e, por várias vezes, pegou o celular para ligar para Emanuel. A saudade apertava seu peito. Ela imaginava ele sozinho — ou com Sara — e uma pontada de insegurança a atingia. Será que ele estava bravo? Será que ele ia desistir dela por ela ser tão complicada e medrosa?
— Ele te ama, Duda — disse Bia, sentando-se ao lado dela durante o almoço. — Dá para ver no jeito que ele olha para você. Mas você precisa dizer a ele o que sente. Não pode só fugir.
— Eu não estou fugindo... só estou... respirando — Eduarda brincou com a comida no prato. — Ele quer que eu more com eles. Mas a Sara... ela é tão intensa. Eu sinto que vou desaparecer naquela casa.
— Talvez você precise mostrar para eles que sua suavidade também tem força.
Eduarda pensou naquelas palavras o resto da tarde. À noite, enquanto as estrelas cobriam o céu do campo com um manto de luz, ela finalmente ligou o celular.
Havia quarenta e duas chamadas perdidas de Emanuel e dez mensagens de Sara.
As de Emanuel variavam de "Onde você está?" a "Por favor, me atenda, estou preocupado". A última dizia apenas: "Espero que esteja bem. Estarei te esperando amanhã".
A de Sara era diferente: "O seu homem está parecendo um leão enjaulado. Volta logo antes que ele comece a morder os móveis. E traz um queijo de Minas, se não for pedir muito".
Eduarda sorriu, os olhos umedecendo. Ela digitou uma mensagem rápida para Emanuel.
"Estou bem, meu amor. Amanhã à tarde estarei em casa. Também sinto sua falta. Por favor, não fique bravo comigo."
A resposta veio em menos de trinta segundos.
— Onde você está? Me mande a localização agora. Eu vou te buscar.
Eduarda suspirou, o coração batendo forte.
— Não precisa, Manu. O pai da Bia vai nos levar. Quero aproveitar o último café da manhã aqui. Amanhã, quando eu chegar, podemos conversar?
Houve um silêncio do outro lado da linha digital. Emanuel estava lutando consigo mesmo. Sua vontade era exigir, ordenar. Mas ele se lembrou da fragilidade de Eduarda, do quanto ela valorizava aqueles momentos simples.
— Tudo bem — ele escreveu finalmente. — Mas não desligue mais esse celular. Eu te amo, Eduarda.
— Eu também te amo.
***
Na segunda-feira à tarde, o carro da família de Bia estacionou em frente à casa de Eduarda. Emanuel já estava lá, encostado em seu carro, com os braços cruzados e uma expressão que misturava alívio e severidade.
Eduarda desceu do carro, parecendo pequena e delicada em seu vestido floral e cabelos levemente bagunçados pelo vento. Assim que viu Emanuel, seus olhos brilharam e ela esqueceu qualquer desejo de independência. Ela correu para ele.
— Manu! — exclamou, jogando-se em seus braços.
Emanuel a envolveu com força, enterrando o rosto no pescoço dela, aspirando o cheiro de mato e sabonete de flores. Por um momento, toda a raiva desapareceu, substituída por uma necessidade possessiva de mantê-la ali.
— Nunca mais faça isso — murmurou ele, a voz rouca. — Nunca mais suma sem me dizer onde está.
— Desculpa... foi tudo tão rápido — ela disse, afastando-se um pouco para olhar para ele com aqueles olhos expressivos e úmidos. — Você está muito bravo?
Emanuel suspirou, passando o polegar pelo rosto dela.
— Eu estava furioso. Agora eu só estou... cansado. Vamos para casa?
Eduarda hesitou por um segundo.
— Para a sua casa?
— Para a nossa casa, Duda. A Sara preparou um jantar. Ela não admite, mas também ficou preocupada.
Eduarda olhou para a própria casa, onde seus pais a observavam da janela com sorrisos encorajadores. Ela olhou para Emanuel, o homem que era seu porto seguro e sua maior tempestade.
— Eu ainda não vou levar minhas malas, Manu — disse ela, com uma coragem que o surpreendeu. — Mas vou passar a noite com vocês. Podemos ir devagar?
Emanuel sentiu a irritação lógica borbulhar, mas ao ver a doçura e a súplica no rosto de Eduarda, ele cedeu. Ele sabia que, com ela, a força não funcionava. Tinha que ser na base do cuidado.
— Tudo bem, pequena. Um passo de cada vez. Mas hoje você é minha.
Ele a guiou até o carro, abrindo a porta com a fidalguia que sempre reservava a ela. Enquanto dirigia de volta para a cobertura, Emanuel sentia que o equilíbrio estava sendo restaurado. Ele tinha Sara esperando com sua língua afiada e seu fogo, e tinha Eduarda ao seu lado, manhosa e terna.
O conflito de morarem todos juntos ainda existia, mas por aquela noite, o silêncio do campo havia dado lugar à promessa de que, de um jeito ou de outro, ele manteria seu mundo unido. Mesmo que isso significasse aprender a soltar as rédeas de vez em quando.
Ao chegarem na cobertura, Sara abriu a porta antes mesmo que Emanuel usasse a chave. Ela estava com um copo de vinho na mão e um sorriso provocador.
— Olha só quem sobreviveu à natureza selvagem! — Sara exclamou, analisando Eduarda de cima a baixo. — Entra logo, Duda. O jantar está esfriando e o Emanuel está prestes a ter um aneurisma de tanto estresse acumulado.
Eduarda sorriu timidamente e entrou, sentindo o perfume caro da casa e o abraço caloroso do ar-condicionado. Ela sabia que os dias seguintes seriam cheios de disputas de espaço e pequenos atritos, mas enquanto Emanuel segurava sua mão e Sara a provocava com aquele jeito irônico, Eduarda sentia que, apesar de toda a sua timidez, ela tinha seu lugar naquele trio peculiar.
E Emanuel, observando as duas na sua sala de estar, finalmente sentiu que o controle, embora ilusório, estava de volta às suas mãos. Pelo menos por enquanto.
— Você precisa de mais impacto visual em Berlim, querido — dissera ela, cruzando as pernas torneadas enquanto retocava o batom vermelho. — O minimalismo está morrendo. As pessoas querem o choque.
Emanuel apenas assentiu, sentindo o peso do estresse acumulado nos ombros. Ele amava a energia vibrante de Sara, a forma como ela não pedia licença para existir, mas seu lado racional e protetor ansiava pela calmaria que só a outra metade de seu coração poderia proporcionar.
Após o almoço, ele deixou Sara em casa — que provavelmente passaria o resto da tarde gastando o dinheiro dele em sites de grife ou retocando o bronzeado na piscina privativa — e dirigiu até a casa dos pais de Eduarda. No caminho, ele ensaiou o pedido que vinha repetindo há meses. Queria Eduarda ali, sob seu teto, sob seus olhos. A ideia de tê-la em uma casa diferente, longe de seu controle e proteção, era um ruído constante em sua mente pragmática.
Ao estacionar o carro esportivo diante da casa moderna e arejada dos sogros, Emanuel sentiu uma pontada de ansiedade. Os pais de Eduarda eram jovens, liberais e tratavam o relacionamento poligâmico da filha com uma naturalidade que às vezes confundia a mente rígida de Emanuel.
— Emanuel! Que surpresa — disse Helena, a mãe de Eduarda, abrindo a porta com um sorriso gentil. Ela segurava uma taça de vinho branco e parecia relaxada.
— Boa tarde, Helena. A Duda está? Queria fazer uma surpresa e levá-la para jantar.
Helena franziu o cenho, parecendo genuinamente surpresa.
— Oh, querido... ela não te avisou? A Duda foi para o sítio da tia de uma amiga de faculdade. A Bia, eu acho.
O corpo de Emanuel ficou rígido instantaneamente. A mandíbula travou.
— Sítio? Que sítio? Ela não mencionou nada comigo ontem à noite.
— Foi um convite de última hora, Emanuel. Coisa de jovens, você sabe — Helena deu de ombros, sem perceber a tempestade que se formava nos olhos escuros do genro. — Eles passaram aqui para pegá-la faz umas duas horas. Ela estava tão animada, disse que precisava de ar puro para terminar uns esboços de História da Arte.
— Onde fica esse lugar, Helena? Me dê o endereço. Eu vou buscar ela.
— Eu não tenho o endereço exato, querido. É algum lugar para os lados de Minas, bem isolado. Ela disse que o sinal lá é péssimo, então nem adiantava eu me preocupar se ela ficasse offline.
Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele pegou o celular e discou o número de Eduarda pela quinta vez em dez minutos. Caixa postal.
— Ela não atende — rosnou ele, mais para si mesmo do que para a sogra. — Como ela vai para um lugar isolado sem me avisar? Sem segurança, sem que eu saiba com quem ela está?
— Calma, Emanuel — Helena riu suavemente, tocando o braço dele. — Ela tem vinte anos, está com amigos da faculdade. Deixe a menina respirar um pouco. Segunda-feira ela está de volta.
Emanuel despediu-se secamente e caminhou até o carro. Dentro do veículo, ele socou o volante. A falta de controle era algo que ele desprezava. Eduarda era doce, manhosa e dependente dele para tantas coisas, mas aquela resistência em morar com ele e, agora, aquela "fuga" repentina, eram como farpas cravadas em seu ego. Ele queria protegê-la do mundo, mas como faria isso se ela se escondia em sítios sem sinal de celular?
***
Enquanto isso, a cerca de duzentos quilômetros dali, o cenário era o oposto do caos mental de Emanuel.
O sítio era uma construção rústica, cercada por colinas verdes e um silêncio que só era interrompido pelo canto dos pássaros e pelo balanço das árvores. Eduarda estava sentada em uma rede na varanda, com um caderno de desenho apoiado nos joelhos e um casaco de lã leve cobrindo seus ombros esguios.
Ela se sentia em paz, mas era uma paz tingida de melancolia.
— Duda? Vai ficar aí desenhando o tempo todo ou vai vir ajudar a gente a acender a fogueira? — Bia, sua amiga de faculdade, apareceu na porta.
— Já vou, Bia — respondeu Eduarda com sua voz suave e doce. — Só estou terminando uma luz aqui no desenho.
Eduarda olhou para o celular desligado dentro da bolsa. Ela sabia que Emanuel estaria furioso. Conseguia imaginar perfeitamente a expressão séria dele, os vincos na testa, a forma como ele passaria a mão pelo cabelo curto, impaciente. Ela o amava com uma intensidade que chegava a assustá-la; amava o jeito como ele a envolvia em seus braços grandes e a fazia se sentir a pessoa mais segura do mundo. Mas, às vezes, a proteção dele parecia uma redoma de vidro que a impedia de respirar.
E havia Sara.
Eduarda suspirou, abraçando as próprias pernas. A convivência com Sara era um desafio constante. Sara era tudo o que Eduarda não era: barulhenta, confiante, sexualmente agressiva e dona de si. Emanuel parecia equilibrar as duas como se fossem pratos de uma balança, mas Eduarda muitas vezes sentia que seu prato era o mais leve, o mais frágil. Ela tinha medo de que, se fosse morar com eles, acabaria sendo engolida pela personalidade de Sara e pela dominância de Emanuel.
— Eu só preciso de um tempo para ser eu mesma — sussurrou para o vento.
Ela sentia falta dele. Sentia falta do cheiro de tinta de tatuagem e perfume caro que emanava da pele de Emanuel. Sentia falta de como ele a chamava de "minha pequena" e de como ele sempre sabia quando ela precisava de um carinho atrás da orelha antes de dormir. Mas estar ali, naquele sítio, era sua pequena rebelião silenciosa.
***
A noite de sábado para Emanuel foi um inferno particular. Ele voltou para casa e encontrou Sara bebendo espumante e ouvindo música alta.
— Onde está a santinha? — perguntou Sara, com um sorriso sarcástico, assim que o viu entrar com a cara fechada. — Achei que você fosse trazer ela pelos cabelos e trancá-la no quarto de hóspedes.
— Não comece, Sara — Emanuel foi direto para o bar e serviu-se de um whisky puro. — Ela foi para um sítio. Com amigos. Não atende o celular.
Sara soltou uma gargalhada genuína, jogando a cabeça para trás.
— A pequena Duda tem garras? Que surpresa deliciosa! Ela finalmente percebeu que você sufoca até as plantas, Emanuel.
— Eu não sufoco ninguém. Eu cuido do que é meu.
— Ela não é sua propriedade, querido. Ela é sua namorada. E, sinceramente, se eu fosse ela, também fugiria de vez em quando. Você é um controlador maníaco.
Emanuel caminhou até ela, ficando a poucos centímetros de seu rosto. A tensão entre os dois era palpável, uma mistura de irritação e desejo que sempre definira a dinâmica deles.
— Eu quero as duas aqui. Quero saber que vocês estão seguras. Isso é pedir demais?
— É, quando você tenta transformar um relacionamento em um gerenciamento de inventário — Sara tocou o peito dele com a ponta da unha bem feita. — Relaxa. Ela vai voltar na segunda, morrendo de saudade e cheia de manha para você perdoar ela. E você vai perdoar, porque é louco por aquele jeito de cachorrinho abandonado que ela tem.
Emanuel virou o resto do whisky, sentindo o líquido queimar a garganta.
— Amanhã cedo eu vou tentar descobrir onde é esse lugar.
— Você não vai a lugar nenhum — Sara disse, agora com um tom mais sério, puxando-o pela gola da camisa. — Você vai ficar aqui, vai me dar atenção e vai esperar ela voltar por vontade própria. Se você for atrás dela como um perseguidor, vai assustar a menina de vez. Deixe ela sentir sua falta.
Emanuel fechou os olhos, lutando contra o impulso de dirigir por todas as estradas de Minas Gerais. Ele sabia que Sara, à sua maneira distorcida, tinha razão. Eduarda era sensível; pressão demais a faria se fechar como uma ostra.
***
O domingo no sítio passou devagar. Eduarda aproveitou o sol, colheu algumas frutas no pomar e, por várias vezes, pegou o celular para ligar para Emanuel. A saudade apertava seu peito. Ela imaginava ele sozinho — ou com Sara — e uma pontada de insegurança a atingia. Será que ele estava bravo? Será que ele ia desistir dela por ela ser tão complicada e medrosa?
— Ele te ama, Duda — disse Bia, sentando-se ao lado dela durante o almoço. — Dá para ver no jeito que ele olha para você. Mas você precisa dizer a ele o que sente. Não pode só fugir.
— Eu não estou fugindo... só estou... respirando — Eduarda brincou com a comida no prato. — Ele quer que eu more com eles. Mas a Sara... ela é tão intensa. Eu sinto que vou desaparecer naquela casa.
— Talvez você precise mostrar para eles que sua suavidade também tem força.
Eduarda pensou naquelas palavras o resto da tarde. À noite, enquanto as estrelas cobriam o céu do campo com um manto de luz, ela finalmente ligou o celular.
Havia quarenta e duas chamadas perdidas de Emanuel e dez mensagens de Sara.
As de Emanuel variavam de "Onde você está?" a "Por favor, me atenda, estou preocupado". A última dizia apenas: "Espero que esteja bem. Estarei te esperando amanhã".
A de Sara era diferente: "O seu homem está parecendo um leão enjaulado. Volta logo antes que ele comece a morder os móveis. E traz um queijo de Minas, se não for pedir muito".
Eduarda sorriu, os olhos umedecendo. Ela digitou uma mensagem rápida para Emanuel.
"Estou bem, meu amor. Amanhã à tarde estarei em casa. Também sinto sua falta. Por favor, não fique bravo comigo."
A resposta veio em menos de trinta segundos.
— Onde você está? Me mande a localização agora. Eu vou te buscar.
Eduarda suspirou, o coração batendo forte.
— Não precisa, Manu. O pai da Bia vai nos levar. Quero aproveitar o último café da manhã aqui. Amanhã, quando eu chegar, podemos conversar?
Houve um silêncio do outro lado da linha digital. Emanuel estava lutando consigo mesmo. Sua vontade era exigir, ordenar. Mas ele se lembrou da fragilidade de Eduarda, do quanto ela valorizava aqueles momentos simples.
— Tudo bem — ele escreveu finalmente. — Mas não desligue mais esse celular. Eu te amo, Eduarda.
— Eu também te amo.
***
Na segunda-feira à tarde, o carro da família de Bia estacionou em frente à casa de Eduarda. Emanuel já estava lá, encostado em seu carro, com os braços cruzados e uma expressão que misturava alívio e severidade.
Eduarda desceu do carro, parecendo pequena e delicada em seu vestido floral e cabelos levemente bagunçados pelo vento. Assim que viu Emanuel, seus olhos brilharam e ela esqueceu qualquer desejo de independência. Ela correu para ele.
— Manu! — exclamou, jogando-se em seus braços.
Emanuel a envolveu com força, enterrando o rosto no pescoço dela, aspirando o cheiro de mato e sabonete de flores. Por um momento, toda a raiva desapareceu, substituída por uma necessidade possessiva de mantê-la ali.
— Nunca mais faça isso — murmurou ele, a voz rouca. — Nunca mais suma sem me dizer onde está.
— Desculpa... foi tudo tão rápido — ela disse, afastando-se um pouco para olhar para ele com aqueles olhos expressivos e úmidos. — Você está muito bravo?
Emanuel suspirou, passando o polegar pelo rosto dela.
— Eu estava furioso. Agora eu só estou... cansado. Vamos para casa?
Eduarda hesitou por um segundo.
— Para a sua casa?
— Para a nossa casa, Duda. A Sara preparou um jantar. Ela não admite, mas também ficou preocupada.
Eduarda olhou para a própria casa, onde seus pais a observavam da janela com sorrisos encorajadores. Ela olhou para Emanuel, o homem que era seu porto seguro e sua maior tempestade.
— Eu ainda não vou levar minhas malas, Manu — disse ela, com uma coragem que o surpreendeu. — Mas vou passar a noite com vocês. Podemos ir devagar?
Emanuel sentiu a irritação lógica borbulhar, mas ao ver a doçura e a súplica no rosto de Eduarda, ele cedeu. Ele sabia que, com ela, a força não funcionava. Tinha que ser na base do cuidado.
— Tudo bem, pequena. Um passo de cada vez. Mas hoje você é minha.
Ele a guiou até o carro, abrindo a porta com a fidalguia que sempre reservava a ela. Enquanto dirigia de volta para a cobertura, Emanuel sentia que o equilíbrio estava sendo restaurado. Ele tinha Sara esperando com sua língua afiada e seu fogo, e tinha Eduarda ao seu lado, manhosa e terna.
O conflito de morarem todos juntos ainda existia, mas por aquela noite, o silêncio do campo havia dado lugar à promessa de que, de um jeito ou de outro, ele manteria seu mundo unido. Mesmo que isso significasse aprender a soltar as rédeas de vez em quando.
Ao chegarem na cobertura, Sara abriu a porta antes mesmo que Emanuel usasse a chave. Ela estava com um copo de vinho na mão e um sorriso provocador.
— Olha só quem sobreviveu à natureza selvagem! — Sara exclamou, analisando Eduarda de cima a baixo. — Entra logo, Duda. O jantar está esfriando e o Emanuel está prestes a ter um aneurisma de tanto estresse acumulado.
Eduarda sorriu timidamente e entrou, sentindo o perfume caro da casa e o abraço caloroso do ar-condicionado. Ela sabia que os dias seguintes seriam cheios de disputas de espaço e pequenos atritos, mas enquanto Emanuel segurava sua mão e Sara a provocava com aquele jeito irônico, Eduarda sentia que, apesar de toda a sua timidez, ela tinha seu lugar naquele trio peculiar.
E Emanuel, observando as duas na sua sala de estar, finalmente sentiu que o controle, embora ilusório, estava de volta às suas mãos. Pelo menos por enquanto.
