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Fandom: Nenhum

Criado: 30/05/2026

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Equilíbrio Instável

O estúdio principal de Emanuel, localizado na cobertura de um dos prédios mais luxuosos da cidade, exalava um aroma de tinta, antisséptico e café caro. O som das agulhas era constante, um zumbido mecânico que, para Emanuel, costumava ser terapêutico. No entanto, naquela tarde, o som apenas alimentava a sua irritação crescente.

Ele estava debruçado sobre a mesa de luz, revisando os relatórios financeiros que Sara havia deixado para ele. Sara era, sem dúvida, uma força da natureza quando se tratava de negócios. A loira, com suas curvas acentuadas realçadas por um vestido de seda vermelha excessivamente justo e saltos que ecoavam como marteladas no piso de madeira, entrou na sala com um sorriso triunfante.

— O projeto de expansão para Dubai foi aprovado sem uma única ressalva, Manu — disse ela, jogando-se na poladeira de couro de Emanuel e cruzando as pernas longas. — Eu disse que minha estratégia de marketing agressivo funcionaria. Os investidores ficaram babando.

Emanuel levantou os olhos, a expressão séria suavizando-se por um breve segundo. Ele admirava a competência de Sara. Ela era prática, direta e, acima de tudo, estava sempre ao lado dele, mergulhada em seu império de tatuagens e investimentos.

— Você fez um trabalho excepcional, Sara. De verdade — Emanuel comentou, fechando a pasta. — O lucro projetado para o próximo semestre dobrou com essas parcerias.

Sara levantou-se e caminhou até ele, envolvendo os braços no pescoço do homem. O perfume doce e forte dela inundou os sentidos dele.

— Eu sei o que faço, querido. Diferente de certas pessoas que mal conseguem decidir a cor de um esmalte — provocou ela, o tom carregado de sarcasmo. — Por falar nisso, a sua "bonequinha de porcelana" vai aparecer no coquetel de hoje à noite? Ou ela tem outra desculpa esfarrapada?

O maxilar de Emanuel travou. O conflito que ele tentava suprimir o dia todo voltou com força total.

— A Eduarda não vem. Ela teve um imprevisto com os pais.

Sara soltou uma risada anasalada, revirando os olhos azuis carregados de maquiagem.

— De novo? Emanuel, a garota tem vinte anos, não dez. Ela mora com os pais, obedece horário de recolher e te deixa na mão em eventos importantes porque a mamãe ou o papai estalaram os dedos. Como você aguenta? Ela é um peso morto.

— Não fale assim dela — Emanuel retrucou, a voz ganhando um tom gélido de autoridade. — A Eduarda é sensível, ela valoriza a família. É uma dinâmica diferente da sua.

— É uma dinâmica infantil, isso sim — Sara rebateu, afastando-se e pegando sua bolsa de grife. — Eu moro com você, eu trabalho com você, eu construo o seu futuro. Ela? Ela só te dá trabalho e insegurança. Se ela te amasse tanto quanto diz, já teria aceitado morar aqui e mandado os pais cuidarem da própria vida.

Sara saiu da sala batendo a porta, deixando o silêncio pesado para trás. Emanuel suspirou, sentindo a tensão latejar em suas têmporas. Ele amava as duas, mas de formas que pareciam rasgá-lo ao meio. Sara era a estrutura, a parceira de guerra. Eduarda era o seu refúgio, a doçura que ele precisava para não se tornar um homem completamente amargo. Mas a recusa de Eduarda em se mudar, em se entregar totalmente ao mundo dele, estava começando a corroer sua paciência racional.

***

Mais tarde naquela noite, o apartamento de Emanuel parecia grande demais. Sara estava no banho, preparando-se para o evento que ele agora teria que frequentar apenas com ela ao lado. O celular dele vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de Eduarda.

"Desculpa por hoje, Manu... Meu pai não se sentiu bem e eu precisei ficar para ajudar minha mãe com o jantar e os remédios. Podemos nos ver amanhã? Sinto sua falta. ❤️"

Emanuel não respondeu. Em vez disso, discou o número dela. No terceiro toque, a voz suave e levemente trêmula de Eduarda atendeu.

— Oi, Manu... Você recebeu minha mensagem?

— Recebi, Eduarda. Mas eu cansei das mensagens — a voz dele estava rígida, o tom de quem está prestes a perder o controle. — Eu te pedi para estar aqui hoje. Era importante. Todos os meus sócios estarão lá com suas esposas e parceiras. A Sara vai estar lá, como sempre, cuidando de tudo. E você? Onde você está?

— Eu... eu sinto muito — a voz dela soou pequena, nitidamente magoada. — Eu queria muito ir, mas minha família precisa de mim. Meus pais fazem tudo por mim, eu não posso simplesmente ignorá-los quando precisam de ajuda.

— Se você morasse comigo, como eu venho pedindo há meses, sua prioridade seria a nossa casa, a nossa vida — Emanuel insistiu, a frustração transbordando. — Até quando eu vou ter que esperar você "estar pronta", Eduarda? Até quando eu vou ser o segundo plano depois do horário de jantar dos seus pais?

— Não é assim, Manu... você sabe que eu te amo. Eu só... eu gosto da minha rotina com eles, me sinto segura. É difícil para mim mudar tudo de uma vez. Eu sou mais lenta que a Sara, eu não sou como ela.

— Definitivamente não é — ele cortou, sentindo um peso no peito ao ouvir o fungar discreto do outro lado da linha. Ele sabia que ela estava chorando. — Eu tenho que ir. Aproveite sua noite em família.

Ele desligou sem esperar resposta.

***

No dia seguinte, o clima na cobertura era de uma calmaria enganosa. Sara estava na cozinha, tomando um suco verde e revisando planilhas no iPad, usando apenas uma camisa de Emanuel que mal cobria suas curvas. Quando a campainha tocou, ela sorriu com malícia, já sabendo quem era.

Eduarda entrou timidamente quando a porta foi aberta. Ela usava um vestido floral leve, os cabelos castanhos soltos e o rosto limpo de maquiagem, exceto pelo rastro leve de cansaço nos olhos expressivos.

— O Emanuel está? — perguntou Eduarda em voz baixa, evitando olhar diretamente para a figura provocante de Sara.

— Está no escritório, de mau humor por sinal — Sara respondeu, encostando-se no balcão e medindo a outra de cima a baixo. — Sabe, "Duda", eu realmente não entendo como ele tem tanta paciência com você. Ontem o evento foi incrível. Ele estava radiante com o sucesso do meu projeto, mas dava para ver o buraco que você deixou. Ou melhor, o buraco que você sempre deixa.

Eduarda apertou as alças da bolsa, sentindo o peito apertar.

— Eu tive problemas familiares, Sara. Você não entenderia.

— Ah, eu entendo de negócios e de como manter um homem satisfeito. Família é importante, mas o Emanuel é o seu homem. Ou deveria ser. Se você continuar sendo essa menina mimada que corre para o papai a cada espirro, ele vai acabar percebendo que precisa de uma mulher de verdade em tempo integral, não de uma visita de fim de semana.

— Para com isso — Eduarda disse, a voz embargada. — O Manu me ama do jeito que eu sou.

— Ama? — Sara deu um passo à frente, a diferença de postura entre as duas era gritante. — Ele ama a ideia de te proteger, mas até o protetor mais forte cansa de carregar um peso que não quer andar com as próprias pernas. Por que você não faz um favor a todos nós e volta para o seu quarto de infância de uma vez?

— Sara! Chega! — A voz de Emanuel ecoou pelo corredor.

Ele apareceu na porta do escritório, a expressão cansada e os braços cruzados. Ele olhou para Sara com reprovação, mas quando seus olhos pousaram em Eduarda, que tremia levemente, ele não correu para abraçá-la como costumava fazer.

— Entra, Eduarda. Precisamos conversar — disse ele, de forma curta.

Sara deu um sorriso de lado, vitoriosa, e voltou para seu suco enquanto Eduarda passava por ela, sentindo-se minúscula.

Dentro do escritório, o silêncio durou longos segundos. Eduarda sentou-se na ponta da cadeira, as mãos entre as pernas, olhando para os próprios pés.

— Eu não aguento mais essa briga constante entre vocês duas — Emanuel começou, sentando-se à frente dela. — E eu não aguento mais essa sua hesitação. A Sara é difícil, eu sei. Ela provoca, ela é agressiva. Mas ela está aqui. Ela vive a minha vida.

— Manu, eu trouxe um presente para você... — Eduarda tentou mudar de assunto, tirando um pequeno embrulho da bolsa. Era um livro raro sobre a história da arte da tatuagem que ela tinha garimpado em um sebo. — Eu vi e lembrei de você.

Emanuel olhou para o livro, mas não o pegou.

— Eduarda, presta atenção. Eu sou um homem prático. Eu tenho empresas, tenho responsabilidades. Eu quero você comigo. Quero acordar e ver você, não ter que esperar o horário que seu pai permite que você saia de casa. Ontem eu me senti um idiota explicando para os meus sócios por que a minha namorada de vinte anos não podia comparecer a um jantar de negócios.

— Eu me sinto pressionada — ela confessou, as lágrimas finalmente caindo. — Você e a Sara são tão fortes, tão decididos... Eu sinto que, se eu vier morar aqui, eu vou ser engolida por vocês. Eu vou perder o meu cantinho, a minha paz.

— Ou talvez você só tenha medo de crescer — Emanuel disse, a voz endurecendo. — Eu te dou tudo, Eduarda. Proteção, carinho, estabilidade. Mas eu preciso de uma parceira, não de uma hóspede emocional.

Eduarda levantou-se, o choro tornando-se mais soluçado. Ela se aproximou dele, tentando buscar o contato físico que sempre a acalmava. Ela sentou no colo dele, escondendo o rosto em seu pescoço, buscando o cheiro de sua colônia.

— Não fica bravo comigo, manhoso... — ela sussurrou, usando o tom que sabia que o desarmava. — Eu te amo tanto. Eu vou tentar, eu juro. Só me dá mais um tempinho para conversar com meus pais. Eles são modernos, eles vão entender, mas eu preciso de jeito para falar.

Emanuel suspirou, sentindo a maciez dela contra seu corpo tenso. O lado protetor dele gritou para que ele apenas a envolvesse nos braços e dissesse que tudo bem, que ele esperaria o tempo que fosse. Mas o lado racional, o homem que dividia a cama e os negócios com a eficiência implacável de Sara, estava exausto.

Ele a afastou gentilmente, segurando-a pelos ombros.

— O tempo está acabando, Eduarda. Eu não vou conseguir manter esse equilíbrio por muito mais tempo. A Sara está perdendo a paciência, e eu estou perdendo a vontade de mediar. Ou você entra de vez na minha vida, ou vai acabar ficando do lado de fora dela.

Eduarda o olhou com os olhos arregalados, a vulnerabilidade exposta. Ela percebeu, pela primeira vez, que a proteção de Emanuel não era incondicional — ela exigia uma renúncia que ela ainda não sabia se era capaz de fazer.

Do lado de fora, no corredor, Sara ouvia tudo com um sorriso frio. Ela sabia que, no final, a lógica e a presença constante venceriam a timidez e o dengo. Era apenas uma questão de tempo até que o império de Emanuel fosse pequeno demais para as duas, e ela não tinha intenção nenhuma de ser a pessoa a sair.

Emanuel olhou para Eduarda, depois para a porta onde sabia que Sara estava, e sentiu o peso de suas escolhas. Ele tinha o fogo e a água, a guerra e a paz. Mas, naquele momento, ele se sentia apenas profundamente cansado de tentar não se afogar em nenhuma das duas.

— Vai para casa, Eduarda — ele disse por fim, a voz sem emoção. — Pensa no que eu disse. E, por favor, não chegue atrasada para o jantar dos seus pais. Não quero ser o motivo de mais um conflito na sua vida "perfeita".

Eduarda pegou sua bolsa, o livro esquecido sobre a mesa, e saiu da sala sem dizer mais nada. Ao passar pela sala, viu Sara retocando o batom no espelho da entrada.

— Tchau, querida — Sara cantarolou, sem sequer olhar para trás. — Cuidado com o trânsito. Não queremos que o papai fique preocupado, não é?

A porta se fechou e o silêncio voltou a reinar no apartamento luxuoso, mas era um silêncio carregado de eletricidade, como o momento que antecede uma tempestade que ninguém sabe se a estrutura será capaz de suportar.
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