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Fandom: Nenhum

Criado: 30/05/2026

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Entre a Razão, o Caos e o Desejo

O ar no escritório central de Emanuel era denso, carregado com o cheiro de café caro e o som rítmico de teclas sendo pressionadas. O espaço refletia exatamente quem ele era: funcional, minimalista e imponente. Como um dos tatuadores mais renomados do mundo, com estúdios que iam de São Paulo a Tóquio, Emanuel estava acostumado a ter o controle de cada linha, cada pigmento e cada contrato. Mas, quando se tratava de sua vida pessoal, o controle era uma ilusão que se desfazia entre seus dedos.

Sara estava sentada na ponta da mesa de carvalho, cruzando as pernas longas e bronzeadas. O vestido vermelho justo realçava cada curva de seu corpo esculpido e os seios siliconados que ela fazia questão de exibir com decotes audaciosos. Ela girava uma caneta entre os dedos, um sorriso convencido brincando em seus lábios perfeitamente pintados de batom escuro.

— Eu já te disse, Manu — disse ela, a voz carregada de uma autoconfiança que frequentemente beirava a arrogância. — Se não fosse pela minha intervenção com os fornecedores de Berlim, aquele projeto de expansão teria afundado em burocracia. Aqueles alemães são rígidos, mas ninguém resiste a uma boa estratégia de administração... e a um pouco de charme.

Emanuel levantou os olhos do tablet, observando a mulher à sua frente. Sara era um furacão. Formada em administração, ela não precisava trabalhar, mas gostava do poder que exercia auxiliando-o. Ela era afiada, rápida e não tinha medo de sujar as mãos em uma disputa comercial.

— Você fez um bom trabalho, Sara. — Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento para massagear as têmporas. — A equipe técnica elogiou sua agilidade. Estou orgulhoso.

Sara se inclinou para frente, o perfume doce e invasivo preenchendo o espaço dele.

— Só orgulhoso? Eu mereço uma recompensa melhor do que um elogio seco, não acha? — Ela arqueou uma sobrancelha, o olhar desafiador. — Especialmente porque eu moro aqui, cuido das suas coisas e ainda aguento esse seu mau humor de quem carrega o mundo nas costas.

Emanuel endureceu a postura. A dinâmica com Sara era sempre um campo de batalha de vontades.

— Você sabe que eu valorizo o que faz. Mas não comece com as cobranças agora.

— As cobranças só vão parar quando você trouxer a "ratinha de biblioteca" para cá de vez — Sara disparou, o sarcasmo pingando de suas palavras. — É ridículo ela morar com os pais aos vinte anos enquanto você sustenta esse império. Se ela estivesse aqui, sob o meu teto, eu pelo menos poderia ensinar aquela menina a ser mulher de verdade, em vez de uma criança manhosa.

— Não fale da Eduarda assim — a voz de Emanuel subiu um tom, fria e perigosa. — Ela tem o tempo dela.

— O tempo dela está me atrasando, Manu. Eu quero a casa completa, ou quero ela fora do caminho. Essa convivência "civilizada" que você exige é um tédio.

Emanuel não respondeu. Ele sabia que discutir com Sara era circular em loops infinitos. Sua mente, no entanto, vagou para Eduarda. Eduarda era o oposto do caos de Sara. Ela era o silêncio após a tempestade, o toque macio e a voz baixa que acalmava seus nervos desfiados. Mas a recusa dela em se mudar para a cobertura dele era uma ferida aberta em seu ego. Ele queria proteção total sobre ela; queria acordar e ver seus cabelos castanhos espalhados no travesseiro ao lado do de Sara.

O celular de Emanuel vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de Eduarda.

"Emanuel... acho que fiz algo errado. Você pode vir me buscar na faculdade? Por favor... estou com muita vergonha."

Ele franziu o cenho. Eduarda raramente pedia algo de forma urgente.

— O que foi? — perguntou Sara, notando a mudança na expressão dele.

— Eduarda. Preciso buscar ela na faculdade. Parece que aconteceu algo.

Sara soltou uma gargalhada anasalada, jogando o cabelo loiro para trás.

— O que a santinha fez? Deixou cair um livro de arte no pé e começou a chorar? Eu vou com você. Quero ver o drama de perto.

— Você fica aqui, Sara. Tenho trabalho para você terminar.

— Ah, por favor, Manu! — Ela se levantou, ajeitando o vestido. — Eu ajudei você com o projeto de Berlim. Eu mereço um intervalo para rir um pouco.

Emanuel sabia que, se proibisse, Sara apareceria lá por conta própria apenas para desafiá-lo. Ele pegou as chaves do carro, a mandíbula travada.

***

O campus da faculdade de História da Arte estava movimentado, mas Eduarda estava encolhida em um banco de madeira sob uma árvore, os livros apertados contra o peito esguio. Ela usava uma saia leve de tons pastéis e uma blusa de tricô fino que parecia grande demais para seu corpo delicado. Quando viu o carro preto de Emanuel estacionar, ela se levantou rapidamente, os olhos grandes e expressivos brilhando com uma mistura de alívio e humilhação.

No entanto, ao ver Sara descer do lado do passageiro, Eduarda estancou. Ela se sentia pequena perto de Sara. A loira exalava uma sexualidade agressiva que intimidava a natureza tímida de Eduarda.

— Oi, meu amor — Emanuel disse, aproximando-se e envolvendo os ombros de Eduarda com um braço protetor. Ele plantou um beijo em sua testa. — O que aconteceu? Você parecia desesperada na mensagem.

Eduarda escondeu o rosto no peito dele, sentindo o cheiro familiar de tinta e perfume amadeirado.

— Eu... eu me confundi, Manu. O mural de avisos estava confuso.

— Confuso como, gracinha? — Sara se aproximou, cruzando os braços e fazendo seus seios saltarem ainda mais no decote. — Conta para a gente. O que a faculdade de arte tem de tão perigoso?

Eduarda estremeceu levemente, buscando o calor de Emanuel.

— Eu achei que era uma aula extra de Anatomia Artística — começou ela, a voz quase um sussurro. — Para aprender sobre as proporções do corpo humano, sombras e músculos... Mas quando eu entrei e a aula começou... não era isso.

— E o que era? — Emanuel perguntou, a curiosidade começando a ser substituída por uma pontada de irritação protetora.

— Era uma aula de... Expressão Erótica e Performance Corporal — Eduarda falou tão rápido que as palavras quase se atropelaram. As bochechas dela estavam em brasas. — Tinha... tinha pessoas no centro da sala. Elas estavam... fazendo coisas, Manu. Coisas explícitas. Para os alunos desenharem o "fluxo do desejo". Eu fiquei paralisada por dez minutos antes de conseguir sair correndo!

Houve um segundo de silêncio absoluto.

Sara explodiu em uma gargalhada ruidosa, chamando a atenção de alguns estudantes que passavam.

— Não acredito! — Sara se dobrou de rir. — A santinha foi parar em uma suruba artística! Emanuel, você ouviu isso? Ela achou que ia desenhar ossos e acabou vendo um show de pornografia ao vivo!

— Sara, cala a boca — Emanuel rosnou, mas seus próprios olhos estavam fixos em Eduarda, uma chama de ciúme e possessividade brilhando neles.

Ele segurou o queixo de Eduarda, forçando-a a olhar para ele.

— Você viu tudo? — A voz dele estava baixa, ríspida, o tom de controle que ele usava quando estava prestes a explodir.

— Eu tentei não olhar, eu juro! — Eduarda disse, os olhos marejados. — Foi um erro, eu entrei na sala errada e a porta estava pesada, e quando eu percebi...

— Isso é ridículo — Emanuel interrompeu, a frustração acumulada do dia transbordando. — É exatamente por isso que eu quero você morando comigo. Para eu saber onde você está, o que está fazendo. Você é muito ingênua, Eduarda. Olha a situação em que você se coloca.

— Não briga com ela, Manu — provocou Sara, aproximando-se e passando a mão pelo braço dele de forma possessiva. — Ela só é... lenta. Mas agora, olha pelo lado bom, talvez ela tenha aprendido alguns truques para usar com você. Embora eu duvide que ela tenha elasticidade para isso.

— Chega, Sara! — Emanuel se afastou do toque dela, mas não soltou Eduarda. — Vamos para o carro. Agora.

O caminho de volta para a cobertura foi tenso. Sara ia no banco da frente, trocando mensagens no celular e soltando risadinhas ocasionais, enquanto olhava pelo retrovisor para Eduarda, que estava encolhida no banco de trás, olhando pela janela.

Quando chegaram à imensa cobertura, Emanuel foi direto para o bar, servindo-se de um whisky. As duas mulheres ficaram no centro da sala, um contraste visual gritante: a pureza tímida de Eduarda contra a vulgaridade calculada de Sara.

— Senta aqui, Duda — Emanuel ordenou, apontando para o sofá de couro.

Eduarda obedeceu, sentando-se na ponta, as mãos entre as coxas.

— Eu não gosto disso — começou Emanuel, parando na frente dela. — Não gosto de você andando por aí sem supervisão se você não consegue nem distinguir uma aula de anatomia de uma... apresentação erótica.

— Foi um acidente, Manu... — ela murmurou, manhosa, tentando alcançar a mão dele. — Por favor, não fica bravo comigo. Eu já me senti tão mal lá.

— Ele não está bravo, querida — Sara interveio, servindo-se de uma taça de vinho e sentando-se no braço do sofá, perto de Emanuel. — Ele está frustrado. Porque ele tem duas mulheres, mas só uma vive a realidade dele. Eu cuido dos negócios, eu estou aqui toda noite. Você? Você é como um bichinho de estimação que ele tem que ir resgatar no pet shop porque se perdeu.

— Eu não sou um bicho de estimação! — Eduarda levantou a voz, uma rara demonstração de resistência, seus olhos brilhando com lágrimas de raiva.

— Então prove — Sara desafiou, inclinando-se para frente. — Mude-se para cá de uma vez. Pare de se esconder atrás dos seus pais. Se você estivesse aqui, Emanuel não estaria estressado agora. Ele teria nós duas.

Emanuel observava a interação. Ele odiava os conflitos entre elas, mas, ao mesmo tempo, a pressão de Sara servia aos seus propósitos.

— Ela tem razão, Eduarda — disse ele, a voz suavizando um pouco, mas mantendo a firmeza. — Eu não aguento mais essa distância. Eu tenho recursos, tenho espaço. Quero você aqui, onde eu possa te ver, onde a Sara possa... — ele fez uma pausa, olhando para a loira — ...manter um olho em você também.

Eduarda olhou de um para o outro. Ela amava Emanuel com uma intensidade que a assustava. Ele era sua rocha, seu protetor. Mas a presença de Sara era como um espinho constante. Ela sentia que, se morasse ali, seria engolida pela personalidade de Sara e pelo controle de Emanuel.

— Eu... eu só preciso de mais um pouco de tempo — sussurrou Eduarda. — Para terminar o semestre... para conversar com a minha mãe...

Emanuel bateu o copo na mesa lateral com força excessiva, o som ecoando pelo ambiente moderno.

— Tempo! É sempre tempo! — Ele se aproximou de Eduarda, cercando-a no sofá. — Eu te dou tudo, Eduarda. Eu te protejo, eu cuido de você. E você me retribui com desculpas e se metendo em situações idiotas naquela faculdade.

Eduarda começou a chorar silenciosamente, os ombros tremendo. Era sua reação automática ao conflito: o fechamento emocional.

— Viu o que você fez? — Sara disse, embora seu tom não fosse de censura, mas de diversão. Ela se levantou e caminhou até Emanuel, abraçando-o por trás, as mãos descendo pelo abdômen dele. — Você a assustou. Ela é sensível demais, Manu. Deixa ela chorar. Enquanto isso, por que você não foca em quem realmente está aqui por você?

Emanuel olhou para Eduarda, chorosa e frágil, e depois para Sara, provocante e disponível. O conflito interno o corroía. Ele queria a doçura de uma e a força da outra, mas a incapacidade de fundi-las em um único lar o deixava no limite.

— Vai para o quarto, Sara — Emanuel ordenou, sem olhar para trás.

— Qual deles? — ela perguntou com um sorriso malicioso.

— O nosso. Espere lá.

Sara deu um beijo no pescoço dele, lançou um olhar de triunfo para Eduarda e subiu as escadas, o som de seus saltos estalando no mármore.

Emanuel sentou-se ao lado de Eduarda e a puxou para o seu colo. Ela não resistiu, acomodando-se como uma criança pequena, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Me desculpa... — ela soluçou. — Eu não queria te irritar. Eu sou tão boba.

— Shhh... — Emanuel passou a mão pelos cabelos castanhos dela, sentindo a maciez que sempre o acalmava. — Você não é boba. Só é teimosa.

— Eu tenho medo, Manu. A Sara... ela me trata mal.

— Ela é assim, Eduarda. É o jeito dela de marcar território. Se você morasse aqui, vocês acabariam se entendendo. Eu não vou deixar nada acontecer com você, você sabe disso.

Eduarda se afastou um pouco, olhando nos olhos dele.

— Você gosta que ela seja assim? Grossa e... daquele jeito?

Emanuel soltou um suspiro cansado.

— Eu gosto que ela seja prática. Ela me ajuda a carregar o peso dos negócios. Mas eu preciso de você para me lembrar por que eu trabalho tanto. Eu preciso dessa sua paz. Mas essa paz está me custando muito caro quando você está longe.

Ele a apertou mais forte, o cheiro de Eduarda misturando-se ao cheiro do whisky e ao perfume de Sara que ainda impregnava suas roupas. Era um equilíbrio precário, uma vida dividida entre a necessidade de controle e o desejo de ser cuidado.

— Promete que vai pensar com carinho sobre a mudança? — ele pediu, a voz agora rouca. — Sem mais desculpas.

Eduarda assentiu levemente, embora no fundo sentisse que estava entrando em uma gaiola de ouro, onde o carcereiro era o homem que ela amava e a outra prisioneira faria de tudo para ser a favorita.

— Eu prometo, Manu.

Emanuel a beijou com uma possessividade renovada. Naquela noite, ele teria o conforto de Eduarda por algumas horas, antes de subir para enfrentar o fogo de Sara. Ele era um homem rico, poderoso e bem-sucedido, mas ali, entre as duas mulheres que representavam os extremos de sua alma, ele percebia que o controle era apenas uma tatuagem bem feita: parecia real e permanente, mas a pele por baixo ainda era capaz de sangrar.
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