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Fandom: Nenhum
Criado: 30/05/2026
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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaPsicológicoEstudo de PersonagemCiúmesHistória DomésticaRealismoDor/ConfortoSombrio
Equilíbrio em Corda Bamba
A luz neon do parque de diversões refletia nas poças de água deixadas por uma chuva passageira, criando um cenário vibrante e caótico que parecia espelhar o estado mental de Emanuel. Ele caminhava pelo centro do grupo, uma figura de autoridade silenciosa, vestindo uma jaqueta de couro preta simples e jeans escuros. Seus olhos, no entanto, não paravam de vigiar as duas mulheres que caminhavam ao seu lado, cada uma representando um polo magnético oposto de sua vida.
À sua direita, Eduarda segurava seu braço com uma delicadeza quase infantil. Ela usava um cardigã de tricô cor de creme sobre um vestido floral leve, os cabelos castanhos soltos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia pequena diante da multidão, encolhendo-se levemente sempre que um grupo de adolescentes barulhentos passava correndo.
À sua esquerda, Sara era o completo oposto. Usando uma calça de couro justa que realçava suas curvas e um top que deixava pouco para a imaginação, ela exalava uma confiança agressiva. O cabelo loiro platinado estava impecavelmente escovado, e o batom vermelho vibrante brilhava sob as luzes do parque. Ela ria alto com suas amigas, um grupo de mulheres tão chamativas quanto ela, que pareciam olhar para Eduarda com uma mistura de tédio e superioridade.
— Emanuel, olha aquele brinquedo! — Sara apontou para a montanha-russa que despencava em uma curva fechada. — Vamos naquele primeiro. Preciso de um pouco de adrenalina para aguentar essa caminhada lenta.
Emanuel sentiu o aperto de Eduarda em seu braço aumentar.
— Eu... eu não sei se consigo ir nesse, Manu — sussurrou Eduarda, a voz doce e vacilante. — Parece muito alto.
Sara soltou uma risada anasalada, revirando os olhos enquanto ajustava a alça da bolsa de grife no ombro.
— Ah, pelo amor de Deus, Duda. É só um carrinho em um trilho. Deixa de ser frouxa pelo menos uma noite, o Emanuel quer se divertir, não quer ficar babando em cima de você o tempo todo.
— Sara, chega — disse Emanuel, o tom de voz baixo e firme, carregado da autoridade que usava para gerir seus estúdios de tatuagem. — Ela vai se quiser. Não precisa provocar.
— Eu não estou provocando, querido — Sara retrucou, aproximando-se dele e passando a mão pelo peito de Emanuel, ignorando a presença de Eduarda. — Só estou dizendo que a gente veio aqui para aproveitar. E eu fiz um trabalho incrível fechando as contas do estúdio de Londres hoje, eu mereço comemorar, não acha?
Emanuel suspirou, sentindo a tensão habitual nos ombros. Ele estava orgulhoso de Sara; ela tinha uma mente afiada para os negócios e, embora não fosse a responsável pelo seu império, sua ajuda na administração era inegável. Mas a personalidade dela colidia frontalmente com a fragilidade de Eduarda, e ele era o para-raios constante desse embate.
— Você fez um bom trabalho, Sara. Já te disse isso — ele respondeu, tentando manter a neutralidade. — Mas vamos decidir o que fazer juntos.
Eduarda olhou para o chão, os dedos brincando com a manga do cardigã. Ela se sentia insuficiente perto de Sara, especialmente quando o assunto era o trabalho de Emanuel. Ela era apenas uma estudante de História da Arte, vivendo entre livros e telas antigas, enquanto Sara estava lá, no campo de batalha dos negócios dele.
— Podemos ir na roda-gigante? — Eduarda pediu baixinho, olhando para Emanuel com aqueles olhos expressivos que sempre o desarmavam. — É mais calmo.
— Roda-gigante? — Uma das amigas de Sara, uma loira de cílios postiços exagerados, riu atrás delas. — Isso é coisa de criança ou de quem quer namorar escondido.
— Pois é exatamente o que eu quero — Emanuel cortou, lançando um olhar gélido para a amiga de Sara, que imediatamente se calou. — Vamos na roda-gigante primeiro. Depois a gente vai na montanha-russa.
Sara bufou, cruzando os braços sobre os seios siliconados, mas não protestou mais. Ela sabia até onde podia esticar a corda com Emanuel antes que ele se tornasse rígido demais.
Enquanto caminhavam em direção à fila, Emanuel sentiu o peso do silêncio de Eduarda. Ele se inclinou e beijou o topo da cabeça dela, sentindo o perfume suave de baunilha que ela sempre usava.
— Está tudo bem, pequena? — perguntou ele, a voz suavizando apenas para ela.
— Está... eu só queria que a gente pudesse ficar mais tempo — ela disse, olhando para o relógio de pulso. — Meus pais querem que eu esteja em casa às onze. Já são quase nove e meia.
O rosto de Emanuel se fechou instantaneamente. A rigidez voltou à sua expressão, uma sombra de irritação cruzando seus olhos cansados.
— Outra vez isso, Eduarda? Você tem vinte anos. Já passou da hora de parar de dar satisfação sobre que horas volta para casa.
— Você sabe como eles são, Manu... — ela começou, a voz embargada. — Eles se preocupam.
— Eles te controlam — Emanuel a interrompeu, parando de caminhar e ignorando o fluxo de pessoas ao redor. — Eu já te ofereci a chave da minha casa mil vezes. A Sara já mora lá, tem espaço de sobra, você teria seu próprio quarto de estudos, sua liberdade. Por que você continua se recusando?
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela amava Emanuel com cada fibra de seu ser, mas a ideia de morar com ele — e consequentemente com Sara — a aterrorizava. Ela temia perder o pouco de paz que tinha, temia ser engolida pela personalidade vibrante e agressiva da outra mulher.
— Eu ainda não estou pronta... por favor, não fica bravo. Eu só preciso de mais um pouco de tempo.
— Tempo é a única coisa que eu sinto que estou desperdiçando — Emanuel murmurou, embora tenha apertado a mão dela para confortá-la, apesar da frustração.
Sara, que assistia à cena de longe com um sorriso de canto, aproximou-se novamente. Ela adorava quando a hesitação de Eduarda irritava Emanuel.
— Deixa ela, Manu. Se a princesinha quer viver na torre do castelo dos pais, o problema é dela. Mais espaço para mim no closet, não é? — Ela riu, jogando o cabelo para trás. — Mas falando sério, se você for embora às onze, o Emanuel fica comigo e com as meninas. A gente vai para uma festa em um rooftop depois daqui.
Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. O conflito interno era evidente. Ele queria a doçura de Eduarda, o refúgio que o abraço dela proporcionava após um dia estressante de trabalho e agulhas. Mas ele também desejava a energia de Sara, a parceria nos negócios e a intensidade que ela trazia para sua vida.
— Eu não vou para festa nenhuma se a Eduarda for embora cedo — Emanuel declarou, embora soubesse que Sara provavelmente o convenceria do contrário mais tarde.
— Ah, vai sim! — Sara exclamou, puxando-o pelo outro braço. — Você trabalhou a semana toda, Emanuel. Merece descontrair. E se a Duda tem que dormir cedo para não levar bronca do papai, o azar é dela.
— Não fala assim dela — Emanuel rosnou, a paciência se esgotando.
— Eu falo a verdade, e você sabe disso. Você é um homem de vinte e cinco anos, dono de metade dos estúdios de luxo desse país. Não combina com uma garota que tem hora para chegar.
Eduarda soltou o braço de Emanuel, sentindo-se subitamente sobrando. O ambiente barulhento, o cheiro de pipoca e óleo frito, e a agressividade passiva de Sara estavam começando a sufocá-la.
— Eu vou buscar uma água — disse Eduarda, a voz quase inaudível.
— Eu vou com você — Emanuel fez menção de segui-la, mas Sara o segurou com força.
— Deixa ela respirar, Emanuel. Ela não é um bebê. Vamos, a fila da montanha-russa está diminuindo. Ela nos encontra lá.
Emanuel hesitou. Ele viu Eduarda se afastar, sua figura esguia desaparecendo entre a multidão colorida. Ele sentia uma necessidade visceral de protegê-la, de buscá-la e levá-la para casa, onde pudesse mantê-la segura sob suas asas. Mas a pressão de Sara e o estresse acumulado da semana o faziam querer apenas ceder, parar de mediar por alguns minutos.
— Cinco minutos — disse Emanuel para Sara, a voz rígida. — Vamos na montanha-russa e depois eu vou atrás dela.
— Viu? É assim que se fala — Sara sorriu, vitoriosa, e o puxou em direção à estrutura metálica gigante.
Enquanto isso, Eduarda caminhava perto de uma barraca de tiro ao alvo. Ela observava os casais, as famílias, sentindo-se um peixe fora d'água. Ela sabia que Emanuel a amava, mas sentia que o mundo dele era grande demais, barulhento demais para ela. E Sara... Sara era como uma tempestade que ela não sabia como navegar.
Ela sentou-se em um banco de madeira, observando o relógio. Dez horas. O tempo estava correndo, e a pressão de Emanuel para que ela se mudasse pesava em seu peito como chumbo. Ela queria agradá-lo, queria estar com ele todas as manhãs, mas o medo de ser esmagada pela dinâmica entre ele e Sara a impedia de dar o passo final.
Minutos depois, Emanuel apareceu. Ele estava ofegante, os olhos percorrendo a multidão até encontrá-la. Atrás dele, Sara vinha reclamando, acompanhada de suas amigas que pareciam entediadas.
— Eduarda! — Ele se aproximou e sentou ao lado dela, ignorando as outras. — Por que saiu daquele jeito?
— Eu só precisava de ar, Manu. É muita gente... e as coisas que a Sara diz...
Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Ela é assim, você sabe. Ela não filtra. Mas eu estou aqui, não estou?
— Por enquanto — ela sussurrou. — Mas daqui a pouco eu tenho que ir, e você vai ficar com ela. E ela vai continuar dizendo que eu sou uma criança.
Emanuel sentiu uma pontada de culpa. Ele sabia que Eduarda tinha razão. Ele permitia que Sara ultrapassasse os limites porque, no fundo, a racionalidade de Sara o ajudava a manter os negócios funcionando, enquanto a sensibilidade de Eduarda o mantinha humano. Ele precisava das duas, mas a convivência civilizada que ele tanto pregava era uma ilusão frágil.
— Escuta — Emanuel segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos, ignorando o pigarro impaciente de Sara a poucos metros de distância. — Eu amo você. E amo a Sara. Eu quero que isso funcione. Mas você precisa me ajudar. Se você morasse comigo, a gente não teria essa pressão do relógio. Eu poderia te proteger melhor.
— Ou eu ficaria mais exposta aos ataques dela — Eduarda rebateu, com uma coragem rara. — Você não vê como ela me olha, Manu? Como se eu fosse um erro nos seus cálculos.
Emanuel olhou para Sara por cima do ombro. Sara sustentou o olhar, desafiadora, com um sorriso cínico nos lábios perfeitamente desenhados. Ela não ia facilitar. Ela queria o território, queria o controle.
— Eu vou falar com ela. De novo — prometeu Emanuel, embora soubesse que suas palavras tinham pouco efeito sobre a natureza impulsiva de Sara. — Mas agora, vamos aproveitar os últimos minutos.
Ele se levantou e estendeu a mão para Eduarda. Ela a aceitou, sentindo a firmeza e o calor da palma dele.
O restante da noite foi um exercício de equilibrismo. Emanuel caminhava entre as duas, uma mão na cintura de Sara — que exigia atenção constante e contato físico — e a outra segurando a mão de Eduarda, que buscava nele sua âncora.
Quando o relógio marcou dez e quarenta, a tensão atingiu o ápice.
— Bom, a carruagem vai virar abóbora — Sara anunciou com uma voz falsa de lamentação. — Vamos, meninas, o motorista do Emanuel pode levar a Duda para casa, e nós vamos para a festa no carro dele.
— O meu motorista não vai levar ninguém — Emanuel disse, a voz subindo de tom pela primeira vez na noite. — Eu vou levar a Eduarda até a porta da casa dela. E depois eu decido se vou para essa festa ou não.
— Ah, qual é, Emanuel! — Sara bufou, batendo o pé. — Você vai estragar a noite por causa de quinze minutos de trajeto? Deixa de ser ridículo. Ela sabe o caminho.
— Ela é minha namorada, Sara. E eu vou levá-la.
Eduarda sentiu um misto de gratidão e tristeza. Ela odiava ser o motivo da briga, odiava sentir que era um fardo cronometrado na vida dele.
— Não precisa, Manu... eu posso ir de aplicativo... — ela tentou dizer, mas o olhar que Emanuel lhe deu foi final.
— Eu vou te levar.
O caminho até o estacionamento foi silencioso e carregado. As amigas de Sara cochichavam atrás, enquanto Sara caminhava à frente, pisando forte com seus saltos caros. Emanuel mantinha o braço firmemente ao redor dos ombros de Eduarda, como se temesse que ela desaparecesse se ele soltasse.
Ao chegarem ao carro de luxo de Emanuel, ele abriu a porta para Eduarda com uma cortesia que raramente mostrava a outros. Sara entrou no banco de trás, batendo a porta com força, a expressão de fúria evidente.
— Isso não vai ficar assim, Emanuel — Sara sibilou do banco de trás. — Você está mimando ela, e isso só piora as coisas.
— Cala a boca, Sara — Emanuel respondeu, entrando no banco do motorista e ligando o motor potente. — Só por dez minutos, fica em silêncio.
O trajeto até a casa dos pais de Eduarda foi o mais longo da vida de todos ali. Quando o carro parou diante do portão da casa de classe média, o contraste com a vida luxuosa de Emanuel era gritante.
Eduarda virou-se para ele, os olhos úmidos.
— Obrigada por me trazer. Desculpa por... tudo.
Emanuel puxou-a para um beijo lento e profundo, ignorando o suspiro de tédio exagerado que vinha do banco de trás.
— Eu te ligo amanhã — ele murmurou contra os lábios dela. — Pensa no que eu te disse sobre a mudança. Eu quero você comigo, Duda. De verdade.
— Eu vou pensar — ela prometeu, embora soubesse que a resposta ainda era um "não" sussurrado pelo medo.
Ela saiu do carro e correu para dentro de casa sem olhar para trás. Emanuel ficou ali por um momento, observando as luzes da varanda se apagarem.
— Finalmente — a voz de Sara veio de trás, agora mais suave, quase sedutora enquanto ela se inclinava para frente, colocando as mãos nos ombros dele. — Agora que a criança foi dormir, podemos ser adultos?
Emanuel olhou para Sara pelo retrovisor. A irritação ainda estava lá, mas o desejo e a necessidade de relaxar começavam a falar mais alto. Ele era um homem prático, e a praticidade dizia que Sara estava ali, pronta, enquanto Eduarda era um sonho que ele ainda não conseguia alcançar totalmente.
— Vamos para a festa — ele disse, engatando a marcha. — Mas não diga mais uma palavra sobre ela hoje.
Sara sorriu, vitoriosa. Ela não precisava falar. O relógio já tinha falado por ela.
Enquanto o carro se afastava em direção às luzes da cidade, Emanuel sentia o peito apertado. Ele amava as duas, mas naquele jogo de poder, silêncio e carência, ele sabia que a paz que tanto buscava ainda estava a muitos quilômetros de distância. E, no fundo, ele temia o dia em que teria que escolher entre o conforto do silêncio de Eduarda e o caos vibrante de Sara. Mas, por enquanto, ele apenas acelerou, tentando deixar o estresse para trás, mesmo sabendo que ele o acompanharia em cada uma das camas que escolhesse deitar.
À sua direita, Eduarda segurava seu braço com uma delicadeza quase infantil. Ela usava um cardigã de tricô cor de creme sobre um vestido floral leve, os cabelos castanhos soltos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia pequena diante da multidão, encolhendo-se levemente sempre que um grupo de adolescentes barulhentos passava correndo.
À sua esquerda, Sara era o completo oposto. Usando uma calça de couro justa que realçava suas curvas e um top que deixava pouco para a imaginação, ela exalava uma confiança agressiva. O cabelo loiro platinado estava impecavelmente escovado, e o batom vermelho vibrante brilhava sob as luzes do parque. Ela ria alto com suas amigas, um grupo de mulheres tão chamativas quanto ela, que pareciam olhar para Eduarda com uma mistura de tédio e superioridade.
— Emanuel, olha aquele brinquedo! — Sara apontou para a montanha-russa que despencava em uma curva fechada. — Vamos naquele primeiro. Preciso de um pouco de adrenalina para aguentar essa caminhada lenta.
Emanuel sentiu o aperto de Eduarda em seu braço aumentar.
— Eu... eu não sei se consigo ir nesse, Manu — sussurrou Eduarda, a voz doce e vacilante. — Parece muito alto.
Sara soltou uma risada anasalada, revirando os olhos enquanto ajustava a alça da bolsa de grife no ombro.
— Ah, pelo amor de Deus, Duda. É só um carrinho em um trilho. Deixa de ser frouxa pelo menos uma noite, o Emanuel quer se divertir, não quer ficar babando em cima de você o tempo todo.
— Sara, chega — disse Emanuel, o tom de voz baixo e firme, carregado da autoridade que usava para gerir seus estúdios de tatuagem. — Ela vai se quiser. Não precisa provocar.
— Eu não estou provocando, querido — Sara retrucou, aproximando-se dele e passando a mão pelo peito de Emanuel, ignorando a presença de Eduarda. — Só estou dizendo que a gente veio aqui para aproveitar. E eu fiz um trabalho incrível fechando as contas do estúdio de Londres hoje, eu mereço comemorar, não acha?
Emanuel suspirou, sentindo a tensão habitual nos ombros. Ele estava orgulhoso de Sara; ela tinha uma mente afiada para os negócios e, embora não fosse a responsável pelo seu império, sua ajuda na administração era inegável. Mas a personalidade dela colidia frontalmente com a fragilidade de Eduarda, e ele era o para-raios constante desse embate.
— Você fez um bom trabalho, Sara. Já te disse isso — ele respondeu, tentando manter a neutralidade. — Mas vamos decidir o que fazer juntos.
Eduarda olhou para o chão, os dedos brincando com a manga do cardigã. Ela se sentia insuficiente perto de Sara, especialmente quando o assunto era o trabalho de Emanuel. Ela era apenas uma estudante de História da Arte, vivendo entre livros e telas antigas, enquanto Sara estava lá, no campo de batalha dos negócios dele.
— Podemos ir na roda-gigante? — Eduarda pediu baixinho, olhando para Emanuel com aqueles olhos expressivos que sempre o desarmavam. — É mais calmo.
— Roda-gigante? — Uma das amigas de Sara, uma loira de cílios postiços exagerados, riu atrás delas. — Isso é coisa de criança ou de quem quer namorar escondido.
— Pois é exatamente o que eu quero — Emanuel cortou, lançando um olhar gélido para a amiga de Sara, que imediatamente se calou. — Vamos na roda-gigante primeiro. Depois a gente vai na montanha-russa.
Sara bufou, cruzando os braços sobre os seios siliconados, mas não protestou mais. Ela sabia até onde podia esticar a corda com Emanuel antes que ele se tornasse rígido demais.
Enquanto caminhavam em direção à fila, Emanuel sentiu o peso do silêncio de Eduarda. Ele se inclinou e beijou o topo da cabeça dela, sentindo o perfume suave de baunilha que ela sempre usava.
— Está tudo bem, pequena? — perguntou ele, a voz suavizando apenas para ela.
— Está... eu só queria que a gente pudesse ficar mais tempo — ela disse, olhando para o relógio de pulso. — Meus pais querem que eu esteja em casa às onze. Já são quase nove e meia.
O rosto de Emanuel se fechou instantaneamente. A rigidez voltou à sua expressão, uma sombra de irritação cruzando seus olhos cansados.
— Outra vez isso, Eduarda? Você tem vinte anos. Já passou da hora de parar de dar satisfação sobre que horas volta para casa.
— Você sabe como eles são, Manu... — ela começou, a voz embargada. — Eles se preocupam.
— Eles te controlam — Emanuel a interrompeu, parando de caminhar e ignorando o fluxo de pessoas ao redor. — Eu já te ofereci a chave da minha casa mil vezes. A Sara já mora lá, tem espaço de sobra, você teria seu próprio quarto de estudos, sua liberdade. Por que você continua se recusando?
Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela amava Emanuel com cada fibra de seu ser, mas a ideia de morar com ele — e consequentemente com Sara — a aterrorizava. Ela temia perder o pouco de paz que tinha, temia ser engolida pela personalidade vibrante e agressiva da outra mulher.
— Eu ainda não estou pronta... por favor, não fica bravo. Eu só preciso de mais um pouco de tempo.
— Tempo é a única coisa que eu sinto que estou desperdiçando — Emanuel murmurou, embora tenha apertado a mão dela para confortá-la, apesar da frustração.
Sara, que assistia à cena de longe com um sorriso de canto, aproximou-se novamente. Ela adorava quando a hesitação de Eduarda irritava Emanuel.
— Deixa ela, Manu. Se a princesinha quer viver na torre do castelo dos pais, o problema é dela. Mais espaço para mim no closet, não é? — Ela riu, jogando o cabelo para trás. — Mas falando sério, se você for embora às onze, o Emanuel fica comigo e com as meninas. A gente vai para uma festa em um rooftop depois daqui.
Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. O conflito interno era evidente. Ele queria a doçura de Eduarda, o refúgio que o abraço dela proporcionava após um dia estressante de trabalho e agulhas. Mas ele também desejava a energia de Sara, a parceria nos negócios e a intensidade que ela trazia para sua vida.
— Eu não vou para festa nenhuma se a Eduarda for embora cedo — Emanuel declarou, embora soubesse que Sara provavelmente o convenceria do contrário mais tarde.
— Ah, vai sim! — Sara exclamou, puxando-o pelo outro braço. — Você trabalhou a semana toda, Emanuel. Merece descontrair. E se a Duda tem que dormir cedo para não levar bronca do papai, o azar é dela.
— Não fala assim dela — Emanuel rosnou, a paciência se esgotando.
— Eu falo a verdade, e você sabe disso. Você é um homem de vinte e cinco anos, dono de metade dos estúdios de luxo desse país. Não combina com uma garota que tem hora para chegar.
Eduarda soltou o braço de Emanuel, sentindo-se subitamente sobrando. O ambiente barulhento, o cheiro de pipoca e óleo frito, e a agressividade passiva de Sara estavam começando a sufocá-la.
— Eu vou buscar uma água — disse Eduarda, a voz quase inaudível.
— Eu vou com você — Emanuel fez menção de segui-la, mas Sara o segurou com força.
— Deixa ela respirar, Emanuel. Ela não é um bebê. Vamos, a fila da montanha-russa está diminuindo. Ela nos encontra lá.
Emanuel hesitou. Ele viu Eduarda se afastar, sua figura esguia desaparecendo entre a multidão colorida. Ele sentia uma necessidade visceral de protegê-la, de buscá-la e levá-la para casa, onde pudesse mantê-la segura sob suas asas. Mas a pressão de Sara e o estresse acumulado da semana o faziam querer apenas ceder, parar de mediar por alguns minutos.
— Cinco minutos — disse Emanuel para Sara, a voz rígida. — Vamos na montanha-russa e depois eu vou atrás dela.
— Viu? É assim que se fala — Sara sorriu, vitoriosa, e o puxou em direção à estrutura metálica gigante.
Enquanto isso, Eduarda caminhava perto de uma barraca de tiro ao alvo. Ela observava os casais, as famílias, sentindo-se um peixe fora d'água. Ela sabia que Emanuel a amava, mas sentia que o mundo dele era grande demais, barulhento demais para ela. E Sara... Sara era como uma tempestade que ela não sabia como navegar.
Ela sentou-se em um banco de madeira, observando o relógio. Dez horas. O tempo estava correndo, e a pressão de Emanuel para que ela se mudasse pesava em seu peito como chumbo. Ela queria agradá-lo, queria estar com ele todas as manhãs, mas o medo de ser esmagada pela dinâmica entre ele e Sara a impedia de dar o passo final.
Minutos depois, Emanuel apareceu. Ele estava ofegante, os olhos percorrendo a multidão até encontrá-la. Atrás dele, Sara vinha reclamando, acompanhada de suas amigas que pareciam entediadas.
— Eduarda! — Ele se aproximou e sentou ao lado dela, ignorando as outras. — Por que saiu daquele jeito?
— Eu só precisava de ar, Manu. É muita gente... e as coisas que a Sara diz...
Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Ela é assim, você sabe. Ela não filtra. Mas eu estou aqui, não estou?
— Por enquanto — ela sussurrou. — Mas daqui a pouco eu tenho que ir, e você vai ficar com ela. E ela vai continuar dizendo que eu sou uma criança.
Emanuel sentiu uma pontada de culpa. Ele sabia que Eduarda tinha razão. Ele permitia que Sara ultrapassasse os limites porque, no fundo, a racionalidade de Sara o ajudava a manter os negócios funcionando, enquanto a sensibilidade de Eduarda o mantinha humano. Ele precisava das duas, mas a convivência civilizada que ele tanto pregava era uma ilusão frágil.
— Escuta — Emanuel segurou o rosto de Eduarda com as duas mãos, ignorando o pigarro impaciente de Sara a poucos metros de distância. — Eu amo você. E amo a Sara. Eu quero que isso funcione. Mas você precisa me ajudar. Se você morasse comigo, a gente não teria essa pressão do relógio. Eu poderia te proteger melhor.
— Ou eu ficaria mais exposta aos ataques dela — Eduarda rebateu, com uma coragem rara. — Você não vê como ela me olha, Manu? Como se eu fosse um erro nos seus cálculos.
Emanuel olhou para Sara por cima do ombro. Sara sustentou o olhar, desafiadora, com um sorriso cínico nos lábios perfeitamente desenhados. Ela não ia facilitar. Ela queria o território, queria o controle.
— Eu vou falar com ela. De novo — prometeu Emanuel, embora soubesse que suas palavras tinham pouco efeito sobre a natureza impulsiva de Sara. — Mas agora, vamos aproveitar os últimos minutos.
Ele se levantou e estendeu a mão para Eduarda. Ela a aceitou, sentindo a firmeza e o calor da palma dele.
O restante da noite foi um exercício de equilibrismo. Emanuel caminhava entre as duas, uma mão na cintura de Sara — que exigia atenção constante e contato físico — e a outra segurando a mão de Eduarda, que buscava nele sua âncora.
Quando o relógio marcou dez e quarenta, a tensão atingiu o ápice.
— Bom, a carruagem vai virar abóbora — Sara anunciou com uma voz falsa de lamentação. — Vamos, meninas, o motorista do Emanuel pode levar a Duda para casa, e nós vamos para a festa no carro dele.
— O meu motorista não vai levar ninguém — Emanuel disse, a voz subindo de tom pela primeira vez na noite. — Eu vou levar a Eduarda até a porta da casa dela. E depois eu decido se vou para essa festa ou não.
— Ah, qual é, Emanuel! — Sara bufou, batendo o pé. — Você vai estragar a noite por causa de quinze minutos de trajeto? Deixa de ser ridículo. Ela sabe o caminho.
— Ela é minha namorada, Sara. E eu vou levá-la.
Eduarda sentiu um misto de gratidão e tristeza. Ela odiava ser o motivo da briga, odiava sentir que era um fardo cronometrado na vida dele.
— Não precisa, Manu... eu posso ir de aplicativo... — ela tentou dizer, mas o olhar que Emanuel lhe deu foi final.
— Eu vou te levar.
O caminho até o estacionamento foi silencioso e carregado. As amigas de Sara cochichavam atrás, enquanto Sara caminhava à frente, pisando forte com seus saltos caros. Emanuel mantinha o braço firmemente ao redor dos ombros de Eduarda, como se temesse que ela desaparecesse se ele soltasse.
Ao chegarem ao carro de luxo de Emanuel, ele abriu a porta para Eduarda com uma cortesia que raramente mostrava a outros. Sara entrou no banco de trás, batendo a porta com força, a expressão de fúria evidente.
— Isso não vai ficar assim, Emanuel — Sara sibilou do banco de trás. — Você está mimando ela, e isso só piora as coisas.
— Cala a boca, Sara — Emanuel respondeu, entrando no banco do motorista e ligando o motor potente. — Só por dez minutos, fica em silêncio.
O trajeto até a casa dos pais de Eduarda foi o mais longo da vida de todos ali. Quando o carro parou diante do portão da casa de classe média, o contraste com a vida luxuosa de Emanuel era gritante.
Eduarda virou-se para ele, os olhos úmidos.
— Obrigada por me trazer. Desculpa por... tudo.
Emanuel puxou-a para um beijo lento e profundo, ignorando o suspiro de tédio exagerado que vinha do banco de trás.
— Eu te ligo amanhã — ele murmurou contra os lábios dela. — Pensa no que eu te disse sobre a mudança. Eu quero você comigo, Duda. De verdade.
— Eu vou pensar — ela prometeu, embora soubesse que a resposta ainda era um "não" sussurrado pelo medo.
Ela saiu do carro e correu para dentro de casa sem olhar para trás. Emanuel ficou ali por um momento, observando as luzes da varanda se apagarem.
— Finalmente — a voz de Sara veio de trás, agora mais suave, quase sedutora enquanto ela se inclinava para frente, colocando as mãos nos ombros dele. — Agora que a criança foi dormir, podemos ser adultos?
Emanuel olhou para Sara pelo retrovisor. A irritação ainda estava lá, mas o desejo e a necessidade de relaxar começavam a falar mais alto. Ele era um homem prático, e a praticidade dizia que Sara estava ali, pronta, enquanto Eduarda era um sonho que ele ainda não conseguia alcançar totalmente.
— Vamos para a festa — ele disse, engatando a marcha. — Mas não diga mais uma palavra sobre ela hoje.
Sara sorriu, vitoriosa. Ela não precisava falar. O relógio já tinha falado por ela.
Enquanto o carro se afastava em direção às luzes da cidade, Emanuel sentia o peito apertado. Ele amava as duas, mas naquele jogo de poder, silêncio e carência, ele sabia que a paz que tanto buscava ainda estava a muitos quilômetros de distância. E, no fundo, ele temia o dia em que teria que escolher entre o conforto do silêncio de Eduarda e o caos vibrante de Sara. Mas, por enquanto, ele apenas acelerou, tentando deixar o estresse para trás, mesmo sabendo que ele o acompanharia em cada uma das camas que escolhesse deitar.
