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A reação

Fandom: Harry Potter

Criado: 31/05/2026

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O Peso do Mal Necessário

O Salão Principal de Hogwarts nunca estivera tão silencioso, nem mesmo durante os exames de N.I.E.M.s ou nos momentos mais sombrios da guerra contra Voldemort. No centro do teto encantado, onde normalmente se viam as estrelas ou nuvens passageiras, uma fenda prateada se abrira, expandindo-se até formar uma tela translúcida que ocupava quase toda a extensão do teto.

Alunos de todas as casas, professores e até mesmo alguns membros do Ministério que estavam de visita, como Cornélio Fudge e Dolores Umbridge, mantinham os olhos fixos na projeção. A imagem era nítida, mas a atmosfera que emanava dela era pesada, sufocante.

Na tela, o Trio de Ouro não parecia o grupo de heróis que todos conheciam. Eles estavam escondidos em um canto escuro da Floresta Proibida, iluminados apenas pelo brilho bruxuleante de uma pequena chama azul produzida por Hermione. Harry tinha olheiras profundas, Rony roía as unhas com nervosismo e Hermione, sempre a voz da razão, segurava um pergaminho coberto de cálculos de poções e diagramas de anatomia mágica.

— Não podemos simplesmente usar um feitiço de desarmamento, Harry — a voz de Hermione na tela soou fria, desprovida de sua habitual vivacidade acadêmica. — Se ele sobreviver, ele nos entrega. E se ele nos entregar, a Ordem cai antes mesmo de começar a lutar.

No Salão Principal, a professora McGonagall levou a mão ao peito, sentindo um aperto no coração. Ver seus alunos favoritos discutindo algo tão sombrio era como ver a inocência ser estilhaçada em tempo real.

— Eu sei, Mione — respondeu o Harry da tela. Ele limpava os óculos na bainha da capa, os olhos verdes parecendo dois poços de determinação sombria. — Ele não é como o Malfoy ou os outros alunos. Ele é um monstro. O que ele fez com aqueles nascidos-trouxas no porão... as maldições que ele testou neles...

— Ele é um professor, Harry — ponderou Rony, embora sua voz não tivesse convicção. — Um professor de Hogwarts. Se fizermos isso, não haverá volta. Seremos assassinos.

— Já somos alvos — retrucou Harry. — A questão aqui não é se é certo ou errado no sentido abstrato. A questão é: quantas pessoas mais vão morrer se ele continuar respirando? Ele está passando informações diretamente para o Lorde das Trevas. Ele é o arquiteto da próxima purga.

No Salão real, os sussurros começaram a circular como fogo em palha seca. De qual professor eles estavam falando? Snape? Moody? Ou algum intruso que o futuro ainda traria?

— Olhem para a poção — disse Hermione na tela, apontando para o frasco que Rony segurava. — É o Veneno de Basilisco diluído em Essência de Beladona. Não há rastro mágico após doze horas. Ele vai parecer ter tido um colapso mágico súbito. Uma parada cardíaca bruxa. Sem dor, mas sem volta.

— Sem dor? — Harry riu, um som seco e sem alegria que arrepiou a espinha de todos que assistiam. — Depois do que ele fez, eu não me importaria se doesse. Mas você tem razão. Precisa ser limpo. Precisa ser definitivo.

A câmera mágica na tela pareceu focar no rosto de Harry. Ele não parecia um menino de dezesseis anos. Parecia um soldado exausto que aceitara que sua alma era um preço justo a pagar pela segurança dos outros.

— Então está decidido? — perguntou Rony, sua mão tremendo levemente ao guardar o frasco no bolso interno da veste.

— Sim — respondeu Hermione, fechando o pergaminho com um estalo seco. — À meia-noite, quando ele estiver fazendo a ronda no corredor do terceiro andar. Nós o cercamos. Harry usa o Capuz, Rony imobiliza, e eu administro.

A imagem na tela começou a oscilar, perdendo a cor, até que se apagou completamente, deixando o Salão Principal mergulhado em um silêncio sepulcral.

— Isso é... isso é um absurdo! — gritou Cornélio Fudge, levantando-se da mesa dos professores, o rosto vermelho de indignação. — Albus, o que significa isso? Seus alunos... seus "heróis", planejando o assassinato de um membro do corpo docente! Isso é prova de conspiração! É crime de morte!

Dumbledore não respondeu de imediato. Ele permanecia sentado, as mãos entrelaçadas sobre a mesa, o olhar fixo no ponto onde a imagem desaparecera. Seus olhos azuis, geralmente brilhantes, pareciam nublados por uma tristeza infinita.

— O que vimos, Ministro — disse Dumbledore calmamente, embora sua voz ecoasse por todo o salão —, não foi um crime cometido, mas um peso carregado. A tela nos mostra fragmentos de um futuro possível, ou talvez de uma realidade que desejamos evitar.

— Evitar? — sibilou Snape, sua voz saindo como um chicote. Ele estava sentado na ponta da mesa, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o braço da cadeira. — Eles estavam discutindo como eliminar um colega meu como se estivessem planejando um ensaio de Transfiguração.

— Severus — interveio McGonagall, sua voz tremendo de emoção —, você ouviu o que o Harry disse. O contexto era de guerra. O professor em questão... as atrocidades mencionadas...

— Não importa o contexto! — interrompeu Umbridge, soltando uma risadinha aguda e irritante que fez muitos alunos estremecerem. — Assassinato é assassinato. O Sr. Potter e seus amigos claramente mostram tendências perigosas e antissociais. Eles deveriam ser expulsos e encaminhados diretamente para Azkaban por intenção criminosa.

Na mesa da Grifinória, o Harry, o Rony e a Hermione "reais" estavam pálidos, sentados ombro a ombro. Eles se olhavam com uma mistura de horror e confusão. Eles ainda não haviam vivido aquele momento, mas a sensação de peso em seus peitos era real.

— Nós... nós faríamos isso mesmo? — sussurrou Rony, olhando para as próprias mãos, como se esperasse ver o veneno ali.

— Se fosse necessário para salvar vidas... — Hermione começou, mas sua voz falhou. Ela olhou para Harry. — Harry, o que você acha?

Harry não desviou o olhar da mesa dos professores. Ele sentia os olhos de toda a escola sobre ele. O julgamento, o medo, a desconfiança.

— Eu não sei — respondeu Harry em voz baixa, mas firme o suficiente para que os amigos ouvissem. — Mas eu sei que aquele Harry na tela não estava feliz. Ele parecia... quebrado. Se chegamos a esse ponto, é porque o mundo já tinha falhado conosco muito antes de pegarmos aquele frasco.

— A questão — disse uma voz vinda da mesa da Corvinal, era Luna Lovegood, que se levantara com sua calma habitual — não é se eles são assassinos. A questão é por que os adultos permitiram que três crianças chegassem à conclusão de que matar era a única solução restante.

Um silêncio desconfortável caiu sobre os professores. As palavras de Luna cortaram a retórica política de Fudge e a malícia de Umbridge como uma lâmina afiada.

— O que a tela nos mostrou — continuou Dumbledore, levantando-se e silenciando o burburinho que recomeçava — foi o custo humano da omissão. Aqueles jovens não estavam agindo por ódio, mas por um desespero que nenhum estudante deveria conhecer. Se estamos horrorizados com o que vimos, então nosso dever é garantir que aquele futuro jamais se materialize.

— Mas quem era o professor? — perguntou Simas Finnigan, a voz carregada de medo. — Quem eles iam matar?

— Isso não importa agora — disse Dumbledore, embora seu olhar tenha vagado brevemente para a cadeira vazia de um professor que havia sido afastado recentemente por suspeitas de atividades comensais. — O que importa é que a tela nos deu um aviso. A guerra não apenas tira vidas, ela corrompe as almas daqueles que sobrevivem a ela.

— Eu exijo uma investigação! — bradou Fudge, tentando recuperar a autoridade. — Potter deve ser interrogado sob Veritaserum!

— Você não vai tocar no meu aluno, Cornélio — a voz de McGonagall era como trovão. Ela se levantou, a varinha na mão, embora não estivesse apontando para ninguém. — O que vimos foi uma visão. Julgar crianças por pensamentos em um futuro incerto é a maior das covardias.

Harry sentiu uma mão em seu ombro. Era Hermione. Ela estava tremendo, mas seus olhos estavam fixos nos dele.

— Nós não vamos ser aquelas pessoas, Harry — disse ela, quase como uma promessa. — Nós vamos encontrar outro jeito. Sempre há outro jeito.

— E se não houver? — perguntou Rony, a voz rouca.

Harry olhou para a mesa dos professores, para a Umbridge que sorria triunfante, para Fudge que espumava de raiva, e para Dumbledore, que parecia subitamente muito velho.

— Se não houver — disse Harry, sentindo o peso de um destino que ele ainda não abraçara totalmente —, então faremos o que for preciso. Mas não faremos escondidos. E não faremos sozinhos.

A tela no teto brilhou uma última vez, mostrando uma imagem rápida de um túmulo sem nome em uma floresta distante, antes de se dissolver em fumaça prateada. O jantar foi cancelado, e os alunos foram instruídos a retornar aos seus salões comunais em silêncio.

Enquanto caminhavam pelos corredores de pedra, o Trio de Ouro não trocou uma única palavra. Eles podiam sentir os olhares dos outros alunos — alguns de admiração, a maioria de puro terror. Eles haviam deixado de ser apenas os estudantes que derrotaram um trasgo ou salvaram a Pedra Filosofal. Agora, para Hogwarts, eles eram os jovens que podiam decidir quem vivia e quem morria.

No Salão Comunal da Grifinória, Harry sentou-se diante da lareira, observando as chamas lamberem a madeira. Ele pensou no veneno, na frieza na voz de Hermione e no tremor nas mãos de Rony.

— Hermione — chamou ele, sem desviar os olhos do fogo.

— Sim, Harry?

— Aquela poção... você realmente saberia como fazê-la?

Hermione hesitou por um longo tempo. O crepitar da lenha era o único som no ambiente.

— Sim — respondeu ela, finalmente, a voz mal passando de um sussurro. — Eu sei exatamente como fazê-la. E isso é o que mais me assusta.

Rony sentou-se ao lado deles, jogando um pergaminho vazio na mesa.

— O que faremos se virmos aquele professor amanhã? — perguntou ele. — Como vamos olhar para ele sabendo o que... o que poderíamos fazer?

— Olharemos como sempre olhamos — disse Harry, sua expressão endurecendo. — Mas ficaremos atentos. A tela não nos mostrou um assassinato gratuito. Ela nos mostrou uma necessidade. Se o mundo se tornar tão escuro quanto aquela floresta, não seremos nós os culpados pela sombra.

— Mas seremos nós a carregar o peso — concluiu Hermione, encostando a cabeça no ombro de Harry.

Lá fora, o vento uivava contra as torres do castelo, e em algum lugar nas sombras de Hogwarts, um professor que se sentia seguro em seus segredos começou a sentir, pela primeira vez, um calafrio que não vinha do inverno. O Trio de Ouro não era mais apenas um grupo de amigos. Eles eram agora os guardiões de uma justiça sombria que ninguém, nem mesmo o diretor, ousava nomear.

A noite em Hogwarts seguiu longa, carregada de perguntas sem respostas. Mas, no fundo do coração de Harry Potter, uma semente fora plantada. A semente da compreensão de que, para salvar o mundo, às vezes era preciso estar disposto a perdê-lo — e a si mesmo — no processo.

— À meia-noite — sussurrou Harry para o fogo, repetindo as palavras da tela.

— À meia-noite — concordaram os outros dois, selando um pacto que o tempo ainda não havia escrito, mas que a alma deles já reconhecia como inevitável.
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