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Gelo ardente

Fandom: Patinação artística no gelo

Criado: 31/05/2026

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Gelo Fino e Promessas Quebradas

A primeira vez que Julia viu Ilia Malinin, eles tinham dez anos e estavam em uma competição de juniores em algum lugar gelado da Europa. Ele era um garoto magricela, com olhos que já brilhavam com uma arrogância que ele ainda não tinha medalhas para justificar. Ela era a menina brasileira que todos olhavam com curiosidade, afinal, o que uma garota dos trópicos estava fazendo no eixo gelado da patinação artística?

O que ninguém sabia na época — e que Ilia descobriu rápido demais — era que Julia Cenci não era apenas uma curiosidade. Ela era técnica, precisa e tinha a frieza russa correndo nas veias após anos treinando em Moscou.

— Você patina bem para quem deveria estar numa praia — disse ele na época, encostado na mureta do rinque, observando-a amarrar os patins.

Julia nem sequer levantou o olhar.

— E você fala demais para quem acabou de cair em um triplo Lutz no aquecimento.

Aquele foi o início de uma guerra silenciosa que durou anos. Enquanto Ilia subia nos rankings americanos com seus saltos impossíveis e sua confiança inabalável, Julia se tornava a "Dama de Gelo" do circuito, treinando sob o regime rigoroso da Rússia, desenvolvendo uma paciência que parecia inquebrantável.

Mas Ilia Malinin tinha um talento especial. Ele não era apenas o "Deus do Quadruplo Axel"; ele era o mestre em encontrar as rachaduras na armadura de Julia.

Tudo mudou aos quinze anos, nos bastidores de um Mundial Júnior. A pressão era sufocante. Julia tinha ficado em quarto lugar por uma diferença mínima de pontos, um erro bobo em um giro que a custou o pódio. Ilia, por outro lado, tinha vencido, mas a adrenalina da vitória e o peso das expectativas o deixaram elétrico, quase maníaco.

Naquela noite, a festa pós-competição em um hotel de luxo foi o cenário do desastre. O álcool, obtido de forma ilícita por alguns patinadores mais velhos, circulava livremente. Julia, que normalmente nunca perdia o controle, sentia o peito arder de frustração. Ilia, com seu sorriso torto e a medalha de ouro ainda pesando no pescoço, aproximou-se dela com dois copos de plástico.

— Bebe isso, Cenci. Você parece que vai desmaiar ou matar alguém. E, sinceramente, a segunda opção me assusta mais.

— Vá embora, Ilia — respondeu ela, mas aceitou o copo.

O que começou com um gole para esquecer a pontuação terminou com os dois trancados em um quarto de hotel vazio, longe da música alta e dos técnicos vigilantes. A tensão de anos de rivalidade explodiu de uma forma que nenhum dos dois sabia como manejar. Naquela noite, entre o cheiro de gelo seco e o hálito quente de álcool, Julia entregou sua primeira vez ao garoto que ela jurava odiar.

No dia seguinte, o silêncio no ônibus para o aeroporto foi ensurdecedor. Ilia não fez piadas. Julia não olhou para trás.

Mas os anos passaram, e a dinâmica mudou. Ilia não se tornou mais maduro; ele se tornou mais audacioso. O fato de ele ter sido o primeiro de Julia tornou-se uma arma silenciosa que ele usava para provocá-la sempre que as câmeras não estavam filmando.

Atualmente, nos bastidores do Grand Prix, o clima era o mesmo de sempre: frio, tenso e carregado de eletricidade. Julia estava terminando de ajustar as lâminas de seus patins quando sentiu aquela presença familiar. O perfume cítrico e caro dele sempre chegava antes de sua voz.

— Sabe, Julia, aquele vestido novo é um pouco curto, não acha? — Ilia surgiu do nada, encostando-se no armário ao lado dela. — Pode distrair os juízes. Ou talvez esse seja o plano, já que o seu triplo Axel anda meio instável.

Julia respirou fundo, contando mentalmente até dez em russo. Ela se levantou, ficando cara a cara com ele. Ilia era mais alto agora, o corpo mais definido, mas o sorriso convencido era exatamente o mesmo de quando eram crianças.

— Meu triplo Axel está excelente, Malinin. Preocupe-se com seus próprios saltos. Ouvi dizer que você quase beijou o gelo no treino de hoje cedo.

Ilia soltou uma risada anasalada, aproximando-se apenas um centímetro a mais do que o socialmente aceitável.

— Eu não caio, Cenci. Eu apenas testo a gravidade. — Ele baixou o tom de voz, inclinando-se para perto do ouvido dela. — E você sabe que eu sempre tive um equilíbrio impecável. Especialmente naquela noite em Tallinn... lembra?

Julia sentiu o rosto esquentar, mas sua expressão permaneceu gélida. Ela se recusava a dar a ele o gosto de vê-la irritada.

— Tallinn foi um erro de julgamento, Ilia. Assim como a sua escolha de penteado hoje.

— Um erro? — Ele arqueou uma sobrancelha, um brilho travesso nos olhos. — Você não parecia achar que era um erro quando estava me pedindo para não parar.

— Shh! — Julia sibilou, olhando rapidamente ao redor para garantir que nenhum outro patinador ou treinador estivesse por perto. — Você é um idiota.

— E você é uma mentirosa — ele retrucou, rápido como um raio, o sorriso se alargando. — Mas tudo bem. Eu gosto de como você fica quando tenta fingir que não sente nada. É um desafio. E você sabe que eu amo desafios.

Ele se afastou, caminhando em direção à entrada do rinque com aquela confiança irritante que fazia as fãs gritarem nas arquibancadas. Antes de sair, ele parou e olhou por cima do ombro.

— Boa sorte lá fora, "Dama de Gelo". Tente não derreter antes de terminar o programa.

Julia apertou os punhos, sentindo as unhas cravarem na palma das mãos. Ela o odiava. Odiava como ele sabia exatamente quais botões apertar. Odiava como ele a lembrava constantemente de uma vulnerabilidade que ela tentava esconder do resto do mundo.

Ela caminhou até a borda do rinque, observando Ilia deslizar pelo gelo com uma facilidade invejável. Ele era o queridinho da América, o prodígio que desafiava as leis da física. Para o mundo, ele era Ilia Malinin, o rei dos saltos. Para ela, ele era apenas o garoto safado que roubou sua inocência e agora se divertia brincando com as cinzas.

— Julia, você entra em dois minutos — disse seu treinador, Sergei, com sua voz de trovão. — Concentre-se. Esqueça o americano.

— Eu estou concentrada, Sergei — mentiu ela, deslizando para o gelo.

O frio do rinque costumava acalmá-la, mas hoje, a presença de Ilia na lateral da pista, observando-a com aquele olhar predatório e divertido, tornava tudo mais difícil. Ela começou sua coreografia, a música clássica russa preenchendo o ginásio. Cada movimento era preciso, cada salto era limpo.

No entanto, quando ela se preparava para o seu salto mais difícil, seus olhos encontraram os dele por uma fração de segundo. Ilia piscou para ela.

Foi o suficiente.

Julia aterrissou o salto, mas seu equilíbrio vacilou por um milésimo de segundo, obrigando-a a usar a mão no gelo para não cair. O público soltou um suspiro de decepção.

Ao terminar sua apresentação, Julia saiu do gelo furiosa. Ela ignorou as câmeras, ignorou os aplausos educados e foi direto para a área dos vestiários. Ela não precisou esperar muito.

— Aquela mão no gelo custou caro, hein? — A voz de Ilia ecoou no corredor vazio.

Julia se virou, os olhos faiscando.

— Você fez de propósito! Você me desconcentrou!

Ilia levantou as mãos em um gesto de falsa inocência, caminhando lentamente em direção a ela até que Julia estivesse prensada contra a parede fria do corredor.

— Eu? Eu só estava assistindo à minha patinadora favorita. Não tenho culpa se você não consegue tirar os olhos de mim nem quando está competindo.

— Você é um convencido, arrogante e... — As palavras morreram na garganta de Julia quando Ilia colocou as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, cercando-a.

— E...? — provocou ele, o rosto a centímetros do dela. — O que mais eu sou, Julia? Diga.

— Você é um problema — sussurrou ela, a respiração curta.

— Engraçado — disse ele, a voz rouca e perigosamente baixa —, porque você sempre foi a minha solução favorita.

Antes que ela pudesse responder, ou empurrá-lo, Ilia selou o espaço entre eles. O beijo não foi doce; foi uma batalha. Tinha o gosto de rivalidade, de anos de provocações e daquela noite em Tallinn que nenhum dos dois conseguia esquecer. Julia tentou resistir por um segundo, mas suas mãos traidoras subiram para o pescoço dele, puxando-o para mais perto.

Ilia sorriu contra os lábios dela, sabendo que tinha vencido mais uma vez. Ele se afastou apenas o suficiente para sussurrar contra a pele dela.

— Viu só? Você não se irrita fácil, Julia... mas eu sei exatamente como mexer com você.

Ele deu um tapinha leve na bochecha dela, piscou novamente e saiu assobiando, deixando Julia para trás, ofegante e com o coração batendo mais rápido do que qualquer sequência de passos no gelo jamais conseguiria fazer.

Ela o odiava. Realmente odiava. Mas, enquanto limpava o batom borrado, Julia sabia que a guerra entre o Brasil e os EUA estava longe de terminar. E, no fundo, ela não queria que terminasse nunca.
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