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Fandom: Nenhum

Criado: 31/05/2026

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Entre o Silêncio e o Salto Alto

O som das máquinas de tatuagem era algo que Emanuel costumava considerar terapêutico, mas hoje o zumbido parecia perfurar seu crânio. Sentado em sua cadeira de couro no escritório principal do estúdio de São Paulo — o coração de seu império — ele massageava as têmporas enquanto olhava para os gráficos de desempenho na tela do computador. O sucesso era inegável; seus estúdios ao redor do mundo rendiam mais do que ele jamais imaginou aos vinte e cinco anos. No entanto, o controle que ele exercia sobre seus negócios parecia esvair-se quando o assunto era sua vida pessoal.

A porta se abriu sem que ninguém batesse. O cheiro de um perfume importado, doce e marcante, invadiu a sala antes mesmo que Sara aparecesse. Ela usava um vestido vermelho justo que deixava pouco para a imaginação e saltos agulha que estalavam no chão de porcelanato.

— Os relatórios de Londres estão prontos, querido. — Sara jogou uma pasta de couro sobre a mesa dele e sentou-se na borda da escrivaninha, cruzando as pernas torneadas. — A equipe de administração estava fazendo corpo mole, mas eu dei um "incentivo" extra. Eles não vão atrasar de novo.

Emanuel levantou os olhos, observando a expressão vitoriosa da loira. Sara era eficiente, implacável e sabia exatamente como gerir as pessoas sob seu comando. Ele a amava por essa força, por essa energia vibrante que o desafiava constantemente.

— Obrigado, Sara. Eu sei que posso confiar em você para colocar ordem na casa — disse ele, a voz rouca pelo cansaço.

— Claro que pode. — Ela se inclinou, passando a mão pelos cabelos dele, uma carícia que carregava um toque de posse. — Mas você está tenso. É a Eduarda de novo, não é? Ela ainda não deu uma resposta sobre a mudança?

Emanuel suspirou, recostando-se na cadeira.

— Ela diz que não está pronta. Que prefere o tempo dela.

Sara soltou uma risada curta, carregada de um sarcasmo que ela nem tentava esconder.

— Ela tem vinte anos, Emanuel. Não é uma criança, embora se comporte como uma. Viver com os pais enquanto namora um homem como você? É ridículo. Eu já estou na nossa casa, organizando tudo, cuidando de você... ela seria apenas um acréscimo. Uma bonequinha de porcelana estante.

— Não fale assim dela — Emanuel retrucou, o tom de voz subindo uma oitava. — A Eduarda é sensível. Ela estuda História da Arte, ela vê o mundo de uma forma diferente da sua. Ela não é agressiva, Sara.

— Eu sei que ela não é, por isso eu gosto dela, de certa forma — Sara deu de ombros, examinando as unhas impecavelmente feitas. — Ela é inofensiva. Mas essa sua paciência com a "timidez" dela está começando a afetar a nossa dinâmica. Eu quero a casa completa. Eu quero o controle da situação, e não dá para ter controle com ela fugindo para a saia da mãe toda vez que o clima esquenta.

Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara tinha razão em parte — ele queria as duas sob o mesmo teto, queria acordar e ter a segurança de que ambas eram dele, inteiramente. Mas Eduarda era um pássaro que se assustava com movimentos bruscos.

O celular de Emanuel vibrou sobre a mesa. Uma mensagem de Eduarda: "Oi, Manu... terminei a aula mais cedo. Podemos nos ver? Estou com saudade do seu abraço."

Ele sentiu uma onda de ternura imediata. Eduarda era o seu porto seguro, o silêncio após a tempestade que Sara representava.

— Vou buscá-la na faculdade — anunciou Emanuel, levantando-se e pegando as chaves do carro.

Sara revirou os olhos, mas não protestou. Ela sabia que, no final do dia, era ela quem dormia na cama dele, quem assinava os documentos da empresa e quem dividia o império.

— Traga a pequena para jantar em casa hoje — disse Sara, com um sorriso provocador. — Vou pedir algo sofisticado. Quem sabe, se ela se sentir bem acolhida, finalmente decida fazer as malas.

***

O campus da faculdade de História da Arte era arborizado e calmo, combinando perfeitamente com a aura de Eduarda. Emanuel a viu de longe, sentada em um banco de madeira com um caderno de esboços no colo. Ela usava uma saia de linho clara e uma blusa de tricô fino. O cabelo castanho caía sobre os ombros de forma desordenada e charmosa.

Quando ela o viu, seus olhos brilharam. Eduarda fechou o caderno e correu em direção a ele, jogando-se em seus braços com uma entrega que sempre desarmava a racionalidade dele.

— Você veio — sussurrou ela contra o peito dele, aspirando o perfume de Emanuel.

— Eu sempre venho quando você precisa, Duda. — Ele beijou o topo da cabeça dela, sentindo a maciez de sua pele. — Como foi a aula?

— Cansativa... o professor falou sobre o Renascimento, mas eu só conseguia pensar em quando ia te ver. — Ela se afastou um pouco, olhando para ele com aquela expressão doce e manhosa que o fazia querer protegê-la de tudo. — Você parece estressado, Manu. A Sara está pegando pesado no estúdio?

Emanuel conduziu-a até o carro, abrindo a porta para ela com um cuidado quase automático.

— A Sara é a Sara. Ela é intensa. Mas o problema não é ela, é a situação. Duda, eu quero você comigo. De verdade.

Eduarda murchou visivelmente, as mãos pequenas apertando a alça da bolsa.

— Manu, a gente já conversou... meus pais são tão legais, eles me dão liberdade, mas eu... eu sinto que morar com você e com a Sara é um passo muito grande. Ela é tão forte, tão... marcante. Eu tenho medo de sumir naquela casa.

— Você nunca sumiria. Eu não deixaria — ele afirmou, ligando o motor. — Vamos jantar lá hoje. Só um jantar. Sem pressão.

Eduarda hesitou, mordendo o lábio inferior. Ela não gostava de confrontos e sabia que negar o convite deixaria Emanuel ainda mais rígido.

— Tudo bem. Mas você promete que não vai me deixar sozinha na conversa com ela? Às vezes eu não sei o que responder quando ela começa a falar de negócios ou de coisas... ousadas.

— Eu prometo.

***

O apartamento de Emanuel era uma cobertura luxuosa, decorada com tons de cinza, preto e muita iluminação indireta. Quando entraram, Sara já estava na sala, segurando uma taça de vinho tinto. Ela usava agora um robe de seda curto, cruzando as pernas no sofá de design italiano.

— Olá, querida! — Sara exclamou, levantando-se para dar um beijo no ar perto do rosto de Eduarda. — Que bom que o Emanuel conseguiu te arrastar para fora daquela biblioteca.

— Oi, Sara — Eduarda respondeu em voz baixa, buscando o braço de Emanuel de forma instintiva.

— Estávamos falando sobre a nova unidade em Tóquio — Sara continuou, ignorando a timidez da outra. — Emanuel, eu já organizei a logística. Mas estava pensando... a Eduarda podia ajudar com a curadoria de arte das paredes, não é? Já que ela vive desenhando.

Eduarda corou instantaneamente.

— Eu... eu ainda estou no meio do curso, Sara. Não sei se tenho experiência para algo tão grande.

— Ah, bobagem. É só escolher umas telas que não sejam deprimentes. — Sara deu um gole no vinho e olhou para Emanuel. — Viu só? Se ela morasse aqui, já teria ajudado a decidir isso hoje de manhã enquanto tomávamos café.

Emanuel sentiu a tensão subir. Ele se aproximou de Eduarda, colocando a mão em sua cintura, mas seus olhos estavam fixos em Sara.

— Sara, deixe-a respirar. Ela acabou de chegar.

— Eu só estou tentando incluí-la, Emanuel! — Sara rebateu, o tom de voz ficando mais afiado. — Você reclama que ela está longe, eu tento trazê-la para o nosso mundo e você me corta? Francamente.

— Não é o jeito certo — Emanuel disse, a voz ficando fria e controladora. — Você pressiona demais. Nem todo mundo funciona na base da força bruta como você.

Sara soltou uma risada sarcástica, colocando a taça sobre a mesa com um estalo seco.

— Força bruta? É isso que você chama de competência agora? Se não fosse pela minha "força bruta", seus estúdios estariam uma bagunça administrativa. Eu cuido do que é nosso enquanto ela fica escolhendo a cor do lápis de cor!

Eduarda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela odiava quando eles discutiam por causa dela. Sentindo-se pequena e inadequada, ela se soltou de Emanuel e caminhou até a varanda, buscando o ar fresco da noite paulistana.

Emanuel fez menção de segui-la, mas Sara segurou seu braço.

— Deixe ela, Emanuel. Ela precisa crescer. Você a mima demais e isso a deixa cada vez mais dependente dessa imagem de menina frágil.

— Ela não é um projeto de administração, Sara! — Emanuel explodiu, soltando-se do aperto dela. — Ela é alguém que eu amo. Exatamente por ser o oposto de toda essa agressividade que eu enfrento o dia inteiro. Se você não consegue respeitar o tempo dela, então talvez o problema não seja ela não querer morar aqui, mas sim você não deixar espaço para que ela se sinta em casa!

Sara recuou um passo, surpresa com a intensidade dele. Seus olhos brilharam com uma mistura de raiva e uma vulnerabilidade raramente vista.

— Eu faço tudo por você. Por nós. E você me trata como se eu fosse a vilã porque quero nossa família reunida?

Emanuel fechou os olhos, respirando fundo. Ele odiava perder o controle. Ele era o mediador, o pilar. Mas ser puxado por dois extremos — o fogo de Sara e a água de Eduarda — estava drenando suas energias.

Sem dizer mais nada, ele caminhou até a varanda.

Eduarda estava abraçada aos próprios braços, olhando as luzes da cidade. Quando sentiu a presença de Emanuel, ela não se virou.

— Eu sou um problema, não sou? — perguntou ela, a voz trêmula.

— Nunca — Emanuel disse, envolvendo-a por trás, escondendo o rosto no pescoço dela. — Você é a minha paz, Eduarda.

— Mas a Sara tem razão em algumas coisas... eu sou lenta. Eu tenho medo. Meus pais me protegem muito, e você também. — Ela se virou nos braços dele, os olhos úmidos brilhando sob a luz da lua. — Eu quero morar com você, Manu. Eu juro que quero. Só me dá medo o jeito que ela me olha... como se eu fosse um objeto que não funciona direito.

— Eu vou conversar com ela. Vou colocar limites — Emanuel prometeu, embora soubesse que colocar limites em Sara era como tentar cercar um incêndio com as mãos. — Mas você precisa tentar também. Só um pouco.

Eduarda encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração acelerado de Emanuel.

— Meus pais convidaram a gente para um almoço no domingo — disse ela, mudando de assunto para aliviar o clima. — Eles querem ver você. E disseram que a Sara pode ir também, se ela quiser. Eles são modernos, você sabe... dizem que o importante é o amor.

Emanuel deu um sorriso amargo. Os pais de Eduarda eram pessoas leves, artistas que viviam em um mundo de cores e aceitação. Era o oposto do pragmatismo de Sara e da rigidez de seu próprio mundo de negócios e tatuagens.

— Vamos sim. Talvez ver como sua família lida com as coisas ajude a Sara a entender que nem tudo é uma disputa de poder.

Eles voltaram para a sala. Sara estava sentada no sofá, mexendo no tablet, fingindo que nada tinha acontecido. Era a forma dela de lidar com o conflito: ignorar até que a necessidade de ser prática superasse o orgulho.

— O jantar chegou — disse ela, sem levantar os olhos. — Comida tailandesa. Pedi sem muita pimenta para a Eduarda, sei que ela tem o estômago sensível.

Foi um pequeno gesto, uma trégua silenciosa. Eduarda sorriu timidamente para ela.

— Obrigada, Sara. É muito gentil da sua parte.

Sara deu de ombros, mas um pequeno sorriso de satisfação surgiu no canto de seus lábios. Ela gostava de estar no comando, mesmo que fosse decidindo o que os outros iam comer.

O jantar transcorreu em uma calma tensa, mas funcional. Emanuel observava as duas mulheres à sua frente. Sara, vibrante, falando sobre as metas do próximo trimestre; Eduarda, ouvindo com atenção, fazendo perguntas tímidas sobre os desenhos das tatuagens que Emanuel criava.

Ele sabia que a estrada seria longa. Sara nunca deixaria de ser provocadora e Eduarda nunca deixaria de ser sensível. E ele, no centro de tudo, continuaria tentando equilibrar o caos e a calmaria, o salto alto e os pés descalços, enquanto esperava o dia em que o silêncio de sua casa não seria mais dividido entre dois endereços, mas sim preenchido pelas vozes das duas mulheres que, de formas tão opostas, possuíam seu coração.

— Um passo de cada vez — murmurou Emanuel para si mesmo, enquanto servia mais vinho para Sara e suco para Eduarda.

— O que disse, querido? — Sara perguntou.

— Que estou feliz por estarmos aqui. Os três.

Eduarda segurou a mão dele por baixo da mesa, e Sara piscou para ele com um olhar cúmplice. Naquele momento, no meio da tensão e do amor complexo, Emanuel sentiu que, talvez, o controle não fosse o mais importante, mas sim a disposição de todos em continuar tentando.
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