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O Idiota que Eu Não Reconheci

Fandom: Original (Sem fandom específico)

Criado: 01/06/2026

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RomanceFatias de VidaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaEstudo de PersonagemHumor
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Pixels, Pizza e o Fantasma do Passado

O corredor do prédio de apartamentos cheirava a uma mistura de desinfetante barato e comida tailandesa. Kaito ajustou o nó da gravata, sentindo o peso de um dia interminável no escritório de advocacia. Ele só queria sua cama, um livro de estratégias de xadrez e o silêncio que sua vida organizada lhe proporcionava. No entanto, o destino — ou a falta de coordenação motora de seu novo vizinho — tinha outros planos.

Um estrondo metálico ecoou pelo corredor, seguido por uma sucessão de palavrões abafados. Kaito parou diante da porta 402, onde uma figura estava ajoelhada no chão, cercada por caixas de papelão amassadas e o que parecia ser uma coleção infinita de cabos de computador emaranhados.

A pessoa tinha cabelos pretos, um pouco abaixo dos ombros, que caíam sobre o rosto de forma bagunçada. Usava um moletom três vezes maior que seu tamanho, manchado de farelos de salgadinho, e óculos de aro grosso que escorregavam pelo nariz.

— Precisa de ajuda? — Kaito perguntou, sua voz calma e polida soando estranhamente fora de lugar naquele caos.

O rapaz no chão deu um pulo, batendo a cabeça na quina da porta.

— Ai! Maldição! — Ele se virou, massageando o topo da cabeça. — Não, eu estou perfeitamente sob controle. É uma técnica de decoração nova. Minimalismo pós-apocalíptico. Já ouviu falar?

Kaito piscou, observando o rosto do estranho. Havia algo de estranhamente familiar naquelas feições delicadas, quase andróginas, apesar da pele pálida de quem não via o sol há meses e das bochechas levemente arredondadas.

— Akira? — O nome saiu da boca de Kaito antes que ele pudesse processar a informação.

O rapaz congelou. Ele estreitou os olhos por trás das lentes sujas, encarando o homem alto, elegante e de postura impecável à sua frente.

— Kaito? O "Kaitinho" que chorava quando perdia no bafo? — Akira soltou uma risada nervosa, tentando se levantar e tropeçando em um teclado mecânico. — Caramba, você virou... um adulto de verdade. Que nojo.

Kaito estendeu a mão para ajudá-lo. Akira hesitou por um segundo, olhando para as próprias mãos pálidas e um pouco gordinhas antes de aceitar o apoio. Ao ser puxado para cima, a diferença de altura e porte físico ficou evidente. Kaito era sólido, seguro; Akira parecia uma bagunça de inseguranças escondida sob camadas de algodão e sarcasmo.

— Faz o quê? Dez anos? — Kaito perguntou, soltando a mão dele, mas mantendo o olhar atento.

— Onze. Mas quem está contando? — Akira deu de ombros, tentando recuperar sua farsa de autoconfiança. — Eu estive ocupado. Sabe como é. Vida de freelancer. Alta tecnologia. Investimentos.

— Você está morando aqui?

— É. O meu "escritório principal" teve um problema com... infiltrações. E prazos. E o fato de eu não sair do quarto há três semanas — Akira murmurou a última parte, mas Kaito ouviu.

— Entendo. Bem, se precisar de algo, eu moro na porta ao lado.

Akira observou Kaito se afastar. O jeito que ele caminhava era o mesmo, mas tudo o resto era diferente. O amigo de infância que costumava segui-lo em aventuras perigosas pelos terrenos baldios agora parecia alguém que sabia exatamente para onde estava indo na vida. Akira, por outro lado, sentia que estava apenas flutuando em um tanque de refrigerante diet.

Duas semanas se passaram. A amizade, que antes era baseada em trocar cartas de monstros e dividir lanches, foi sendo reconstruída através de breves encontros no corredor e, eventualmente, convites forçados para café.

Certa noite, Kaito bateu na porta de Akira. Ele trazia uma sacola com algumas cervejas e uma expressão de quem precisava de um descanso da própria mente organizada.

— Entra, mas não repara na... existência das coisas — Akira disse, chutando uma embalagem de pizza vazia para debaixo do sofá.

O apartamento era um santuário geek mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelo brilho azulado de três monitores gigantes. O ar tinha cheiro de eletrônicos quentes e energético de uva.

— Você ainda joga aquilo? — Kaito apontou para um ícone na tela.

— É o que paga as contas, Kaito. Ou melhor, é o que mantém minha sanidade enquanto as contas não são pagas — Akira sentou-se na sua cadeira gamer, que rangeu sob seu peso. — Senta aí. No que sobrou do sofá.

Kaito sentou-se, observando Akira de perfil. A luz do monitor suavizava suas feições, destacando os cílios longos e a curva suave do queixo. Era bizarro como Akira conseguia ser, ao mesmo tempo, um desleixado completo e possuir uma beleza que beirava o feminino, embora sua personalidade fosse tão sutil quanto um elefante em uma loja de cristais.

— Por que está me olhando assim? — Akira perguntou, sem desviar os olhos do jogo, mas suas orelhas ficaram vermelhas. — Tem um resto de Cheetos na minha cara?

— Não — Kaito sorriu de canto, abrindo uma cerveja. — Só estou pensando que, apesar de tudo, você não mudou nada.

— Como assim? Eu sou um desastre, Kaito. Eu passo doze horas por dia discutindo com estranhos na internet sobre por que o roteiro daquele filme de herói foi um lixo. Você é um advogado de sucesso que usa meias que combinam.

— Você ainda faz piadas quando está desconfortável — Kaito pontuou calmamente. — E ainda evita contato visual quando mente.

Akira finalmente virou a cadeira, encarando o amigo.

— Eu não estou mentindo.

— Está sim. Você disse que estava tudo bem ontem, mas ouvi você gritando com o roteador às três da manhã.

— Aquele roteador é um traidor! Ele quer destruir minha carreira de streamer iniciante!

Kaito riu baixo, um som que fez o estômago de Akira dar uma pirueta estranha.

— Você é impossível, Akira.

— E você é perfeito demais. É irritante. Dá vontade de jogar um balde de tinta nessa sua camisa passada a ferro.

Nos dias seguintes, a presença de Kaito tornou-se uma constante. Ele trazia comida de verdade — legumes, proteínas, coisas que Akira não via há eras — e, em troca, Akira o forçava a assistir animes obscuros de mecha.

A tensão, porém, começou a se infiltrar nas frestas daquela rotina. Akira, que sempre se orgulhou de ser imune a sentimentos profundos por qualquer coisa que não tivesse pixels, começou a notar detalhes perigosos. O jeito que Kaito franzia a testa quando estava focado. O cheiro de sândalo que emanava dele. A maneira como Kaito nunca o julgava, mesmo quando Akira confessava ter passado o dia inteiro de pijama.

— Ei, Kaito — Akira disse certa noite, enquanto dividiam um pote de sorvete. — Por que você ainda vem aqui?

Kaito parou a colher no meio do caminho.

— O que quer dizer?

— Sabe... você é um cara legal. Tem a vida nos eixos. Podia estar saindo com pessoas... normais. Mulheres bonitas, outros advogados, pessoas que não têm uma coleção de bonecos de resina que custam um aluguel.

Kaito deixou a colher de lado e olhou diretamente para Akira. O silêncio no quarto tornou-se pesado, preenchido apenas pelo zumbido dos ventiladores do computador.

— Eu gosto da sua companhia, Akira. Você é a única pessoa com quem eu não preciso fingir que tenho todas as respostas.

— Mas eu sou um perdedor — Akira murmurou, a voz perdendo o tom brincalhão. Ele olhou para baixo, para o próprio corpo, sentindo o peso da sua baixa autoestima. — Eu sou gordo, esquisito e moro numa caverna tecnológica.

Kaito se inclinou para frente, diminuindo a distância entre eles.

— Você se vê de um jeito, Akira, mas eu vejo outro. Eu vejo o meu melhor amigo que é brilhante, que tem o senso de humor mais rápido que eu já conheci e que... — Kaito hesitou, a primeira rachadura em sua fachada de controle aparecendo. — E que é importante para mim.

Akira sentiu o rosto queimar. Ele queria fazer uma piada, dizer algo absurdo para quebrar o clima, mas as palavras ficaram presas na garganta.

— Você está sendo sentimental — Akira conseguiu dizer, a voz falhando. — É o açúcar do sorvete. Está afetando seu cérebro lógico.

— Talvez — Kaito admitiu, um sorriso suave brincando em seus lábios. — Ou talvez eu só esteja cansado de guardar as coisas para mim.

Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que fez o coração de Akira disparar, afastou uma mecha de cabelo do rosto do amigo. O toque foi breve, mas carregado de uma eletricidade que Akira não sabia como processar.

— Kaito... — Akira sussurrou, os olhos arregalados por trás dos óculos.

— Não precisa dizer nada agora — Kaito levantou-se, recuperando sua compostura habitual, embora seus olhos ainda brilhassem com uma intensidade incomum. — Só... pense nisso. E termine esse sorvete antes que derreta.

Kaito saiu do apartamento, deixando Akira sozinho no escuro, cercado por seus monitores e pelo silêncio ensurdecedor de seus próprios sentimentos.

Akira afundou na cadeira, o coração batendo como se ele tivesse acabado de correr uma maratona. Ele olhou para sua imagem refletida na tela escura de um dos monitores. Ele via o "loser" de sempre, mas, pela primeira vez, começou a se perguntar o que Kaito via de verdade.

— Droga — Akira resmungou para o quarto vazio, um sorriso involuntário surgindo em seu rosto. — Eu vou acabar tendo que comprar roupas novas, não vou?

A jornada de volta à superfície da vida real parecia assustadora, mas, pela primeira vez em anos, Akira sentiu que talvez não tivesse que caminhar sozinho. Mesmo que ele tropeçasse em cada cabo pelo caminho.
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