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Fandom: Nenhum

Criado: 01/06/2026

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RomanceDramaDor/ConfortoPsicológicoCiúmesEstudo de PersonagemRealismo
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Entre a Tinta e o Desejo

O estúdio principal de Emanuel, localizado no vigésimo andar de um prédio comercial de luxo, era um santuário de minimalismo e assepsia. Paredes cinza-chumbo, iluminação cirúrgica e o som baixo de um jazz ambiente criavam a atmosfera de exclusividade que o tornara um dos tatuadores mais requisitados do mundo aos vinte e cinco anos. Emanuel observava o movimento da rua pela janela de vidro do chão ao teto, sentindo o peso habitual nos ombros.

— Emanuel, os relatórios de Tóquio chegaram. A logística das tintas está um caos, mas eu já resolvi metade do problema com o fornecedor. — A voz de Sara preencheu a sala antes mesmo que ela entrasse totalmente.

Sara era uma força da natureza. Loira, com curvas acentuadas por um vestido justo de couro sintético e o brilho inconfundível do silicone que ela exibia com orgulho, ela se aproximou dele com um sorriso predatório. Ela não era apenas sua namorada há quatro meses; era seu braço direito. Sua competência na administração era inegável, mesmo que sua personalidade fosse muitas vezes vulgar e agressiva para os padrões da elite artística.

— Você é impecável, Sara — disse Emanuel, virando-se para ela. Ele a puxou pela cintura, sentindo o perfume forte e doce que ela sempre usava. — O que eu faria sem você para colocar ordem nesse império?

— Você provavelmente estaria desenhando em guardanapos e perdendo dinheiro — ela retrucou, selando os lábios nos dele com uma possessividade que sempre o instigava. — Mas agora, foco. Você tem uma cliente nova. Uma indicação daquela sua amiga da galeria. Parece que é uma "emergência" de última hora.

Emanuel suspirou, ajustando as luvas pretas de nitrilo. Ele prezava pelo profissionalismo, mas o estresse das últimas semanas o deixava no limite de sua paciência racional.

— Mande-a entrar.

Ele não esperava que a porta se abrisse para revelar alguém tão diferente de Sara. Eduarda entrou no estúdio como se estivesse pedindo desculpas por existir. Vestia um vestido de linho claro, solto, que batia nos joelhos, e seus cabelos castanhos caíam em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia pequena, frágil, e seus olhos expressivos percorriam a sala com uma mistura de pavor e fascínio.

— Olá... — a voz dela era um sussurro, quase um melisma. — Eu sou a Eduarda. Eu tenho um horário... eu acho.

Sara, encostada na mesa de recepção interna, arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, medindo a garota de cima a baixo com um olhar de desdém.

— É essa a urgência? — Sara soltou uma risada curta e irônica. — Ela parece que vai desmaiar se vir uma agulha.

Eduarda encolheu os ombros, as bochechas tingindo-se de um rosa delicado. Ela apertava uma pequena bolsa contra o corpo, buscando algum tipo de proteção emocional.

— Eu perdi uma aposta — Eduarda confessou, olhando diretamente para Emanuel, ignorando a provocação de Sara. — Minhas amigas... nós prometemos que faríamos o que tínhamos mais vontade, mas não tínhamos coragem. E eu perdi.

Emanuel sentiu uma pontada de curiosidade. Havia algo na vulnerabilidade daquela mulher que o desarmava. Ele estava acostumado com modelos, celebridades e mulheres como Sara, que ocupavam todo o espaço. Eduarda, por outro lado, parecia querer sumir, e isso o atraía de uma forma que sua lógica não conseguia explicar.

— E o que seria essa vontade, Eduarda? — perguntou Emanuel, sua voz suavizando involuntariamente.

— Uma flor — ela disse, baixando ainda mais o tom de voz. — Uma orquídea. Começando no... no monte de vênus e terminando nos grandes lábios.

O silêncio que se seguiu foi interrompido por um assobio baixo de Sara.

— Corajosa para uma ratinha de biblioteca — provocou a loira, cruzando os braços. — Você sabe que dói, não sabe? Especialmente ali.

— Sara, por favor. Vá verificar os e-mails de Londres — Emanuel ordenou, sem desviar os olhos de Eduarda.

Sara revirou os olhos, mas saiu, batendo os saltos altos com força contra o piso de porcelanato. Emanuel indicou a maca para Eduarda.

— Pode se preparar. Tem um roupão ali atrás da divisória. Preciso que você se sinta confortável, ou não conseguirei fazer um bom trabalho.

Minutos depois, Eduarda estava deitada, coberta apenas por um campo cirúrgico que deixava exposta a área a ser tatuada. A pele dela era pálida e macia, quase como porcelana. Emanuel sentiu suas mãos, sempre tão firmes, hesitarem por um microssegundo.

— Vou começar o decalque — ele explicou, mantendo a voz profissional, embora seu coração estivesse batendo em um ritmo atípico.

— Por favor, seja gentil — ela pediu, a voz manhosa e trêmula. — Eu nunca fiz nada assim. Eu sou muito sensível.

Quando a agulha tocou a pele delicada, Eduarda soltou um ganido baixo, um choramingo que não era de dor insuportável, mas de uma manha quase infantil, buscando conforto. Suas mãos agarraram as bordas da maca, e ela se abriu mais para ele, não por exibicionismo, mas por uma necessidade instintiva de se entregar ao processo, de confiar no homem que segurava a máquina.

— Shhh, está tudo bem — Emanuel murmurou, inclinando-se mais perto. — Respire comigo.

— Dói... Emanuel, dói um pouquinho — ela fungou, e ele viu uma lágrima solitária escorrer pelo canto do olho dela.

— Eu sei. Você está indo muito bem, Eduarda. Só mais um pouco.

Ele estava fascinado. A forma como ela reagia ao toque, a doçura de sua voz e a fragilidade de seu corpo criavam um contraste violento com a agressividade de seu dia a dia. Ele sentiu uma vontade avassaladora de protegê-la, de tirá-la daquele estúdio e levá-la para algum lugar onde ninguém pudesse provocá-la como Sara fizera.

Ao mesmo tempo, a imagem de Sara não saía de sua mente. Ele amava a força de Sara, a maneira como ela dominava os negócios e como o sexo com ela era uma batalha de vontades. Mas Eduarda... Eduarda era o bálsamo que ele não sabia que precisava.

A sessão durou horas. A cada traço da orquídea que florescia na intimidade de Eduarda, Emanuel se sentia mais vinculado a ela. Quando terminou, ele limpou a área com uma delicadeza que raramente usava com outros clientes.

— Pronto — ele disse, a voz rouca. — Você foi incrível.

Eduarda sentou-se devagar, ainda manhosa, os olhos úmidos brilhando para ele.

— Obrigada. Você foi tão paciente... eu achei que você ia brigar comigo por eu ser tão chorona.

— Eu nunca brigaria com você por isso — Emanuel respondeu, segurando a mão dela por um momento a mais do que o necessário.

Nesse momento, Sara entrou novamente, carregando um tablet. Ela parou, observando a cena: a mão de Emanuel na de Eduarda, o olhar intenso dele, a atmosfera carregada de algo que não era apenas profissionalismo.

— Terminamos o show de horrores? — Sara perguntou, a voz carregada de sarcasmo. — Emanuel, temos um jantar com os investidores em trinta minutos.

Emanuel olhou para Sara, a mulher que construíra o império ao seu lado, e depois para Eduarda, a mulher que acabara de despertar nele um instinto de cuidado que ele julgava morto. Sua mente racional tentou encontrar uma solução, uma saída lógica, mas seu coração, pela primeira vez, não queria escolher.

— Eduarda — ele disse, ignorando o comentário de Sara. — Me dê seu número. Quero acompanhar a cicatrização pessoalmente. Não confio em deixar você cuidar disso sozinha.

Eduarda sorriu, um sorriso doce e tímido que iluminou o rosto delicado.

— Eu gostaria disso.

Sara estreitou os olhos, sentindo a ameaça. Ela conhecia Emanuel melhor do que ninguém e sabia que aquele olhar dele não era de um tatuador para uma cliente. Era o olhar de um homem que acabara de encontrar algo precioso.

— O que está acontecendo aqui, Emanuel? — Sara deu um passo à frente, a postura desafiadora.

Emanuel levantou-se, recuperando sua postura de controle, embora a tensão estivesse evidente em sua mandíbula cerrada.

— Acontece que eu quero a Eduarda por perto, Sara. Assim como quero você.

— Você está brincando? — Sara soltou uma risada estridente, mas seus olhos mostravam uma faísca de insegurança. — Você quer essa coisinha insossa?

Eduarda encolheu-se, o silêncio sendo sua única resposta à agressão verbal de Sara. Ela olhou para Emanuel, buscando proteção, apoiando-se emocionalmente nele naquele instante.

— Ela não é insossa — Emanuel disse, a voz firme, colocando-se entre as duas. — Ela é diferente. E eu decidi que não vou abrir mão de nenhuma das duas. Você me ajuda a administrar o mundo, Sara. Mas ela... ela me ajuda a suportar o mundo.

Sara ficou em silêncio por um longo tempo, processando a audácia dele. Ela era competitiva, odiava perder, mas também era inteligente. Ela sabia que Emanuel era o sol em torno do qual seu mundo girava, e se ele queria um novo planeta em sua órbita, ela teria que aprender a lidar com isso ou lutar para ser a favorita.

— Você é louco — Sara murmurou, embora não tenha se afastado. — Mas você é o meu louco. Se ela for ficar, que fique. Mas eu não vou facilitar para ela.

Emanuel olhou para Eduarda, que parecia assustada, mas não fugiu. Ela sentia que, sob a proteção dele, poderia enfrentar até mesmo a fúria de Sara.

— Eu quero você morando comigo, Eduarda — Emanuel declarou, surpreendendo a si mesmo com a rapidez de sua decisão. — E você também, Sara. Vamos resolver isso. Juntos.

Eduarda olhou para o chão, mordendo o lábio inferior de forma manhosa, antes de olhar para Emanuel com uma aceitação silenciosa. Ela não gostava de conflitos, mas gostava da segurança que Emanuel emanava.

Emanuel sentiu o peso do estresse diminuir levemente, substituído por uma nova forma de excitação. Ele tinha Sara, a força e a competência. E agora tinha Eduarda, a doçura e o afeto. O tatuador renomado, o homem que controlava estúdios pelo mundo, tinha acabado de criar para si o seu desafio mais complexo e mais desejado: manter duas mulheres tão opostas sob o mesmo teto, enquanto tentava não se perder no caos emocional que acabara de instaurar.

— Vamos — Emanuel disse, pegando a mão de cada uma. — O jantar pode esperar dez minutos. Temos muito o que conversar.

Sara bufou, ajeitando o cabelo loiro, enquanto Eduarda se aproximou mais do braço de Emanuel, buscando o calor de seu corpo. O caminho à frente seria marcado por ciúmes, provocações e uma dinâmica perigosa, mas, para Emanuel, a beleza estava justamente na intensidade daquela nova e estranha composição.
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