Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Segunda chance

Fandom: Off Campus

Criado: 01/06/2026

Tags

RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoCiúmesEstudo de PersonagemCenário Canônico
Índice

O Gelo Entre Nós

O frio da arena de hóquei da Universidade Briar sempre teve um efeito calmante sobre Garrett Graham. O som das lâminas cortando o gelo, o impacto dos corpos contra o acrílico e o cheiro metálico característico do rinque eram as únicas coisas que conseguiam silenciar o caos em sua mente. Mas, naquela noite, o silêncio interno havia sumido.

Garrett patinou até o banco de reservas durante o intervalo, o suor escorrendo por baixo do capacete. Ele sentia um vazio persistente no peito, uma ferida aberta que ele tentava ignorar há semanas. Desde que Clara, sua namorada, a única pessoa para quem ele abriu cada cicatriz deixada por seu pai, tinha partido, o mundo parecia ter perdido a cor.

Ele acreditava que ela tinha voltado para o Brasil. A mensagem de despedida fora vaga, o silêncio que se seguiu fora ensurdecedor. Insegura como era, Clara sempre achou que não pertencia ao mundo de Garrett, aos holofotes de um capitão de hóquei estrela. E Garrett, em um momento de estupidez e desespero para preencher o vazio, deixou que Sydney, uma caloura persistente, se aproximasse.

Ele não a amava. Ele mal a suportava. Mas ela era um ruído branco necessário para não deixá-lo enlouquecer com a saudade daquela garota gordinha, sarcástica e de língua afiada que era dona do seu coração.

— Ótimo período, G. — Sydney disse, aproximando-se da grade e estendendo uma garrafa de água com um sorriso possessivo.

— Valeu — murmurou Garrett, mal olhando para ela.

Ele aceitou a água, mas seus olhos vagaram mecanicamente pela multidão, uma mania que ele não conseguia perder. Ele sempre procurava por ela. Procurava os cachos castanhos, o olhar semicerrado de quem estava prestes a soltar um comentário ácido e o sorriso que o fazia sentir que tudo ficaria bem.

E então, o mundo parou.

Lá, na quinta fileira, atrás do banco dos visitantes. Ela não estava no Brasil. Ela estava ali.

Clara usava um casaco pesado da Briar, as bochechas coradas pelo frio e os lábios comprimidos naquela linha fina que Garrett conhecia bem: ela estava brava. Raivosa. E, acima de tudo, ela estava olhando diretamente para ele e para Sydney, que agora tocava o braço dele de forma íntima.

O coração de Garrett deu um solavanco violento contra as costelas. O pânico, algo que ele raramente sentia no gelo, o atingiu como um caminhão.

— Garrett? Você está bem? — Sydney perguntou, franzindo o cenho. — Parece que viu um fantasma.

— Eu preciso... — Ele não terminou a frase.

Os olhos de Clara se encontraram com os dele. Não havia carinho ali, apenas a decepção latente e aquela insegurança que ele tanto tentara curar nela, agora validada da pior forma possível. Ela se levantou bruscamente, ajeitando a bolsa no ombro, e começou a empurrar as pessoas para sair da fileira.

— Clara! — O grito de Garrett foi abafado pelos gritos da torcida e pela buzina que anunciava o reinício do jogo, mas ele não se importou.

Ele pulou de volta para o gelo, mas sua mente não estava mais no disco. Ele jogou os dez minutos seguintes como um amador, cometendo erros básicos, os olhos constantemente voltados para o lugar vazio na arquibancada. Assim que o cronômetro zerou e a vitória da Briar foi confirmada, ele nem esperou os cumprimentos oficiais. Ele saiu do gelo, tirando as luvas e o capacete ainda no corredor, ignorando os chamados do treinador e os olhares confusos dos companheiros de equipe.

Ele precisava encontrá-la. Ele precisava explicar que Sydney era um erro, um delírio de um homem quebrado que achou que tinha sido abandonado.

Garrett correu para a saída dos fundos da arena, onde os estudantes costumavam se dispersar. O ar frio da noite de Massachusetts atingiu seu rosto suado, mas ele não sentiu. Ele a viu perto do estacionamento, caminhando rápido, os ombros tensos.

— Clara! Espera! — ele gritou, a voz rouca.

Ela parou, mas não se virou imediatamente. Garrett se aproximou, ofegante, parando a dois metros de distância.

— Você não estava no Brasil — ele disse, com a voz falhando. — Por que você não me atendeu? Por que sumiu?

Clara se virou lentamente. O sarcasmo que ela costumava usar como armadura estava lá, mas seus olhos estavam marejados.

— Ah, sinto muito se estraguei o seu clima de comemoração com a sua nova líder de torcida — disse ela, a voz carregada de veneno. — Eu tive um problema familiar, Garrett. Tive que ir resolver as coisas com a minha mãe, mas meu telefone quebrou e eu achei... eu realmente achei que você estaria me esperando. Que idiota eu sou, não é?

— Clara, não é o que você está pensando — Garrett deu um passo à frente, as mãos estendidas em um gesto de súplica. — Eu achei que você tinha desistido de mim. Você sempre dizia que eu era "demais" para você, que eu ia acabar encontrando alguém "melhor". Quando você sumiu, eu entrei em pânico.

— E o seu pânico te levou direto para a cama de outra? — Ela soltou uma risada amarga, balançando a cabeça. — Você é previsível, Graham. É isso que dói mais. Eu passo meses me abrindo para você, te ajudando a lidar com a sombra do seu pai, sendo a pessoa que te segura quando você desmorona... e na primeira semana que eu me ausento, você me substitui por uma versão de catálogo.

— Eu não te substitui! — ele rugiu, o desespero tomando conta. — Eu estou morrendo por dentro desde que você saiu por aquela porta! Aquela menina não é nada. Eu nem sei o sobrenome dela, porra! Eu só... eu não conseguia ficar sozinho com o silêncio.

Clara limpou uma lágrima solitária que escorreu pelo rosto, sua expressão endurecendo.

— O silêncio é melhor do que a traição, Garrett.

— Eu não te traí! — Ele se aproximou mais, tentando tocar o braço dela, mas ela recuou como se tivesse levado um choque. — Nós não tínhamos terminado oficialmente, mas você foi embora! Eu achei que era o fim. Eu sou um idiota, um egoísta, eu sei disso. Mas eu te amo. Eu só amo você.

— Ama? — Ela o encarou, a insegurança brilhando em seus olhos castanhos. — Como você pode amar alguém como eu e correr para alguém como ela? Olhe para mim, Garrett. Eu sou a garota "chatinha", a garota que reclama de tudo, a garota que não se encaixa nas suas festas de fraternidade. Ela é exatamente o que esperam de você.

— Eu não dou a mínima para o que esperam de mim! — Garrett gritou, ignorando os poucos alunos que passavam por perto. — Você é a única pessoa que me conhece de verdade. A única que sabe por que eu odeio o meu aniversário, a única que sabe que eu finjo que não ligo para as críticas. Você é a minha casa, Clara.

Clara desviou o olhar, o peito subindo e descendo com força. Ela era raivosa quando ferida, e Garrett sabia que reconquistá-la seria a batalha mais difícil de sua vida.

— Eu voltei hoje — ela sussurrou, a voz trêmula. — Eu queria te fazer uma surpresa. Eu ia te encontrar depois do jogo, pedir desculpas por ter sumido sem dar notícias claras, dizer que eu te amava e que ia tentar ser menos insegura... e aí eu vejo aquela garota agindo como se fosse a dona do seu banco de reservas.

— Ela não é nada — repetiu Garrett, as lágrimas agora surgindo em seus próprios olhos. — Por favor, Clara. Me dá uma chance de consertar isso. Eu mando ela para o inferno agora mesmo. Eu faço o que você quiser.

— Você me machucou — disse ela, olhando-o nos olhos. — E você sabe o quanto é difícil para mim confiar em alguém.

— Eu sei. E eu vou passar cada segundo do resto da minha vida provando que você pode confiar em mim de novo — ele prometeu, dando um passo cauteloso para dentro do espaço pessoal dela.

Desta vez, ela não recuou, mas também não se aproximou. O silêncio entre eles era pesado, carregado de mágoa e de um amor que nenhum dos dois conseguia apagar.

— Eu te odeio por isso — murmurou ela, embora o tom raivoso estivesse perdendo força para o cansaço.

— Eu sei — Garrett sussurrou, finalmente alcançando a mão dela. — Eu também me odeio.

— Se ela chegar perto de você de novo, Garrett Graham, eu juro que furo os pneus do seu carro e de todos os seus amigos de equipe — ela ameaçou, o brilho sarcástico voltando minimamente aos olhos, embora ainda estivessem úmidos.

Garrett soltou um suspiro de alívio que pareceu tirar um peso de mil quilos de seus ombros. Ele puxou a mão dela e a levou aos lábios, beijando seus nós dos dedos com fervor.

— Você pode queimar o carro se quiser. Só não vai embora de novo.

— Eu não vou — disse ela, a voz firme apesar da dor. — Mas você vai ter que rastejar muito. E eu sou uma pessoa muito chata quando quero, você lembra?

— Eu lembro — ele sorriu, um sorriso triste e esperançoso. — Você é a pessoa mais chata, sarcástica e maravilhosa que eu já conheci. E eu não quero mais ninguém.

— É bom mesmo — respondeu ela, permitindo-se ser puxada para um abraço apertado.

Ali, no estacionamento frio da Briar, Garrett Graham sentiu que podia respirar novamente. Ele sabia que o caminho para o perdão seria longo e que as inseguranças de Clara não desapareceriam da noite para o dia, especialmente depois do que ele fizera. Mas, enquanto ele a segurava, sentindo o cheiro de baunilha do cabelo dela, ele jurou a si mesmo que nunca mais deixaria o gelo entrar no lugar onde só deveria haver o calor deles dois.
Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic