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Fandom: Nenhum

Criado: 01/06/2026

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Entre Laços e Espinhos

O sol da tarde filtrava-se pelas folhas das árvores no jardim dos pais de Eduarda, criando padrões de luz e sombra no gramado onde três crianças brincavam. Naquela época, a diferença de cinco anos parecia um abismo, mas o vínculo entre eles já era inquebrável.

Emanuel, aos dez anos, já carregava uma seriedade incomum para sua idade. Ele estava agachado, observando Eduarda, de apenas cinco anos, que tentava equilibrar-se em cima de um tronco caído. A pequena Duda tinha os olhos grandes e úmidos, o lábio inferior tremendo levemente enquanto hesitava.

— Vem, Duda. Eu seguro sua mão — disse Emanuel, estendendo o braço com uma firmeza que prometia segurança eterna.

Eduarda inclinou o corpo para a frente, manhosa, e em vez de andar, praticamente se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Tá alto, Manu... — murmurou ela, com a voz abafada.

— Não está nada alto, deixa de ser chorona, garota! — Sara, também com dez anos, apareceu saltando de cima do tronco com uma agilidade impressionante. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e ela já exibia aquele sorriso desafiador que se tornaria sua marca registrada. — É só pular. Olha eu!

Sara deu uma pirueta no ar e caiu de pé, limpando as mãos sujas de terra no vestido colorido. Ela olhou para os dois com uma sobrinha levantada, já demonstrando aquela necessidade de ser o centro das atenções, de mostrar que era a mais forte.

— Não assusta ela, Sara — Emanuel repreendeu, sem soltar Eduarda, que se aninhava ainda mais no seu abraço. — Ela é pequena.

— Ela é mimada, isso sim — rebateu Sara, revirando os olhos, mas logo sentou-se ao lado deles e ofereceu um de seus doces para a menor. — Toma, Duda. Para de chorar que eu te ensino a correr rápido amanhã.

A infância passou como um borrão de joelhos ralados e segredos compartilhados. Aos poucos, a dinâmica se solidificou. Emanuel cresceu e transformou seu talento com o desenho em uma carreira meteórica no mundo da tatuagem. Sara, sempre ao seu lado, tornou-se o fogo que impulsionava a estrutura dos negócios dele, enquanto Eduarda permanecia como o porto seguro, a doçura que ele precisava para não se perder na própria rigidez.

Aos vinte e três anos, Emanuel já era um nome respeitado, dono de estúdios que eram verdadeiros templos da arte na pele. Ele e Sara namoravam há três anos. Era uma relação intensa, marcada pela competência dela na administração e pelas faíscas que saíam quando dois temperamentos fortes colidiam. Mas faltava algo. Ou melhor, faltava alguém.

Foi no aniversário de dezoito anos de Eduarda que o equilíbrio mudou.

A festa na casa dos pais de Duda estava animada. Os pais dela, jovens e de mente aberta, sempre trataram Emanuel como um filho, mas naquela noite, o olhar dele para a recém-adulta Eduarda era tudo, menos fraternal.

Emanuel encontrou Eduarda no jardim, longe do barulho. Ela usava um vestido de renda clara, os cabelos castanhos caindo suavemente pelos ombros esguios.

— Você está fugindo da sua própria festa? — perguntou ele, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça escura.

— É muita gente, Manu... — ela confessou, aproximando-se dele com aquele jeito intuitivo de buscar calor humano. — Eu prefiro ficar aqui com você.

Emanuel sentiu o peso da responsabilidade e do desejo. Ele já havia conversado com Sara. A loira, com sua autoconfiança inabalável, não se sentia ameaçada por Eduarda. Para Sara, ela era a "mulher de frente", a parceira de negócios, a amante voraz; Eduarda era a doçura que ela mesma não conseguia — ou não queria — oferecer. Sara aceitara a proposta de Emanuel com um dar de ombros e um sorriso malicioso: "Se você dá conta das duas, quem sou eu para negar um mimo para a pequena?".

— Duda — Emanuel começou, a voz mais rouca que o normal —, eu conversei com a Sara. E agora quero conversar com você. E com seus pais.

Eduarda inclinou a cabeça, confusa.

— Eu não quero mais ser apenas o seu amigo de infância. Eu quero que você seja minha namorada. Assim como a Sara é.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som dos grilos. Eduarda arregalou os olhos, a timidez lutando contra a alegria pura que sentia.

— Mas... e ela? Ela não vai ficar brava? — sussurrou ela.

— Ela sabe. Ela concorda. Nós cuidaremos de você, Duda. Eu vou cuidar de você.

A conversa com os pais de Eduarda, contudo, foi mais tensa. Apesar de modernos, a ideia de sua filha caçula entrar em um relacionamento estabelecido com um homem cinco anos mais velho e sua namorada impetuosa os deixou hesitantes.

— Emanuel, nós gostamos de você — disse o pai de Eduarda, cruzando os braços na sala de estar —, mas isso é... pouco convencional. A Eduarda é sensível.

— Eu sei exatamente quem a Eduarda é — Emanuel respondeu, a mandíbula travada, a irritação começando a borbulhar sob a superfície. Ele odiava ter seu controle questionado. — Eu a protejo desde que ela tem cinco anos. Vocês acham que eu permitiria que algo a machucasse?

— Não é isso, é que... — a mãe começou.

— É que eu a amo — Emanuel cortou, firme. — E não vou abrir mão dela.

No final, o consentimento veio, ainda que carregado de uma cautela que Emanuel desprezava. O namoro começou, mas Eduarda, em sua insegurança típica, preferiu continuar morando com os pais, usando a faculdade de História da Arte como uma âncora para sua independência gradual.

Dois anos se passaram.

Agora, aos vinte e cinco anos, Emanuel estava sentado em seu escritório em um dos seus estúdios mais luxuosos. O ambiente exalava couro, tinta e sucesso. A porta se abriu com um estrondo familiar.

Sara entrou, as botas de salto alto estalando contra o piso de madeira. Ela usava uma saia de couro curta e uma blusa que deixava pouco para a imaginação, realçando o silicone e as curvas que ela exibia com orgulho.

— Os relatórios de Londres chegaram, Manu — disse ela, jogando uma pasta sobre a mesa dele e sentando-se no seu colo sem pedir licença. — O lucro subiu vinte por cento desde que mudamos a estratégia de marketing. Eu sou um gênio, admita.

Emanuel suspirou, as mãos indo automaticamente para a cintura dela. O estresse do dia parecia diminuir um pouco com a presença vibrante de Sara.

— Você é eficiente, Sara. E sabe disso — ele respondeu, com um meio sorriso.

— Eficiente? — Ela inclinou a cabeça, passando a unha pintada de vermelho pelo queixo dele. — Eu sou essencial. E sou a sua preferida quando o assunto é colocar ordem nesse caos.

— Você sabe que eu não tenho preferidas — ele disse, embora soubesse que a dinâmica era diferente.

— Ah, para com isso. A Duda é um doce, eu até gosto daquela coisinha, mas ela não aguentaria cinco minutos de uma reunião de orçamento — Sara riu, um som rouco e provocador. — Ela serve para te dar paz. Eu sirvo para te dar o mundo.

Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara não odiava Eduarda; pelo contrário, tratava a mais nova com uma espécie de condescendência protetora, como se Eduarda fosse uma mascote preciosa que pertencia a ambos. Sara não via Eduarda como uma ameaça ao seu posto de "namorada principal", a que vivia com ele, a que compartilhava os negócios e a cama todas as noites.

O telefone de Emanuel vibrou. Era uma mensagem de Eduarda.

"Manu... você vem me buscar na faculdade hoje? Tá chovendo e eu esqueci meu guarda-chuva... :("

O instinto de proteção de Emanuel disparou instantaneamente. Ele olhou para o relógio.

— Tenho que buscar a Duda — disse ele, tentando se levantar.

Sara revirou os olhos, mas saiu de seu colo, ajeitando a saia.

— Claro que tem. A pequena flor vai murchar se levar dois pingos de chuva. Vai lá, salvador da pátria. Eu fico aqui terminando de revisar os contratos de Berlim.

— Obrigado, Sara. Vejo vocês duas em casa para o jantar? — Emanuel perguntou, já pegando as chaves do carro.

— Eu vou estar lá. Já a Duda... duvido que ela saia daquela toca que é o quarto dela na casa dos pais. Você devia ser mais firme com ela, Manu. Aquela menina tem que morar aqui logo.

— Eu estou tentando — ele resmungou, a irritação com a resistência de Eduarda e a pressão de Sara criando um nó em seu peito.

Quando Emanuel chegou à faculdade, o céu estava cinzento e uma chuva fina caía. Ele avistou Eduarda sob o arco da entrada da biblioteca. Ela parecia tão pequena, abraçada aos próprios livros, usando um cardigã bege que a fazia parecer uma pintura renascentista de tons suaves.

Assim que ela viu o carro dele, um sorriso iluminou seu rosto delicado. Ela correu e entrou no banco do passageiro, trazendo consigo o cheiro de papel antigo e baunilha.

— Oi, meu amor — disse ela, inclinando-se para beijar o rosto dele e depois se aninhando contra seu braço, mesmo com o cinto de segurança. — Achei que você não vinha por causa do trabalho.

— Eu sempre venho, Duda — ele disse, a voz suavizando-se automaticamente. Ele passou a mão pelos cabelos castanhos dela, sentindo a maciez. — Como foi a aula?

— Foi boa... — ela suspirou, fechando os olhos sob o toque dele. — Mas sinto sua falta o dia todo. O ambiente da faculdade é tão barulhento às vezes.

— Você sabe como resolver isso — Emanuel reiterou, o tom ficando um pouco mais rígido. — Tem um quarto enorme esperando por você lá em casa. A Sara até comprou aquelas velas que você gosta.

Eduarda murchou um pouco, o brilho nos olhos vacilando.

— Eu sei, Manu... É que eu tenho medo de atrapalhar a rotina de vocês. A Sara é tão... decidida. E eu não quero que meus pais fiquem tristes.

— Seus pais sabem que você está segura comigo. E a Sara quer você lá tanto quanto eu, do jeito dela — ele insistiu, sentindo o peso de ser o mediador entre as duas realidades. — Não aguento mais ter que te deixar na porta de outra casa à noite.

— Não fica bravo comigo... — Eduarda pediu, com a voz embargada, os olhos expressivos começando a brilhar com lágrimas contidas. Ela se aproximou mais, buscando o calor dele como se sua vida dependesse disso. — Por favor.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. O lado racional dele queria discutir, listar os motivos lógicos pelos quais ela deveria se mudar. Mas, ao sentir o corpo esguio e trêmulo de Eduarda contra o seu, o lado protetor venceu.

— Eu não estou bravo, pequena. Só quero você perto de mim.

— Eu te amo — ela sussurrou, a voz manhosa voltando ao normal ao sentir que o perigo de um conflito havia passado.

— Eu também te amo.

O caminho até a casa de Eduarda foi silencioso, preenchido apenas pelo som do rádio baixo. Emanuel sentia a tensão constante em seus ombros. Ao chegar na frente da casa dos pais dela, ele a observou descer.

— Amanhã eu venho te buscar para irmos ao estúdio. A Sara quer que você veja os novos designs — ele avisou.

Eduarda sorriu e acenou antes de entrar.

Ao dirigir de volta para o apartamento de luxo onde Sara o esperava com uma garrafa de vinho e planilhas de faturamento, Emanuel refletiu sobre sua vida. Ele tinha o fogo e o gelo. Tinha a mulher que o desafiava e a mulher que o acalmava.

Sara era o impacto, a vulgaridade elegante que o mundo admirava e temia. Eduarda era a fragilidade, a doçura escondida que só ele tinha o privilégio de proteger.

Ele entrou em casa e foi recebido pelo som de música alta. Sara estava na cozinha, apenas de camiseta, bebendo vinho.

— E aí? A boneca de porcelana está entregue? — Sara perguntou, com um sorriso irônico.

— Está, Sara. Não começa — Emanuel respondeu, jogando as chaves na mesa.

— Eu não disse nada! — Ela se aproximou, passando os braços pelo pescoço dele, o cheiro de perfume caro inundando seus sentidos. — Só acho que a gente devia parar de pedir e começar a exigir. Ela pertence a nós, Manu. Ela só ainda não percebeu que a casa dela é onde a gente estiver.

Emanuel olhou para Sara, vendo a determinação em seus olhos loiros. Depois, pensou em Eduarda, em sua doçura e seu medo. Ele era o centro daquele mundo, o pilar que sustentava duas mulheres tão opostas e, ao mesmo tempo, tão intrinsecamente ligadas a ele.

— No tempo dela, Sara — ele disse, com firmeza. — No tempo dela.

— Você é muito mole com ela — Sara provocou, puxando-o para um beijo intenso, reivindicando seu território. — Mas é por isso que você me tem. Para manter o equilíbrio.

E naquele triângulo de proteção, possessividade e amor, Emanuel sabia que, por mais estressante que fosse, ele não saberia viver de outra forma. Ele era o guardião de Eduarda e o parceiro de Sara, e enquanto conseguisse manter o controle, aquele reino particular continuaria sendo seu maior sucesso.
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