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Fandom: Nenhum
Criado: 01/06/2026
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RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoEstudo de PersonagemCiúmesHistória DomésticaAngústiaSombrioPsicológicoLinguagem ExplícitaRealismo
Entre Laços e Espinhos
O sol da tarde filtrava-se pelas folhas das árvores no jardim dos pais de Eduarda, criando padrões de luz e sombra no gramado onde três crianças brincavam. Naquela época, a diferença de cinco anos parecia um abismo, mas o vínculo entre eles já era inquebrável.
Emanuel, aos dez anos, já carregava uma seriedade incomum para sua idade. Ele estava agachado, observando Eduarda, de apenas cinco anos, que tentava equilibrar-se em cima de um tronco caído. A pequena Duda tinha os olhos grandes e úmidos, o lábio inferior tremendo levemente enquanto hesitava.
— Vem, Duda. Eu seguro sua mão — disse Emanuel, estendendo o braço com uma firmeza que prometia segurança eterna.
Eduarda inclinou o corpo para a frente, manhosa, e em vez de andar, praticamente se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Tá alto, Manu... — murmurou ela, com a voz abafada.
— Não está nada alto, deixa de ser chorona, garota! — Sara, também com dez anos, apareceu saltando de cima do tronco com uma agilidade impressionante. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e ela já exibia aquele sorriso desafiador que se tornaria sua marca registrada. — É só pular. Olha eu!
Sara deu uma pirueta no ar e caiu de pé, limpando as mãos sujas de terra no vestido colorido. Ela olhou para os dois com uma sobrinha levantada, já demonstrando aquela necessidade de ser o centro das atenções, de mostrar que era a mais forte.
— Não assusta ela, Sara — Emanuel repreendeu, sem soltar Eduarda, que se aninhava ainda mais no seu abraço. — Ela é pequena.
— Ela é mimada, isso sim — rebateu Sara, revirando os olhos, mas logo sentou-se ao lado deles e ofereceu um de seus doces para a menor. — Toma, Duda. Para de chorar que eu te ensino a correr rápido amanhã.
A infância passou como um borrão de joelhos ralados e segredos compartilhados. Aos poucos, a dinâmica se solidificou. Emanuel cresceu e transformou seu talento com o desenho em uma carreira meteórica no mundo da tatuagem. Sara, sempre ao seu lado, tornou-se o fogo que impulsionava a estrutura dos negócios dele, enquanto Eduarda permanecia como o porto seguro, a doçura que ele precisava para não se perder na própria rigidez.
Aos vinte e três anos, Emanuel já era um nome respeitado, dono de estúdios que eram verdadeiros templos da arte na pele. Ele e Sara namoravam há três anos. Era uma relação intensa, marcada pela competência dela na administração e pelas faíscas que saíam quando dois temperamentos fortes colidiam. Mas faltava algo. Ou melhor, faltava alguém.
Foi no aniversário de dezoito anos de Eduarda que o equilíbrio mudou.
A festa na casa dos pais de Duda estava animada. Os pais dela, jovens e de mente aberta, sempre trataram Emanuel como um filho, mas naquela noite, o olhar dele para a recém-adulta Eduarda era tudo, menos fraternal.
Emanuel encontrou Eduarda no jardim, longe do barulho. Ela usava um vestido de renda clara, os cabelos castanhos caindo suavemente pelos ombros esguios.
— Você está fugindo da sua própria festa? — perguntou ele, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça escura.
— É muita gente, Manu... — ela confessou, aproximando-se dele com aquele jeito intuitivo de buscar calor humano. — Eu prefiro ficar aqui com você.
Emanuel sentiu o peso da responsabilidade e do desejo. Ele já havia conversado com Sara. A loira, com sua autoconfiança inabalável, não se sentia ameaçada por Eduarda. Para Sara, ela era a "mulher de frente", a parceira de negócios, a amante voraz; Eduarda era a doçura que ela mesma não conseguia — ou não queria — oferecer. Sara aceitara a proposta de Emanuel com um dar de ombros e um sorriso malicioso: "Se você dá conta das duas, quem sou eu para negar um mimo para a pequena?".
— Duda — Emanuel começou, a voz mais rouca que o normal —, eu conversei com a Sara. E agora quero conversar com você. E com seus pais.
Eduarda inclinou a cabeça, confusa.
— Eu não quero mais ser apenas o seu amigo de infância. Eu quero que você seja minha namorada. Assim como a Sara é.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som dos grilos. Eduarda arregalou os olhos, a timidez lutando contra a alegria pura que sentia.
— Mas... e ela? Ela não vai ficar brava? — sussurrou ela.
— Ela sabe. Ela concorda. Nós cuidaremos de você, Duda. Eu vou cuidar de você.
A conversa com os pais de Eduarda, contudo, foi mais tensa. Apesar de modernos, a ideia de sua filha caçula entrar em um relacionamento estabelecido com um homem cinco anos mais velho e sua namorada impetuosa os deixou hesitantes.
— Emanuel, nós gostamos de você — disse o pai de Eduarda, cruzando os braços na sala de estar —, mas isso é... pouco convencional. A Eduarda é sensível.
— Eu sei exatamente quem a Eduarda é — Emanuel respondeu, a mandíbula travada, a irritação começando a borbulhar sob a superfície. Ele odiava ter seu controle questionado. — Eu a protejo desde que ela tem cinco anos. Vocês acham que eu permitiria que algo a machucasse?
— Não é isso, é que... — a mãe começou.
— É que eu a amo — Emanuel cortou, firme. — E não vou abrir mão dela.
No final, o consentimento veio, ainda que carregado de uma cautela que Emanuel desprezava. O namoro começou, mas Eduarda, em sua insegurança típica, preferiu continuar morando com os pais, usando a faculdade de História da Arte como uma âncora para sua independência gradual.
Dois anos se passaram.
Agora, aos vinte e cinco anos, Emanuel estava sentado em seu escritório em um dos seus estúdios mais luxuosos. O ambiente exalava couro, tinta e sucesso. A porta se abriu com um estrondo familiar.
Sara entrou, as botas de salto alto estalando contra o piso de madeira. Ela usava uma saia de couro curta e uma blusa que deixava pouco para a imaginação, realçando o silicone e as curvas que ela exibia com orgulho.
— Os relatórios de Londres chegaram, Manu — disse ela, jogando uma pasta sobre a mesa dele e sentando-se no seu colo sem pedir licença. — O lucro subiu vinte por cento desde que mudamos a estratégia de marketing. Eu sou um gênio, admita.
Emanuel suspirou, as mãos indo automaticamente para a cintura dela. O estresse do dia parecia diminuir um pouco com a presença vibrante de Sara.
— Você é eficiente, Sara. E sabe disso — ele respondeu, com um meio sorriso.
— Eficiente? — Ela inclinou a cabeça, passando a unha pintada de vermelho pelo queixo dele. — Eu sou essencial. E sou a sua preferida quando o assunto é colocar ordem nesse caos.
— Você sabe que eu não tenho preferidas — ele disse, embora soubesse que a dinâmica era diferente.
— Ah, para com isso. A Duda é um doce, eu até gosto daquela coisinha, mas ela não aguentaria cinco minutos de uma reunião de orçamento — Sara riu, um som rouco e provocador. — Ela serve para te dar paz. Eu sirvo para te dar o mundo.
Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara não odiava Eduarda; pelo contrário, tratava a mais nova com uma espécie de condescendência protetora, como se Eduarda fosse uma mascote preciosa que pertencia a ambos. Sara não via Eduarda como uma ameaça ao seu posto de "namorada principal", a que vivia com ele, a que compartilhava os negócios e a cama todas as noites.
O telefone de Emanuel vibrou. Era uma mensagem de Eduarda.
"Manu... você vem me buscar na faculdade hoje? Tá chovendo e eu esqueci meu guarda-chuva... :("
O instinto de proteção de Emanuel disparou instantaneamente. Ele olhou para o relógio.
— Tenho que buscar a Duda — disse ele, tentando se levantar.
Sara revirou os olhos, mas saiu de seu colo, ajeitando a saia.
— Claro que tem. A pequena flor vai murchar se levar dois pingos de chuva. Vai lá, salvador da pátria. Eu fico aqui terminando de revisar os contratos de Berlim.
— Obrigado, Sara. Vejo vocês duas em casa para o jantar? — Emanuel perguntou, já pegando as chaves do carro.
— Eu vou estar lá. Já a Duda... duvido que ela saia daquela toca que é o quarto dela na casa dos pais. Você devia ser mais firme com ela, Manu. Aquela menina tem que morar aqui logo.
— Eu estou tentando — ele resmungou, a irritação com a resistência de Eduarda e a pressão de Sara criando um nó em seu peito.
Quando Emanuel chegou à faculdade, o céu estava cinzento e uma chuva fina caía. Ele avistou Eduarda sob o arco da entrada da biblioteca. Ela parecia tão pequena, abraçada aos próprios livros, usando um cardigã bege que a fazia parecer uma pintura renascentista de tons suaves.
Assim que ela viu o carro dele, um sorriso iluminou seu rosto delicado. Ela correu e entrou no banco do passageiro, trazendo consigo o cheiro de papel antigo e baunilha.
— Oi, meu amor — disse ela, inclinando-se para beijar o rosto dele e depois se aninhando contra seu braço, mesmo com o cinto de segurança. — Achei que você não vinha por causa do trabalho.
— Eu sempre venho, Duda — ele disse, a voz suavizando-se automaticamente. Ele passou a mão pelos cabelos castanhos dela, sentindo a maciez. — Como foi a aula?
— Foi boa... — ela suspirou, fechando os olhos sob o toque dele. — Mas sinto sua falta o dia todo. O ambiente da faculdade é tão barulhento às vezes.
— Você sabe como resolver isso — Emanuel reiterou, o tom ficando um pouco mais rígido. — Tem um quarto enorme esperando por você lá em casa. A Sara até comprou aquelas velas que você gosta.
Eduarda murchou um pouco, o brilho nos olhos vacilando.
— Eu sei, Manu... É que eu tenho medo de atrapalhar a rotina de vocês. A Sara é tão... decidida. E eu não quero que meus pais fiquem tristes.
— Seus pais sabem que você está segura comigo. E a Sara quer você lá tanto quanto eu, do jeito dela — ele insistiu, sentindo o peso de ser o mediador entre as duas realidades. — Não aguento mais ter que te deixar na porta de outra casa à noite.
— Não fica bravo comigo... — Eduarda pediu, com a voz embargada, os olhos expressivos começando a brilhar com lágrimas contidas. Ela se aproximou mais, buscando o calor dele como se sua vida dependesse disso. — Por favor.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. O lado racional dele queria discutir, listar os motivos lógicos pelos quais ela deveria se mudar. Mas, ao sentir o corpo esguio e trêmulo de Eduarda contra o seu, o lado protetor venceu.
— Eu não estou bravo, pequena. Só quero você perto de mim.
— Eu te amo — ela sussurrou, a voz manhosa voltando ao normal ao sentir que o perigo de um conflito havia passado.
— Eu também te amo.
O caminho até a casa de Eduarda foi silencioso, preenchido apenas pelo som do rádio baixo. Emanuel sentia a tensão constante em seus ombros. Ao chegar na frente da casa dos pais dela, ele a observou descer.
— Amanhã eu venho te buscar para irmos ao estúdio. A Sara quer que você veja os novos designs — ele avisou.
Eduarda sorriu e acenou antes de entrar.
Ao dirigir de volta para o apartamento de luxo onde Sara o esperava com uma garrafa de vinho e planilhas de faturamento, Emanuel refletiu sobre sua vida. Ele tinha o fogo e o gelo. Tinha a mulher que o desafiava e a mulher que o acalmava.
Sara era o impacto, a vulgaridade elegante que o mundo admirava e temia. Eduarda era a fragilidade, a doçura escondida que só ele tinha o privilégio de proteger.
Ele entrou em casa e foi recebido pelo som de música alta. Sara estava na cozinha, apenas de camiseta, bebendo vinho.
— E aí? A boneca de porcelana está entregue? — Sara perguntou, com um sorriso irônico.
— Está, Sara. Não começa — Emanuel respondeu, jogando as chaves na mesa.
— Eu não disse nada! — Ela se aproximou, passando os braços pelo pescoço dele, o cheiro de perfume caro inundando seus sentidos. — Só acho que a gente devia parar de pedir e começar a exigir. Ela pertence a nós, Manu. Ela só ainda não percebeu que a casa dela é onde a gente estiver.
Emanuel olhou para Sara, vendo a determinação em seus olhos loiros. Depois, pensou em Eduarda, em sua doçura e seu medo. Ele era o centro daquele mundo, o pilar que sustentava duas mulheres tão opostas e, ao mesmo tempo, tão intrinsecamente ligadas a ele.
— No tempo dela, Sara — ele disse, com firmeza. — No tempo dela.
— Você é muito mole com ela — Sara provocou, puxando-o para um beijo intenso, reivindicando seu território. — Mas é por isso que você me tem. Para manter o equilíbrio.
E naquele triângulo de proteção, possessividade e amor, Emanuel sabia que, por mais estressante que fosse, ele não saberia viver de outra forma. Ele era o guardião de Eduarda e o parceiro de Sara, e enquanto conseguisse manter o controle, aquele reino particular continuaria sendo seu maior sucesso.
Emanuel, aos dez anos, já carregava uma seriedade incomum para sua idade. Ele estava agachado, observando Eduarda, de apenas cinco anos, que tentava equilibrar-se em cima de um tronco caído. A pequena Duda tinha os olhos grandes e úmidos, o lábio inferior tremendo levemente enquanto hesitava.
— Vem, Duda. Eu seguro sua mão — disse Emanuel, estendendo o braço com uma firmeza que prometia segurança eterna.
Eduarda inclinou o corpo para a frente, manhosa, e em vez de andar, praticamente se jogou nos braços dele, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Tá alto, Manu... — murmurou ela, com a voz abafada.
— Não está nada alto, deixa de ser chorona, garota! — Sara, também com dez anos, apareceu saltando de cima do tronco com uma agilidade impressionante. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e ela já exibia aquele sorriso desafiador que se tornaria sua marca registrada. — É só pular. Olha eu!
Sara deu uma pirueta no ar e caiu de pé, limpando as mãos sujas de terra no vestido colorido. Ela olhou para os dois com uma sobrinha levantada, já demonstrando aquela necessidade de ser o centro das atenções, de mostrar que era a mais forte.
— Não assusta ela, Sara — Emanuel repreendeu, sem soltar Eduarda, que se aninhava ainda mais no seu abraço. — Ela é pequena.
— Ela é mimada, isso sim — rebateu Sara, revirando os olhos, mas logo sentou-se ao lado deles e ofereceu um de seus doces para a menor. — Toma, Duda. Para de chorar que eu te ensino a correr rápido amanhã.
A infância passou como um borrão de joelhos ralados e segredos compartilhados. Aos poucos, a dinâmica se solidificou. Emanuel cresceu e transformou seu talento com o desenho em uma carreira meteórica no mundo da tatuagem. Sara, sempre ao seu lado, tornou-se o fogo que impulsionava a estrutura dos negócios dele, enquanto Eduarda permanecia como o porto seguro, a doçura que ele precisava para não se perder na própria rigidez.
Aos vinte e três anos, Emanuel já era um nome respeitado, dono de estúdios que eram verdadeiros templos da arte na pele. Ele e Sara namoravam há três anos. Era uma relação intensa, marcada pela competência dela na administração e pelas faíscas que saíam quando dois temperamentos fortes colidiam. Mas faltava algo. Ou melhor, faltava alguém.
Foi no aniversário de dezoito anos de Eduarda que o equilíbrio mudou.
A festa na casa dos pais de Duda estava animada. Os pais dela, jovens e de mente aberta, sempre trataram Emanuel como um filho, mas naquela noite, o olhar dele para a recém-adulta Eduarda era tudo, menos fraternal.
Emanuel encontrou Eduarda no jardim, longe do barulho. Ela usava um vestido de renda clara, os cabelos castanhos caindo suavemente pelos ombros esguios.
— Você está fugindo da sua própria festa? — perguntou ele, aproximando-se com as mãos nos bolsos da calça escura.
— É muita gente, Manu... — ela confessou, aproximando-se dele com aquele jeito intuitivo de buscar calor humano. — Eu prefiro ficar aqui com você.
Emanuel sentiu o peso da responsabilidade e do desejo. Ele já havia conversado com Sara. A loira, com sua autoconfiança inabalável, não se sentia ameaçada por Eduarda. Para Sara, ela era a "mulher de frente", a parceira de negócios, a amante voraz; Eduarda era a doçura que ela mesma não conseguia — ou não queria — oferecer. Sara aceitara a proposta de Emanuel com um dar de ombros e um sorriso malicioso: "Se você dá conta das duas, quem sou eu para negar um mimo para a pequena?".
— Duda — Emanuel começou, a voz mais rouca que o normal —, eu conversei com a Sara. E agora quero conversar com você. E com seus pais.
Eduarda inclinou a cabeça, confusa.
— Eu não quero mais ser apenas o seu amigo de infância. Eu quero que você seja minha namorada. Assim como a Sara é.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som dos grilos. Eduarda arregalou os olhos, a timidez lutando contra a alegria pura que sentia.
— Mas... e ela? Ela não vai ficar brava? — sussurrou ela.
— Ela sabe. Ela concorda. Nós cuidaremos de você, Duda. Eu vou cuidar de você.
A conversa com os pais de Eduarda, contudo, foi mais tensa. Apesar de modernos, a ideia de sua filha caçula entrar em um relacionamento estabelecido com um homem cinco anos mais velho e sua namorada impetuosa os deixou hesitantes.
— Emanuel, nós gostamos de você — disse o pai de Eduarda, cruzando os braços na sala de estar —, mas isso é... pouco convencional. A Eduarda é sensível.
— Eu sei exatamente quem a Eduarda é — Emanuel respondeu, a mandíbula travada, a irritação começando a borbulhar sob a superfície. Ele odiava ter seu controle questionado. — Eu a protejo desde que ela tem cinco anos. Vocês acham que eu permitiria que algo a machucasse?
— Não é isso, é que... — a mãe começou.
— É que eu a amo — Emanuel cortou, firme. — E não vou abrir mão dela.
No final, o consentimento veio, ainda que carregado de uma cautela que Emanuel desprezava. O namoro começou, mas Eduarda, em sua insegurança típica, preferiu continuar morando com os pais, usando a faculdade de História da Arte como uma âncora para sua independência gradual.
Dois anos se passaram.
Agora, aos vinte e cinco anos, Emanuel estava sentado em seu escritório em um dos seus estúdios mais luxuosos. O ambiente exalava couro, tinta e sucesso. A porta se abriu com um estrondo familiar.
Sara entrou, as botas de salto alto estalando contra o piso de madeira. Ela usava uma saia de couro curta e uma blusa que deixava pouco para a imaginação, realçando o silicone e as curvas que ela exibia com orgulho.
— Os relatórios de Londres chegaram, Manu — disse ela, jogando uma pasta sobre a mesa dele e sentando-se no seu colo sem pedir licença. — O lucro subiu vinte por cento desde que mudamos a estratégia de marketing. Eu sou um gênio, admita.
Emanuel suspirou, as mãos indo automaticamente para a cintura dela. O estresse do dia parecia diminuir um pouco com a presença vibrante de Sara.
— Você é eficiente, Sara. E sabe disso — ele respondeu, com um meio sorriso.
— Eficiente? — Ela inclinou a cabeça, passando a unha pintada de vermelho pelo queixo dele. — Eu sou essencial. E sou a sua preferida quando o assunto é colocar ordem nesse caos.
— Você sabe que eu não tenho preferidas — ele disse, embora soubesse que a dinâmica era diferente.
— Ah, para com isso. A Duda é um doce, eu até gosto daquela coisinha, mas ela não aguentaria cinco minutos de uma reunião de orçamento — Sara riu, um som rouco e provocador. — Ela serve para te dar paz. Eu sirvo para te dar o mundo.
Emanuel não respondeu. Ele sabia que Sara não odiava Eduarda; pelo contrário, tratava a mais nova com uma espécie de condescendência protetora, como se Eduarda fosse uma mascote preciosa que pertencia a ambos. Sara não via Eduarda como uma ameaça ao seu posto de "namorada principal", a que vivia com ele, a que compartilhava os negócios e a cama todas as noites.
O telefone de Emanuel vibrou. Era uma mensagem de Eduarda.
"Manu... você vem me buscar na faculdade hoje? Tá chovendo e eu esqueci meu guarda-chuva... :("
O instinto de proteção de Emanuel disparou instantaneamente. Ele olhou para o relógio.
— Tenho que buscar a Duda — disse ele, tentando se levantar.
Sara revirou os olhos, mas saiu de seu colo, ajeitando a saia.
— Claro que tem. A pequena flor vai murchar se levar dois pingos de chuva. Vai lá, salvador da pátria. Eu fico aqui terminando de revisar os contratos de Berlim.
— Obrigado, Sara. Vejo vocês duas em casa para o jantar? — Emanuel perguntou, já pegando as chaves do carro.
— Eu vou estar lá. Já a Duda... duvido que ela saia daquela toca que é o quarto dela na casa dos pais. Você devia ser mais firme com ela, Manu. Aquela menina tem que morar aqui logo.
— Eu estou tentando — ele resmungou, a irritação com a resistência de Eduarda e a pressão de Sara criando um nó em seu peito.
Quando Emanuel chegou à faculdade, o céu estava cinzento e uma chuva fina caía. Ele avistou Eduarda sob o arco da entrada da biblioteca. Ela parecia tão pequena, abraçada aos próprios livros, usando um cardigã bege que a fazia parecer uma pintura renascentista de tons suaves.
Assim que ela viu o carro dele, um sorriso iluminou seu rosto delicado. Ela correu e entrou no banco do passageiro, trazendo consigo o cheiro de papel antigo e baunilha.
— Oi, meu amor — disse ela, inclinando-se para beijar o rosto dele e depois se aninhando contra seu braço, mesmo com o cinto de segurança. — Achei que você não vinha por causa do trabalho.
— Eu sempre venho, Duda — ele disse, a voz suavizando-se automaticamente. Ele passou a mão pelos cabelos castanhos dela, sentindo a maciez. — Como foi a aula?
— Foi boa... — ela suspirou, fechando os olhos sob o toque dele. — Mas sinto sua falta o dia todo. O ambiente da faculdade é tão barulhento às vezes.
— Você sabe como resolver isso — Emanuel reiterou, o tom ficando um pouco mais rígido. — Tem um quarto enorme esperando por você lá em casa. A Sara até comprou aquelas velas que você gosta.
Eduarda murchou um pouco, o brilho nos olhos vacilando.
— Eu sei, Manu... É que eu tenho medo de atrapalhar a rotina de vocês. A Sara é tão... decidida. E eu não quero que meus pais fiquem tristes.
— Seus pais sabem que você está segura comigo. E a Sara quer você lá tanto quanto eu, do jeito dela — ele insistiu, sentindo o peso de ser o mediador entre as duas realidades. — Não aguento mais ter que te deixar na porta de outra casa à noite.
— Não fica bravo comigo... — Eduarda pediu, com a voz embargada, os olhos expressivos começando a brilhar com lágrimas contidas. Ela se aproximou mais, buscando o calor dele como se sua vida dependesse disso. — Por favor.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. O lado racional dele queria discutir, listar os motivos lógicos pelos quais ela deveria se mudar. Mas, ao sentir o corpo esguio e trêmulo de Eduarda contra o seu, o lado protetor venceu.
— Eu não estou bravo, pequena. Só quero você perto de mim.
— Eu te amo — ela sussurrou, a voz manhosa voltando ao normal ao sentir que o perigo de um conflito havia passado.
— Eu também te amo.
O caminho até a casa de Eduarda foi silencioso, preenchido apenas pelo som do rádio baixo. Emanuel sentia a tensão constante em seus ombros. Ao chegar na frente da casa dos pais dela, ele a observou descer.
— Amanhã eu venho te buscar para irmos ao estúdio. A Sara quer que você veja os novos designs — ele avisou.
Eduarda sorriu e acenou antes de entrar.
Ao dirigir de volta para o apartamento de luxo onde Sara o esperava com uma garrafa de vinho e planilhas de faturamento, Emanuel refletiu sobre sua vida. Ele tinha o fogo e o gelo. Tinha a mulher que o desafiava e a mulher que o acalmava.
Sara era o impacto, a vulgaridade elegante que o mundo admirava e temia. Eduarda era a fragilidade, a doçura escondida que só ele tinha o privilégio de proteger.
Ele entrou em casa e foi recebido pelo som de música alta. Sara estava na cozinha, apenas de camiseta, bebendo vinho.
— E aí? A boneca de porcelana está entregue? — Sara perguntou, com um sorriso irônico.
— Está, Sara. Não começa — Emanuel respondeu, jogando as chaves na mesa.
— Eu não disse nada! — Ela se aproximou, passando os braços pelo pescoço dele, o cheiro de perfume caro inundando seus sentidos. — Só acho que a gente devia parar de pedir e começar a exigir. Ela pertence a nós, Manu. Ela só ainda não percebeu que a casa dela é onde a gente estiver.
Emanuel olhou para Sara, vendo a determinação em seus olhos loiros. Depois, pensou em Eduarda, em sua doçura e seu medo. Ele era o centro daquele mundo, o pilar que sustentava duas mulheres tão opostas e, ao mesmo tempo, tão intrinsecamente ligadas a ele.
— No tempo dela, Sara — ele disse, com firmeza. — No tempo dela.
— Você é muito mole com ela — Sara provocou, puxando-o para um beijo intenso, reivindicando seu território. — Mas é por isso que você me tem. Para manter o equilíbrio.
E naquele triângulo de proteção, possessividade e amor, Emanuel sabia que, por mais estressante que fosse, ele não saberia viver de outra forma. Ele era o guardião de Eduarda e o parceiro de Sara, e enquanto conseguisse manter o controle, aquele reino particular continuaria sendo seu maior sucesso.
