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"Como Eu Queria Poder Te Ver"
Fandom: Hogwarts Legacy
Criado: 01/06/2026
Tags
RomanceAngústiaDor/ConfortoFofuraHistória DomésticaCenário CanônicoEstudo de PersonagemFantasia
O Ressonante Silêncio da Chuva
O som da chuva contra as altas janelas de pedra do dormitório não era apenas um ruído de fundo; era uma presença viva, um tamborilar constante que isolava aquele pequeno refúgio do restante de Hogwarts. Relâmpagos ocasionais iluminavam as molduras das janelas, seguidos por trovões que faziam o chão vibrar levemente, mas ali dentro, o calor da lareira criava uma bolha de segurança. Vitória Andrade estava sentada no tapete felpudo, as costas apoiadas na base da cama, observando o vapor subir de suas vestes ainda úmidas. Ao seu lado, Ominis Gaunt mantinha uma postura impecável, embora seus ombros estivessem visivelmente mais relaxados do que o habitual.
— Eu disse que o atalho pelo viaduto seria uma ideia terrível — comentou Ominis, um sorriso sutil e quase imperceptível brincando nos cantos de seus lábios. Ele segurava a varinha com leveza, a ponta emitindo aquele brilho avermelhado suave que ele usava para mapear o ambiente. — Mas você, com sua insistência teimosa em "ver o pôr do sol antes da tempestade", nos deixou nesse estado.
Vitória soltou uma risada baixa, um som quente que pareceu preencher os espaços vazios entre o estalar da lenha na lareira. Ela sacudiu os cachos úmidos, sentindo algumas gotas de água fria atingirem seu pescoço, contrastando com o calor do fogo.
— Admita, Ominis. O céu estava lindo. E você sentiu o cheiro do ozônio antes da primeira gota cair. Foi... emocionante.
— "Emocionante" é um eufemismo para "potencialmente pneumonia" — ele retrucou, embora o tom fosse de pura diversão. Ele estendeu uma das mãos em direção às chamas, sentindo o calor. — Mas não posso negar que o silêncio do castelo sob uma tempestade dessas tem seu charme. É como se o mundo tivesse parado de girar e sobrássemos apenas nós.
Vitória o observou de soslaio. A luz alaranjada do fogo dançava na pele clara de Ominis, destacando os traços aristocráticos e a suavidade de sua expressão quando ele não se sentia vigiado. Havia uma paz ali que ela raramente via nele fora daqueles momentos de isolamento. Ela se pegou notando a curva de seus dedos e a maneira como ele inclinava a cabeça para ouvir o ritmo da chuva. Um sentimento estranho, uma espécie de peso doce no peito, começou a se formar. Ela sempre soube que ele era importante, mas ali, com o som da água lá fora e o calor entre eles, a percepção de que ela faria qualquer coisa para manter aquele sorriso discreto no rosto dele a atingiu como um feitiço silencioso. *Estou perdida*, pensou ela, desviando o olhar para o fogo. *Eu realmente o amo.*
— A chuva não vai parar tão cedo — disse Vitória, limpando a garganta para afastar o pensamento intrusivo. Ela se levantou, sentindo os músculos levemente rígidos. — Os corredores devem estar inundados ou bloqueados por gárgulas de segurança a esta hora. Acho que... acho que teremos que passar a noite aqui.
Ominis ficou imóvel por um segundo, a mão que segurava a varinha apertando levemente a madeira.
— Aqui? — A voz dele subiu uma oitava, carregada de um nervosismo súbito. — No mesmo quarto, Vitória? Isso é... pedagogicamente questionável, para dizer o mínimo. O que Sebastian diria se soubesse?
— Sebastian provavelmente faria uma piada infame e depois voltaria a dormir — ela brincou, tentando aliviar a tensão que subitamente eletrificou o ar. — Não seja tão puritano, Gaunt. É uma questão de logística.
Com um movimento fluido de sua varinha, Vitória concentrou-se na Magia Ancestral que corria em suas veias, sentindo o formigamento familiar. O sofá de veludo perto da lareira começou a se expandir, as fibras se entrelaçando e crescendo até se transformar em uma larga cama de casal com um dossel de seda escura. Em seguida, apontou para suas próprias roupas e as de Ominis. O tecido pesado e molhado das vestes escolares transformou-se em algodão macio e flanela quente — pijamas confortáveis e discretos.
Ominis tateou a nova textura de sua manga, o rosto levemente corado.
— Você tem uma tendência perigosa à praticidade, Andrade.
— E você tem uma tendência adorável a reclamar de tudo o que é prático — ela rebateu, indicando a cama. — Vamos. O fogo vai durar a noite toda.
Eles se deitaram, mantendo uma distância cautelosa no meio do colchão. O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas carregava um peso novo. A chuva continuava seu massacre rítmico contra o vidro, e o brilho da lareira projetava sombras longas no teto. Vitória estava deitada de lado, os olhos fixos na silhueta de Ominis. Ele estava de costas para ela, mas a respiração dele era curta, indicando que o sono estava longe.
Minutos se transformaram em meia hora. Vitória não conseguia fechar os olhos. Ela começou a estudar Ominis com uma intensidade que nunca se permitira antes. Observou a linha fina de sua mandíbula, a maneira como o cabelo loiro escuro perdia o alinhamento perfeito contra o travesseiro. Notou as pequenas pintas em seu pescoço, quase invisíveis, e a força contida em seus braços, mesmo em repouso. O peito dele subia e descia devagar, e ela sentiu uma onda de atração tão física e palpável que precisou morder o lábio inferior para não se aproximar.
— Eu sei que você está me olhando — a voz de Ominis surgiu no escuro, baixa e rouca, fazendo o coração de Vitória saltar.
— Como você sabe? — sussurrou ela, sem se afastar.
— O ar muda quando você foca em algo. E o seu batimento cardíaco está... acelerado. — Ele se virou lentamente, ficando de frente para ela. Seus olhos azul-esbranquiçados, sem foco visual, pareciam procurar o rosto dela na penumbra.
— Ominis... — Vitória estendeu a mão, mas hesitou no ar. — Posso te pedir uma coisa?
— Qualquer coisa.
— Deixe-me ver seus olhos. De perto.
Houve uma pausa longa, onde apenas o estalar da lenha preenchia o quarto. Ominis parecia travar uma batalha interna, mas finalmente assentiu. Vitória aproximou-se, sentindo o calor emanando dele. Ela colocou as mãos delicadamente nas têmporas dele, guiando o rosto de Ominis para que ficasse diretamente sob a luz residual da lareira.
— Eles são lindos — ela murmurou, a voz embargada. — São como o céu logo após uma tempestade, antes do sol aparecer totalmente. Há uma profundidade neles que... eu não consigo explicar.
Ominis congelou sob o toque dela. As palavras de Vitória ecoaram em sua mente, derrubando as últimas barreiras que ele insistia em manter erguidas. Ele sempre odiara seus olhos, o símbolo de sua "imperfeição" e da linhagem que desprezava. Mas o jeito que ela falava, a sinceridade vibrando em cada sílaba, o fez perceber algo avassalador. Ele não a amava apenas pela companhia ou pela lealdade; ele a amava porque ela o via de uma forma que ele próprio nunca fora capaz. O sentimento não era novo; estava lá, enterrado sob anos de trauma e sarcasmo, esperando por aquela noite chuvosa para florescer.
— Vitória... — ele começou, mas a voz falhou.
— Deixe-me mostrar como eu te vejo — ela disse, sua voz mal passando de um sopro. — Você usa sua percepção mágica para entender o mundo. Deixe-me ser seus olhos agora.
Ela pegou a mão direita dele e a levou ao próprio rosto. Ominis hesitou por um milésimo de segundo antes de deixar seus dedos explorarem. Ele começou pelo cabelo, sentindo a textura indomável dos cachos de Vitória, o volume que ele sempre imaginara ser como uma coroa. Seus dedos desceram para a testa, traçando a linha das sobrancelhas e a curvatura suave das pálpebras fechadas.
Vitória sentiu um tremor percorrer sua espinha a cada toque. Ominis era meticuloso. Ele mapeou as maçãs do rosto dela, sentindo o calor da pele morena, e desceu pelo contorno do nariz. Quando as pontas dos dedos dele tocaram o canto de sua boca, a respiração de ambos falhou simultaneamente.
Ominis sentiu o leve tremor nos lábios dela. Ele traçou o contorno inferior, sentindo a maciez e a pulsação de Vitória sob sua pele. A intimidade era tão densa que o ar parecia difícil de respirar. Ele se aproximou mais, guiado não pela visão, mas pela gravidade emocional que o puxava para ela. Seus rostos estavam a centímetros de distância; ela podia sentir o hálito dele, com cheiro de chá e hortelã.
Os narizes se tocaram levemente. Ominis inclinou a cabeça, os lábios quase roçando os dela, um convite silencioso que gritava por uma resposta. Vitória fechou os olhos com força, o desejo reprimido queimando em seu peito.
*CRACK-BOOM!*
Um trovão violento sacudiu as janelas, iluminando o quarto com uma luz branca ofuscante por um breve instante. O som foi tão súbito e alto que ambos se afastaram por instinto, o feitiço da proximidade quebrado pelo rugido da natureza.
— Desculpe — Ominis disse imediatamente, a voz tensa, recolhendo a mão como se tivesse se queimado. — Eu... eu perdi o juízo. Isso não deveria ter acontecido.
— Ominis, está tudo bem — Vitória tentou dizer, mas a voz soou fraca.
— Não, não está. Você é minha melhor amiga, Vitória. A última coisa que eu quero é estragar o que temos por causa de um... de um momento de fraqueza.
Ele se virou de costas para ela, o corpo rígido. Vitória sentiu um vazio gélido onde antes havia calor. Ela queria dizer que não fora fraqueza, que queria que ele a beijasse, mas o medo da rejeição e a culpa por ter pressionado a situação a calaram.
— Sim — ela sussurrou para a escuridão. — Você tem razão. Durma bem, Ominis.
A madrugada avançou e a temperatura no quarto caiu conforme as chamas da lareira minguavam até se tornarem brasas opacas. A chuva lá fora transformara-se em uma garoa persistente e fria. Vitória, em meio a um sono inquieto, começou a tremer. Inconscientemente, em busca de calor, ela se moveu pelo colchão, aproximando-se da única fonte de calor restante.
Ominis acordou ao sentir o contato frio do corpo dela contra o seu. Ele percebeu que ela estava gelada, os dentes batendo levemente enquanto dormia. Qualquer conflito interno, qualquer resquício de orgulho ou medo, desapareceu diante da necessidade de protegê-la.
Ele se virou e, com uma ternura que nunca demonstraria acordado, envolveu Vitória em seus braços. Ele a puxou para perto, aninhando a cabeça dela em seu peito e cobrindo ambos com o cobertor pesado. Vitória soltou um suspiro longo e satisfeito, o corpo relaxando instantaneamente contra o dele. Ominis apoiou o queixo no topo da cabeça dela, respirando o cheiro de chuva e magia que emanava de seus cabelos. Ali, no silêncio da madrugada, ele se permitiu apenas ser dela, sem rótulos ou medos.
Quando a primeira luz cinzenta da manhã atravessou as nuvens, Vitória abriu os olhos. Ela levou um momento para perceber que estava completamente entrelaçada a Ominis. O braço dele estava firme em volta de sua cintura, e ela podia sentir as batidas calmas do coração dele contra sua orelha.
Ela não se moveu. Queria guardar aquela sensação para sempre. Mas Ominis começou a despertar, seus dedos se movendo levemente contra as costas dela. Quando ele percebeu onde estavam, não se afastou bruscamente, mas houve uma hesitação clara.
— Bom dia — ele disse, a voz rouca pelo sono.
— Bom dia — Vitória respondeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar para ele. O rosto de Ominis estava suave, e pela primeira vez, não havia sarcasmo ou defensividade em sua expressão.
Havia uma vergonha compartilhada, um constrangimento palpável sobre o quase beijo da noite anterior, mas também havia uma nova compreensão. Nada precisava ser dito agora.
— A chuva parou — observou Ominis, sentando-se e passando a mão pelo cabelo bagunçado. — Devemos ir antes que o zelador comece a patrulhar os dormitórios.
— É, você tem razão — Vitória concordou, levantando-se e desfazendo a cama mágica com um aceno de varinha, devolvendo o quarto ao seu estado original.
Eles caminharam em direção à porta em silêncio. Antes de saírem, Ominis parou e inclinou a cabeça na direção dela.
— Vitória?
— Sim?
— Obrigado. Por me deixar... ver você.
Ela sorriu, embora ele não pudesse ver, e tocou levemente o braço dele.
— Sempre que você quiser, Ominis.
Eles saíram para o corredor, agindo como os amigos de sempre, mas o peso de suas mãos dadas por um segundo a mais do que o necessário dizia que, a partir daquela tempestade, nada em Hogwarts seria o mesmo para nenhum dos dois.
— Eu disse que o atalho pelo viaduto seria uma ideia terrível — comentou Ominis, um sorriso sutil e quase imperceptível brincando nos cantos de seus lábios. Ele segurava a varinha com leveza, a ponta emitindo aquele brilho avermelhado suave que ele usava para mapear o ambiente. — Mas você, com sua insistência teimosa em "ver o pôr do sol antes da tempestade", nos deixou nesse estado.
Vitória soltou uma risada baixa, um som quente que pareceu preencher os espaços vazios entre o estalar da lenha na lareira. Ela sacudiu os cachos úmidos, sentindo algumas gotas de água fria atingirem seu pescoço, contrastando com o calor do fogo.
— Admita, Ominis. O céu estava lindo. E você sentiu o cheiro do ozônio antes da primeira gota cair. Foi... emocionante.
— "Emocionante" é um eufemismo para "potencialmente pneumonia" — ele retrucou, embora o tom fosse de pura diversão. Ele estendeu uma das mãos em direção às chamas, sentindo o calor. — Mas não posso negar que o silêncio do castelo sob uma tempestade dessas tem seu charme. É como se o mundo tivesse parado de girar e sobrássemos apenas nós.
Vitória o observou de soslaio. A luz alaranjada do fogo dançava na pele clara de Ominis, destacando os traços aristocráticos e a suavidade de sua expressão quando ele não se sentia vigiado. Havia uma paz ali que ela raramente via nele fora daqueles momentos de isolamento. Ela se pegou notando a curva de seus dedos e a maneira como ele inclinava a cabeça para ouvir o ritmo da chuva. Um sentimento estranho, uma espécie de peso doce no peito, começou a se formar. Ela sempre soube que ele era importante, mas ali, com o som da água lá fora e o calor entre eles, a percepção de que ela faria qualquer coisa para manter aquele sorriso discreto no rosto dele a atingiu como um feitiço silencioso. *Estou perdida*, pensou ela, desviando o olhar para o fogo. *Eu realmente o amo.*
— A chuva não vai parar tão cedo — disse Vitória, limpando a garganta para afastar o pensamento intrusivo. Ela se levantou, sentindo os músculos levemente rígidos. — Os corredores devem estar inundados ou bloqueados por gárgulas de segurança a esta hora. Acho que... acho que teremos que passar a noite aqui.
Ominis ficou imóvel por um segundo, a mão que segurava a varinha apertando levemente a madeira.
— Aqui? — A voz dele subiu uma oitava, carregada de um nervosismo súbito. — No mesmo quarto, Vitória? Isso é... pedagogicamente questionável, para dizer o mínimo. O que Sebastian diria se soubesse?
— Sebastian provavelmente faria uma piada infame e depois voltaria a dormir — ela brincou, tentando aliviar a tensão que subitamente eletrificou o ar. — Não seja tão puritano, Gaunt. É uma questão de logística.
Com um movimento fluido de sua varinha, Vitória concentrou-se na Magia Ancestral que corria em suas veias, sentindo o formigamento familiar. O sofá de veludo perto da lareira começou a se expandir, as fibras se entrelaçando e crescendo até se transformar em uma larga cama de casal com um dossel de seda escura. Em seguida, apontou para suas próprias roupas e as de Ominis. O tecido pesado e molhado das vestes escolares transformou-se em algodão macio e flanela quente — pijamas confortáveis e discretos.
Ominis tateou a nova textura de sua manga, o rosto levemente corado.
— Você tem uma tendência perigosa à praticidade, Andrade.
— E você tem uma tendência adorável a reclamar de tudo o que é prático — ela rebateu, indicando a cama. — Vamos. O fogo vai durar a noite toda.
Eles se deitaram, mantendo uma distância cautelosa no meio do colchão. O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas carregava um peso novo. A chuva continuava seu massacre rítmico contra o vidro, e o brilho da lareira projetava sombras longas no teto. Vitória estava deitada de lado, os olhos fixos na silhueta de Ominis. Ele estava de costas para ela, mas a respiração dele era curta, indicando que o sono estava longe.
Minutos se transformaram em meia hora. Vitória não conseguia fechar os olhos. Ela começou a estudar Ominis com uma intensidade que nunca se permitira antes. Observou a linha fina de sua mandíbula, a maneira como o cabelo loiro escuro perdia o alinhamento perfeito contra o travesseiro. Notou as pequenas pintas em seu pescoço, quase invisíveis, e a força contida em seus braços, mesmo em repouso. O peito dele subia e descia devagar, e ela sentiu uma onda de atração tão física e palpável que precisou morder o lábio inferior para não se aproximar.
— Eu sei que você está me olhando — a voz de Ominis surgiu no escuro, baixa e rouca, fazendo o coração de Vitória saltar.
— Como você sabe? — sussurrou ela, sem se afastar.
— O ar muda quando você foca em algo. E o seu batimento cardíaco está... acelerado. — Ele se virou lentamente, ficando de frente para ela. Seus olhos azul-esbranquiçados, sem foco visual, pareciam procurar o rosto dela na penumbra.
— Ominis... — Vitória estendeu a mão, mas hesitou no ar. — Posso te pedir uma coisa?
— Qualquer coisa.
— Deixe-me ver seus olhos. De perto.
Houve uma pausa longa, onde apenas o estalar da lenha preenchia o quarto. Ominis parecia travar uma batalha interna, mas finalmente assentiu. Vitória aproximou-se, sentindo o calor emanando dele. Ela colocou as mãos delicadamente nas têmporas dele, guiando o rosto de Ominis para que ficasse diretamente sob a luz residual da lareira.
— Eles são lindos — ela murmurou, a voz embargada. — São como o céu logo após uma tempestade, antes do sol aparecer totalmente. Há uma profundidade neles que... eu não consigo explicar.
Ominis congelou sob o toque dela. As palavras de Vitória ecoaram em sua mente, derrubando as últimas barreiras que ele insistia em manter erguidas. Ele sempre odiara seus olhos, o símbolo de sua "imperfeição" e da linhagem que desprezava. Mas o jeito que ela falava, a sinceridade vibrando em cada sílaba, o fez perceber algo avassalador. Ele não a amava apenas pela companhia ou pela lealdade; ele a amava porque ela o via de uma forma que ele próprio nunca fora capaz. O sentimento não era novo; estava lá, enterrado sob anos de trauma e sarcasmo, esperando por aquela noite chuvosa para florescer.
— Vitória... — ele começou, mas a voz falhou.
— Deixe-me mostrar como eu te vejo — ela disse, sua voz mal passando de um sopro. — Você usa sua percepção mágica para entender o mundo. Deixe-me ser seus olhos agora.
Ela pegou a mão direita dele e a levou ao próprio rosto. Ominis hesitou por um milésimo de segundo antes de deixar seus dedos explorarem. Ele começou pelo cabelo, sentindo a textura indomável dos cachos de Vitória, o volume que ele sempre imaginara ser como uma coroa. Seus dedos desceram para a testa, traçando a linha das sobrancelhas e a curvatura suave das pálpebras fechadas.
Vitória sentiu um tremor percorrer sua espinha a cada toque. Ominis era meticuloso. Ele mapeou as maçãs do rosto dela, sentindo o calor da pele morena, e desceu pelo contorno do nariz. Quando as pontas dos dedos dele tocaram o canto de sua boca, a respiração de ambos falhou simultaneamente.
Ominis sentiu o leve tremor nos lábios dela. Ele traçou o contorno inferior, sentindo a maciez e a pulsação de Vitória sob sua pele. A intimidade era tão densa que o ar parecia difícil de respirar. Ele se aproximou mais, guiado não pela visão, mas pela gravidade emocional que o puxava para ela. Seus rostos estavam a centímetros de distância; ela podia sentir o hálito dele, com cheiro de chá e hortelã.
Os narizes se tocaram levemente. Ominis inclinou a cabeça, os lábios quase roçando os dela, um convite silencioso que gritava por uma resposta. Vitória fechou os olhos com força, o desejo reprimido queimando em seu peito.
*CRACK-BOOM!*
Um trovão violento sacudiu as janelas, iluminando o quarto com uma luz branca ofuscante por um breve instante. O som foi tão súbito e alto que ambos se afastaram por instinto, o feitiço da proximidade quebrado pelo rugido da natureza.
— Desculpe — Ominis disse imediatamente, a voz tensa, recolhendo a mão como se tivesse se queimado. — Eu... eu perdi o juízo. Isso não deveria ter acontecido.
— Ominis, está tudo bem — Vitória tentou dizer, mas a voz soou fraca.
— Não, não está. Você é minha melhor amiga, Vitória. A última coisa que eu quero é estragar o que temos por causa de um... de um momento de fraqueza.
Ele se virou de costas para ela, o corpo rígido. Vitória sentiu um vazio gélido onde antes havia calor. Ela queria dizer que não fora fraqueza, que queria que ele a beijasse, mas o medo da rejeição e a culpa por ter pressionado a situação a calaram.
— Sim — ela sussurrou para a escuridão. — Você tem razão. Durma bem, Ominis.
A madrugada avançou e a temperatura no quarto caiu conforme as chamas da lareira minguavam até se tornarem brasas opacas. A chuva lá fora transformara-se em uma garoa persistente e fria. Vitória, em meio a um sono inquieto, começou a tremer. Inconscientemente, em busca de calor, ela se moveu pelo colchão, aproximando-se da única fonte de calor restante.
Ominis acordou ao sentir o contato frio do corpo dela contra o seu. Ele percebeu que ela estava gelada, os dentes batendo levemente enquanto dormia. Qualquer conflito interno, qualquer resquício de orgulho ou medo, desapareceu diante da necessidade de protegê-la.
Ele se virou e, com uma ternura que nunca demonstraria acordado, envolveu Vitória em seus braços. Ele a puxou para perto, aninhando a cabeça dela em seu peito e cobrindo ambos com o cobertor pesado. Vitória soltou um suspiro longo e satisfeito, o corpo relaxando instantaneamente contra o dele. Ominis apoiou o queixo no topo da cabeça dela, respirando o cheiro de chuva e magia que emanava de seus cabelos. Ali, no silêncio da madrugada, ele se permitiu apenas ser dela, sem rótulos ou medos.
Quando a primeira luz cinzenta da manhã atravessou as nuvens, Vitória abriu os olhos. Ela levou um momento para perceber que estava completamente entrelaçada a Ominis. O braço dele estava firme em volta de sua cintura, e ela podia sentir as batidas calmas do coração dele contra sua orelha.
Ela não se moveu. Queria guardar aquela sensação para sempre. Mas Ominis começou a despertar, seus dedos se movendo levemente contra as costas dela. Quando ele percebeu onde estavam, não se afastou bruscamente, mas houve uma hesitação clara.
— Bom dia — ele disse, a voz rouca pelo sono.
— Bom dia — Vitória respondeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar para ele. O rosto de Ominis estava suave, e pela primeira vez, não havia sarcasmo ou defensividade em sua expressão.
Havia uma vergonha compartilhada, um constrangimento palpável sobre o quase beijo da noite anterior, mas também havia uma nova compreensão. Nada precisava ser dito agora.
— A chuva parou — observou Ominis, sentando-se e passando a mão pelo cabelo bagunçado. — Devemos ir antes que o zelador comece a patrulhar os dormitórios.
— É, você tem razão — Vitória concordou, levantando-se e desfazendo a cama mágica com um aceno de varinha, devolvendo o quarto ao seu estado original.
Eles caminharam em direção à porta em silêncio. Antes de saírem, Ominis parou e inclinou a cabeça na direção dela.
— Vitória?
— Sim?
— Obrigado. Por me deixar... ver você.
Ela sorriu, embora ele não pudesse ver, e tocou levemente o braço dele.
— Sempre que você quiser, Ominis.
Eles saíram para o corredor, agindo como os amigos de sempre, mas o peso de suas mãos dadas por um segundo a mais do que o necessário dizia que, a partir daquela tempestade, nada em Hogwarts seria o mesmo para nenhum dos dois.
